CONTOS

  CAFÉ MAJESTIC O café mais famoso do Porto e um dos mais belos do mundo. Conta a história do Porto da “Belle Epoque”, dos escritores e artistas, das tertúlias políticas e do debate de ideias. Obra do arqt. João Queirós, foi inaugurado em 1921. Amadeu de Sousa Cardoso, Teixeira de Pascoais e José Régio foram presenças constantes. Restaurado em 1994, manteve o seu traçado em arte-nova – tectos em gesso pintado de dourado e trabalhado, magníficos espelhos de cristal de Antuérpia nas paredes, chão de mármore indiano. Lustres de grandes dimensões dão uma luz difusa e as mesas têm tampos de mármore

      FANTASIA

  Estavam sentados à mesa de tampo de mármore do Majestic. Os cafés descansavam frios, esquecidos. Nas mãos a ânsia do afago. O olhar liquefeito de desejo.

Tudo começara por uma brincadeira na net:

- De onde tc?

Depois fora a fantasia….

E agora, no ambiente arte-nova do café da baixa, tentavam reorganizar na realidade os sentimentos…

Pelas portas de vidro a claridade entrava mansa. Na mesa do canto um homem rabiscava no guardanapo de papel. Algum poeta a beber o ambiente de tertúlia de outrora….

Lá fora, na rua, o homem- estátua, coberto de alvaiade, ausente na sua imobilidade, negava o frio e o vento por alguns cêntimos…..

- Vamos à Foz ver o sol pôr? – a voz dela quebrou o silêncio pesado do que não se quer dizer…

Os trocos tamborilaram na mesa, sobrepondo-se ao sussurrar quente do ambiente. Empurraram a porta e caminharam lado a lado pela rua empedrada que fazia doer os pés.

- Lembras-te do eléctrico? Aquele que fazia a marginal? –  a pergunta dele atirou-os para a mocidade, dependurados do eléctrico, as bocas cheias de riso, o vento a esvoaçar os cabelos…

Mas já não havia. Agora um autocarro cheio de gente, suada e apressada, empurrando-se numa conquista do futuro, fazia o caminho em arranques e travagens que enrolavam o estômago.

Na Foz o pôr do sol de rio-mar era esplêndido. Sentaram-se na esplanada e beberam os raios vermelho sangue que caminhavam até eles nas ondas mansas.

Entrelaçaram as mãos na conjugação da poesia dos corpos e do rubro sol que se afundava no mar…lá ao longe, no cais, os pescadores, pacientemente, lançavam as linhas para apanhar robalos…

A noite tombou calma e sem pressa. Foram conversando sem pressa. Foram-se avaliando sem pressa…

Jantaram na Ribeira. Num restaurantezinho cavado na rocha onde, nas mesas de bancos corridos, o vinho tinto se bebia em canecas cheias de espuma e o cardápio se lia numa lousa espetada na parede.

Os olhos incendiavam o corpo. A fome era pouca.

O rio em maré vasa deslizava por entre os rebelos de exposição. Do outro lado as pequenas barracas nas esplanadas do vinho do Porto.

- Vamos beber um copo? – E atravessaram a ponte velha de ferro.

Da esplanada via-se o Porto. Ao longe o rio a beijar o mar. O casario amarelo  subindo a encosta como um presépio. Uma calma feita de passado e recordações. Perto da barra, na colina, o Convento de Monchique onde Mariana de Alcoforado viu partir barra fora para as galés  Simão Botelho, no apaixonado livro de Camilo “Amor de Perdição”

Os músicos tocavam anos sessenta….Compraram uma rosa vermelha que trazia no pé, enrolado, um poema de Florbela: Meus nervos, guizos de oiro a tilintar/cantam-me na alma a estranha sinfonia/ da volúpia, da mágoa e da alegria,/que me faz rir e que me faz chorar.

O vinho do Porto, dourado, macio e encorpado, aquecia-lhes o corpo e desprendia-lhes o sentimento…

Levantaram-se e enlaçados partiram pelas ruelas rumo à noite….

                                                                      DESPEDIDA

O meu carro recusou simplesmente pegar! Está velho e, muitas vezes, prefere o descanso a uma viagem por mais pequena que seja. Galgou quilómetros na minha companhia  sabe quase de cor os  meus caminhos.

.Entre a desilusão e o aborrecimento por uma festa perdida e um dia estragado, resolvi fazer aquilo a que há já tempos vinha fugindo: arrumar as tuas coisas!

O dia combinava com as memórias…um sol doentio coava-se pelos estores, uma aragem fresca balançava as folhas dos plátanos da rua.

Tirei as fotografias, aquelas em que, risonho, na minha mesinha de cabeceira, velavas o meu sono. Por baixo delas encontrei  fotografias dos teus amigos. Os  amigos que, ao longo destes anos, sempre me roubaram o teu tempo e a tua atenção. Olhei-os um a um. Não tinham qualquer semelhança contigo. Sempre me perguntei como conseguiam ser tão amigos sendo tão diferentes.

Ali, estavam risonhos  e novos. Agora, como nós, não passam de velhos a tentar travar o tempo que lhes embranquece a fronte e lhes retira a força.

Encontrei chaves perdidas, chaves de casas que eu não conheço, de portas que nunca abri. Porque estariam ali? Virei-as nos meus dedos tentando palpar a tua vida que eu desconhecia.

Lavei a gaiola do canário, e não esqueci de lhe pôr a banheira do banho que gostavas tanto de apreciar! Pu-lo ao sol para que não estranhasse a tua ausência. 

Dei de comer aos peixes que continuam no seu despreocupado nadar. Nem dão porque não estás!

Mudei a cama para retirar o teu cheiro das minhas noites.

Arrumei os livros dos idealismos de esquerda que nunca soubeste viver. Era estranho como te dizias tão de esquerda e eras, pelo contrário, de um conservadorismo doentio. Empacotei as medalhas e os trofeus do último sonho mal conseguido. Sonho de globalização e liderança, tão diferente da tua vida de horizontes apertados. Como se pode contactar as gentes do mundo sem sair de si?

Limpei a cadeira de encosto da varanda onde costumavas apanhar sol, sempre silenciosamente imerso em pensamentos de distância.

As rolas continuam a comer o pão jogado para cima da garagem em frente. Aquela  gaivota que costumava vir empoleirar-se nos fios da electricidade, lá está.. Uma criança joga à bola no pátio como tantas outras jogaram ao longo das gerações.

Tudo permanece igual. Mas está tão diferente, tão pacífico, agora sem ti!

Retirei do dedo, definitivamente, a aliança…e respirei a minha liberdade!

 

 

SEJAMOS LIVRES!!

 

            Oh! Que dia tão bonito! – Penso, deliciada, abrindo os olhos e espreguiçando os membros, acordada pelo sol que entra na gruta espelhado pela água do lago. Nas árvores frondosas os passarinhos chilreiam. A cálida manhã aquece devagar. Um cisne branco desliza na água  numa calma própria da beleza natural. Alguns velhos lêem o jornal nos bancos do jardim..

          Todas as manhãs acordo neste meu reino e observo as gentes que passam pelo jardim, ou nele descansam, cumprindo o seu viver diário.

- Mas, que vejo eu??

 Um grupo irrequieto de jovens formam um circulo em redor de alguém.

Aproximo-me sem ruído.

 - O célebre duelo deu-se aqui, neste lugar, que à altura era um descampado fora da cidade...

Lembro-me bem...

Foi há tanto tempo, mas permanece ainda bem viva a memória...

Ainda mal despontava o dia. Quatro homens chegaram, cerimoniosos, envoltos em suas capas. No corpo traziam o medo, no espírito a coragem e a força do orgulho ofendido.

Não os movia luta passional ou reparação de reputação. Mas desagravo de ideias. A liberdade do pensamento, a ousadia do sonho contra  a “submissão estúpida e a baixeza e pequenez moral e intelectual”.

Escolheram armas, mediram distância em passos. Um tinir de espadas na manhã. O tombar de um. Um ferimento. Maior no espírito que no corpo.

Tombou o conservadorismo obsoleto das ideias, o ferrete do status quo. Permaneceu de pé a liberdade dos espíritos, a independência do pensamento, o que há de mais santo no indivíduo – o seu ideal.

- “Atacar a independência do pensamento, a liberdade dos espíritos, é não só ofender o que há de mais santo nos indivíduos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o património sagrado da humanidade: ­ o futuro. ­ É secar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da árvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e sossego. (...) “  - alguém lê em voz alta a carta de Antero de Quental a Castilho.

Como esta verdade ultrapassa o tempo e permanece na actualidade!!

Quantos duelos, sem escolha de armas, se disputam nas nossas madrugadas, nos nossos dias, para defender o sonho, a fantasia, a liberdade de pensamento, o ideal.

Mas menos felizes que no duelo de Arca de Água, quantas vezes tombamos perante aqueles que, sem imaginação e imersos em conservadorismo, tentam entravar os voos da inovação.

- Sejamos livres! – Um vento de esperança percorre-me e arrepia-me.

- Sejamos livres de seguir os nossos sonhos! – Murmuro, afastando-me para a minha gruta onde o sol entra espelhado pela água do lago!!

                                                                                                                    

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