Só a partir do século XVI, a cachaça, da mesma
forma que se fazia com os restos da fermentação do suco da uva, começou a ser
destilada com a ajuda de um alambique. Seu primeiro nome foi aguardente de cana
e ela era dada aos escravos junto com a primeira refeição do dia para que
pudessem suportar melhor o trabalho nos canaviais.
Com o passar do tempo, o processo para a obtenção deste aguardente foi
melhorando, assim como sua qualidade. Seu consumo cresceu de maneira tão rápida
que a Coroa Portuguesa viu perigar a venda de seu aguardente nacional, a
bagaceira, para as colônias. Em 1635, a metrópole acabou proibindo a venda de
cachaça no estado da Bahia e, quatro anos depois, tentou proibir sua fabricação.
No entanto, a cachaça já tinha se tornada a bebida preferida da enorme colônia
americana. É obtida com fermentação da garapa de cana-de-açúcar ou do melaço e
sua posterior destilação.
Os gregos registram o processo de obtenção da ácqua ardens. A água que pega fogo
– água ardente – aparece nos registros do Tratado da Ciência escrito por Plínio,
o velho, que viveu entre os anos 23 e 79 d. C. Ele conta que apanha o vapor da
resina de cedro, do bico de uma chaleira, com um pedaço de lã. Torcendo o
tecido, obtém-se o Al Kuhu. A água ardente vai para as mãos dos alquimistas que
lhe atribuem propriedades místico-medicinais. Transforma-se em água da vida. A
Eau de Vie é receitada como elixir da longevidade. A aguardente, então, vai da
Europa para o Oriente Médio, pela força da expansão do Império Romano. São os
árabes que descobrem os equipamentos para a destilação, semelhantes ao que
conhecemos hoje. Eles não usam a palavra Al Kuhu, e sim Al raga, originando o
nome da mais popular aguardente da Península Sul da Ásia: Arak, uma aguardente
misturada com licores de anis e degustada com água. A tecnologia de produção
espalha-se pelos velho e novo mundos. Na Itália, o destilado de uva fica
conhecido como Grappa. Em terras germânicas, destila-se a partir da cereja, o
Kirsch. Na Escócia, fica popular o Whisky, destilado da cevada sacrificada. No
Extremo Oriente, a aguardente serve para esquentar o frio das populações que não
fabricam o Vinho de Uva. Na Rússia, a Vodka, de centeio. Na China e Japão, o
Sakê, de arroz. Portugal também absorve a tecnologia dos árabes e destila sua
aguardente a partir do bagaço de uva, a Bagaceira, o que viria a ser, mais
tarde, a sua mercadoria comercial. |