joão pedro figueiredo
3 dramaturgias radiofónicas

  

  nota do editor: estas 3 dramaturgias foram efectivamente realizadas pelo autor na ruc rádio universidade de coimbra 
as duas primeiras podem ser escutadas em formato real audio carregando na palavra som   

  no autocarro
som
   
 

acto 
único

Num autocarro de serviço urbano, cujos passageiros terão, todos, mandado uma pinocada há menos de uma hora, à pinha, uma mulher de meia idade, flácida, de aspecto descuidado, ocupa um lugar sentado, praticamente adormecida, mal segurando com uma das mãos um saco com compras. No corredor e a seu lado, um homem de meia idade, flácido, de aspecto descuidado, desperta do embrutecimento rodoviário típico porque um líquido pastoso encharca-lhe a meia do pé esquerdo - o seu melhor pé. Verifica então que um dos pacotes de leite inclusos no saco da personagem à sua ilharga ter-se-à furado algures mas, depois de um irritado olhar sobre aquela carcaça gelatinosa, opta por considerá-la responsável pelo sucedido. Acto contínuo, esbofeteia três ou quatro vezes a mulher, que finge não dar por nada, continuando de olhos fechados muito ciosa do seu lugar. Intrometem-se terceiros. Gera-se uma grande confusão. Os que estão em pé apoiam incondicionalmente a iniciativa do homem flácido, os sentados condenam-no, indignados. Há também alguns indecisos. Pancadaria geral. O motorista trava com brusquidão e o aparelho imobiliza-se, obediente. Alguns caem. Outros aguentam-se. É assim em tudo na vida.  
 

O motorista dirige-se ao homem empastado.

 

Condutor - Saia! Eu vi o que o senhor fez. Já! 

Homem - (amuado) Só saio quando a minha meia secar. Não antes! 

Condutor - Então, esperamos todos por essa altura! Sempre quero ver...

 
 

Ficam à espera do anunciado momento. Três horas. (tempo real)

Sinais
de
i

m
p
a
ciência
crescente.

Homem - (mimado) Pronto, secou. Agora saio. 

Condutor - Fique mais um bocado, caramba! Que diabo, sair assim sem mais nem menos... 

Homem - Vocês, motoristas dos transportes urbanos municipalizados, são todos da mesma laia. Ai quando vierem as privatizações!...

 
 

no restaurante  
som

A cena passa-se num restaurante onde servem alheiras muito boas. Ruído de fundo moderado. Entra um cliente com um cão imaginário mas que existe de facto (esta personagem deve ser interpretada por uma imagem holográfica). Senta-se. Surge um empregado. O diálogo começa em tom negligente. Depois vão aparecendo mais consoante as necessidades. Liberdade artística total, até certo ponto. Este. É suposto que tudo aconteça de forma desopilante. Caso assim não aconteça, deverá dizer-se no fim: "Isto foi desopilante!" 

(N.b.: o texto apresentado é puramente indicativo e só deverá valer à falta de pior)
 
 

O cliente - Queria uma codorniz. (silêncio profundo) Morta! 

O empregado - Desculpe, só com gás. (silêncio) À siamesa? 

O cliente - (exuberante) À minha ninguém se senta! (muito calmo) E se quiser, pode chamar os bombeiros. Acabo de pegar fogo à toalha. 

O empregado - Ah, fez bem... E o senhor que é muito esperto, é capaz de me dizer que espécie de chouriço é este? (mostra-lhe duas rodelas, que tira do bolso) 

O cliente - Este? 

O empregado - Não, este! 

O cliente - Trá-los sempre consigo? 

O empregado - Nunca os largo! 

O cliente - Vou-me mas é embora. Isto cheira-me a esturro... Vamos, cão. (O fogo crepita em crescendo. Enxovalhar meia resma de papel) 

O cão - (a voz é a do dono) É a minha deixa? É? (enfático) Podemos passar sem as vossas pulgas! 

O Encenador - (sem convicção) Talvez fosse melhor seguirmos para a abordagem, não? Directa... Do assunto... 

O cliente - (para o director) E o restaurante, como é? Ardeu?! 

O empregado - Ai isso é que não! Além do mais, você ainda não me respondeu! 

O cliente - A resposta é: NÃO! 

O empregado - Agora ofendeu-me... 

O cliente - (ladrado) Não! Não! Não! 

O cão - É a minha deixa, é, é? Âaaaaan... 

O cliente - (ladrado) Não! 

O encenador - O gerente, depressa! Intensidade dramática, irra! Irrompa a hierarquia! (esperançoso) Ela vai resolver o assunto... 

O cliente - Desculpe, gerente está acima de cliente? Ah, é? 

O cão - (aristocrático) Por definição, é sempre abaixo de cão. 

O empregado - (histérico) Abram as escotilhas! Mulheres e crianças por aqui! 

O encenador - (desanimado) E os diálogos? Inconcebíveis! As personagens, sem densidade... 

O gerente - Eu sou o gerente mas estou só de passagem... 

Uma cliente - Desculpem, a secção de 'lingerie'? 

O empregado - (cúmplice) A secção de 'lingerie'? Por aqui! Rápido, por aqui! (fecha-a num forno; para os outros) Eh, malta! Apanhei uma codorniz! 

O cliente - Morta? 

A empregado - Praticamente! 

A cliente - (a voz é abafada e sumida) Abram! Isto não é a secção de 'lingerie'! Socorro! Socorro! 

Um coro - Ela grita por socorro! 

O encenador - Por favor, acabem com este suplício! 

O empregado - Já vai, já vai! Está quase assada! 

O cliente - (animado) Mal passada, por favor! 

O cão - Isso! (rosna e lambe-se) 

Um crítico - (entre as rosnadelas do cão) Atávico! Sublime! 

Outro crítico - (entre as rosnadelas do cão) Re - vol - tante! Gostaste??? 

Um crítico - (as rosnadelas continuam) Paradigma de uma absurdidade irrefutável, esta peça confronta-nos - violentamente, é certo - com o falhanço existencial! Reparaste: não é só a cliente o bode expiatório... Somos nós! TODOS nós!.. Todos se afogam na sua angústia: a esquizofrenia do cliente, o alheamento delirante do criado, muita solidão imanente em todo aquele ridículo... 

Outro crítico - (pois...) A componente de crítica social, sobretudo, muito débil, muito mal explorada... O resto, uma selvajaria perfeitamente gratuita... 

(fade out) 

Aliás, como se justifica aquela entrada? Se a perdiz simboliza uma sexualidade atípica na terceira idade, nunca... 

Cai o pino, o pano, digo. 

(N. b.: Não esquecer, caso se justifique: "Isto foi desopilante!)

o homem que comia granito

   

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I

- Sempre é verdade que come granito, homem? 

- Perdão, não prestou atenção ao título: COMIA granito... 

- Não, não, não... As regras são as seguintes: primeiro, descreve-se uma situação, que só depois se intitula... O título corresponde então à parte dos factos considerada mais importante pelo autor, devendo ser claro, curto, incisivo, apelativo... 

- ... Ah sim? Então olhe, eu de facto comia granito, mas agora já não como disso. Enjoei. Essa é a verdade. 

- Acredito em si, homem que comia granito. É que me andaram a tentar impingir que você COME granito! Eu não pude deixar de rir, claro. Que disparate tão grande, Virgem! 

- Não sou nada!-

II

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- Desculpe, é o senhor que anda por aí a comer granito? 

- Com muito gosto, muito prazer... 

- Não, eu é que digo isso: muito prazer! 

- Também come? É óptimo, não é? Já experimentou às rodelas? 

- Não, nem por isso... 

- E ao forno, hum? Com todo aquele môlho... 

- Não, bolas, não! 

- Então o que quer de mim? Ó homem, largue-me! 

- Vá lá, deixe-me ir consigo... Só um bocadinho e prometo que nunca mais o volto a incomodar. 

- Está bem. Mas só uma fatia que eu não sou seu pai, ouviu? 

- Ouvi.

III

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- É você o homem que comia granito? 

- Não, por acaso sou a mulher que comia calcário, mas que agora come argila... Porquê? 

- Permita-me que me apresente, sou o homem que come alcatrão às porradas. 

- E então? 

- Case-se comigo!... 

- Que estranho... Apetece-me vomitar-lhe para cima... 

- Bem me parecia que com essa dieta o seu fígado não ia longe...

IV

...
.

- Desculpe, é a senhora a mulher que come argila? 

- Sim? 

- Eu sou o homem que comia granito. 

(com ansiedade) 

- O do título??? 

- Ele mesmo. Eis o meu B.I. 

(sem ânimo) 

- Oh, que emoção... 

- Que tal um aperitivo? Criado, deixe-nos sós. 

- Como? 

- Também? 

- E eu? 

- Quem é quem? 

- Se é uma pergunta... 

- ... Talvez. 

- O.K., traga-me disso. Dois, claro. Agora nós, finalmente... Com que então a comer barro, hã? Sua taradinha, não vê que isso lhe é deveras prejudicial? 

- É, mas o pai lambuzava-se em granito... 

- O que lá vai, lá vai, por isso, eu já não sou teu pai. Portanto, beija-me e despe-me. 

- Como sempre, é aqui que acaba, não é? 

- É? 

- É.

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