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Estátua - - Que
pendures a tua roupa sebenta e mal lavada, ainda vá...
Agora, que me mijes nas pernas... porra...porra...
Vagabundo - Vá lá um gajo saber
que eras pessoa...
Estátua - Sou um homem-estátua.
Ganho assim a vida...
Vagabundo - Ah! Mas não penses que eu
não ganho a vida... Sou vagabundo por opção ideológica. Protesto contra o conformismo
e a falta de liberdade das grandes cidades.
Estátua - Eu quando me refiro a ganhar
a vida, falo em termos materiais...
Vagabundo - Ficas quieto para ganhar a vida...
Estátua - A imobilidade é o
princípio do movimento...
Vagabundo - (sentando-se) Lembras-me um tipo
que conheci no Sul.
Ficava quieto a ver passar os carros a grande velocidade.
Os que iam para cima e os que vinham para baixo.
Contava-os de cabeça.
Estátua - E as motorizadas, também
as contava?
Vagabundo - Não. Só carros. Só
contava carros.
Estátua - Eu já contei cabeças
de pessoas. Mas é muito cansativo.
Vagabundo - Cabeças de pessoas. Já
vi disso também.
Creio que já vi de tudo na vida.
Viajo muito... já nada me espanta...
Ossos do ofício...
Estátua - Eu devo viajar menos que
tu. Mas sempre dou as minhas voltas.
Vagabundo - E não te cansa ficar tão
parado?
Estátua - Isto que eu faço
é uma Arte. Sou um Artista.
É claro que às vezes apetece mexer-me um bocado. Mas tudo tem os seus truques... por exemplo: repara
que não levanto os braços acima da linha dos ombros. Assim, o fluxo sanguíneo mantem-se normal
e eu canso-me muito menos.
Vagabundo - Vou recolher a minha corda da roupa
antes que apanhe a humidade da noite... peúga...peúga...peúga... cuecas...
Estátua - Tenho umas ceroulas da mesma
cor das tuas...
Vagabundo - São espanholas. De Málaga.
Uma bela cidade. Gente desprendida. Acolhedora. Me gustan mucho...
Estátua - Também conheço.
Estive dois dias exposto na Plaza Mayor.
Pombos. Os pombos eram chatos. Cagavam em voo.
Vagabundo - Conheci lá um árabe
que se apaixonara por um camelo fêmea.
Chamava-se Ibhraim. E sofria.
Estátua - Também ouvi falar
dessa história. Mas o árabe chamava-se Musthapha. Ou seria Calleb ?
Vagabundo - Se calhar era outro. Os árabes
têm tendência a envolver-se nessas histórias.
Estátua - Musthapha sofria no silêncio
do deserto. Ou seria Calleb? O camelo fêmea, afinal era uma freira encantada por Fatma, a filha do Profeta.
Vagabundo - Tal qual Ibhraim...
Estátua - Mas Musthapha ou Calleb,
não sei bem, amava a freira enquanto camelo e repelia o camelo quando este se transfigurava em freira.
Vagabundo - Ibhraim matou a freira e morreu abraçado
ao camelo. Ou seria ao contrário?
Estátua - O que é certo é
que as freiras não se deviam misturar com os filhos de Alá.
Vagabundo - Quem pode condenar os sonhos? Todos
sonhamos...
Estátua - O meu sonho é bem
diverso. Para já , ando a escrever um livro.
Vagabundo - Um livro de memórias?
Estátua - Um livro de Botânica.
Tenho observado as ervas e os musgos que crescem à volta dos meus pés. Pratico o método científico...
Vagabundo - Um livro de memórias. As memórias
de uma estátua. Se fosse eu, era o que fazia.
Estátua - Quando fico quieto, as pessoas
pagam a memória da imobilidade.
Vagabundo - Eu atravesso. Atravesso a memória
das pessoas.
Assim... como países atravessados de noite...
Estátua - Uma leve lembrança...
Vagabundo - Leve. Tão leve que não
tenho amarras. Qualquer brisa me sopra para longe.
Estátua - Preciso de uma massagem
nas pernas. Assim, para cima e para baixo...
(cantam, subindo e descendo, na vertical)
Para cima
para baixo
ao som do contrabaixo
para baixo
para cima
ao som da concertina.
Vagabundo - (massajando as pernas da estátua)
Ontem, encontrei um músico que só tinha uma perna. Tocava acordeão. E tinha os olhos azuis.
Estátua - Verdes. Creio que eram verdes.
E não era um acordeão.
Era uma concertina.
Vagabundo - E a perna? Só tinha uma perna?
Estátua - Vi-o coçar a perna
que lhe faltava. Chegou a falar na comichão que sentia entre os dedos dos pés.
Vagabundo - Os dedos dos pés é
um aborrecimento. Ficam gretados.
Estátua - Eu uso sandálias..Quando
acabo de trabalhar, calço umas sandálias.
Vagabundo - Ah! Mas eu não trabalho. Não
posso calçar sandálias quando acabo de trabalhar porque não trabalho.
Estátua - Chego a fazer horas extraordinárias.
Vagabundo - É extraordinário que
trabalhes tanto. Assim, atrasas a hora de calçar as sandálias.
Estátua - Foi a Europa que nos atrasou
a hora.
Vagabundo - Não tenho relógio.
Tenho dois mas não trabalham. Um é de bolso com corrente e desenhos no mostrador. É suiço.
É onde guardo os comprimidos do reumatismo.
Estátua - Conheci uma bruxa transmontana
que curava os reumáticos.
Esfregava-os com ervas.
Vagabundo - Deviam ser beldroegas. As beldroegas
fazem bem aos ossos.
Estátua - No Alentejo, as beldroegas
crescem nos muros à beira da estrada.
Vagabundo - Servem também para fazer salada...
Usa-se na açorda...no gaspacho...e já ouvi dizer que há quem saiba fazer sopa com beldroegas...
Estátua - O que é um facto
é que eu não sei quem tu és nem de onde vens. Não devia ter estas intimidades contigo.
Vagabundo - Para quem te massajou as pernas,
és bem agradecido.
Estátua - As mãos massajam
bem mas a tua cabeça está cheia de areia.
Vagabundo - Desertos de areia. Às vezes
sonho com desertos de areia.
Quentes. Cheios de sol. Pensar assim faz bem ao reumatismo.
Aqui não há desertos.
Estátua - Tens a areia da praia.
Vagabundo - Húmida. Completamente encharcada
em humidade.
Vou beber do tintol. Queres?
Estátua - Nunca bebo em serviço.
Prejudica-me o equilíbrio.
Vagabundo - Já viajei num barco em que
as pessoas cambaleavam todas. Até as mais sérias. De um lado para o outro. Do outro para o lado.
Só o capitão estava quieto. Como uma estátua. (olha para o outro mais atentamente) Tu nunca
foste capitão de um barco?
Estátua - Fiz a tropa nos pára-quedistas.
Vagabundo - Saltavas?
Estátua - A minha função
era mais na mecânica. Roldanas. Motores. Cheguei a desmontar um motor.
Vagabundo - E montaste-o depois?
Estátua - Sei lá... não
me lembro... Tu, se calhar, nem foste à tropa.
Vagabundo - Seis anos. Seis anos na guerra. A
matar turras... Guiné...Bijagós... Bruxarias... mau olhado...E o medo à noite... sobretudo
à noite...
Batuques... toda a noite... (som de batuques)
Estátua - E mataste? Chegaste a matar?
Vagabundo - Não me lembro. Devo ter matado.
Todos nós tinhamos que matar.
Os batuques eram infernais. Todas as noites.
Estátua - Gostava de ir a África.
Não conheço. É bonita?
Vagabundo - Foi a primeira vez que estive com
mulheres. Bissau... E logo duas de uma vez.
Estátua - A minha mulher faz anos
amanhã. Tenho que lhe comprar uma pulseira.
Vagabundo - Ouro... tem de ser em ouro... O amor
vale ouro.
Estátua - Talvez lhe ofereça
outra coisa. Mais bonita e mais barata. Vistosa.
Vagabundo - Ouro... tem de ser em ouro... O amor
vale o seu peso em ouro.
Estátua - Em Lisboa os homens usam
dentes de ouro.
Vagabundo - Já vi. Já vi rir em
ouro.
Estátua - De noite brilha tudo. Mas
não é bonito.
Vagabundo - Não brilha nada. Mas é
bonito.
Estátua - Os teus pés cheiram
mal...
Vagabundo - É o chulé. Ataca sempre
ao anoitecer...
(descalça-se e esfrega os dedos dos pés com vinho)
Estátua - Devias prevenir-te contra
isso.
Vagabundo - ( puxando um ser imaginário
com corrente e coleira como se fosse um cão em cio) Pavlov entusiasmava-se tanto com as suas experiências
de laboratório que mal via um cão na rua, punha-se a salivar abundantemente. Era sábio e não
se conseguia prevenir.
Estátua - O teu problema é
saberes de mais para aquilo que devias saber.
Vagabundo - Ah...
Estátua - O teu verdadeiro problema
é que aquilo que julgas saber, aprendeste-o ao contrário, erradamente...
Vagabundo - Ah...
O vagabundo aproxima-se da estátua como se o cão imaginário estivesse a urinar .
Estátua - (afastando-o com o pé)
Sape gato... Xô...Vai mijar o teu pai...
Vagabundo - Eu não tive pai... Nem
sei qual é o formato dos pais. No masculino, claro. Porque mãe no feminino, identifico perfeitamente.
São redondas e quentes.
Estátua - Achas que essa conversa
vem a propósito de quê?
Vagabundo - Sei lá... De que falávamos?
Estátua - De pulseiras, de mulheres,
de coisas boas...
Vagabundo - De coisas boas...
Estátua - Ontem vi um disco voador.
Parecia uma pulseira em ouro.
Passou a roçar os telhados, muito devagarinho...
Vagabundo - Eu também o vi. Mas pairava
no ar, quieto. Esteve lá toda a noite.
De manhã, tinha-se transformado num depósito de água, daqueles muito altos com quatro pernas
esguias.
Estátua - Se era o mesmo não
sei. Eu vou-me embora.
Vagabundo - Vais-te? E não fica ninguém
a substituir-te?
Estátua - Não. De noite não
há necessidade de estátuas. Apagam-se as luzes e pronto.
Vagabundo - De noite só há poetas.
E assassinos. Não há vagabundos porque de noite todos são vagabundos.
Estátua - Tal qual como na guerra.
Não há assassinos porque todos matam.
Vagabundo - Mas os poetas não são
assassinos. Os poetas pintam e decoram a pele das mulheres antes de as desejarem.
E- Eu já li poemas assim. Poemas cheios de desejo por mulheres de todos os géneros.
Vagabundo - Os nossos poetas têm todos
tristes fins.
E- E os contemporâneos dos poetas também.
Fernando Pessoa então...
V- Já ouvi falar dessa pessoa, Fernando, o da ínclita geração, alcunhado o Infante
Santo, coitado, ficou preso em Fez por tráfico de haxixe. Dizem que foi denúncia, logo em Ceuta...
Estátua - Vou comprar a pulseira em
ouro como um disco voador e não penso mais nisso. Uma bela pulseira para Teresa.
Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa.
Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos.
Quando me tiraram as amígdalas, ela fez também.
Estátua - Eu andei no Seminário.
Tive pouco tempo de mãe. Só nas férias grandes. Cada ano que passava a mãe estava mais
gorda.
Vagabundo - Gosto de mulheres gordas. Grandes
mamas. O cu cheio e redondo sobre o largo das ancas.
Estátua - Amanhã não
venho. Vou comprar a pulseira e depois vou ao cinema com a Teresa.
Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa.
Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos. Quando me tiraram
as amígdalas, ela fez também.
Estátua - Eu andei no Seminário.
Tive pouco tempo de mãe. Merda, eu já disse isto.
Vagabundo - Se não acabas a deixa, não
posso dizer que gosto de mulheres gordas. Grandes mamas. O cu cheio e redondo sobre o largo das ancas.
Estátua - Amanhã não
venho. Vou comprar a pulseira e depois vou ao cinema com a Teresa.
Vagabundo - A minha mãe chamava-se Teresa.
Maria Teresa. Nunca mais comi leite-creme como o da minha mãe. Fazia sempre aos domingos.
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