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por Roberto de Oliveira /
fotos Pedro Azevedo
Donos de animais inventam desculpas para se livrarem de seus bichos de
estimação
Quem nunca parou diante de uma vitrine de shopping para apreciar um cocker
spaniel sendo ensaboado numa banheira ou assistir a um poodle toy estático
passando pela tosa? Mas pouca gente desconfia de que o pet shop, paraíso
de
consumo da indústria animal, está se transformando em orfanato de cães de
raça.
Ao contrário das "desovas" de filhotes em portas de clínicas, hospitais
veterinários, parques e ONGs de defesa animal, quando a autoria é
desconhecida, nesse novo tipo de abandono, chamado premeditado, sabe-se
quem
o cometeu, só não há como localizá-lo.
A cena segue quase sempre o mesmo script: o cliente chega com o bicho no
colo, demonstra afeto, faz exigências, mil recomendações e promete voltar
horas depois para buscá-lo. No entanto nunca mais dá as caras. Geralmente,
fornece telefone e endereço falsos.
Nos últimos seis meses, dois cockers e dois poodles ficaram à espera de
seus
donos após banho e tosa no pet shop Morde Cão. Para tentar coibir novos
casos de abandono, a loja passou a exigir RG, CPF e comprovante de
residência para clientes sem cadastro. O número do telefone é checado na
hora.
"É desesperador você acompanhar a ansiedade de um animal esperando pelo
dono", confessa a veterinária Letícia Satiko, 26, que conseguiu encaminhar
para a adoção os quatro cães. Um deles, o cocker Billy Coler, 1, ficou com
a
auxiliar de serviços gerais do próprio pet shop, Jane Laurelli, 33. "Não
me
conformo com nenhum tipo de abandono, humano ou animal. Os meus filhos
estavam loucos por um cãozinho. Billy só trouxe alegria para a minha
casa",
explica.
Nem sempre casos assim têm um final feliz. No hotel Parque Canino Dog
World,
cinco cães abandonados, entre os quais um border collie e uma lhasa apso,
estão à espera de adoção. Todos esses animais deram entrada como hóspedes,
mas seus donos não pagaram as diárias nem voltaram lá para buscá-los.
Um abandono premeditado a cada 60 dias é registrado no hotel. "É um
problema
grave", confessa o dono, o veterinário Dan Wroblewski, 43. "Infelizmente,
a
adoção não é o destino de todos os bichos abandonados. Animais com
problemas
de saúde ou idade avançada, por exemplo, são muito rejeitados. Ninguém os
quer."
Para Maurício Esteves Coca, 40, presidente do Ipab (Instituto de Proteção
aos Animais do Brasil), esse tipo de ação é executado por um novo perfil
de
abandonador. "Gente de classe média e alta que não tem noção de posse
responsável. Essas pessoas tratam o bicho como um brinquedinho de luxo",
critica.
Há situações em que o cliente chega a pagar a conta do banho e da tosa
antes
do serviço só para se livrar do animal, como aconteceu no começo deste ano
com um shih tzu abandonado no Pet Center Marginal. "Ligamos avisando que o
animal já estava pronto, mas ele disse que não o queria mais, mudou de
telefone e sumiu do mapa. Por sorte, conseguimos um lar para o bicho",
conta
Roseli Figueiredo, 45, responsável pelo setor. Mais uma vez o cão foi
adotado por um funcionário do próprio banho e tosa, Givaldo Assunção, 22,
que batizou o cão de Eiry, hoje com quatro anos. Dois meses atrás, um
yorkshire teve destino semelhante. Dessa vez, a conta nem foi paga.
É bom lembrar que os casos de abandono premeditado não se restringem aos
"salões de beleza". Há relatos de clientes que levam os animais para o
veterinário examinar e não retornam. Dois meses atrás, a filhote Kika
Maria,
sem raça definida, foi deixada desnutrida, com pulgas e carrapatos no pet
shop Amor às Lambidas.
Pedro Azevedo/Folha Imagem Sem raça definida, Kika Maria, de quatro meses, foi abandonada desnutrida
num hospital veterinário antes de ser adotada pela empresária Patrícia
Correa, 26
Recuperada, Kika Maria esperou em vão durante um mês o retorno do dono.
Enquanto isso não acontecia, ela passava os dias ao lado de Daniele Kühl
Fincatti, 24, na clínica. À noite, ia para a casa da veterinária. Duas
semanas atrás, Kika Maria foi finalmente adotada pela empresária Patrícia
Correa, 26. "Estava no cabeleireiro quando descobri a triste história da
cachorra. Voltei para casa com Kika Maria no colo", empolga-se.
Sorte quando tem alguém que se sensibiliza e acaba adotando, mas muitas
clínicas e pet shops não conseguem conter a demanda de animais
abandonados,
segundo a ambientalista Angela Caruso, 50, presidente do Quintal de São
Francisco, entidade que abriga e cuida de cães e gatos abandonados. "As
próprias clínicas acabam praticando eutanásia. Não têm onde colocar tantos
bichos", alerta.
Para Angela, o problema do abandono em São Paulo é crítico, reflexo de um
crescimento desordenado do segmento de animais domésticos. Só para ter uma
idéia, cerca de 60 cães e gatos são recolhidos das ruas da cidade
diariamente pelo CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), 80% deles deixam de
ser resgatados pelos donos e são sacrificados, segundo Noemia Tucunduva
Paranhos, 37, assessora da direção da repartição. O abandono de animais,
diz
ela, seja ele qual for, é considerado crime ambiental por maus-tratos, com
pena prevista de detenção de três meses a um ano, além de multa a ser
estipulada pelo juiz.
Estimativa do Ipab mostra que, de cada cem cães e gatos adquiridos em São
Paulo, ao menos 50 são abandonados de diferentes formas em até 30 meses.
Tanto pelos números oficiais quanto pelos da ONG ainda não se sabe ao
certo
o percentual de abandono premeditado, mas as próprias entidades reconhecem
que ele vem crescendo.
Esse tipo de problema não é exclusividade brasileira. Segundo Elizabeth
Mac
Gregor, representante da WSPA (sigla em inglês para Sociedade Mundial de
Proteção Animal), com sede em Londres, os casos aumentam nesta época do
ano
em países como França, Espanha e Portugal no período das férias de verão,
quando as famílias saem em viagem e deixam os animais sozinhos em parques
e
estradas, apesar das leis contra o abandonador.
Nos EUA, no Canadá, na Inglaterra, na Suíça e na Suécia, novos mecanismos
vêm sendo adotados para tentar frear o número de bichos abandonados, como
o
uso externo de chapas de identificação e microchip. "Com isso, é possível
localizar o dono e puni-lo diante de uma irresponsabilidade, mas ainda é
muito difícil de ser praticado em países pobres", acredita Elizabeth.
No Brasil, um dos principais motivos do abandono é o desemprego e a crise
econômica. Quando o orçamento aperta, o bicho de estimação também entra na
lista de itens "cortáveis", compara Maurício, do Ipab.
Na clínica Interlagos, um poodle teve que passar por uma cirurgia no tórax
depois de ser atropelado. O animal ficou 30 dias esperando o dono. "O
cliente disse que não tinha como pagar a conta e não queria o animal de
volta, como se fosse um produto descartável", lembra a veterinária Regina
Adan, 40. No final do ano passado, até um chow chow, cão de uma raça cara
e
originária da China, foi abandonado na hora da consulta. "O dono saiu com
a
desculpa de ir buscar dinheiro em casa e nunca mais apareceu", conta
Regina.
O abandono premeditado envolve uma sucessão de mentiras. "Não só o bicho é
enganado como qualquer pessoa que possa dar suporte ao abandono", critica
Nina Rosa Jacob, 60, presidente da ONG Instituto Nina Rosa de Promoção e
Valorização da Vida Animal.
O "boom" da indústria pet acabou transformando o animal doméstico em um
objeto de consumo, acredita Nina. "Determinadas raças se tornam grifes e
viram mania, mas tempos depois ficam fora de moda. Muita gente acaba
comprando o animal só por impulso, sem nenhuma reflexão. Irresponsáveis,
acabam abandonando o bicho justamente em lugares criados para atender
também
a seus caprichos", diz Nina.
Esse paradoxo não há bicho que entenda. |