Domingo sair de casa pelo fim da manhã, comprar o jornal procurar numa casa de comidas o
almoço que levará para casa. Hoje e excepcionalmente o patrão anda a trabalhar, atrapalhar,
dirão os empregados azafamados de um lado para o outro. Discute com a empregada. Manda-a para outra zona
do balcão, a servir refeições, e fica a atender os clientes que esperam.
Apenas a vê passar duas ou três vezes, de calções e blusa, branco e castanho.
Resta-lhe muito pouco tempo para tentar reconstituir o que ao momento retrata como uma rechonchudinha de 14, 15
anos, pele leitosa, os seios acabados de fazer. Fica-se entretido com suas companheiras de bicha, nova contrariedade,
apenas duas entre bastantes homens: uma miúda tímida que dois adultos ali depositaram com a incumbência
de fazer o recado e voltar a casa (a quem cheira demorada e disfarçadamente sorrindo ao esforço que
faz para manter os braços rígidos ao longo do corpo), e uma velha de carnes agarradas aos ossos que
tagarela com o vizinho da frente, e a quem prefere ignorar. A entrada de clientes do snéque propriamente
dito obriga aqueles que esperam junto à porta a encostarem-se. Toca ao de leve num braço que de rígido
se torna fugidio. Ajusta os óculos debaixo da testa, procura a empregada adolescente, não a consegue
avistar. Pensa: as adolescentes são do mais parecido que há com o leite materno, pensa. Sente que
a velha lhe rosna, os olhos pelos dentes, sente. Os frangos chegam e são distribuídos por todos.
Não voltou a ver a empregada. No regresso hesita: tem dois caminhos, distâncias iguais, um pelo fresco
mas deserto das pequenas ruas do burgo, outro atravessando uma avenida habitualmente movimentada mas sem sombras.
Opta pelo sol. O calor esvaziou a cidade. Arrepende-se de não ter ido pela sombra. Tenta justificar-se:
não consome pornos seja em revista, livro ou vídeo. Prefere passear-se pelas ruas por entre as mulheres
e imaginá-las com um homem, imaginar-se esse homem. Muitas, pela idade, nem homem terão. Deste modo
pode-se permitir a corpos com quem, sente-o, nunca seria capaz de estar. Vê-as gemendo, cheira os seus corpos
despidos que percorre lambuzando, alambaza-se escolhendo-as, percorre-lhes o hálito dos seios que cheira
demoradamente, os bicos onde deixa resfolegar a glande, excitando e excitando-se. Com o dedinho desperta-lhes cócegas
nos sítios habituais. Apascenta o seu desejo, abastece-o de satisfação e é aí
que lhes fica a observar a voz e o rosto colocando-os como a voz e o rosto do prazer. Como grunhirá aquela
de caralho no entrepernas? E essa, que jeito dará aos olhos e aos lábios quando se vem? É
um prazer barato, embora os palpites para passar por uma zona mais propícia porque mais movimentada, uma
coutada, por vezes lhe saiam furados, como é o caso. Ao chegar a casa, e enquanto organiza a refeição,
decide aproveitar a imagem da adolescente vista de fugida, juntando-a às recordações guardadas
desde que a descobrira, dos últimos três ou quatro Domingos, reconstruindo o filme a partir dessa
meia-dúzia de fotografias arquivadas. Afoita-se mesmo a acrescentar mais alguém ao enredo: não
lhe apetece o gastadíssimo mãe e filha, será ele quem as apresentará uma à outra,
na sequência final. Haverá duas cenas prévias para apresentação de cada uma.
Acabou de comer, apetece-lhe lavar o prato e é o que faz. Acha que isso não tem importância.
Sem dúvida que a pequena é virgem. Naquela idade deixam-se apalpar e beijar, apaixonam-se perdidamente,
trocam confidências sobre os mistérios da carne, mas protegem-se dos caminhos aparentemente mais tortuosos
que por vezes as mãos e as propostas dos rapazes insinuam. Onde meter a iniciação? Logo na
abertura? E porque não guardar o grande momento para a companhia da velha, precisamente destinada ao serenar
da rapariga? Enquanto abre a lata de cerveja revê os episódios concebidos, mas como quem despe caras
não se veste apenas de corações ainda precisa de encontrar fisicamente a segunda mulher. Nem
todos fomos favorecidos com a graça de uma boa capacidade de abstração visual. Mesmo tendo
desistido do cinema e do teatro quando se apercebeu das suas limitações físicas, nunca deixou
de gostar de pintura. Também gostava de revistas de fotografia. Coleccionava imagens porque sabia que mal
delas retirasse os olhos as perderia para sempre, ficaria com a recordação de uma emoção,
algumas cores difusas, significados e outras apreciações técnicas, uma mistura de emoções
e deambulações críticas, é pena não dispôr de um catálogo, tenho
de ir à caça de uma fotografia. Sai para tomar a bica. Escolhe um canto, no ângulo dos espelhos
que forram as paredes, permitindo-lhe apontar os faróis para o alvo sem dar muito nas vistas, fazendo cálculos
sobre ângulos de reflexão e evitando que um espelho demasiado perto o faça encontrar-se de
frente com a própria imagem. Terei vergonha de si próprio? Claro que tenho, ninguém se livra
do peso que tem, ou não tem. Verifica todas as mulheres presentes. Normalmente escolhe apenas as que estão
sozinhas. Teme ser apanhado pelo olhar de um homem. Para contracenar com a adolescente precisa de uma velha, gorda,
de corpo muito branco e proporções esteatopigicas. Sempre se interrogou sobre os porquês de
um ideal de beleza paleolítico. Um exercício de pedogerontofilia, neologismeia murmurando um sorriso
furtado e furtivo. Por vezes lembra-se de que nem seria capaz de representar as personagens que fabrica. Claro
que não crio para viver, pensa, e ao saber à partida da distância insuperável entre
realidade e ficção permite-se a tudo porque nada acontecerá. Conhece todas as mulheres que
quer normalmente como num filme, concentrando-se pode senti-lo com todos os sentidos. Por vezes acontece-lhe pensar
que é um realizador feliz porque a obra que cria nunca será produzida e apenas existe na forma perfeita
em que a imagina. Sabe que qualquer um desses filmes o frustraria, se realizado, e o deixaria impotente, se vivido.
Há ali uma, de saia em cilindro e blusa fosforescente que deixa ver o volume de uma estranha armação
interior. Corpete? soutien? apara-seios? Uma vez desmontado deve resultar em mamilos escorrendo pelo peito abaixo
com duas pérolas agachadas num sovaco. Podia exigir-lhe que viesse sempre de combinação, e
que nunca a tirasse. Devia pôr-se de gatas, fingindo esfregar o chão. Iria por detrás. Levantaria
a lingerie com uma mão enquanto a outra começaria a puxar o elástico das enormes cuecas que
lhe faria descer até aos joelhos, amarrando-lhe as pernas que abriria e obrigando-a a uma flexão,
o bastante para se aproximar e passar-lhe a cabeça pelo apertado rego apoiando-se nas almofadas de carne
muito branca com traços de varizes. Nesta idade vagina sinilis obriga a vaselina. No plano seguinte dir-lhe-á:
queres seco ou molhado, e ela pedirá: molhado, e virar-se-á para trás começando-lhe
a fazer uma chupeta. A mulher levanta-se, de vez em quando vigiava-o, mordera o esquema. Talvez estivesse a pensar
este tipo deseja-me, com este corpo e nesta idade, e orgulhosa fremisse de anseio. Nos últimos minutos galara-a
á fartazana. Ao sair aponta-lhe uma cara de míssil. Afinal esta não queria. Vai ter de usar
outra vez a mulher-a-dias. Não consegue trabalhar com uma mulher que o olhou daquela maneira. Tem escrúpulos
em usar a mulher-a-dias porque a voltará a ver, terá de falar com ela estar com ela de carne e osso
e sentir-se-á mal, incomodado, desastrado. Não entra mais ninguém que sirva. Gosta de velhas
gordas, mulheres de nadegueiros elefantinos e super mamas. Paga. Sai. Ao voltar a casa decide aceitar a mulher-a-dias.
Como referência física, entenda-se. Uma máscara para visualisar a nova personagem. Gosta sobretudo
de mulheres desconhecidas, ao despirem-se pela primeira vez na sua frente as mulheres são sempre diferentes,
embora quando mais tarde se vestem se aproximem de serem todas iguais. De conhecer uma mulher pela primeira vez.
Lembra-se de quando conheceu a mulher a dias, pergunta-se se a conhecerá verdadeiramente. De como a desejou.
De como a escutava limpando o pó e contando a vida conjugal, clássico e lusitano enredo de bebedeira
e porrada, os problemas com os filhos, os saldos, os acontecimentos das telenovelas. De como a confortava. Lembra-se
da primeira vez. De quando a mulher-a-dias aceitou o convite para almoçar. Quando se prontificou a aplicar-lhe
nas costas uma pomada para as nódoas negras. Quando conheceu a pele atrás da roupa. Que será
também mulher-a-dias, e também encontrada por anúncio de jornal. Virá todos os Sábados
pela manhã, ou melhor: encontra-lo--á em casa apenas aos Sábados pela manhã. O que
há verdadeiramente a limpar e arrumar já terá sido feito na Quinta-feira. Trazer-lhe-á
pão fresco para o fim-de-semana, que deixará na cozinha. Ainda deitado, despertou com o abrir da
porta e deixa-se agora acordinhar devagarinho, ouvindo-lhe os passos. Na casa de banho sabe-a a preparar-se, finge
que dorme até que ela levante a coberta e sob ela se enfie, uma toupeira que o procura no ventre. Ali o
beija, e ele finge acordar. Levanta-se. Ela ajoelha-se. Exigiu-lhe que viesse sempre de combinação,
e que nunca a tirasse. Põe-se sempre assim, de gatas, fingindo esfregar o chão. Vai-lhe por detrás.
Levanta-lhe a lingerie com uma mão enquanto a outra começa a puxar o elástico das enormes
cuecas que lhe faz descer até aos joelhos, amarrando-lhe as pernas que abre obrigando-a a uma flexão,
o bastante para se aproximar e lhe passar a cabeça pelo apertado rego apoiando-se nas almofadas de carne
muito branca com traços de varizes. Nesta idade vagina sinilis obriga a vaselina. Diz-lhe: queres seco ou
molhado, e ela pede: molhado, e vira-se para trás começando-lhe a fazer uma chupeta. Não se
consegue conter. As mãos gretadas untando de vaselina. A penetração anal. Os lábios
descaídos. O ar triste com que lhe pediu que a possua pela frente. A sua recusa. Vem-se. A submissão
com que ela veio mesmo assim lambê-lo, desmaiado mas ainda com o gosto, lavando-o com a língua e como
lhe disse: vista-se e comece o seu trabalho, enquanto tomo o pequeno-almoço. Agora tem de ir buscar qualquer
coisa para se limpar. No Sábado seguinte teria então havido uma anterior Sexta. Aliás uma
Sexta à noite, o segundo capítulo. Esperara a empregada à saída do bar. Seguira-a uma
dezena de metros até que a alcançara. Cumprimentou-a. Ela olhara para ele, electrizada. Convidou-a
para o acompanhar até a casa. Ela seguira-o sem qualquer resistência, cedendo a um momento hipnótico,
inexplicável. Deixara-a a ver televisão enquanto preparou um jantar que comeram á luz de velas.
Cada vez que falava a rapariga parava de comer para não perder uma só das suas palavras. Embriagara-a.
Levara-a já sonolenta para a cama onde a despira e beijara por todo o corpo até lhe dar o primeiro
orgasmo. Deixara-a dormindo. Nesse sábado estará à espera da mulher-a-dias. Temos uma hóspede,
diz-lhe. Está a dormir na minha cama. A mulher irá acordá-la, afagá-la, a penumbra
azulecida da janela fechada. Ele está à tua espera, avisa. Despe-se. Deita-se com ela e excita-a.
Ele entra. A rapariga com medo, a mulher abrindo-lhe as pernas com esforço, sempre com palavras serenas,
pondo-a no ponto. E ela deitar-lhe-ia a cabeça no regaço enquanto ele se despe e ele iria devagarinho.
Ela colocar-lhe-ia as mãos gretadas entre os dentes para que os gritos da rapariga se não soltassem.
Acabariam ambos ofegantes e abraçados no seu regaço. A miúda arrombada e inaugurada, ela limpando-lhe
as lágrimas com o lençol. A campainha, esse perseguidor implacável dos amantes, toca. Roga
duas ou três pragas. Vai à porta, furioso. É a mulher a dias. - O meu homem foi para a bola
e eu disse que ia a casa da minha prima. De modo que vim ao nosso ninho fazer-te uma visitinha. A ver se estavas
aqui com alguma galdéria. Sabe o que se vai seguir. Terá de a ouvir falar dos seus pequenos problemas.
Pedir-lhe-á que se cale. Se não te calas mando-te embora - responder-lhe-á. E depois irão
para a cama, chupa-la-á demoradamente, e em troca, quando se sentir satisfeita, ela há-de-lhe bater
uma punheta. |
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