A VISÃO MITOLÓGICA DO MUNDO
(Páginas 34-40.)
(…)
Por filosofia entendemos uma
forma completamente nova de pensar, surgida na
Grécia por volta de 600 a.C. Antes disso, todas
as perguntas dos homens haviam sido respondidas
pelas diferentes religiões. Essas explicações
religiosas tinham sido passadas de geração para
geração através dos mitos.
Um mito é a história de deuses e
tem por objetivo explicar por que a vida é assim
como é.
Ao longo dos milênios,
espalhou-se por todo o mundo uma diversificada
gama de explicações mitológicas para as questões
filosóficas. Os filósofos gregos tentaram provar
que tais explicações não eram confiáveis.
A fim de entendermos o pensamento
dos primeiros filósofos, precisamos entender
primeiro o que significa ter uma visão
mitológica do mundo. Vamos tomar por exemplo
algumas concepções mitológicas aqui mesmo do
Norte da Europa. Não há necessidade de irmos
muito longe para mostrar o que queremos.
Na certa você já ouviu falar de
Tor e de seu martelo. Antes de o cristianismo
chegar à Noruega, acreditava-se aqui no Norte
que Tor cruzava os céus numa carruagem puxada
por dois bodes. E quando ele agitava seu
martelo, produziam-se raios e trovões. A palavra
“trovão” – Thor-døn em norueguês –
significa originariamente “o rugido de Tor”. Em
sueco, a palavra para trovão é åska, na
verdade ås-aka – que significa a jornada
dos deuses no céu.
Quando troveja e relampeja,
geralmente também chove. E a chuva era vital
para os camponeses da era dos vikinks. Assim,
Tor era adorado como o deus da fertilidade.
A resposta mitológica à questão
de saber por que chovia era, portanto, a de que
Tor agitava seu martelo. E quando caía a chuva,
as sementes germinavam e as plantas cresciam nos
campos.
Não se entendia por que as
plantas cresciam nos campos e como davam frutos.
Mas os camponeses sabiam que isto tinha alguma
coisa a ver com a chuva. Além disso, todos
acreditavam que a chuva tinha algo a ver com Tor.
E isto fazia dele um dos deuses mais importantes
do Norte da Europa.
Mas Tor era importante ainda por
outro motivo, que tinha algo a ver com toda a
ordem do mundo.
Os vikings imaginavam o mundo
habitado como uma ilha, constantemente ameaçada
por perigos externos. Esta parte habitada do
mundo eles chamavam de Midgard, que
significa “o reino que está no meio”. Em Midgard
também havia Ǻsgard, a morada dos deuses.
Fora de Midgard havia Utgard, isto é, o
reino de fora, habitado pelos perigosos trolls,
que não se cansavam de tentar destruir o mundo
com toda a sorte de golpes baixos. Chamamos
estes monstros malignos também de “forças do
caos”. Na religião nórdica e também na maioria
das outras culturas, as pessoas acreditavam que
havia um equilíbrio precário entre as forças do
bem e do mal.
Uma possibilidade que os trolls
tinham de destruir Midgard era roubar Freyja,
a deusa da fertilidade. Se conseguissem isto,
nada mais cresceria nos campos e as mulheres não
teriam mais filhos. Por isso era tão importante
que os bons deuses mantivessem os trolls
afastados.
E também nesse caso Tor era
importante: seu martelo não trazia apenas chuva,
mas era também uma arma na luta contra as
perigosas forças do caos. O martelo emprestava a
Tor um poder quase infinito. Ele podia, por
exemplo, atirá-lo nos trolls e matá-los. E
também não precisava ter medo de perdê-lo, pois
o martelo era como um bumerangue e voltava para
seu dono.
Esta era a explicação
mitológica para o funcionamento da natureza
e para o fato de existir sempre uma luta entre o
bem e o mal.
Mas não se tratava apenas de
explicações.
As pessoas não podiam
simplesmente ficar sentadas de braços cruzados,
esperando pela intervenção dos deuses, quando
catástrofes tais como secas e epidemias as
ameaçavam. As pessoas precisavam elas mesmas
participar dessa luta contra o mal. E isto elas
faziam através de toda a sorte de cerimônias ou
rituais religiosos.
O principal ritual religioso na
Antiguidade nórdica era o sacrifício.
Oferecer alguma coisa em sacrifício a um deus
significava aumentar o seu poder. As pessoas
precisavam, por exemplo, oferecer sacrifícios
aos deuses, a fim de que eles se fortalecessem o
suficiente para vencer as forças do mal. Isto
podia ser feito, por exemplo, sacrificando-se um
animal. Presume-se que a Tor eram sacrificados
sobretudo bodes. Para Odin
sacrificavam-se às vezes também pessoas.
O mito mais conhecido na Noruega
é narrado no poema Trymskveda. Ele nos
conta que Tor adormeceu e que, quando acordou,
seu martelo tinha desaparecido. Tor ficou tão
furioso que suas mãos tremeram e sua barba
estremeceu. Acompanhado de seu homem de
confiança, Loki, Tor foi até Freyja para
lhe pedir emprestadas suas asas, a fim de que
Loki pudesse voar até Jotunheim e descobrir se
os trolls tinham roubado o martelo de Tor. Lá
chegando, Loki encontrou Trym, o rei dos
trolls, que logo foi se gabando por ter
enterrado o martelo cinco quilômetros debaixo da
terra. E, para completar, Trym disse que os
deuses só teriam o martelo de volta se Freyja se
casasse com ele.
Você está acompanhando, Sofia?
Subitamente, os deuses do bem estão diante de um
drama jamais visto: um drama envolvendo um
refém. Os trolls têm agora em seu poder a mais
importante arma de defesa dos deuses, e esta
situação é absolutamente inaceitável. Enquanto
os trolls estiverem com o martelo de Tor, seu
poder sobre os mundos dos deuses e dos homens
será irrestrito. Para devolver o martelo eles
exigem Freyja. Mas esta troca não é possível. Se
os deuses entregarem a deusa da fertilidade, que
protege todas as formas de vida, então o verde
desaparecerá dos pastos, e deuses e homens
acabarão morrendo. Não há, portanto, como
avançar ou como retroceder nesta situação. Para
você entender o que estou dizendo, imagine um
grupo terrorista que ameaça explodir uma bomba
atômica no centro de Londres ou de Paris, caso
suas perigosas exigências não sejam cumpridas.
Continuando, o mito nos diz que
Loki volta para Ǻsgard e pede a Freyja que se
enfeite de noiva, pois ela terá de se casar com
o troll (infelizmente, infelizmente!). Freyja
fica furiosa e diz que, se ela se casar com um
troll, as pessoas vão pensar que ela é louca por
homens.
E então o deus Heimdal tem
uma boa idéia. Ele sugere que Tor se fantasie de
noiva. Prendendo os cabelos e amarrando duas
pedras no lugar dos seios, ele ficaria parecido
com uma mulher. É claro que Tor não fica muito
entusiasmado com esta idéia, mas acaba
reconhecendo que só assim os deuses teriam uma
chance de reaver o martelo. No fim, Tor é
fantasiado de noiva e Loki o acompanha como dama
de honra. — E assim levamos não apenas uma, mas
duas mulheres para os trolls — diz Loki em tom
de brincadeira.
Se quisermos formular a coisa de
uma forma mais moderna, podemos chamar Tor e
Loki de um “comando antiterror” dos deuses.
Fantasiados de mulher, eles pretendem se
infiltrar na fortaleza dos trolls e reaver o
martelo de Tor.
Logo que eles chegam a Jotunheim,
os trolls iniciam todos os preparativos para as
bodas. Na festa, porém, a noiva – isto é, Tor –
come um boi inteiro, oito salmões e bebe três
barris de cerveja. Trym fica admirado com o que
vê. Por um triz o disfarce do comando antiterror
não é descoberto. Mas Loki consegue salvá-los
desse perigo. Ele conta que Freyja não comia
havia oito dias, tão ansiosa que ela estava para
chegar a Jotunheim.
Quando Trym ergue o véu da noiva
para beijá-la, ele recua ao se deparar com o
olhar severo de Tor. Mas também desta vez Loki
consegue contornar a situação. Ele conta que a
noiva havia sete noites não conseguia dormir de
alegria com o casamento. Então Trym ordena que
tragam o martelo e que ele seja colocado no colo
da noiva durante a cerimônia de casamento.
Conta o mito que quando Tor viu o
martelo no seu colo, ele deu uma boa risada.
Primeiro matou Trym e depois todos os outros
trolls de Jotunheim. E, assim, o terrível drama
envolvendo um refém teve um final feliz. Mais
uma vez, Tor – o Batman ou o James Bond dos
deuses – tinha vencido as forças do mal.
Bem, acho que podemos parar por
aqui com a história do mito, Sofia. Mas o que
será que este mito em particular realmente quer
nos dizer? É claro que ele não foi escrito em
versos apenas para divertir. Também este mito
quer explicar alguma coisa. E aqui vai
uma interpretação possível:
Quando a seca assolava uma
região, as pessoas precisavam de uma explicação
para a total ausência de chuva. Não seria porque
os trolls tinham roubado o martelo de Tor?
Podemos imaginar também que este
mito tenta explicar a alternância das estações
do ano: no inverno a natureza está morta, porque
o martelo de Tor está em Jotunheim. Mas na
primavera Tor consegue reavê-lo. E, assim, os
mitos tentam explicar às pessoas algo que elas
não conseguem entender.
Mas as pessoas não se contentavam
apenas com explicações como esta que acabamos de
ouvir. Elas também tentavam participar desses
acontecimentos tão importantes para suas vidas.
E o faziam através de diferentes rituais
religiosos, que guardavam uma relação com os
mitos. Assim, podemos imaginar que no caso de
seca, ou de uma colheita ruim, as pessoas
encenassem um drama que recontasse a história do
mito. Talvez um homem da aldeia se fantasiasse
de noiva usando pedras no lugar dos seios, a fim
de reaver o martelo que estava em poder dos
trolls. Era esta a forma que as pessoas viam de
fazer alguma coisa para atrair chuva e fazer as
sementes germinarem nos campos.
Embora não saibamos exatamente
como tudo acontecia, uma coisa é certa: há
muitos exemplos de outras partes do mundo que
nos mostram que as pessoas encenavam um “mito
das estações do ano”, a fim de acelerar os
processos naturais.
O que fizemos foi apenas um breve
passeio pelo mundo dos mitos nórdicos. Há
inúmeros outros mitos sobre Tor e Odin,
Frey e Freyja, Hod e
Balder, e sobre muitas, muitas outras
divindades. Visões míticas como estas existiam
no mundo todo, muito antes de os filósofos
começarem a questioná-las. Pois os gregos também
tinham a sua visão mitológica do mundo, quando
surgiram os primeiros filósofos. Ao longo dos
séculos, as histórias dos deuses foram sendo
passadas de geração em geração. Na Grécia, os
deuses eram chamados de Zeus e Apolo,
Hera e Atena, Dioniso e
Asclépio, Heracles e Hefaístos,
apenas para citar alguns nomes.
Por volta de 700 a.C., Homero
e Hesíodo registraram por escrito boa
parte do tesouro da mitologia grega. Isto levou
a uma situação completamente nova. É que, a
partir do momento em que os mitos foram
colocados no papel, já se podia discutir sobre
eles.
Os primeiros filósofos gregos
criticaram a mitologia descrita por Homero,
porque para eles os deuses ali representados
tinham muitas semelhanças com os homens. De
fato, eles eram exatamente tão egoístas e
traiçoeiros como qualquer um de nós. Pela
primeira vez na história da humanidade foi dito
claramente que os mitos talvez não passassem de
frutos da imaginação do homem.
Um exemplo dessa crítica aos
mitos pode ser encontrado no filósofo
Xenófanes, nascido por volta de 570 a.C.
Para ele, as pessoas teriam criado os deuses à
sua própria imagem e semelhança: “Os mortais
acreditam que os deuses nascem, falam e se
vestem de forma semelhante à sua própria… Os
etíopes imaginam seus deuses pretos e de nariz
achatado; os tracianos, ao contrário, os vêem
ruivos e de olhos azuis… Se as vacas, cavalos ou
leões tivessem mãos e com elas pudessem pintar e
produzir obras como os homens, eles criariam e
representariam suas divindades à sua imagem e
semelhança: os deuses dos cavalos teriam feições
eqüinas, os das vacas se pareceriam com elas, e
assim por diante”.
Nesta época, os gregos fundaram
muitas cidades-Estados na Grécia e em suas
colônias no Sul da Itália e na Ásia Menor.
Nelas, os escravos faziam todo o serviço braçal
e os cidadãos livres podiam dedicar-se
exclusivamente à política e à cultura. Sob tais
condições de vida, o pensamento humano deu um
salto: sem depender de nada nem de ninguém, cada
indivíduo podia agora opinar sobre como a
sociedade devia ser organizada. Desse modo, o
indivíduo podia formular suas questões
filosóficas sem ter que para isso recorrer à
tradição dos mitos.
Dizemos que naquela época ocorreu
a evolução de uma forma de pensar atrelada ao
mito para um pensamento construído sobre a
experiência e a razão. O objetivo dos primeiros
filósofos gregos era o de encontrar
explicações naturais para os processos da
natureza.
Os filósofos da natureza
O PROJETO DOS
FILÓSOFOS
(Página
43.)
Aqui estamos nós novamente! É melhor a gente
partir diretamente para a lição de hoje, sem desviar para
coelhinhos brancos ou coisa parecida.
Vou contar para você, em linhas gerais, como as
pessoas têm refletido sobre questões filosóficas desde a
Antiguidade até os dias de hoje. E tudo isto seguindo a ordem
dos acontecimentos.
Como a maioria dos filósofos viveu em outra época
– e provavelmente também numa cultura completamente diferente da
nossa -, vale a pena examinar o projeto de cada filósofo.
Quero dizer com isto que precisamos tentar entender do que
precisamente se ocuparam estes filósofos. Um filósofo pode se
perguntar, por exemplo, como surgem as plantas e os animais.
Outro pode querer descobrir se há um Deus ou se as plantas têm
uma alma imortal.
Depois de termos definido qual é o projeto de
determinado filósofo, será mais fácil acompanhar seu pensamento,
pois nenhum filósofo pode se ocupar de todas as questões
concernentes à filosofia.
Estou sempre falando de filósofos e de
seus pensamentos, e isto tem uma razão de ser. É que também
a história da filosofia está marcada pela atuação de homens. De
fato, em toda a história da humanidade a mulher foi subjugada
tanto como ser feminino quanto como ser pensante. E isto é ruim,
pois desta forma se perderam muitas experiências importantes.
Somente no nosso século [XX] é que as mulheres entram de fato
para a história da filosofia.
Não vou passar lição de casa. Quer dizer, aqui
você não vai ter que resolver complicadas tarefas de matemática.
De vez em quando, porém, vou pedir a você um pequeno exercício.
Se você está de acordo com estas condições,
podemos começar.
OS FILÓSOFOS DA NATUREZA
(Páginas 43-45.)
Os primeiros filósofos gregos são freqüentemente
chamados de “filósofos da natureza”, porque se interessavam
sobretudo pela natureza e pelos processos naturais.
Já tivemos oportunidade de nos perguntar de onde
vêm todas as coisas. Hoje em dia muitas pessoas acreditam, umas
mais, outras menos, que em algum momento tudo surgiu do nada.
Este pensamento não era muito difundido entre os gregos. Por
alguma razão, eles sempre partiam do fato de que sempre existiu
“alguma coisa”.
A grande questão, portanto, não era saber como
tudo surgiu do nada. O que instigava os gregos era saber como a
água podia se transformar em peixes vivos, ou como a terra sem
vida podia se transformar em árvores frondosas ou em flores
multicoloridas. Tudo isto sem falar em como um bebê podia sair
do corpo de sua mãe!
Os filósofos viam com seus próprios olhos que
havia constantes transformações na natureza. Mas como
estas transformações eram possíveis? Como uma substância podia
se transformar em algo completamente diferente, numa forma de
vida, por exemplo?
Os primeiros filósofos tinham uma coisa em comum:
eles acreditavam que determinada substância básica estava
por trás de todas essas transformações. Não é muito fácil
explicar como eles chegaram a esta idéia. Sabemos apenas que ela
se desenvolveu a partir da noção de que deveria haver uma
substância básica, que fosse a causa oculta, por assim dizer, de
todas as transformações da natureza.
Para nós, o mais interessante não é saber que
respostas esses primeiros filósofos encontraram. O interessante
é saber que perguntas eles fizeram e que tipo de resposta
buscavam. Mais importante para nós é saber como, e não
o que eles pensavam exatamente.
Sabemos que eles colocavam questões referentes às
transformações que podiam observar na natureza, na tentativa de
descobrir algumas leis naturais que fossem eternas. Eles queriam
entender os fenômenos naturais, sem ter que para isto recorrer
aos mitos. Interessava-lhes, sobretudo, tentar entender por si
mesmos os processos naturais, por meio da observação da
natureza. E isto era algo completamente diferente da tentativa
de explicar raios e trovões, inverno e primavera por referência
a acontecimentos no mundo dos deuses.
E assim a filosofia se libertou da religião.
Podemos dizer que os filósofos da natureza deram os primeiros
passos na direção de uma forma científica de pensar. E
com isto deram o pontapé inicial para todas as ciências
naturais, surgidas posteriormente.
A maior parte de tudo o que os filósofos da
natureza disseram e escreveram ficou perdida para a posteridade.
E a maior parte do pouco que sabemos está nos escritos de
Aristóteles, que viveu duzentos anos depois dos primeiros
filósofos. Mas Aristóteles apenas sintetiza os resultados a que
tinham chegado os filósofos que viveram antes dele. Isto
significa que nem sempre é possível sabermos como eles chegaram
às suas conclusões. O que sabemos, porém, é suficiente para
podermos afirmar que o projeto dos primeiros filósofos gregos
englobava questões relacionadas à substância básica por detrás
das transformações ocorridas na natureza.
TRÊS FILÓSOFOS DE MILETO
(Páginas 45-46.)
O primeiro filósofo de que temos notícia é
Tales, da colônia grega de Mileto, na Ásia Menor. Tales foi
um homem que viajou muito. Entre outras coisas, dizem que certa
vez, no Egito, ele calculou a altura de uma pirâmide medindo a
sombra da pirâmide no exato momento em que sua própria sombra
tinha a mesma medida de sua altura. Dizem ainda que em 585 a.C.
ele previu um eclipse solar.
Tales considerava a água a origem de todas
as coisas. Não sabemos o que exatamente ele queria dizer com
isto. Talvez ele quisesse dizer que toda forma de vida surge na
água e a ela retorna quando se desfaz.
Quando esteve no Egito, certamente ele pôde
observar como os campos inundados ficavam fecundos depois que as
águas do Nilo retornavam ao seu delta. É possível que ele tenha
observado também que, depois da chuva, apareciam rãs e minhocas.
Além disso, é muito provável que Tales tenha se
perguntado como a água podia se transformar em gelo e em vapor,
para depois voltar a ser água.
Segundo dizem, Tales teria afirmado que “todas as
coisas estão cheias de deuses”. Também aqui só podemos tentar
adivinhar o que ele queria dizer. Talvez ele tenha chegado à
conclusão de que a terra escura era a origem de tudo, de flores
e sementes até abelhas e baratas. E é possível, então, que ele
tenha imaginado a terra cheia de pequenos e invisíveis “germens
da vida”. De qualquer forma, é certo que com esta afirmação ele
não estava pensando nos deuses de Homero.
O próximo filósofo de que temos notícia é
Anaximandro, que também viveu em Mileto. Ele achava que
nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma
coisa e se dissolvem nesta alguma coisa que ele chamava de
infinito. É difícil dizer o que ele entendia por infinito.
Mas uma coisa é certa: ao contrário de Tales, Anaximandro não
imaginou uma substância determinada. Talvez ele quisesse dizer
que aquilo a partir do qual tudo surge é algo completamente
diferente do que é criado. E como tudo que é criado é também
finito, o que está antes e depois deste finito tem de ser
infinito. É claro que, nesse sentido, a substância básica não
podia ser algo tão trivial quanto a água.
Um terceiro filósofo de Mileto foi Anaxímenes
(c. 550-526 a.C.). Para ele, o ar ou o sopro de ar era a
substância básica de todas as coisas.
É claro que Anaxímenes conhecia a teoria da água
de Tales. Mas de onde vinha a água? Para Anaxímenes, a água era
o ar condensado. Podemos observar que, quando chove, o ar se
comprime até virar água. Anaxímenes achava que se a água fosse
ainda mais comprimida ela se transformaria em terra. Talvez ele
tenha visto que depois do degelo aparecem a terra e a areia.
Para ele, o fogo era o ar rarefeito. Na visão de Anaxímenes,
portanto, terra, água e fogo surgiam do ar.
Da terra e da água até as plantas dos campos era
só um pulinho. Talvez Anaxímenes acreditasse que a terra, o ar,
o fogo e a água tivessem necessariamente que estar presentes
para que a vida pudesse surgir. Mas o ponto de partida
propriamente dito era o ar. Ele compartilhava, portanto, da
opinião de Tales, segundo a qual uma substância básica subjazia
a todas as transformações da natureza.
NADA PODE SURGIR DO NADA
(Páginas 46-47.)
Os três filósofos de Mileto acreditavam em uma –
e só uma – substância primordial, a partir da qual tudo se
originava. Mas como uma substância era capaz de subitamente se
modificar e se transformar em algo completamente diferente?
Vamos chamar este problema de o problema da transformação.
A partir de 500 a.C., aproximadamente, viveram na
colônia grega de Eléia, no Sul da Itália, alguns filósofos.
Esses “eleatas” interessavam-se por questões como esta que
acabamos de mencionar. O mais conhecido entre eles foi
Parmênides (c. 540-480 a.C.).
Parmênides acreditava que tudo o que existe
sempre existiu. Este era um pensamento muito corrente entre os
gregos, para quem era praticamente evidente que tudo o que
existe no mundo sempre existiu. Nada pode surgir do nada, dizia
Parmênides. E nada que existe pode se transformar em nada.
Mas Parmênides foi mais longe do que a maioria
dos outros. Ele considerava totalmente impossível qualquer
transformação real das coisas. Nada pode se transformar em algo
diferente do que já é.
É claro que Parmênides sabia das constantes
transformações que ocorrem na natureza. Mas ele não conseguia
harmonizar isto com aquilo que sua razão lhe dizia. E
quando era forçado a decidir se confiava nos sentidos ou na
razão, decidia-se pela razão.
Todos nós conhecemos a frase “Só acredito vendo”.
Mas Parmênides não acreditava nem quando via. Ele dizia que os
sentidos nos fornecem uma visão enganosa do mundo; uma visão que
não está em conformidade com o que nos diz a razão. Como
filósofo, ele achava que sua tarefa consistia em desvendar todas
as formas de “ilusão dos sentidos”.
Esta forte crença na razão humana é chamada de
racionalismo. Um racionalista é aquele que tem grande
confiança na razão humana enquanto fonte de conhecimento do
mundo.
TUDO FLUI
(Páginas 47-48.)
Na mesma época de Parmênides viveu Heráclito
(c. 540-480 a.C.) de Éfeso, na Ásia Menor. Para ele, as
constantes transformações eram justamente a característica mais
fundamental da natureza. Poderíamos talvez dizer que Heráclito,
mais do que Parmênides, confiava no que os sentidos lhe diziam.
“Tudo flui”, dizia Heráclito. Tudo está em
movimento e nada dura para sempre. Por esta razão, “não podemos
entrar duas vezes no mesmo rio”. Isto porque quando entro pela
segunda vez no rio, tanto eu quanto ele já estamos mudados.
Heráclito também nos chama a atenção para o fato
de que o mundo está impregnado por constantes opostos. Se nunca
ficássemos doentes, não saberíamos o que significa a saúde. Se
não tivéssemos fome, não experimentaríamos a agradável sensação
de saciá-la depois de uma refeição. Se nunca houvesse guerras,
não saberíamos o valor da paz, e se nunca houvesse inverno, não
poderíamos assistir à chegada da primavera.
Tanto o bem quanto o mal são necessários ao todo,
dizia Heráclito. Sem a constante interação dos opostos o mundo
deixaria de existir.
“Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e
paz, satisfação e fome”, dizia ele. Ele emprega nesta passagem a
palavra “Deus”, mas é claro que com isto não se refere aos
deuses de que falavam os mitos. Para Heráclito, Deus – ou o
elemento divino – é algo que abrange o mundo inteiro. Para ele,
Deus se manifesta na natureza em constante transformação e
crivada de opostos.
No lugar da palavra “Deus” ele emprega com
freqüência a palavra grega logos, que significa razão.
Mesmo quando nós, homens, não pensamos da mesma forma ou não
possuímos a mesma razão, deve haver – segundo Heráclito – uma
espécie de “razão universal”, que dirige todos os fenômenos da
natureza. Esta razão universal – ou “lei universal” – é a mesma
para todos; é a partir dela que todos se orientam. E não
obstante, a maioria das pessoas vive segundo sua própria razão,
dizia Heráclito. Ele não considerava muito as pessoas que o
cercavam. Para ele, a opinião da maioria delas não passava de
“brincadeira de criança”.
Em todas as transformações e opostos da natureza
Heráclito via, portanto, uma unidade, um todo. Esta “alguma
coisa” que era subjacente a tudo ele chamava de “Deus” ou de
“logos”.
QUATRO ELEMENTOS BÁSICOS
(Páginas 48-51.)
Sob certo aspecto, Parmênides e Heráclito
pensavam de maneira totalmente oposta. A razão de
Parmênides deixava claro que nada pode mudar. Mas as
experiências sensoriais de Heráclito deixavam igualmente
claro que a natureza está em constante transformação. Qual dos
dois tinha razão? Será que devemos confiar no que nos diz a
razão, ou será que devemos confiar nos sentidos?
Tanto Parmênides quanto Heráclito fazem duas
afirmações:
Parmênides diz:
a) que nada pode mudar
e
b) que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são
dignas de confiança.
Heráclito, ao contrário, afirma:
a) que tudo se transforma (“tudo flui”)
e
b) que as impressões dos sentidos são confiáveis.
Desacordo maior não poderia haver entre dois
filósofos! Mas qual dos dois tinha razão? Fica a cargo de
Empédocles (c. 494-434 a.C.) apontar o caminho que tiraria a
filosofia do impasse a que ela tinha chegado. Ele achava que
tanto Parmênides quanto Heráclito tinham razão numa de suas
afirmações, mas estavam totalmente enganados quanto à outra.
Para Empédocles, a grande discordância estava no
fato de que ambos os filósofos tinham assumido como ponto de
partida o fato quase inquestionável de que haveria apenas um
elemento básico. Se isto fosse verdade, o abismo entre o que a
razão nos diz e o que nossos sentidos percebem seria
intransponível.
Naturalmente, a água não pode se transformar num
peixe ou numa borboleta. A água em si não pode se transformar.
Água pura será água pura por toda a eternidade. Sob este
aspecto, Parmênides tinha razão quando afirmava que nada se
transformava. Ao mesmo tempo, Empédocles concordava com
Heráclito quando este dizia que devemos confiar no que dizem os
nossos sentidos. Precisamos acreditar no que vemos, e o que
vemos é justamente o fato de que a natureza está em constante
transformação.
Empédocles chegou à conclusão de que a noção de
um único elemento primordial tinha que ser refutada. Nem a água
nem o ar, sozinhos, podiam se transformar num buquê de
rosas ou numa borboleta. Para a natureza, portanto, seria
impossível produzir alguma coisa a partir de um único elemento
básico.
Empédocles acreditava que a natureza possuía ao
todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de
“raízes”. Estes quatro elementos eram a terra, o ar,
o fogo e a água.
Todas as transformações da natureza seriam
resultado da combinação desses quatro elementos, que, depois,
novamente se separavam um do outro. Pois tudo consiste em terra,
ar, fogo e água, só que em diferentes proporções de mistura.
Quando uma flor ou um animal morrem, esses quatro elementos
voltam a se separar. Essas transformações podem ser percebidas a
olho nu. No entanto, terra, ar, fogo e água continuam a ser o
que são, inalterados, incólumes, independentes de todas as
misturas de que façam parte. Não é certo, portanto, afirmar que
“tudo” muda. Basicamente, nada se altera. O que acontece é que
esses quatro elementos diferentes simplesmente se combinam e
depois voltam a se separar para então se combinarem novamente.
Talvez possamos fazer aqui uma comparação com o
trabalho de um pintor. Se ele tiver à sua disposição apenas uma
cor – o vermelho, por exemplo -, não poderá pintar árvores
verdes. Mas se ele tiver amarelo, vermelho, azul e preto, então
poderá criar centenas de cores diferentes, porque poderá
combinar as cores em diferentes proporções.
Um exemplo do que ocorre na cozinha nos mostra a
mesma coisa. Se eu tiver apenas farinha, terei de ser mágico
para fazer dela um bolo. Mas se eu tiver ovos, farinha, leite e
açúcar, poderei assar diferentes bolos a partir desses quatro
elementos básicos.
E não é por acaso que Empédocles considerava
precisamente a terra, o ar, o fogo e a água as “raízes” da
natureza. Antes dele, outros filósofos tinham tentado provar que
o elemento básico teria de ser ou a água, ou o ar, ou ainda o
fogo. Tales e Anaxímenes tinham enfatizado a importância da água
e do ar como elementos da natureza. Os gregos também
consideravam o fogo muito importante. Eles viam, por exemplo, a
importância do Sol para todas as formas de vida na natureza e é
claro que também sabiam do calor do corpo de homens e animais.
Talvez Empédocles tenha visto um pedaço de
madeira queimando. Quando isto ocorre, alguma coisa se
desintegra. Podemos ouvir a madeira estalar e crepitar. É a
água. Alguma coisa vira fumaça. É o ar. O fogo é o que não
vemos. E quando as chamas se apagam, sobra alguma coisa. São as
cinzas, ou a terra.
Depois que Empédocles mostrou que as
transformações da natureza surgem da combinação de quatro
“raízes” que depois se separam, uma questão continuou em aberto:
o que faz com que os elementos se combinem para dar origem a uma
nova vida? E o que é responsável pelo fato de uma mistura – uma
flor, por exemplo – voltar a se desintegrar?
Empédocles dizia que na natureza atuavam duas
forças, por ele chamadas de amor e de disputa.
O que une as coisas é o amor; o que as separa é a disputa.
Empédocles diferencia, portanto, elemento
e força. Vale a pena gravar isto na memória. Até hoje a
ciência estabelece uma diferença entre elemento básico e
forças naturais. A ciência moderna acredita poder
explicar todos os processos da natureza através de uma interação
entre os diferentes elementos básicos e algumas poucas forças
naturais.
Empédocles também refletiu um pouco sobre a
questão de saber o que ocorre quando percebemos alguma coisa.
Como posso “ver” uma flor, por exemplo? O que acontece neste
caso? Você já pensou nisso, Sofia? Se não pensou, está aí uma
boa oportunidade para fazê-lo.
Empédocles acreditava que, como todas as outras
coisas da natureza, também nossos olhos são compostos de terra,
ar, fogo e água. Assim, a terra contida em meus olhos perceberia
o componente terra no objeto visto; o ar, o componente ar; o
fogo, o componente fogo; e a água, o componente água. Se
faltasse aos olhos um desses elementos, eu não poderia enxergar
a natureza em sua totalidade.
UM POUCO DE TUDO EM TUDO
(Páginas 51-52.)
Outro filósofo que não se dava por satisfeito com
a idéia de que determinado elemento básico – a água, por exemplo
– podia se transformar em tudo o que vemos na natureza foi
Anaxágoras (500-428 a.C.). Ele também não aceitava a idéia
de que terra, ar, fogo ou água pudessem se transformar em ossos,
pele ou cabelos.
Anaxágoras achava que a natureza era composta por
uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu.
Tudo pode ser dividido em partes ainda menores, mas mesmo na
menor das partes existe um pouco de tudo. Assim, se pele e
cabelo não podem surgir de alguma outra coisa, então eles devem
estar presentes também no leite que bebemos e nas comidas que
comemos.
Dois exemplos atuais talvez nos mostrem o que
Anaxágoras queria dizer. Hoje em dia, com a tecnologia do
laser, podemos produzir os chamados hologramas. Se tomamos
um holograma que representa um carro, por exemplo, e se este
holograma é depois fragmentado, ainda assim continuaremos a ver
a imagem do carro inteiro, mesmo que tenhamos na mão apenas a
parte do holograma que antes mostrava o pára-choques. Isto
porque todo o carro está presente em cada uma das minúsculas
partes.
De certa forma, nosso corpo também é construído
dessa forma. Se retiro uma célula da pele de meu dedo, o núcleo
desta célula contém não apenas a descrição da minha pele. Na
mesma célula estão também a descrição dos meus olhos, da cor da
minha pele, do número e do formato dos meus dedos, etc. Em cada
uma das células existe uma descrição detalhada da estrutura de
todas as outras células do meu corpo. Em cada uma das células
existe, portanto, “um pouco de tudo”. O todo está também na
menor das partes.
Anaxágoras chamava estas partes minúsculas que
traziam em si um pouco de tudo, de “sementes” ou “germens”.
Ainda nos lembramos de que Empédocles achava que
o amor unia as partes para formar o todo. Anaxágoras também
imaginou um tipo de força que seria responsável, por assim
dizer, pela ordem e pela criação de homens, animais, flores e
árvores. A esta força ele deu o nome de inteligência.
O que há de interessante ainda sobre Anaxágoras é
o fato de ele ter sido o primeiro filósofo de Atenas, cuja vida
conhecemos em parte. Natural da Ásia Menor, aos quarenta anos
aproximadamente ele se mudou para Atenas. Ali foi acusado de
ateísmo e teve que deixar novamente a cidade. Dentre outras
coisas, ele disse que o Sol não era um deus, mas uma massa
incandescente, maior do que a península do Peloponeso.
Anaxágoras interessava-se muito por astronomia.
Ele acreditava que todos os corpos celestes eram feitos da mesma
matéria que compunha a Terra. E chegou a esta convicção depois
de ter examinado um meteorito. Por isto seria de se pensar que
em outros planetas houvesse vida, dizia ele. Além disso,
Anaxágoras explicou que a Lua não possuía luz própria, mas que
tirava seu brilho da Terra. Finalmente, ele explicou como
surgiam os eclipses.
O DESTINO
(Páginas 65-66.)
Bom dia mais uma vez, minha cara Sofia! Por
precaução, quero dizer expressamente que você nunca deve tentar
me seguir. Nós nos encontraremos algum dia, mas sou eu
quem vai estabelecer quando e onde isto deve acontecer.
É isto. Você não vai querer ser desobediente,
vai?
Bem, vamos retomar o tema de nossos filósofos.
Vimos como eles tentaram encontrar explicações naturais para as
transformações da natureza e que, antes deles, tais
transformações eram explicadas pelos mitos.
Mas também em outras áreas era preciso tirar do
caminho antigas superstições. E podemos constatar isto tanto no
que diz respeito à saúde e doença quanto no que se refere
à política. Nestes dois domínios, os gregos tinham sido
absolutamente fatalistas até então.
“Ser fatalista” significa acreditar que tudo o
que vai acontecer já está determinado previamente. Esta noção
pode ser encontrada no mundo todo, tanto hoje quanto em qualquer
outro momento da história. Aqui no Norte da Europa, as sagas de
famílias islandesas, por exemplo, nos revelam uma forte crença
na Providência.
Entre os gregos, bem como em outros povos, também
encontramos a noção de que os homens são capazes de “ver” o seu
destino através de diferentes oráculos. Isto significa
que o destino de um homem ou de um Estado pode ser previsto de
diferentes formas e interpretado a partir de certos
“presságios”.
Até hoje, muita gente acha possível ler a sorte
nas cartas do baralho, nas mãos das pessoas ou nas estrelas do
céu.
Também é muito comum a “leitura da sorte” no café
que sobra no fundo da xícara, depois que alguém o bebeu. Talvez
este resto de café forme no fundo determinada imagem, um desenho
(e é claro que, para enxergá-lo, precisamos contar com a ajuda
da nossa imaginação). Se este desenho se parece com um carro,
isto talvez signifique que a pessoa que bebeu o café logo vai
fazer uma longa viagem de carro.
Vemos que o “adivinho” tenta adivinhar algo que
de fato não pode ser adivinhado. Isto é típico da arte de prever
o futuro. E justamente porque é tão vago aquilo que essas
pessoas “pré-vêem”, em geral é muito difícil rebater o que o
adivinho nos diz.
Quando olhamos o céu estrelado, o que vemos é um
verdadeiro caos de pontinhos luminosos. Não obstante, ao longo
da história muitas pessoas acreditaram que as estrelas podiam
nos dizer alguma coisa sobre a nossa vida na Terra. Até hoje
existem muitos políticos que pedem conselhos a astrólogos antes
de tomar decisões importantes.
O ORÁCULO DE DELFOS
(Páginas 66-67.)
Os gregos acreditavam que o famoso oráculo de
Delfos era capaz de lhes dizer coisas sobre seu destino. Em
Delfos, o deus do oráculo era Apolo. Ele falava através
de sua sacerdotisa, Pítia, que ficava sentada num
banquinho colocado sobre uma fenda na terra.
Dessa fenda subiam vapores inebriantes, que
colocavam Pítia numa espécie de transe. E isto era necessário
para que ela se tornasse o meio pelo qual Apolo falava.
Quem vinha a Delfos fazia suas perguntas,
primeiramente, para os sacerdotes locais, que depois iam
consultar Pítia. A sacerdotisa do oráculo lhes dava uma
resposta, que era tão incompreensível ou tão ambígua que os
sacerdotes tinham que “interpretá-la” para os consulentes.
Dessa forma, os gregos podiam se valer da
sabedoria de Apolo, que, para eles, era o deus que sabia de
tudo, tanto do passado quanto do futuro.
Muitos chefes de Estado não ousavam entrar numa
guerra ou tomar decisões importantes sem antes consultar o
oráculo de Delfos. Dessa forma, os sacerdotes de Apolo eram
quase como diplomatas ou conselheiros, que possuíam um profundo
conhecimento do povo e do país.
No templo de Delfos havia uma famosa inscrição:
CONHECE-TE A TI MESMO! E ela ficava ali para lembrar aos homens
que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode
fugir de seu destino.
Entre os gregos contavam-se muitas histórias de
pessoas que tinham sido apanhadas por seus destinos. Ao longo do
tempo, uma série de peças – as tragédias – foi escrita
sobre essas “trágicas” personalidades. O exemplo mais conhecido
é a história do rei Édipo, que, na tentativa de fugir de
seu destino, acaba correndo ao seu encontro.
A CIÊNCIA DA HISTÓRIA E A MEDICINA
(Páginas 67-69.)
Para os antigos gregos, não apenas a vida dos
indivíduos era determinada pelo destino. Eles achavam que todo o
desenrolar da história do mundo também era determinado pelo
destino. Assim, os gregos acreditavam, por exemplo, que o
desfecho de uma guerra deveria ser atribuído a uma intervenção
divina. Ainda hoje, muitas pessoas acreditam que os
acontecimentos históricos são governados por Deus ou por outras
forças místicas.
Mas enquanto os filósofos gregos tentavam
encontrar explicações naturais para os processos da natureza,
formava-se pouco a pouco uma ciência da história, cujo objetivo
também era encontrar causas naturais para o curso da história
universal. O fato de um Estado perder uma guerra não mais era
atribuído ao desejo de vingança dos deuses. Os historiadores
gregos mais conhecidos foram Heródoto (484-424 a.C.) e
Tucídides (460-400 a.C.).
Os gregos dos primeiros tempos também
responsabilizavam os deuses pelas doenças. Assim, as doenças
contagiosas freqüentemente eram vistas como um castigo dos
deuses. De outro lado, os deuses também podiam curar as pessoas,
bastando para isto que lhes fosse feito o sacrifício apropriado.
Esta idéia não é típica apenas dos gregos. Em
tempos mais recentes, antes que a moderna ciência da medicina se
desenvolvesse, era muito comum ouvir que as enfermidades tinham
uma causa sobrenatural. A palavra influenza, que
empregamos até hoje, significa originariamente que alguém estava
sob a “influência” maligna dos astros.
Ainda hoje, muitas pessoas no mundo todo
consideram doenças como a AIDS, por exemplo, um castigo de Deus.
Além disso, muitos acreditam que uma pessoa enferma possa ser
curada por meios “sobrenaturais”.
Enquanto os filósofos gregos enveredavam por um
caminho de reflexão absolutamente novo, surgiu também uma
ciência médica grega, cujo objetivo era buscar explicações
naturais para a saúde e a doença. Supõe-se que essa ciência
médica grega foi fundada por Hipócrates, que nasceu na
ilha de Cós por volta do ano de 460 a.C.
De acordo com a tradição médica de Hipócrates, os
meios mais eficazes para prevenir as doenças eram a moderação e
um modo de vida saudável. Por conseguinte, a saúde seria o
estado natural do homem. Quando a doença aparece, isso significa
que a natureza “saiu dos trilhos” devido a um desequilíbrio
corporal ou anímico. O caminho para a saúde do homem está na
moderação, na harmonia e “na mente sã em corpo são”.
Hoje em dia ainda se fala muito na “ética
médica”. Isto significa que um médico deve exercer sua profissão
segundo certas diretrizes éticas. Por exemplo, um médico não
deve receitar a pessoas sadias medicamentos que causem
dependência. Além disso, o médico deve manter o sigilo
profissional, não transmitindo a outras pessoas as informações
que um paciente lhe deu sobre seu estado. Todas essas idéias
remontam a Hipócrates. Ele fazia seus alunos prestarem um
juramento, conhecido até hoje como o juramento de Hipócrates dos
médicos:
Por Apolo, o médico, e por Asclépio, por Higia e Panacea e por
todos os deuses e deusas, a quem conclamo como minhas
testemunhas, juro cumprir o meu dever e manter este juramento
com todas as minhas forças e com todo o meu discernimento:
tributarei a meu Mestre de Medicina igual respeito que a meus
progenitores, repartindo com ele meus meios de vida e
socorrendo-o em caso de necessidade; tratarei seus filhos como
se fossem meus irmãos e, se for sua vontade aprender esta
ciência, eu lhes ensinarei desinteressadamente e sem exigir
recompensa de qualquer espécie. Instruirei com preceitos, lições
orais e demais métodos de ensino os meus próprios filhos e os
filhos de meu Mestre e, além deles, somente os discípulos que me
seguirem sob empenho de suas palavras e sob juramento, como
determina a praxe médica. Aviarei minhas receitas de modo que
sejam do melhor proveito para os enfermos, livrando-os de todo
mal e da injustiça, para o que dedicarei todas as minhas
faculdades e conhecimentos. Não administrarei a pessoa alguma,
ainda que isto me seja pedido, qualquer tipo de veneno nem darei
qualquer conselho nesse sentido. Da mesma forma, não
administrarei a mulheres grávidas qualquer meio abortivo.
Guardarei sigilo e considerarei segredo tudo o que vir e ouvir
sobre a vida das pessoas durante o tratamento ou fora dele.
Sócrates
A FILOSOFIA EM ATENAS
(Páginas 76-77.)
(…)Vamos voltar à nossa filosofia. Já vencemos a
primeira parte do curso. Refiro-me com isto à filosofia da
natureza, que significou uma verdadeira ruptura com a visão
mitológica do mundo. Vamos conhecer agora os três maiores
filósofos da Antigüidade: Sócrates, Platão e
Aristóteles. Esses três filósofos, cada um a seu modo,
marcaram profundamente a civilização européia.
Os filósofos da natureza são freqüentemente
chamados de pré-socráticos, pois viveram antes de
Sócrates. É verdade que Demócrito morreu alguns anos depois de
Sócrates, mas todo o seu pensamento está inserido no universo da
filosofia natural pré-socrática. Isto porque Sócrates representa
um divisor de águas não apenas do ponto de vista temporal. Nosso
ponto de referência geográfico também se altera agora. É que
Sócrates foi o primeiro filósofo nascido em Atenas e tanto ele
quanto seus dois sucessores viveram e atuaram em Atenas. Talvez
você se lembre que Anaxágoras também viveu algum tempo em
Atenas, mas foi banido da cidade porque considerava o Sol uma
esfera incandescente (Sócrates também não viria a ter um destino
mais feliz!).
A partir da época de Sócrates, Atenas passou a
constituir o centro da cultura grega. Mais importante ainda do
que isto é observar que, quando passamos dos filósofos da
natureza para Sócrates, verificamos também uma mudança essencial
em todo o projeto filosófico.
Antes de conhecermos Sócrates, vamos falar um
pouco sobre os chamados sofistas, que em sua época eram a
marca registrada de Atenas.
Que se abram as cortinas, Sofia! A história do
pensamento é um drama de muitos atos.
O HOMEM NO CENTRO
(Páginas 77-78.)
Por volta de 450 a.C., Atenas transformou-se no
centro cultural do mundo grego. A partir dessa época, a
filosofia tomou um novo rumo.
Os filósofos naturais eram sobretudo
pesquisadores naturais. Eles ocupam, portanto, um lugar muito
importante na história da ciência. Depois deles, o centro de
interesse em Atenas se deslocou para o homem e para sua posição
na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se pouco a pouco uma
democracia com assembléias populares e tribunais. Um pressuposto
para a democracia era o fato de que as pessoas recebiam educação
suficiente para poder participar dos processos democráticos. Em
nossos dias, podemos ver o quanto uma jovem democracia precisa
de um povo esclarecido. Entre os atenienses era particularmente
importante dominar a arte de bem falar, a retórica.
Não demorou para que um grupo de mestres e
filósofos itinerantes, vindos das colônias gregas, se
concentrasse em Atenas. Eles se autodenominavam sofistas,
eram pessoas estudadas, versadas em determinado assunto, e
ganhavam a vida em Atenas ensinando os cidadãos.
Os sofistas tinham um importante elemento comum
com os filósofos naturais: eles também viam com olhos muito
críticos a mitologia tradicional. Ao mesmo tempo, porém, os
sofistas simplesmente rejeitavam tudo o que consideravam
especulação filosófica desnecessária. Para eles, ainda que
houvesse respostas para muitas questões filosóficas, ninguém
jamais seria capaz de encontrar respostas realmente seguras e
definitivas para os mistérios da natureza e do universo. Este
ponto de vista é conhecido na filosofia como ceticismo.
Mas ainda que não possamos encontrar uma resposta
para todos os mistérios da natureza, sabemos que somos pessoas e
que precisamos aprender a conviver umas com as outras. Os
sofistas resolveram, então, dedicar-se à questão do homem e de
seu lugar na sociedade.
“O homem é a medida de todas as coisas”, disse o
sofista Protágoras (c. 487-420 a.C.). Com isto ele queria
dizer que o certo e o errado, o bem e o mal sempre tinham de ser
avaliados em relação às necessidades do homem. Quando perguntado
se acreditava nos deuses gregos, Protágoras dizia: “Dos deuses
nada posso dizer de concreto […] pois nesse particular são
muitas as coisas que ocultam o saber: a obscuridade do assunto e
a brevidade da vida humana”. Chamamos de agnóstico aquele
que não é capaz de afirmar categoricamente se existe ou não um
Deus.
Via de regra, os sofistas eram homens que tinham
feito longas viagens e, por isso mesmo, tinham conhecido
diferentes sistemas de governo. Usos, costumes e leis das
cidades-Estados podiam variar enormemente. Sob este pano de
fundo, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que
seria natural e o que seria criado pela sociedade.
Com isto, eles criaram na cidade-Estado de Atenas as bases para
uma crítica social.
Eles puderam mostrar, por exemplo, que uma
expressão como “sentimento natural de pudor” era algo que não se
sustentava. Pois se o pudor e a vergonha fossem uma coisa
natural, então eles tinham de ser características inatas. Mas
será que tais características são inatas, Sofia, ou será que a
sociedade as criou? Para pessoas que já viajaram muito, a
resposta simplesmente seria a seguinte: o medo de se mostrar
despido a outras pessoas não é uma coisa natural ou inata. O
fato de se ter ou não vergonha disso está ligado sobretudo aos
usos e costumes de uma sociedade.
Você pode imaginar como foram inflamadas as
discussões que os sofistas incitaram na sociedade de Atenas
quando afirmaram que não havia normas absolutas para o
certo e o errado. Ao contrário deles, Sócrates tentou mostrar
que algumas normas são realmente absolutas e de validade
universal.
QUEM FOI SÓCRATES?
(Páginas 78-79.)
Sócrates (470-399 a.C.) talvez seja a personagem
mais enigmática de toda a história da filosofia. Ele não
escreveu uma única linha e, não obstante, está entre os que
maior influência exerceram sobre o pensamento europeu. Seu fim
trágico talvez seja o que o tornou famoso até mesmo entre os que
conhecem pouco de filosofia.
Sabemos que Sócrates nasceu em Atenas e que ali
passou toda a sua vida, sobretudo nas praças dos mercados e nas
ruas, onde conversava com toda a sorte de pessoas. Sócrates
dizia que a relva e as árvores do campo não podiam lhe ensinar
nada. E ele era capaz de ficar horas parado, totalmente
mergulhado em pensamentos.
Enquanto viveu já era visto como uma pessoa
enigmática e logo depois de sua morte foi considerado o fundador
das mais diversas correntes filosóficas. E justamente porque era
tão enigmático e porque o que dizia podia ser interpretado de
diferentes formas é que correntes filosóficas tão diferentes
puderam reivindicá-lo como o precursor de seus princípios.
Uma coisa é certa: Sócrates era feio de doer. Era
baixo e gordo, tinha olhos que pareciam querer saltar das
órbitas e o nariz arrebitado. Mas seu interior era
“absolutamente maravilhoso”, conforme diziam. E mais: diziam que
se poderiam vasculhar o presente e o passado e não se
encontraria ninguém comparável a ele.
Apesar disso, Sócrates foi condenado à morte por
sua atividade como filósofo.
Conhecemos a vida de Sócrates sobretudo através
de Platão, seu discípulo e também um dos maiores
filósofos da história.
Platão escreveu muitos Diálogos, ou
conversas filosóficas, nos quais Sócrates aparece.
Quando Platão dá a palavra a Sócrates, não
podemos afirmar com toda a certeza que foi Sócrates quem
realmente disse tais palavras. Por isso não é fácil separar os
ensinamentos de Sócrates dos de Platão. O mesmo problema vale
também para muitas outras personalidades da história que não nos
legaram uma obra escrita. O exemplo mais conhecido é o de Jesus
Cristo. Não podemos saber ao certo se o “Jesus histórico”
realmente disse o que Mateus ou Lucas dizem que ele disse.
Assim, será para sempre um mistério o que o “Sócrates histórico”
realmente disse.
Apesar disso, não é muito importante saber quem
Sócrates “realmente” foi. É sobretudo a imagem que Platão pintou
dele que inspira o pensamento ocidental há quase dois mil e
quatrocentos anos.
A ARTE DO DIÁLOGO
(Páginas 80-81.)
O ponto central de toda a atuação de Sócrates
como filósofo estava no fato de que ele não queria propriamente
ensinar as pessoas. Para tanto, em suas conversas, Sócrates dava
a impressão de ele próprio querer aprender com seu interlocutor.
Ao “ensinar”, ele não assumia a posição de um professor
tradicional. Ao contrário, ele dialogava, discutia.
Mas Sócrates não teria se tornado um filósofo
famoso se apenas tivesse prestado atenção ao que os outros
diziam. E é claro que também não teria sido condenado à morte
por causa disso. Geralmente, no começo de uma conversa, Sócrates
só fazia perguntas, como se não soubesse de nada. Durante a
conversa, freqüentemente conseguia levar seu interlocutor a ver
os pontos fracos de suas próprias reflexões. Uma vez pressionado
contra a parede, o interlocutor acabava reconhecendo o que
estava certo e o que estava errado.
Dizem que a mãe de Sócrates era parteira, e o
próprio Sócrates costumava comparar a atividade que exercia com
a de uma parteira. Não é a parteira quem dá à luz o bebê. Ela só
fica por perto para ajudar durante o parto. Sócrates achava,
portanto, que sua tarefa era ajudar as pessoas a “parir” uma
opinião própria, mais acertada, pois o verdadeiro conhecimento
tem de vir de dentro e não pode ser obtido “espremendo-se” os
outros. Só o conhecimento que vem de dentro é capaz de revelar o
verdadeiro discernimento.
Deixe-me explicar melhor: a capacidade de dar à
luz é uma característica natural. Da mesma forma, todas as
pessoas podem entender as verdades filosóficas, bastando para
isto usar a sua razão. Quando uma pessoa “toma juízo”, ela
simplesmente traz para fora algo que já está dentro de si.
E justamente porque fingia que não sabia de nada,
Sócrates forçava as pessoas a usar a razão. Sócrates era capaz
de se fingir ignorante, ou de mostrar-se mais tolo do que
realmente era. Chamamos a isto de ironia socrática. Foi
assim que ele conseguiu expor as fraquezas do pensamento dos
atenienses. E isto podia acontecer bem no meio da praça do
mercado, no meio de toda a gente. Um encontro com Sócrates podia
significar expor-se ao ridículo, ao riso do grande público.
Não é de espantar, portanto, que ele incomodasse
e irritasse muitas pessoas, sobretudo os que detinham poder na
sociedade. Sócrates dizia que Atenas era como uma égua
preguiçosa e ele um mosquito que lhe picava o flanco para
mostrar-lhe que ela ainda estava viva. (O que fazemos com os
mosquitos, Sofia? Você pode me dizer?)
UMA VOZ DIVINA
(Páginas 81-82.)
Mas Sócrates não vivia pegando no pé das pessoas
apenas porque queria atormentá-las. Havia qualquer coisa dentro
dele que não lhe deixava outra saída senão esta. Ele sempre
dizia que ouvia uma voz divina dentro de si. Sócrates
protestava, por exemplo, contra o fato de as pessoas serem
condenadas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar seus
inimigos políticos. No fim, isto lhe custou a própria vida.
No ano de 399 a.C. ele foi acusado de “corromper
a juventude” e de “não reconhecer a existência dos deuses”. Por
uma maioria apertada, Sócrates foi considerado culpado por um
júri de cinqüenta pessoas.
Ele poderia muito bem ter pedido clemência. E
poderia ter salvado sua vida se concordasse em deixar Atenas.
Mas se tivesse feito isto, não teria sido Sócrates. O ponto é
que ele considerava sua própria consciência – e a verdade – mais
importante do que sua vida. Sócrates afirmou o tempo todo que
tudo o que fizera fora para o bem do Estado. Não adiantou. Pouco
depois, na presença de seus amigos mais íntimos, bebeu um cálice
de cicuta.
Por quê, Sofia? Por que Sócrates teve de morrer?
Até hoje as pessoas fazem esta pergunta. Mas ele não foi o único
na história a ir até as últimas conseqüências e pagar suas
idéias com a própria vida. Já citei aqui Jesus Cristo, e entre
Jesus e Sócrates podemos estabelecer diversos paralelos. Vou
mencionar apenas alguns.
Jesus e Sócrates já eram considerados pessoas
enigmáticas no tempo em que viveram. Nenhum dos dois deixou
qualquer registro escrito de suas idéias. Assim, não nos resta
outra saída senão confiar na imagem deles que nos foi legada por
seus discípulos. Uma coisa, porém, é certa: ambos eram mestres
da retórica. Além disso, ambos tinham tanta autoconfiança no que
diziam que podiam tanto arrebatar quanto irritar seus ouvintes.
Para completar, ambos acreditavam falar em nome de uma coisa que
era maior do que eles mesmos. Eles desafiavam os que detinham o
poder na sociedade, porque criticavam todas as formas de
injustiça e de abuso de poder. No fim, esta forma de agir lhes
custou a vida.
Também há paralelos entre os processos de
acusação de Jesus e de Sócrates. Ambos podiam ter pedido
clemência e, com isto, ter salvado suas vidas. Mas eles
acreditavam estar traindo sua missão se não fossem até as
últimas conseqüências. E o fato de terem enfrentado a morte de
cabeça erguida lhes garantiu a fidelidade das pessoas mesmo
depois de sua morte.
Ao traçar esses paralelos entre Jesus Cristo e
Sócrates, não estou querendo colocar um sinal de igual entre os
dois. Quero dizer apenas que ambos tinham uma mensagem a
transmitir e que esta mensagem estava indissoluvelmente
associada à sua coragem pessoal.
UM CURINGA EM ATENAS
(Páginas 82-84.)
Sócrates, Sofia! Ainda não dissemos tudo o que
queríamos sobre ele. O pouco que dissemos foi sobre o seu
método. Mas como era o seu projeto filosófico?
Sócrates foi contemporâneo dos sofistas. Como
eles, Sócrates também se ocupava das pessoas e da vida das
pessoas, e não dos problemas dos filósofos naturais. Alguns
séculos mais tarde, um filósofo romano – Cícero – disse
que Sócrates havia trazido a filosofia do céu para a terra,
transformado cidades e casas em sua morada e levado as pessoas a
refletir sobre a vida e os costumes, sobre o bem e o mal.
Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto muito
importante. Ele não se considerava um sofista, isto é, uma
pessoa instruída, sábia. Ao contrário dos sofistas, ele não
cobrava absolutamente nada por seus ensinamentos. Não, Sócrates
se autodenominava filósofo, no sentido mais verdadeiro da
palavra. Um “filo-sofo” é, na verdade, um “amante da sabedoria”,
alguém cujo objetivo é chegar à sabedoria.
Você está bem acomodada, Sofia? É muito
importante para o restante do curso que você entenda bem a
diferença entre um sofista e um filósofo. Os sofistas cobram por
suas exposições mirabolantes, e a história registra que tais
“sofistas” têm aparecido e desaparecido com bastante freqüência.
Estou pensando agora naqueles professores e nos sabichões que ou
estão satisfeitos com o pouco que sabem, ou então vivem se
gabando de que sabem um monte de coisas das quais na verdade não
fazem a menor idéia. Você certamente já encontrou “sofistas”
como esses em sua vida. Um verdadeiro filósofo, Sofia, é alguém
completamente diferente; é o extremo oposto.
Um filósofo sabe muito bem que, no fundo, ele
sabe muito pouco, justamente por isto ele vive tentando chegar
ao verdadeiro conhecimento. Sócrates foi uma dessas raras
pessoas. Ele sabia muito bem que nada sabia sobre a vida e o
mundo. E agora é que vem o mais importante: o fato de saber tão
pouco não o deixava em paz.
Um filósofo, portanto, é uma pessoa que reconhece
que há muita coisa além do que ele pode entender e vive
atormentado por isto. Desse ponto de vista, ele é mais
inteligente do que todos que vivem se vangloriando de seus
pretensos conhecimentos. “Mais inteligente é aquele que sabe que
não sabe”, lembra-se? O próprio Sócrates dizia que a única coisa
que sabia era que não sabia de nada. Grave bem esta afirmação,
pois esta confissão é uma coisa rara mesmo entre os filósofos.
Além disso, é tão perigoso fazer uma declaração dessas assim
publicamente que ela pode lhe custar a vida. Os que
questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é
perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil
respostas.
Você já ouviu a história das roupas novas do
imperador? Na verdade, o imperador estava completamente nu, mas
nenhum de seus súditos ousava lhe dizer isto. De repente, uma
criança gritou que o imperador estava pelado. Era uma criança
corajosa, Sofia. Da mesma forma, Sócrates ousou mostrar às
pessoas que elas sabiam muito pouco. Já nos referimos às
semelhanças entre as crianças e os filósofos, lembra-se?
Para ser mais preciso: a humanidade está diante
de questões importantes, para as quais não é fácil encontrar uma
resposta adequada. E então abrem-se duas possibilidades: podemos
simplesmente enganar a nós mesmos e ao resto do mundo como se
soubéssemos de tudo o que vale a pena saber, ou então podemos
simplesmente fechar os olhos para essas questões importantes e
desistir para sempre de ir em frente. Isto divide a humanidade
em duas partes. De um modo geral, as pessoas ou acham que estão
cem por cento certas, ou então se mostram indiferentes. (Esses
dois tipos de pessoas são aquelas que ficam se arrastando lá
embaixo da pelagem do coelho!) É como separar as cartas de um
baralho, Sofia. Fazemos um montinho com as cartas pretas e outro
com as vermelhas. De vez em quando, porém, aparece um curinga:
uma carta que não é nem de copas, nem de paus, nem de ouros, nem
de espadas. Em Atenas, Sócrates era como um curinga: nem cem por
cento seguro, nem indiferente. Ele sabia apenas que nada sabia,
e isto o atormentava. Então tornou-se filósofo, isto é, alguém
que não desiste, que busca incansavelmente chegar ao
conhecimento.
Dizem que um dia um cidadão de Atenas perguntou
ao oráculo de Delfos quem seria o homem mais inteligente de
Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates. Quando Sócrates ficou
sabendo disso, admirou-se, para dizer o mínimo. (Acho mesmo é
que ele deu boas gargalhadas, Sofia.) Imediatamente foi até a
cidade e procurou um homem que ele e outras pessoas consideravam
muito inteligente. Mas quando viu que este homem não era capaz
de responder claramente às suas perguntas, Sócrates entendeu que
o oráculo tinha razão.
Para Sócrates era importante encontrar um
alicerce seguro para os nossos conhecimentos. Ele acreditava que
este alicerce estava na razão humana. E porque acreditava muito
na razão humana, Sócrates foi também um racionalista
convicto.
O CONHECIMENTO DO QUE É CERTO
LEVA AO AGIR CORRETO
(Páginas 84-85.)
Como já disse, Sócrates acreditava ouvir uma voz
divina dentro de si, e esta “consciência” lhe dizia o que era
certo. Para ele, quem sabe o que é bom acaba fazendo o bem.
Sócrates acreditava que o conhecimento do que é certo leva ao
agir correto. E só quem faz o que é certo – assim dizia Sócrates
– pode se transformar num homem de verdade. Quando agimos
erroneamente, isto acontece porque não sabemos como fazer
melhor. Por isso é tão importante ampliar nossos conhecimentos.
Sócrates estava preocupado justamente em encontrar definições
claras e válidas universalmente para o que é certo e o que é
errado. Contrariamente aos sofistas, ele acreditava que a
capacidade de distinguir entre o certo e o errado estava na
razão, e não na sociedade.
Talvez não seja muito fácil para você digerir
esta última frase, Sofia. Vou tentar novamente: Sócrates achava
impossível alguém ser feliz se agisse contra suas próprias
convicções. E aquele que sabe como se tornar uma pessoa feliz
certamente tentará fazê-lo. Por isso é que faz a coisa certa
aquele que sabe o que é certo. Pois ninguém deseja ser infeliz,
não é mesmo?
O que você acha, Sofia? Será que você conseguiria
ser feliz se tivesse que viver repetindo coisas que lá no fundo
do seu coração você não acha certas? Há muitas pessoas que
mentem o tempo todo, roubam e caluniam. Muito bem, elas sabem
perfeitamente que isto não é certo – ou justo, se você preferir.
Você acha que isto as deixa felizes? Sócrates achava que não.
Aristóteles
(384-322 a.C.) foi aluno da Academia de Platão. Era natural da
Macedônia e filho de um médico famoso. Seu projeto filosófico
está no interesse da natureza viva. Ele foi o último grande
filósofo grego e também o primeiro grande biólogo da Europa.
Utilizava-se da razão e também dos sentidos em seus estudos.
Criou uma linguagem técnica usada ainda hoje pela ciência e
formulou sua própria filosofia natural.
Aristóteles
discordava em alguns pontos de Platão. Não acreditava que
existisse um mundo das idéias abrangedor de tudo existente;
achava que a realidade está no que percebemos e sentimos com os
sentidos, que todas as nossas idéias e pensamentos tinham
entrado em nossa consciência através do que víamos e ouvíamos e
que o homem possuía uma razão inata, mas não idéias inatas.
Para Atistóteles,
tudo na natureza possuía a probabilidade de se concretizar numa
realidade que lhe fosse inerente. Assim, uma pedra de granito
poderia se transformar numa estátua desde que um escultor se
dispusesse a escupi-la. Da mesma forma, de um ovo de galinha
jamais poderia nascer um ganso, pois essa característica não lhe
é inerente.
Aristóteles
acreditava que na natureza havia uma relação de causa e efeito e
também acreditava na causa da finalidade. Deste modo, não queria
saber apenas o porquê das coisas, mas também a intenção, o
propósito e a finalidade que estavam por trás delas. Para ele,
quando reconhecemos as coisas, as ordenamos em diferentes grupos
ou categorias e tudo na natureza pertence a grupos e subgrupos.
Ele foi um organizador e um homem extremamente meticuloso.
Também fundou a ciência da lógica.
Aristóteles
dividia as coisas em inanimadas (precisavam de agentes externos
para se transformar) e criaturas vivas (possuem dentro de si a
potencialidade de transformação). Achava que o homem estava
acima de plantas e animais porque, além de crescer e de se
alimentar, de possuir sentimentos e capacidade de locomoção,
tinha a razão. Também acreditava numa força impulsora ou Deus (a
causa primordial de todas as coisas).
Sobre a ética,
Aristóteles pregava a moderação para que se pudesse ter uma vida
equilibrada e harmônica. Achava que a felicidade real era a
integração de três fatores: prazer, ser cidadão livre e
responsável e viver como pesquisador e filósofo. Cria também que
devemos ser corajosos e generosos, sem aumentar ou diminuir a
dosagem desses dois itens. Aristóteles chamava o homem de ser
político. Citava formas de governo consideradas boas como a
monarquia, a aristocracia e a democracia. Acreditava que sem a
sociedade ao nosso redor não éramos pessoas no verdadeiro
sentido do termo.
Para ele, a
mulher era "um homem incompleto". Pensava que todas as
características da criança já estavam presentes no sêmen do pai.
Sendo assim, o homem daria a forma e a mulher, a substância.
Essa visão distorcida predominou durante toda a Idade Média.