Recanto das Poesias



 
 
 
 


Luiz Alberto Machado






Meu nome é Luiz Alberto Machado. Sou pernambucano e resido há sete anos em Maceió.
Comecei logo cedo escrevendo versinhos infantis que terminaram publicados no suplemento semanal Júnior, do Diário de Pernambuco.
Adolescente, já ligado à música, ao teatro e à literatura, colaborei com a publicação da revista Nova Caiana, fruto do movimento Noites da Cultura Palmarense que promovia jograis, recitais, exposições e saraus.
Em 1982, publiquei meu primeiro livro com poesias adolescentes, Para Viver o Personagem do Homem, sob a coordenação editorial da Nordestal Editora, de Recife.
No ano seguinte, publiquei o meu segundo livro de poesias, A Intromissão do Verbo, pela Edições Pirata, de Recife.
Participei do conselho editorial da Revista A Região, onde também editei o encarte poético Vozes do Una.
Fui um dos fundadores e integrante do conselho editorial das Edições Bagaço, por onde publiquei quatro dos meus seis livros de poesias e um destinado ao público infanto-juvenil, O Reino Encantado de Todas as Coisas.
Cursei Letras e Direito, dedicando-me exclusivamente à profissão de radialista, como produtor executivo e apresentando programas poético-musicais, além de escrever crônicas diárias para emissoras de rádio.
Nos últimos anos tenho me dedicado ao público infanto-juvenil, publicando cinco livros que foram transformados em espetáculos musicais, teatrais e em recreações educativas.
Editei o tablóide impresso Nascente - Publicação Lítero-Cultural que resistiu por quinze números consecutivos, originando o Boletim Nascente que circula até hoje pela Internet.
Escrevo regularmente para jornais, revistas, alternativos e sites, tendo poesias publicadas em vários veículos nacionais e internacionais.
Possuo dois sites na Internet, o primeiro, A Barata, com uma geral de todo o meu trabalho nas áreas de teatro, música e literatura, e, também, um infantil com o meu último livro, Alvoradinha - Calango Verde do Mato Bom, publicado em 2001 e dedicado a este público.
Passando a editar este Guia de Poesia, sinto-me bastante honrado e disposto a divulgar, debater e cada vez mais ampliar a difusão da criação poética.






PRIMEIRA REUNIÃO

( 1982 - 1992 )
Edições
Bagaço (Palmares, PE), 1992





ESPERA


A vida levando sombria esperança

Os dias tão tontos servindo estranheza

Mostrando a utopia de ser existente

O fácil vazio que só me arrefece

Em praça tolhida em ser condução

Esperando Pinheiros no Largo da Paz

Eu não sei agonia se espero amanhã

O fato existe em não ser amanhã

Ser tempo presente imediato

Num átimo sensível de não se expressar

Eu não sei ironia se já anoitece

Se bem que meu peito nem amanhecia

A pedra está por todos os lugares

E a solidão de um banco de praça

A fruto do ermo em sensação

Reveste meu corpo em chuva fininha

Que aglutina aglutina já é temporal

Sequer o ônibus Pinheiros sequer

Apontou no Eldorado

Minha praça vazia meu coração

Todos os outros pegaram seu rumo

Esqueceram a poeira no cansaço marcado

Já não posso molhar meu corpo na chuva

Nele só cabe o mormaço da vida

Esperando Pinheiros no Largo da Paz

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ACALANTO


Eu canto acalanto

Enquanto a criança de sono impelido

Não cresce de repente

A noite é cheia de surpresas

Nas suas expectativas sinistras

No seu momento cilada

Alcanço a lua

E a noite é íntima

Na minha solidão

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PRELÚDIO


Foi por viver intensamente

Que amei esta carne

E a fisionomia secreta dos seres

Foi por amar a vida

Que beijei o ventre

E colhi o sonho do sol

Para proteger o homem e a natureza

Foi por ter submetido o coração ao amor

Que submergi nos olhos

No calor vivo das emoções

Sem haver negado qualquer alegria

Nem mesmo projetado qualquer mentira

E foi justamente por ter amado

Que acalentei a dor e a solidão

E renasci eternamente menino.

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EREMITA


Meu navio

A sorte inventa

&

na desilusão dos sonhos

atraca.

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ENTREGA


Dê-me a sua mão nesta rua

Nossos sonhos são tantos

Que eu já nem sei seguir

Por veleidades

Por esta eternidade de sentir só

Oh! tenha dó

Sou curumim da flor de anil

Mil emoções a mil

Darão vigor a nossa lida

Ressurreição da vida

Quando valer o pó

Por favor

Não vá fingir sorriso de manhã

Sou o carinho da areia

Na entrega do mar

E até invadiu minhas veias

O fogo de amar

Não vá fazer do desejo

Agonia malsã

Porque nossas mãos anunciam

O amor já está prá chegar

Dê-me a sua mão

As minhas são suas

E faça delas duas

A fonte que jamais secou

Faça delas a alegria

Da vitória e do vencedor

Faça assim

No calor dos seus dias

E de noite

No feitiço do amor.

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POUCAS PALAVRAS E UMA DOR


Eu sonhava olhando pros trilhos

Do arruado de lá pertinho da usina

Que não era sonhar enquanto espanto

Era ganido da vida

Dos lêmures açucareiros

E dos vultos insones que o Una bramia

Atrás da prefeitura

(eu não era Armstrong

mas vivia na lua ou no jaz(z)

catando futuro no meio do mundo)

A gente cantava as vidraças gratuitas no pequeno comércio

No meio da feira com jeans e bugigangas e balangandãs

Incerteza no bolso mais candomblés e cabarés e tino

Misturando besouros e motos na Praça Maurity

Onde ontem teve uma briga de galo sob um sol enorme

E isso custa a sair da moldura da memória

Bora gente bora bora vamolá

Bora gente bora nosso mundo conquistar

A conquista era utópica não cabia o verão

Mas estendia-se vida adentro tinha ânimo de agüentar

Quantas peripécias doidas a gente inventasse permitir

Depois de um arco-íris bem depois infernalém além

Nessa alma toda dentro desse bailar de vida verde

Inventei canções cartões postais do universo mágico

Dos meus rios e seus bicheiros calungas e meretrizes

Hierofantes farrapos feirantes rabecas e pastorís

Num oxigênio pálido e clandestino

Num resplandecer de vultos viciados de vida

E que as correntes geravam em vida breve

Pelos currais urgências penitenciárias nosocômios

Cartórios e cemitérios – para logo incandescerem

E assim pertencerem aos episódios do éter

Ainda escuto o barulho do trovão

É provável que mais tarde ouça a efervescência radioativa

De luniks sputiniks progress life napalms ss rasgando apocalipses

Rasgando gênesis para a emancipação do homem

E seus subterrâneos desvarios

Cravados nos mandamentos da tábua da sorte

Sei lá que mais etc e tal

E ouvido o barulho do trovão

Só – a solidão é o hábito da noite – no meu mal secreto

"capaz de ouvir e entender estrelas"

sonhei caindo nos olhos de Clarice

na "via crucis da alma" nos "laços de família"

perguntou-me: "onde estivestes esta noite ?"

e eu ouvi Clarice no meu silêncio inatingível

e ela me contou a "paixão segundo GH"

na "hora da estrela"

na nossa "felicidade clandestina"

no centro da nossa "cidade sitiada"

E eu vivo voluntariamente nesta terra

Em que o sol jamais reconhecerá o ocaso

E o meu espólio é ter eternamente dores para ter palavras

Ter palavras para acalentar as dores

Nas palavras eternamente a dor da palavra

Na fúria dos anos

Na minha paixão whitimeana

A noite desabou o dia desabou acendi a vela e o vento baniu a luz

E Lennon dizia "Imagine" e eu nem imaginava nada porque havia uma bomba no telhado suspendendo os meus sentidos que estavam com os gatos na noite e me diziam que o sonho havia acabado e Lennon desiludido o sonho acabado e nem se falava mais na Era de Aquário nem de paz e amor porque havia deflagrado uma guerra na América Central e que a paz estava comprometida o amor comprometido e o céu ainda estava azul e havia uma provisão de sonhos na tiracolo mas não é de sonhos que precisamos é de punhos

Ponto final!

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MINHA VOZ


Dedicado a Milton Nascimento


Minha voz mescla a coragem de amar

No ultraje dos desencontros

Como luxúria do gesto imerso

No impasse da mudez feroz

Sou navio com rota esquecida

E naufrágios muitos à sucumbir

Quando o nublado olhar pousa em meu rio

É presságio que paira no ventre da paixão

Quando minha voz é torrente de dor

No exagero sombrio de uma canção

Não é nada é tempestade que passou

E deixou danos no peito de vela vencida

Quando minha voz mescla a coragem de amar

Não é a sombra de um vendaval

É a sujeição de um eterno pavio

Que aceso nunca apagará.

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MÃE


Me deste a benção

Por deus me seguir

E eu louvado

Dedico o amor infinito das estrelas

Longe do teu seio

Não tenho mais vigor

Apenas o sentimento esconjurado

Eu te dedico a minha canção desatinada

Perdida nas matas do país

Sou de tua carne o fruto

O teu sacrifício

E a tua dor mulher

Foi no teu seio que me fiz feliz

Ensinou-se a justiça

A sede

E o ter na repartição da coragem no chão

Sou a vez do teu ventre

Na queda do rio incólume

Roço-te a pele e descubro dedicação

Proeza de criança espevitada

Mulher e homem é sim e não

Rigor da concepção amanhã

Os cacos de sonhos pela vida

Na paixão pela professora

Dedicada e prestimosa

As dores de fígado noite adentro

E o vômito surpreendente na sala de aula

O insulto da vó empunhando chicote

E o namoro inocente com a tia

Foi preciso a vida de trinta e tantos anos

Para sentir o desterro de Água Preta

A violenta decepção dos anos

O fumo logo cedo

As aprontações no Ginásio Municipal

As noites com vô em Badalejo

A solidão eterna dos canaviais

Foi preciso a vida para conhecer Batman

Os desenhos da televisão

A revolucionária Ana

A passiva Anginha

E o mimo exagerado de Geórgia

O dia não era um só nas coleções de gibís

No medo do Coração de Jesus

Na adoração fanática pelo pai

A fuga pro mundo se deu precoce

Na bolinha jogada no bairro

Na cantoria imaculada

No namoro escondido

No casório antecipado

Na fuga a acolhida de Carma

Sempre solícita

As safadezas de Pai Lula

E os desejos chegando muito cedo

Todos os mitos comigo

O cérebro e a cabeça

A ternura fria

A embriagues

O exílio

A separação

A lâmina

O adulto órfão

Ainda brotam desejos nas ilusões

A certeza incontida de vencer o mundo

E em alta velocidade

A penúria e o luxo disfarçado

A reprovação na escola

A pressa louca de conhecer o amanhã amanhã

Quando me vires abatumado pelos recantos dessa geografia do país

É que estou vigilante eterno da natureza

Quando me vires gritando pelas esquinas

É que sustento o choro no peito de milhares de filhos amaldiçoados

Quando me vires marchando nas ruas é que estou cantando o futuro

Quando me vires varando a noite é que não encontrei amparo no dia

Quando me vires a chorar é que ainda não fui feliz

Quando me vires rompendo divisas é que continuo a semear o melhor de ti lutando incansavelmente

Pelos caminhos duros do amanhã

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A LÁGRIMA DE NERUDA


Meus conterrâneos, eis minha missiva:

Estamos próximos do final do século

Às portas de uma nova era

Rogo, portanto, a paz

Não difiro de nada

Sou eu procedente do índio botocudo

De negros escravizados e de

Brancos degredados de Portugal

No peito um canto para Neftáli Reyes

Contra os que se devoram no dia e na noite

E a nossa dessemelhança

É o tiro que dizimou Balmaceda

Fomentando nossas hostilidades

Nosso suor ainda é vendido a preço vil

A preço de cadáveres indígenas, negros e marginalizados

As mulheres, nossas irmãs, são as mesmas

Nas favelas do Rio

Nas callampas do Chile

Nas jacabes do México

Nos barrios de Caracas

Nas barriadas de Lima

Nas vilas miséria de Buenos Aires

Nas catagrilles de Montevidéu

E uma bola de cartola ainda determina o rival

Nos gramados de Santiago do Chile

Meus conterrâneos, eis minhas palavras:

A esperança ainda é o nosso amuleto

Na estética de Huidobro: a precisão de um armistício

E de um sonho maior que o de Bolívar

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SISIFISMO


Sobre esta terra, hy breazil

Muita lágrima e muito sangue jamais redimido

Sonhou-se novo sol, hy breazil

Mas a banda é a mesma

As armas as mesmas

Os homens os mesmos, hy breazil!!

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E-mail do poeta Luiz Alberto Machado


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