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O cliente - Queria uma codorniz.
(silêncio profundo) Morta!
O empregado - Desculpe, só
com gás. (silêncio) À siamesa?
O cliente - (exuberante) À minha ninguém
se senta! (muito calmo) E se quiser, pode chamar os bombeiros. Acabo de pegar fogo à toalha.
O empregado - Ah, fez bem...
E o senhor que é muito esperto, é capaz de me dizer que espécie de chouriço é
este? (mostra-lhe duas rodelas, que tira do bolso)
O cliente - Este?
O empregado - Não,
este!
O cliente - Trá-los
sempre consigo?
O empregado - Nunca os largo!
O cliente - Vou-me mas é
embora. Isto cheira-me a esturro... Vamos, cão. (O fogo
crepita em crescendo. Enxovalhar meia resma de papel)
O cão - (a voz é a do dono) É a
minha deixa? É? (enfático) Podemos passar sem as vossas pulgas!
O Encenador - (sem convicção) Talvez
fosse melhor seguirmos para a abordagem, não? Directa... Do assunto...
O cliente - (para o director) E o restaurante, como
é? Ardeu?!
O empregado - Ai isso é
que não! Além do mais, você ainda não me respondeu!
O cliente - A resposta é:
NÃO!
O empregado - Agora ofendeu-me...
O cliente - (ladrado) Não! Não! Não!
O cão - É a
minha deixa, é, é? Âaaaaan...
O cliente - (ladrado) Não!
O encenador - O gerente,
depressa! Intensidade dramática, irra! Irrompa a hierarquia! (esperançoso) Ela vai resolver o assunto...
O cliente - Desculpe, gerente
está acima de cliente? Ah, é?
O cão - (aristocrático) Por definição,
é sempre abaixo de cão.
O empregado - (histérico) Abram as escotilhas!
Mulheres e crianças por aqui!
O encenador - (desanimado) E os diálogos? Inconcebíveis!
As personagens, sem densidade...
O gerente - Eu sou o gerente
mas estou só de passagem...
Uma cliente - Desculpem,
a secção de 'lingerie'?
O empregado - (cúmplice) A secção
de 'lingerie'? Por aqui! Rápido, por aqui! (fecha-a num
forno; para os outros) Eh, malta! Apanhei uma codorniz!
O cliente - Morta?
A empregado - Praticamente!
A cliente - (a voz é abafada e sumida) Abram!
Isto não é a secção de 'lingerie'! Socorro! Socorro!
Um coro - Ela grita por socorro!
O encenador - Por favor,
acabem com este suplício!
O empregado - Já vai,
já vai! Está quase assada!
O cliente - (animado) Mal passada, por favor!
O cão - Isso! (rosna e lambe-se)
Um crítico - (entre as rosnadelas do cão) Atávico!
Sublime!
Outro crítico - (entre as rosnadelas do cão) Re
- vol - tante! Gostaste???
Um crítico - (as rosnadelas continuam) Paradigma de
uma absurdidade irrefutável, esta peça confronta-nos - violentamente, é certo - com o falhanço
existencial! Reparaste: não é só a cliente o bode expiatório... Somos nós! TODOS
nós!.. Todos se afogam na sua angústia: a esquizofrenia do cliente, o alheamento delirante do criado,
muita solidão imanente em todo aquele ridículo...
Outro crítico - (pois...) A componente de crítica
social, sobretudo, muito débil, muito mal explorada... O resto, uma selvajaria perfeitamente gratuita...
(fade out)
Aliás, como se justifica aquela entrada? Se a perdiz simboliza
uma sexualidade atípica na terceira idade, nunca...
Cai o pino, o pano, digo.
(N. b.: Não esquecer, caso se justifique: "Isto foi desopilante!)
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