mário da costa

o vagabundo e a estátua

 

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ao antónio de lírio

poeta e homem estátua
para quem já nos tempos de coimbra
a imobilidade era o princípio do movimento





Um

vagabundo
surge a
d
e
a
m
b
u
l
a
r
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pela sala. 
A estátua à boca de cena está imóvel. O vagabundo pede dinheiro e cigarros às pessoas. Lentamente, com passos curtos, sobe ao palco. Observa atentamente a estátua. Apalpa-a. Avalia-lhe a robustez. Tenta alterar-lhe a posição dos braços. Cigarro ao canto da boca, olhando de vez em quando, receoso, para o público, tira uma ponta de corda de dentro da gabardina, enrola-a na mão da estátua e estende várias peças de roupa interior. Ao menor ruído ou riso da parte do público, imobiliza-se. Ata a outra ponta da corda na outra mão da estátua. Olha atentamente para o que acaba de fazer. Senta-se aos pés da estátua. 

Tira um pedaço de pão de um bolso. Tira um naco de presunto de outro bolso. Pousa tudo sobre os joelhos. Do saco a tiracolo, extrai um canivete com cabo em madeira. Calmamente, corta pedacinhos de presunto. Um a um. Mastiga com evidente prazer. De dentro da gabardina sai uma garrafa de vinho tinto. Bebe um longo trago. 

Pousa tudo no chão e levanta-se, espreguiçando-se. 

Vai atrás da estátua e prepara-se para urinar. 

A estátua dá-lhe um empurrão. O vagabundo recua.

Estátua - - Que pendures a tua roupa sebenta e mal lavada, ainda vá... 
Agora, que me mijes nas pernas... porra...porra... 
Vagabundo - Vá lá um gajo saber que eras pessoa... 
Estátua - Sou um homem-estátua. Ganho assim a vida... 

Vagabundo - Ah! Mas não penses que eu não ganho a vida... Sou vagabundo por opção ideológica. Protesto contra o conformismo e a falta de liberdade das grandes cidades. 
Estátua - Eu quando me refiro a ganhar a vida, falo em termos materiais... 

Vagabundo - Ficas quieto para ganhar a vida... 
Estátua - A imobilidade é o princípio do movimento... 

Vagabundo - (sentando-se) Lembras-me um tipo que conheci no Sul. 
Ficava quieto a ver passar os carros a grande velocidade. 
Os que iam para cima e os que vinham para baixo. 
Contava-os de cabeça. 
Estátua - E as motorizadas, também as contava? 

Vagabundo - Não. Só carros. Só contava carros. 
Estátua - Eu já contei cabeças de pessoas. Mas é muito cansativo. 

Vagabundo - Cabeças de pessoas. Já vi disso também. 
Creio que já vi de tudo na vida. 
Viajo muito... já nada me espanta... 
Ossos do ofício... 
Estátua - Eu devo viajar menos que tu. Mas sempre dou as minhas voltas. 

Vagabundo - E não te cansa ficar tão parado? 
Estátua - Isto que eu faço é uma Arte. Sou um Artista. 
É claro que às vezes apetece mexer-me um bocado. Mas tudo tem os seus truques... por exemplo: repara que não levanto os braços acima da linha dos ombros. Assim, o fluxo sanguíneo mantem-se normal e eu canso-me muito menos. 

Vagabundo - Vou recolher a minha corda da roupa antes que apanhe a humidade da noite... peúga...peúga...peúga... cuecas... 
Estátua - Tenho umas ceroulas da mesma cor das tuas... 

Vagabundo - São espanholas. De Málaga. Uma bela cidade. Gente desprendida. Acolhedora. Me gustan mucho... 
Estátua - Também conheço. Estive dois dias exposto na Plaza Mayor. 
Pombos. Os pombos eram chatos. Cagavam em voo. 

Vagabundo - Conheci lá um árabe que se apaixonara por um camelo fêmea. 
Chamava-se Ibhraim. E sofria. 
Estátua - Também ouvi falar dessa história. Mas o árabe chamava-se Musthapha. Ou seria Calleb ? 

Vagabundo - Se calhar era outro. Os árabes têm tendência a envolver-se nessas histórias. 
Estátua - Musthapha sofria no silêncio do deserto. Ou seria Calleb? O camelo fêmea, afinal era uma freira encantada por Fatma, a filha do Profeta. 

Vagabundo - Tal qual Ibhraim... 
Estátua - Mas Musthapha ou Calleb, não sei bem, amava a freira enquanto camelo e repelia o camelo quando este se transfigurava em freira. 

Vagabundo - Ibhraim matou a freira e morreu abraçado ao camelo. Ou seria ao contrário? 
Estátua - O que é certo é que as freiras não se deviam misturar com os filhos de Alá. 

Vagabundo - Quem pode condenar os sonhos? Todos sonhamos... 
Estátua - O meu sonho é bem diverso. Para já , ando a escrever um livro. 

Vagabundo - Um livro de memórias? 
Estátua - Um livro de Botânica. Tenho observado as ervas e os musgos que crescem à volta dos meus pés. Pratico o método científico... 

Vagabundo - Um livro de memórias. As memórias de uma estátua. Se fosse eu, era o que fazia. 
Estátua - Quando fico quieto, as pessoas pagam a memória da imobilidade. 

Vagabundo - Eu atravesso. Atravesso a memória das pessoas. 
Assim... como países atravessados de noite... 
Estátua - Uma leve lembrança... 

Vagabundo - Leve. Tão leve que não tenho amarras. Qualquer brisa me sopra para longe. 
Estátua - Preciso de uma massagem nas pernas. Assim, para cima e para baixo... 

    (cantam, subindo e descendo, na vertical) 
        Para cima
        para baixo
        ao som do contrabaixo
        para baixo
        para cima
        ao som da concertina.

Vagabundo - (massajando as pernas da estátua) Ontem, encontrei um músico que só tinha uma perna. Tocava acordeão. E tinha os olhos azuis. 
Estátua - Verdes. Creio que eram verdes. E não era um acordeão. 
Era uma concertina. 

Vagabundo - E a perna? Só tinha uma perna? 
Estátua - Vi-o coçar a perna que lhe faltava. Chegou a falar na comichão que sentia entre os dedos dos pés. 

Vagabundo - Os dedos dos pés é um aborrecimento. Ficam gretados. 
Estátua - Eu uso sandálias..Quando acabo de trabalhar, calço umas sandálias. 

Vagabundo - Ah! Mas eu não trabalho. Não posso calçar sandálias quando acabo de trabalhar porque não trabalho. 
Estátua - Chego a fazer horas extraordinárias. 

Vagabundo - É extraordinário que trabalhes tanto. Assim, atrasas a hora de calçar as sandálias. 
Estátua - Foi a Europa que nos atrasou a hora. 

Vagabundo - Não tenho relógio. Tenho dois mas não trabalham. Um é de bolso com corrente e desenhos no mostrador. É suiço. É onde guardo os comprimidos do reumatismo. 
Estátua - Conheci uma bruxa transmontana que curava os reumáticos. 
Esfregava-os com ervas. 

Vagabundo - Deviam ser beldroegas. As beldroegas fazem bem aos ossos. 
Estátua - No Alentejo, as beldroegas crescem nos muros à beira da estrada. 

Vagabundo - Servem também para fazer salada... Usa-se na açorda...no gaspacho...e já ouvi dizer que há quem saiba fazer sopa com beldroegas... 
Estátua - O que é um facto é que eu não sei quem tu és nem de onde vens. Não devia ter estas intimidades contigo. 

Vagabundo - Para quem te massajou as pernas, és bem agradecido. 
Estátua - As mãos massajam bem mas a tua cabeça está cheia de areia. 

Vagabundo - Desertos de areia. Às vezes sonho com desertos de areia. 
Quentes. Cheios de sol. Pensar assim faz bem ao reumatismo. 
Aqui não há desertos. 
Estátua - Tens a areia da praia. 

Vagabundo - Húmida. Completamente encharcada em humidade. 
Vou beber do tintol. Queres? 
Estátua - Nunca bebo em serviço. Prejudica-me o equilíbrio. 

Vagabundo - Já viajei num barco em que as pessoas cambaleavam todas. Até as mais sérias. De um lado para o outro. Do outro para o lado. Só o capitão estava quieto. Como uma estátua. (olha para o outro mais atentamente) Tu nunca foste capitão de um barco? 
Estátua - Fiz a tropa nos pára-quedistas. 

Vagabundo - Saltavas? 
Estátua - A minha função era mais na mecânica. Roldanas. Motores. Cheguei a desmontar um motor. 

Vagabundo - E montaste-o depois? 
Estátua - Sei lá... não me lembro... Tu, se calhar, nem foste à tropa. 

Vagabundo - Seis anos. Seis anos na guerra. A matar turras... Guiné...Bijagós... Bruxarias... mau olhado...E o medo à noite... sobretudo à noite... 
Batuques... toda a noite... (som de batuques) 
Estátua - E mataste? Chegaste a matar? 

Vagabundo - Não me lembro. Devo ter matado. Todos nós tinhamos que matar. 
Os batuques eram infernais. Todas as noites. 
Estátua - Gostava de ir a África. Não conheço. É bonita? 

Vagabundo - Foi a primeira vez que estive com mulheres. Bissau... E logo duas de uma vez. 
Estátua - A minha mulher faz anos amanhã. Tenho que lhe comprar uma pulseira. 

Vagabundo - Ouro... tem de ser em ouro... O amor vale ouro. 
Estátua - Talvez lhe ofereça outra coisa. Mais bonita e mais barata. Vistosa. 

Vagabundo - Ouro... tem de ser em ouro... O amor vale o seu peso em ouro. 
Estátua - Em Lisboa os homens usam dentes de ouro. 

Vagabundo - Já vi. Já vi rir em ouro. 
Estátua - De noite brilha tudo. Mas não é bonito. 
Vagabundo - Não brilha nada. Mas é bonito. 
Estátua - Os teus pés cheiram mal... 

Vagabundo - É o chulé. Ataca sempre ao anoitecer... 
(descalça-se e esfrega os dedos dos pés com vinho) 
Estátua - Devias prevenir-te contra isso. 

Vagabundo - ( puxando um ser imaginário com corrente e coleira como se fosse um cão em cio) Pavlov entusiasmava-se tanto com as suas experiências de laboratório que mal via um cão na rua, punha-se a salivar abundantemente. Era sábio e não se conseguia prevenir. 
Estátua - O teu problema é saberes de mais para aquilo que devias saber. 
Vagabundo - Ah... 
Estátua - O teu verdadeiro problema é que aquilo que julgas saber, aprendeste-o ao contrário, erradamente... 
Vagabundo - Ah... 
O vagabundo aproxima-se da estátua como se o cão imaginário estivesse a urinar . 
Estátua - (afastando-o com o pé) Sape gato... Xô...Vai mijar o teu pai... 
Vagabundo - Eu não tive pai... Nem sei qual é o formato dos pais. No masculino, claro. Porque mãe no feminino, identifico perfeitamente. 
São redondas e quentes. 
Estátua - Achas que essa conversa vem a propósito de quê? 
Vagabundo - Sei lá... De que falávamos? 
Estátua - De pulseiras, de mulheres, de coisas boas... 
Vagabundo - De coisas boas... 
Estátua - Ontem vi um disco voador. Parecia uma pulseira em ouro. 
Passou a roçar os telhados, muito devagarinho... 

Vagabundo - Eu também o vi. Mas pairava no ar, quieto. Esteve lá toda a noite. 
De manhã, tinha-se transformado num depósito de água, daqueles muito altos com quatro pernas esguias. 
Estátua - Se era o mesmo não sei. Eu vou-me embora. 

Vagabundo - Vais-te? E não fica ninguém a substituir-te? 
Estátua - Não. De noite não há necessidade de estátuas. Apagam-se as luzes e pronto. 

Vagabundo - De noite só há poetas. E assassinos. Não há vagabundos porque de noite todos são vagabundos. 
Estátua - Tal qual como na guerra. Não há assassinos porque todos matam. 

Vagabundo - Mas os poetas não são assassinos. Os poetas pintam e decoram a pele das mulheres antes de as desejarem. 
E- Eu já li poemas assim. Poemas cheios de desejo por mulheres de todos os géneros. 

Vagabundo - Os nossos poetas têm todos tristes fins. 
E- E os contemporâneos dos poetas também. 
Fernando Pessoa então... 
V- Já ouvi falar dessa pessoa, Fernando, o da ínclita geração, alcunhado o Infante Santo, coitado, ficou preso em Fez por tráfico de haxixe. Dizem que foi denúncia, logo em Ceuta... 
Estátua - Vou comprar a pulseira em ouro como um disco voador e não penso mais nisso. Uma bela pulseira para Teresa. 

Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa. Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos. 
Quando me tiraram as amígdalas, ela fez também. 
Estátua - Eu andei no Seminário. Tive pouco tempo de mãe. Só nas férias grandes. Cada ano que passava a mãe estava mais gorda. 

Vagabundo - Gosto de mulheres gordas. Grandes mamas. O cu cheio e redondo sobre o largo das ancas. 
Estátua - Amanhã não venho. Vou comprar a pulseira e depois vou ao cinema com a Teresa. 

Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa. Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos. Quando me tiraram as amígdalas, ela fez também. 
Estátua - Eu andei no Seminário. Tive pouco tempo de mãe. Merda, eu já disse isto. 

Vagabundo - Se não acabas a deixa, não posso dizer que gosto de mulheres gordas. Grandes mamas. O cu cheio e redondo sobre o largo das ancas. 
Estátua - Amanhã não venho. Vou comprar a pulseira e depois vou ao cinema com a Teresa. 

Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa. Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos.

O vagabundo continua a falar. As luzes apagam-se lentamente. Quando volta a luz geral, vê-se o vagabundo a afastar-se pela esquerda alta, levando a estátua às costas como se fosse uma tábua, enquanto continuam a dizer as últimas réplicas do diálogo.

Aveiro, 19 a 23 de Julho de 1993 

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