CIGARRAS DO BRASIL
 
Meu amor que tem corpo de guitarra
Gosta de ouvir o canto da cigarra
Quando se abre a cancela do Verão.
 
Mas corre no tempo uma história antiga
Que só trabalhadora é a formiga
E que a cigarra vive só pra diversão.
 
Se o canto da formiga não se escuta,
Será que tem prazer quando labuta
Na luta permanente pelo pão?
 
Se o corpo necessita de alimento,
O espírito, também, pra seu sustento,
Revigora-se bebendo na canção...
 
Então, não se condene uma cigarra
Que uma fábula afirmou viver na farra,
Sem prevenir-se ante as agruras da estação!
 
Não confunda jamais com a preguiça
O cantar que reprova a injustiça
A pesar sobre os ombros do peão.
 
As formigas - prestimosas operárias -,
Ouvindo o canto das cigarras libertárias,
Vão despertar pra fazer revolução.
 
O rico território brasileiro
Há de virar um imenso formigueiro,
E o nosso Hino terá cigarras no refrão.
 
(1º Lugar na linha nativista no 1º Lampião Dourado, festival
de música realizado em Butiá, 2.004, a música é de Vinícios Santos)
 
RIO CAMAQUÃ
 
(Como falar de um rio,
encanto na minha infância,
prolongamento de luas
indo ao sabor da distância?...)
 
O gorjeio de tuas águas
Na ensolarada manhã
Me lembra o guri que fui,
Meu velho rio Camaquã.
 
Na mansidão de tuas margens,
O mata-olho espia
Aquele que mata a sede,
Com olhos de poesia.
 
Poeta mirando o rio,
Molhando o olhar disperso,
No pentagrama de areia
Cantará seu universo.
 
Meu velho rio Camaquã,
Os homens sem consciência
Hão de entender estas veias
Que alimentam a Querência.
 
O peixe a brincar nas águas
E a sombra da mataria.
O pão a brotar nas linhas
Em noites de pescaria.
 
       
A GATINHA CABOCLA
 
Podem me chamar de fraco e bobo,
Mas o homem não é sempre frio e lobo.
Uma gatinha de olhar puro e mansidão,
Brasina feito onça em miniatura.
Cabocla - um bichinho de ternura
Que pula ainda no meu coração.
 
Felina - equilíbrios sobre o muro,
Piruetas nos labirintos do escuro,
Herdeira doutra tigra doutro mato.
Havia no seu rumo uma cadela,
Mais voraz e mais rápido que ela,
E a caçadora virou em caça de fato.
 
Mãozinhas de brincar, rolar a bola,
A inocência inteira que consola
O peito que transborda em desengano
Porque se mata e tanto se maltrata,
Embora seja um sábio esse primata
Que em vez de "ser" é só um "ter humano"... 
 
Eu quis que ela ficasse junto à terra,
Os ossos misturando-se na encerra
De verde igual à essência de nós todos.
Mas veio o caminhão que pega o lixo,
E nele foi-se o corpinho de bicho,
Quem sabe para o colo breu dos lodos.
 
Ficaram na memória desta casa
A lágrima que Silvia extravasa,
A culpa que se inventa e a saudade...
Dirão alguns "bobagem, é só um gato!".
Restou Cabocla dentro de um retrato,
Sem boca pra miar sobre a cidade.
 
 
 
ESSE PÃO
                                (Ao poeta Vasco Veleda)
 
 
Meu poeta de Bagé,
Mesmo de a pé,
Nossa vida nesse pão não se resume.
Nossa alma quer é mais o vaga-lume
Que luziu sobre os domínios da infância
E o adulto que há em nós,
                        Frio e atroz,
Esmagou a luz alada na distância.
 
Meu poeta de Bagé,
Eu sei até
Que esse pão nos alimenta e nos maltrata,
Essa busca nos ofusca, às vezes mata
A luzinha que se chama inspiração,
Vira bomba simplesmente o coração,
Vira o homem meramente um burocrata.
 
Meu poeta de Bagé,
No teu boné
A utopia de um Quixote fez o ninho
Pra gerar a primavera em teu caminho.
E a busca desse pão não seque a fonte,
Nem desvie teu olhar desse horizonte
De buscar na dor o avesso do espinho.
 
Esse pão é o mesmo meu,
A mesma massa,
Só tem graça
Misturado em nosso vinho. 
 
 
 
 
UM PÁSSARO SEM SOMBRA
 
(2° lugar e melhor letra no 16º Ponche Verde da Canção Gaúcha de Dom Pedrito, música de Diego Espíndola)
 
 
Árvore de estranha copa, a parabólica
Impõe-se entre os prédios de cimento,
Não tem galhos a tremerem contra o vento,
É frondosa pitangueira insólita.
 
Um pássaro de canto verdadeiro
Repousa nela o corpo - pluma e pena -
E nada lhe devolve a pobre antena,
Nem sombra rala ao sol do dia inteiro.
 
No interior das casas, a TV
Engana os olhos cândidos do povo,
Não diz que cada dia é um palco novo
E há pássaros pedindo pra viver.
 
Um grito de socorro em nós se estira,
Clamando o espaço anil da liberdade...
É um pássaro e está preso na cidade,
Pousado numa sombra de mentira. 
 
 
 
VERSO DE AZUL
 
Havia quem me contasse histórias...
 
E a noite vinha muito cedo
Porque a velhinha da minha infância
Dormia cedo e se chamava...
Dindinha!...
 
Arisca feito a menina de ontem,
Altiva como a figueira guapa...
 
Contou-me o primeiro encanto
Que a noite sabe guardar
Em seu baú de recôncavos...
 
Cantou-me a canção primeira
E dedilhou guitarras invisíveis
No aramado azul do meu peito...
 
João e Maria... Pedro Malazartes...
 
Tinha vários livros no cofre da alma
E me deixava folhear um a um...
Fazendo neles "orelhas de burro",
Machucando a face das páginas...
 
Havia quem me contasse histórias...
 
Madrinha do meu irmão maior,
Eu a fizera minha também...
O doce do pão-de-ló ficou na língua
Da minha saudade...
 
E quando ela se foi,
Me revelou o primeiro assombro...
 
Ensinou-me as lágrimas,
Ensinou-me o lenço,
Ensinou-me a morte...
E querendo secar meu pranto,
Subiu num fio de luar
Para o espaço azul
Do meu sonho.
 
Sentou-se num floco de nuvens
E de lá me olha e sorri,
Sem jamais tirar a dentadura...
Por isso, a noite é berço de ternura
Que eu soube garimpar, quando guri.   
 
CANÇÃO DA INDECISA ESTRELA
  (A uma menina de rua, em Pelotas...)
 
Despencou de um céu amargo
Escasso traço de luz
E sentou-se na calçada
Pra repousar sua cruz...
 
Tem o trigal nos cabelos,
Maduros cachos ao vento...
O campo verde nos olhos
E o estômago sedento!...
 
Talvez seja outra Maria,
Outra nuvem desgarrada...
Mas é de fato uma estrela
E a multidão não vê nada.
 
Ouço a dor de seu dilema,
De seus lábios esvaídos
Como a flor abandonada
Que paira nos desvalidos...
 
Na senda fria das ruas,
Onde as luas não refletem,
Ouvirei a dor da estrela,
Que os tantos sem luz repetem!...
 
Ouço a dor de seu dilema:
Nos lábios, a indecisão
De não saber escolher
Entre o céu azul e o chão.
 
Sonho senti-la piscando...
Fecho os olhos - posso vê-la!...
Voltou pro céu pois a rua
Não tem lugar pra uma estrela.
 
TRÊS-MARIAS DE SONHAR
 
O espaço para o guri
Vai além dos alambrados...
Não podem ser demarcados
Os sonhos que guarda em si.
Eu sei as coisas que vi,  
Eu as tinha entre meus dedos.
Talvez nem fossem brinquedos
Para o guri da cidade,
Mas eram meus de verdade
E no feitio dos meus segredos.
 
Eu era peão de estância...
Brincando com a boleadeira
Que nasceu da corticeira
Para o meu sonho de infância.
Eu trazia a ressonância
Das manhãs de marcação...
Boleadeira de ilusão
Voando nas primaveras,
Coração feito de esferas,
Tão separado do chão!
 
Eu era peão de estância,
Brincando com a minha sorte,
Escutando o vento norte,
Sem compreender-lhe a fragrância!...
Que, devorando a distância
No gosto de camperear,
Brilhavam no meu olhar,
Pelos domingos sem missa,
Três-marias de cortiça
Para o céu do meu sonhar!
 
No velho Piratini
Que me acolheu num agosto,
Eu percebo este meu rosto
Que esqueceu de ser guri...
Eu faço versos pra ti,
Piazito de alma campeira,
Que avistou a pampa inteira,
No lombo de uma petiça,
E fabricou da cortiça
A ilusão da boleadeira.
 
O ÚLTIMO CHAPÉU
 
Vovô partiu pra tão longe,
Em uma tarde cinzenta...
Não sei que céus procurava
Ou que destino queria.
Não era mais o campeiro
Que meus olhos encontraram,
Era um piazito franzino,
Encolhido na invernia.
 
Não trazia mais o pito
A fumacear no infinito.
Esqueceu a dentadura
E as histórias de memória.
Olhou-me antes de ir,
Ou talvez nem me encontrou:
Os netos crescem e ficam
Mais longe de seus avôs...
 
Vovô partiu pra tão longe,
Perguntando para os cantos
O paradeiro das coisas
Que um dia foram encantos.
Tão surdo, não escutou
O último adeus do vento,
Mas lembrou do testamento
E o tanto que se extraviou.
 
Os dois umbus silenciosos
E uma figueira xirua
Fizeram larga vigília,
Transpondo a noite sem lua.
E do mistério dos campos,
Entraram pelas janelas
Quatro acesos pirilampos
E acenderam quatro velas.
 
Vovô partiu pra tão longe,
Não sei por onde andará.
A terra que lhe escondeu
Não pode ser seu final:
Quem perseguiu as coxilhas,
Em seu tostado folheiro,
Transpõe as linhas da Morte
E as fronteiras do Silêncio.
 
Os braços que tantos laços
Esparramaram armadas
São moirões de tarumã
Costeando a várzea encantada!...
Tecendo a xucra labuta
Em carne dura e suada
E germinando as sementes
Da colheita ensolarada.
 
Os olhos que o Céu pintou
Com nuvens de tempo bom
Não são estrelas cadentes
Que sepultam-se no chão:
São duas vertentes guapas
Nascendo o milagre d'água,
Cacimba de mil barris
Puxados por mãos de enxada...
 
Vovô partiu pra tão longe,
Sem compreender a partida.
A dor ensina o aceno
Nos desencontros da vida...
 
Ficou no canto da sala
O seu último chapéu.
-        Quem sabe de cor o rumo
Dos campos verdes do Céu?

 
                   Nasci no 3º Distrito de Piratini, lugar denominado "Costa do Barrocão" (arroio que deságua no rio Camaquã, sendo que nossa casa - onde ainda moram meus pais e meu irmão - situa-se bem no encontro dessas duas águas).
                   Em uma escolinha de tábuas, verde como a esperança, chamada "Machado de Assis", com a professora Maria Lúcia Machado da Rosa, aprendi a ler e a escrever.
                   E foi pelo incentivo dessa querida educadora que passei a me aventurar - desde os dez anos de idade - na arte da poesia, quando emprestou-me um livro, no qual constavam explicações sobre verso, estrofe, gêneros poéticos, trechos de poemas, dentre os quais nunca esquecerei esta quadrinha de Bastos Tigre:
 
                    "Saudade - palavra doce
                     Que traduz tanto amargor.
                     Saudade é como se fosse
                     Espinho cheirando à flor."
        
                  A cada data de sete de setembro, nossa professora convidava os pais dos alunos e comunidade em geral para assistir, no gramado em frente à escolinha, os alunos recitando poesias, cantando, apresentando arremedos de peças de teatro, em comemoração à independência do Brasil.
                  Daí não parei mais. Vieram, depois, os festivais de música e poesia que foram especiais para mim pois significam até hoje um espaço importante de divulgação de meu trabalho. No 2º CIRIO (Canto Interuniversitário Rio-Grandense) de Pelotas, no ano de 1.995, tive a honra de lançar ao público meu primeiro livro de poesias intitulado "Verso de Azul".
                  E este poema-título foi minha primeira experiência em festivais, que deu alce maior ao meu sonho artístico, pois sagrou-se em segundo lugar no 1º Bivaque da Poesia Gaúcha de Campo Bom, ao lado de grandes nomes da nossa literatura gaúcha como Telmo de Lima Freitas e Lauro Corrêa Simões (que obteve o primeiro prêmio).
                  Vários compositores deram voz aos meus versos, em discos de festivais nativistas ou de sua própria produção,  a exemplo de Joca Martins (com músicas como "Florecita" - gravada em dois trabalhos seus - e "Sem Água Pro Mate", 5a Vertente de Piratini), Roberto Luçardo (com músicas como "Estrada Longa" e "Se Marx fosse peão"), Fernando Mendes (com músicas como "Velho João Esquilador", 4º CIRIO de Pelotas, e "Indiata", 13º Carijo de Palmeira das Missões, também constantes no seu disco intitulado "Grito Largo"), Luiz Marenco ("Estrela da Estrada Inteira", disco intitulado "Pra O Meu Consumo"), Frutuoso Araújo (com músicas como "Pousada de Luz", XII Terra e Cor de Pedro Osório), Cristiano Quevedo (músicas como "Sede", disco "Prá quem tapeia o chapéu" e "Irmão do Vento", XI Comparsa de Pinheiro Machado), Diego Espíndola ("Guri do Campo", IV Canto dos Cardeais de Canguçu, e "Eu vi Deus no meu rancho", Natal Nativo) e muitos outros que só vêm a aperfeiçoar minha vocação para a poesia.
                  PRESERVE O DIREITO AUTORAL TAMBÉM NA INTERNET (clique aqui)
 
 
www.alvoestudio.com
O Homem Poeta
                    Os poetas, em vez de tomarem Aspirina, tomam Inspirina. Este medicamento não tem propriedades analgésicas, e, ao contrário do outro, produz um estado febril no paciente, tornando-o, não raras vezes, IMPACIENTE e inconformado com o status quo vigente. Os efeitos colaterais da Inspirina poderão ser, segundo a OMS (Organização Mundial dos Sonâmbulos), o isolamento social, o olhar distante, o hábito de carregar nos bolsos papel e caneta, a percepção do que aos outros passa despercebido (como, por exemplo, um olhar de criança e uma borboleta em meio à multidão).
                     Num dia desses, encontrei a tal Inspirina, que, diferentemente dos demais e vitais medicamentos químicos, tem preço acessível ao mais humilde brasileiro. Não é vendida em farmácias, nem nasce dos laboratórios. Seu preço é ter-se o coração aberto. Nas prateleiras dele está o remédio.
                     Então, abri meu  coração - esta bomba-relógio, ritmada e cheia de sangue pulsante. Deixei que entrasse nele o meu povo humilde, com suas corruptelas e suas esperanças. Deixei que entrasse no meu coração a História de Piratini -  cheia de lanças, homens a cavalo, gritos de guerreiros. De repente, o tempo presente adentrou: as casas históricas e seus novos moradores, a voz de Seu Venâncio ao alto-falantes, a falta de carinho com a Fonte dos Pinheiros (a nossa "Bica", onde quem bebe de sua água por aqui fica... )
                     Em pleno estado febril, escrevi...
 
BENTO GONÇALVES CHEGANDO NA CASA DO POVO,
(A Pedro Munhoz que recebeu estes versos para musicar e a Davi Almeida, pesquisador da História de Piratini, que os compreendeu e aprovou.)     
 
Bento Gonçalves chegando na Casa do Povo,
E nada de novo aqui por São Pedro.
Na rua calçada, em Piratini,
Lá vai um guri pedalando um brinquedo.
 
O charque gaúcho vai dando prejuízo,
O preço da soja caindo de novo.
O negro charqueando, depois guerreando.
Não tem inflação e nem pão para o povo.
 
Lá vem Garibaldi, saiu do Jornal.
Lá vem Seu Venâncio, saiu do Cinema.
A História transborda de nossas cabeças,
E a nossa memória é pequena.
 
Fundou-se a Capela por mãos açorianas.
-        Quem lembra o que é "bandeira do divino"?
-        Quem sabe onde fica a Fonte dos Pinheiros?
-        Pergunte ao adulto, pergunte ao menino.
 
Rio Grande República em Piratini,
Aqui houve um Teatro Sete de Abril.
Agora, um palácio ganhou nosso nome,
E quem nos conhece perante o Brasil?
 
O sol matinal bate na Rodoviária,
E tropas desfilam com Neto na frente.
Na televisão, não há Revolução:
É outra eleição pra (não) ter presidente.
 
Há marcas de cascos na rua do Banco.
Um táxi desce em frente ao Museu.
O alto-falantes de um carro anuncia:
"Convite pra enterro:..." (A Memória morreu.).
 
As pedras do Forum estão despencando,
A cara do "O Povo" amarelecida...
Já não há mais Forum  - e as pedras avisam:
"Voltamos à vila. A causa é perdida."
 
Dom Pedro II, Brasil imperial:
O garrão nacional está em guerra.
Morreu gente peleando a cavalo.
Morre a pé o gaúcho sem terra.
 
Contatos
Direitos Autorais
O Homem Político
O Homem Profissional
O Homem Ecologista
O Homem Espiritual
Caixa de Retratos
Bilhetes
1 1