Fotografias de José Albano ~ Projeto Albanitos

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Exposição Vida de Menino

Os Meninos

Estou morando aqui, em Sabiaguaba, há 25 anos mas o contato com os meninos só ocorreu a partir de 1989 quando, pela primeira vez, eu trouxe o Ares, meu afilhado, então com 7 anos, para passar aqui as férias escolares. Foi ele quem procurou, entre os meninos da vizinhança, companheiros para brincar e jogar bola. Findas as férias, com o Ares de volta à sua cidade, seus companheiros continuaram brincando por aqui e trazendo, por sua vez, outros meninos. Hoje, são cerca de 50 os meninos que usam o nosso campinho de futebol. Dentre esses, cerca de 20 se fizeram mais íntimos, freqüentando minha casa onde fazem uso de canetas, papel, tintas, revistas, livros, jogos, o som, a televisão, o vídeo e todas as ferramentas, do martelo ao computador, com as quais se divertem, constróem brinquedos, criam arte. Usam até minhas roupas, só de farra, andando por aí fantasiados de "Zé Albano", fato que inspirou o amigo e vizinho Hélio Rola a chamá-los de "Os Albanitos". Com o passar dos anos, foi-se criando um projeto informal de arte-educação onde eventualmente ajudo num dever escolar ou colaboro num trabalho para uma feira de ciências ou, ainda, providencio materiais que possam estimular a sua criatividade. Também me faço disponível para um apoio, uma conversa, uma orientação, um retrato que valide sua presença, sua existência. (No lidar com os meninos, me inspiro nos escritos de A. S. Neill da escola Summerhill e nas idéias do biólogo chileno Humberto Maturana sobre convivência e aprendizado).


Foto: Celso Oliveira
Foto por: Celso Oliveira

As fotos

Ao longo desses anos, tenho fotografado esporadicamente esses meninos, com pontas de filmes, sobras de algum trabalho, filmes vencidos, às vezes mofados. Mas fico sempre comovido com o interesse deles em participar das fotos, sua pressa e insistência em ver os resultados, processo que, no caso do preto e branco, pode levar meses pela minha falta de tempo ou de papéis e químicos disponíveis no meu laboratório. Com o Ares, pelo status especial de afilhado, pude fazer um ensaio mais sistemático com o qual descobri a aplicação da fotografia, do retrato, como ajuda na recuperação de sua auto estima, menino fragilizado, aos 6 anos, pela morte repentina do pai. Chamei essa experiência de "Foto-terapia" e tenho visto esse mesmo processo acontecendo também com os outros meninos que se sentem valorizados com o auto-reconhecimento proporcionado pela fotografia: "Esse daqui sou eu!" Ao oferecer-lhes suas fotos e observar suas reações sinto-me como o colonizador português dando espelhos para os índios! Chego até a pensar se esses meninos não seriam mais bem tratados pelos pais a partir da introdução de seus retratos nas paredes de suas casas... É sabido que as crianças são o assunto mais fotografado pela imensa multidão dos usuários de câmeras. Mas que crianças? Certamente não os filhos das famílias de baixa renda como os do meu bairro para quem só resta da infância duas ou três carteirinhas plastificadas com os indefectíveis 3 x 4. À legião dos brasileiros sem terra e sem teto, somam-se, a meu ver, os "sem fotos". Um vazio sem preenchimento possível nesta vida, pois, como diz Cartier-Bresson: "Não podemos revelar e copiar uma lembrança." Meu trabalho fotografando esses poucos meninos ao meu redor, é pingo d'água no incêndio da floresta mas, como dizia o lendário passarinho, sinto que estou fazendo a minha parte.

© José Albano
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