marta alexandra

se não te calas mando-te embora 

Domingo sair de casa pelo fim da manhã, comprar o jornal procurar numa casa de comidas o almoço que levará para casa. Hoje e excepcionalmente o patrão anda a trabalhar, atrapalhar, dirão os empregados azafamados de um lado para o outro. Discute com a empregada. Manda-a para outra zona do balcão, a servir refeições, e fica a atender os clientes que esperam.
Apenas a vê passar duas ou três vezes, de calções e blusa, branco e castanho.
Resta-lhe muito pouco tempo para tentar reconstituir o que ao momento retrata como uma rechonchudinha de 14, 15 anos, pele leitosa, os seios acabados de fazer. Fica-se entretido com suas companheiras de bicha, nova contrariedade, apenas duas entre bastantes homens: uma miúda tímida que dois adultos ali depositaram com a incumbência de fazer o recado e voltar a casa (a quem cheira demorada e disfarçadamente sorrindo ao esforço que faz para manter os braços rígidos ao longo do corpo), e uma velha de carnes agarradas aos ossos que tagarela com o vizinho da frente, e a quem prefere ignorar. A entrada de clientes do snéque propriamente dito obriga aqueles que esperam junto à porta a encostarem-se. Toca ao de leve num braço que de rígido se torna fugidio. Ajusta os óculos debaixo da testa, procura a empregada adolescente, não a consegue avistar. Pensa: as adolescentes são do mais parecido que há com o leite materno, pensa. Sente que a velha lhe rosna, os olhos pelos dentes, sente. Os frangos chegam e são distribuídos por todos. Não voltou a ver a empregada. No regresso hesita: tem dois caminhos, distâncias iguais, um pelo fresco mas deserto das pequenas ruas do burgo, outro atravessando uma avenida habitualmente movimentada mas sem sombras. Opta pelo sol. O calor esvaziou a cidade. Arrepende-se de não ter ido pela sombra. Tenta justificar-se: não consome pornos seja em revista, livro ou vídeo. Prefere passear-se pelas ruas por entre as mulheres e imaginá-las com um homem, imaginar-se esse homem. Muitas, pela idade, nem homem terão. Deste modo pode-se permitir a corpos com quem, sente-o, nunca seria capaz de estar. Vê-as gemendo, cheira os seus corpos despidos que percorre lambuzando, alambaza-se escolhendo-as, percorre-lhes o hálito dos seios que cheira demoradamente, os bicos onde deixa resfolegar a glande, excitando e excitando-se. Com o dedinho desperta-lhes cócegas nos sítios habituais. Apascenta o seu desejo, abastece-o de satisfação e é aí que lhes fica a observar a voz e o rosto colocando-os como a voz e o rosto do prazer. Como grunhirá aquela de caralho no entrepernas? E essa, que jeito dará aos olhos e aos lábios quando se vem? É um prazer barato, embora os palpites para passar por uma zona mais propícia porque mais movimentada, uma coutada, por vezes lhe saiam furados, como é o caso. Ao chegar a casa, e enquanto organiza a refeição, decide aproveitar a imagem da adolescente vista de fugida, juntando-a às recordações guardadas desde que a descobrira, dos últimos três ou quatro Domingos, reconstruindo o filme a partir dessa meia-dúzia de fotografias arquivadas. Afoita-se mesmo a acrescentar mais alguém ao enredo: não lhe apetece o gastadíssimo mãe e filha, será ele quem as apresentará uma à outra, na sequência final. Haverá duas cenas prévias para apresentação de cada uma. Acabou de comer, apetece-lhe lavar o prato e é o que faz. Acha que isso não tem importância. Sem dúvida que a pequena é virgem. Naquela idade deixam-se apalpar e beijar, apaixonam-se perdidamente, trocam confidências sobre os mistérios da carne, mas protegem-se dos caminhos aparentemente mais tortuosos que por vezes as mãos e as propostas dos rapazes insinuam. Onde meter a iniciação? Logo na abertura? E porque não guardar o grande momento para a companhia da velha, precisamente destinada ao serenar da rapariga? Enquanto abre a lata de cerveja revê os episódios concebidos, mas como quem despe caras não se veste apenas de corações ainda precisa de encontrar fisicamente a segunda mulher. Nem todos fomos favorecidos com a graça de uma boa capacidade de abstração visual. Mesmo tendo desistido do cinema e do teatro quando se apercebeu das suas limitações físicas, nunca deixou de gostar de pintura. Também gostava de revistas de fotografia. Coleccionava imagens porque sabia que mal delas retirasse os olhos as perderia para sempre, ficaria com a recordação de uma emoção, algumas cores difusas, significados e outras apreciações técnicas, uma mistura de emoções e deambulações críticas, é pena não dispôr de um catálogo, tenho de ir à caça de uma fotografia. Sai para tomar a bica. Escolhe um canto, no ângulo dos espelhos que forram as paredes, permitindo-lhe apontar os faróis para o alvo sem dar muito nas vistas, fazendo cálculos sobre ângulos de reflexão e evitando que um espelho demasiado perto o faça encontrar-se de frente com a própria imagem. Terei vergonha de si próprio? Claro que tenho, ninguém se livra do peso que tem, ou não tem. Verifica todas as mulheres presentes. Normalmente escolhe apenas as que estão sozinhas. Teme ser apanhado pelo olhar de um homem. Para contracenar com a adolescente precisa de uma velha, gorda, de corpo muito branco e proporções esteatopigicas. Sempre se interrogou sobre os porquês de um ideal de beleza paleolítico. Um exercício de pedogerontofilia, neologismeia murmurando um sorriso furtado e furtivo. Por vezes lembra-se de que nem seria capaz de representar as personagens que fabrica. Claro que não crio para viver, pensa, e ao saber à partida da distância insuperável entre realidade e ficção permite-se a tudo porque nada acontecerá. Conhece todas as mulheres que quer normalmente como num filme, concentrando-se pode senti-lo com todos os sentidos. Por vezes acontece-lhe pensar que é um realizador feliz porque a obra que cria nunca será produzida e apenas existe na forma perfeita em que a imagina. Sabe que qualquer um desses filmes o frustraria, se realizado, e o deixaria impotente, se vivido. Há ali uma, de saia em cilindro e blusa fosforescente que deixa ver o volume de uma estranha armação interior. Corpete? soutien? apara-seios? Uma vez desmontado deve resultar em mamilos escorrendo pelo peito abaixo com duas pérolas agachadas num sovaco. Podia exigir-lhe que viesse sempre de combinação, e que nunca a tirasse. Devia pôr-se de gatas, fingindo esfregar o chão. Iria por detrás. Levantaria a lingerie com uma mão enquanto a outra começaria a puxar o elástico das enormes cuecas que lhe faria descer até aos joelhos, amarrando-lhe as pernas que abriria e obrigando-a a uma flexão, o bastante para se aproximar e passar-lhe a cabeça pelo apertado rego apoiando-se nas almofadas de carne muito branca com traços de varizes. Nesta idade vagina sinilis obriga a vaselina. No plano seguinte dir-lhe-á: queres seco ou molhado, e ela pedirá: molhado, e virar-se-á para trás começando-lhe a fazer uma chupeta. A mulher levanta-se, de vez em quando vigiava-o, mordera o esquema. Talvez estivesse a pensar este tipo deseja-me, com este corpo e nesta idade, e orgulhosa fremisse de anseio. Nos últimos minutos galara-a á fartazana. Ao sair aponta-lhe uma cara de míssil. Afinal esta não queria. Vai ter de usar outra vez a mulher-a-dias. Não consegue trabalhar com uma mulher que o olhou daquela maneira. Tem escrúpulos em usar a mulher-a-dias porque a voltará a ver, terá de falar com ela estar com ela de carne e osso e sentir-se-á mal, incomodado, desastrado. Não entra mais ninguém que sirva. Gosta de velhas gordas, mulheres de nadegueiros elefantinos e super mamas. Paga. Sai. Ao voltar a casa decide aceitar a mulher-a-dias. Como referência física, entenda-se. Uma máscara para visualisar a nova personagem. Gosta sobretudo de mulheres desconhecidas, ao despirem-se pela primeira vez na sua frente as mulheres são sempre diferentes, embora quando mais tarde se vestem se aproximem de serem todas iguais. De conhecer uma mulher pela primeira vez. Lembra-se de quando conheceu a mulher a dias, pergunta-se se a conhecerá verdadeiramente. De como a desejou. De como a escutava limpando o pó e contando a vida conjugal, clássico e lusitano enredo de bebedeira e porrada, os problemas com os filhos, os saldos, os acontecimentos das telenovelas. De como a confortava. Lembra-se da primeira vez. De quando a mulher-a-dias aceitou o convite para almoçar. Quando se prontificou a aplicar-lhe nas costas uma pomada para as nódoas negras. Quando conheceu a pele atrás da roupa. Que será também mulher-a-dias, e também encontrada por anúncio de jornal. Virá todos os Sábados pela manhã, ou melhor: encontra-lo--á em casa apenas aos Sábados pela manhã. O que há verdadeiramente a limpar e arrumar já terá sido feito na Quinta-feira. Trazer-lhe-á pão fresco para o fim-de-semana, que deixará na cozinha. Ainda deitado, despertou com o abrir da porta e deixa-se agora acordinhar devagarinho, ouvindo-lhe os passos. Na casa de banho sabe-a a preparar-se, finge que dorme até que ela levante a coberta e sob ela se enfie, uma toupeira que o procura no ventre. Ali o beija, e ele finge acordar. Levanta-se. Ela ajoelha-se. Exigiu-lhe que viesse sempre de combinação, e que nunca a tirasse. Põe-se sempre assim, de gatas, fingindo esfregar o chão. Vai-lhe por detrás. Levanta-lhe a lingerie com uma mão enquanto a outra começa a puxar o elástico das enormes cuecas que lhe faz descer até aos joelhos, amarrando-lhe as pernas que abre obrigando-a a uma flexão, o bastante para se aproximar e lhe passar a cabeça pelo apertado rego apoiando-se nas almofadas de carne muito branca com traços de varizes. Nesta idade vagina sinilis obriga a vaselina. Diz-lhe: queres seco ou molhado, e ela pede: molhado, e vira-se para trás começando-lhe a fazer uma chupeta. Não se consegue conter. As mãos gretadas untando de vaselina. A penetração anal. Os lábios descaídos. O ar triste com que lhe pediu que a possua pela frente. A sua recusa. Vem-se. A submissão com que ela veio mesmo assim lambê-lo, desmaiado mas ainda com o gosto, lavando-o com a língua e como lhe disse: vista-se e comece o seu trabalho, enquanto tomo o pequeno-almoço. Agora tem de ir buscar qualquer coisa para se limpar. No Sábado seguinte teria então havido uma anterior Sexta. Aliás uma Sexta à noite, o segundo capítulo. Esperara a empregada à saída do bar. Seguira-a uma dezena de metros até que a alcançara. Cumprimentou-a. Ela olhara para ele, electrizada. Convidou-a para o acompanhar até a casa. Ela seguira-o sem qualquer resistência, cedendo a um momento hipnótico, inexplicável. Deixara-a a ver televisão enquanto preparou um jantar que comeram á luz de velas. Cada vez que falava a rapariga parava de comer para não perder uma só das suas palavras. Embriagara-a. Levara-a já sonolenta para a cama onde a despira e beijara por todo o corpo até lhe dar o primeiro orgasmo. Deixara-a dormindo. Nesse sábado estará à espera da mulher-a-dias. Temos uma hóspede, diz-lhe. Está a dormir na minha cama. A mulher irá acordá-la, afagá-la, a penumbra azulecida da janela fechada. Ele está à tua espera, avisa. Despe-se. Deita-se com ela e excita-a. Ele entra. A rapariga com medo, a mulher abrindo-lhe as pernas com esforço, sempre com palavras serenas, pondo-a no ponto. E ela deitar-lhe-ia a cabeça no regaço enquanto ele se despe e ele iria devagarinho. Ela colocar-lhe-ia as mãos gretadas entre os dentes para que os gritos da rapariga se não soltassem. Acabariam ambos ofegantes e abraçados no seu regaço. A miúda arrombada e inaugurada, ela limpando-lhe as lágrimas com o lençol. A campainha, esse perseguidor implacável dos amantes, toca. Roga duas ou três pragas. Vai à porta, furioso. É a mulher a dias. - O meu homem foi para a bola e eu disse que ia a casa da minha prima. De modo que vim ao nosso ninho fazer-te uma visitinha. A ver se estavas aqui com alguma galdéria. Sabe o que se vai seguir. Terá de a ouvir falar dos seus pequenos problemas. Pedir-lhe-á que se cale. Se não te calas mando-te embora - responder-lhe-á. E depois irão para a cama, chupa-la-á demoradamente, e em troca, quando se sentir satisfeita, ela há-de-lhe bater uma punheta.

 a. pedro correia | adolfo v. macedo | joão cardoso | josé l. peixoto | joão p. figueiredo | manuel portela | marta alexandra

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