|
Nossa
indústria automobilística mal havia nascido e os modelos
oferecidos se esforçavam em conquistar compradores,
demonstrando suas qualidades. A grande novidade – o automóvel
nacional – era divulgada principalmente através de
publicidade em revistas e no rádio. A televisão ainda era
para poucos. Mas foi nas pistas de corrida a grande jogada
de marketing das montadoras nacionais. Elas sabiam que
colocar seus "modernos" automóveis em competições
seria a prova definitiva da qualidade do produto. Então
Willys, FNM, Simca e Vemag se apressaram em montar seus
departamentos de competições e dar a bandeirada de
largada. Afinal, pensava o consumidor, carro bom nas pistas
também era bom nas ruas. Além da publicidade gratuita, as
competições ofereciam a possibilidade, principalmente em
provas de longa duração, de tornar-se um ótimo laboratório
de testes.
Foi nesta época,
mais precisamente em 1964, que Jorge Lettry, chefe do
departamento de competições da Vemag, trocou idéias com
Rino Malzoni, um fazendeiro do interior de São Paulo que
tinha mania de criar carrocerias esportivas para mecânicas
existentes no mercado. O problema de Lettry e da Vemag era
de que seus modelos de competição – na verdade lentos e
pesados sedans de passeio – já não faziam frente aos
concorrentes, principalmente aos Willys Interlagos que possuíam,
além do bom acerto mecânico do departamento de competições
da Willys, excelente aerodinâmica, boa estabilidade e um
carroceria leve, feita de fibra de vidro.
Deste
encontro nasceu a solução dos problemas da Vemag
utilizando componentes mecânicos dos DKW, foi desenvolvida
uma carroceria de linhas esportivas inspiradas na Ferrari
275 GTB, feita em fibra de vidro, que a tornava muito leve.
Tudo
aconteceu tão rápido e com tanto entusiasmo que, pouco
tempo depois em outubro de 1964, o modelo já vencia sua
primeira competição: o GP Taça das Américas, no autódromo
de Interlagos em São Paulo. Em seguida foi a vez dos 500 quilômetros
da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Em 1965 o modelo,
somente fabricado em versão para pistas, continuou a fazer
sucesso, levando a equipe da Vemag às primeiras posições.
Nesta época,
Malzoni se associou a Luís Roberto Alves da Costa, Milton
Masteguin e o piloto Mário César de Camargo Filho e
fundaram a Automóveis Lumimari Ltda.. Além do modelo de
pista, conhecido por "Espartano", em 1966 foi
desenvolvido, após alguns retoques do estilista Anísio
Campos um "modelo de rua" que passou a chamar-se
GT-Malzoni. Ele utilizava a carroceria tradicional, porém
com acabamento muito mais caprichado. O painel era do Fisore,
modelo de luxo da Vemag. O motor era o mesmo 981cc e 60 CV e
o câmbio de 4 marchas no assoalhos. A velocidade máxima
algo próximo de "incríveis" 150 Km/h, bom para o
padrão da época. Seus concorrentes eram o pacato Karmann
Ghia e Willys Interlagos, que custavam cerca de 20% a menos
e os esportivos "de luxo" FNM 2000 e o Simca
Rallye, que eram pelo menos 20% mais caros. Durante o ano
1966 foram produzidas 35 unidades do GT-Malzoni. No final
deste ano a Razão Social mudou para Puma Veículos e
Motores Ltda. E no salão do automóvel de 1966 apresentou
uma versão ligeiramente reestilizada do GT-Malzoni, que
passou a chamar-se Puma GT.
ANOS DE
OURO
Em 1967 o
vento soprou a favor da Puma: 125 unidades foram produzidas.
Porém grandes mudanças no cenário automobilístico
brasileiro começaram a ocorrer e uma delas foi a passagem
do controle acionário da Vemag para a Volkswagen. O
resultado era previsível e em pouco tempo os DKW deixaram
de ser produzidos. Sem seu principal fornecedor a Puma
precisou escolher outro conjunto mecânico para seus
modelos. A escolha recai sobre o conjunto motor/câmbio/suspensão
e plataforma do Karmann Ghia 1500. Afinal era uma mecânica
confiável, com grande rede de assistência técnica e
apesar de não ter um desempenho brilhante, atendia aos
objetivos desejados. Além disso, já era uma tendência nos
EUA utilizar mecânica Volkswagen em veículos esportivos,
utilitários fora-de-estrada e réplicas. Mas a mudança não
foi tão simples; a passagem do motor/tração dianteira
para a traseira resultou em um novo carro. Desenvolvido em
tempo recorde, o novo Puma em sua versão definitiva, foi
apresentado à diretoria da Volkswagen em março de 1968.
Dados o "OK" da fábrica, a Puma lançou o modelo
GT 1500 no mercado. Ele trazia uma carroceria totalmente
redesenhada, muito mais moderna e de linhas inspiradas na
Lamborghini Miura. Continuava um carro leve (pesava apenas
640 Kg) e custava o mesmo que dois Fuscas. Este, talvez, foi
o modelo mais bonito que a Puma construiu.
Em 1968 as
vendas do GT 1500 atingiram a 151 unidades e, em 1969, já
chegavam ao patamar de 272 veículos. Eles eram um sucesso,
mas possuíam uma característica que sempre acompanhou os
modelos à ar: os 60 CV que os motores 1500cc ofereciam, não
eram condizentes com a esportividade que suas linhas
sugeriam. Mesmo assim o sucesso que a Puma fazia no Brasil
passou a fazer no exterior, primeiro na Europa e América do
Sul, depois para os EUA. Para atender o mercado externo
diversas modificações e aperfeiçoamentos foram feitos e
alguns acabaram sendo aplicados nos modelos vendidos no
Brasil. Assim, em fins de 1970, a Puma lançou no nosso
mercado o modelo GTE (Exportação) que além de possuir
melhor qualidade geral, trazia novas lanternas traseiras,
apoios de cabeça, lavador de pára-brisas, sistema de
ventilação forçada e a opção de combinar motores 1600cc
ou 1800cc com dupla carburação 32 ou 40, além dos
comandos P1, P2 e P3. O rádio e o medidor de pressão do óleo
também surgiram como opcionais. Os modelos destinados ao
mercado externo ainda contavam com pisca alerta e duplo
circuito de freios.
O CONVERSÍVEL
No VII Salão
do automóvel foi apresentado o modelo conversível,
denominado Puma GTS (Spider) que era o mesmo carro que o
fechado, porém com reforços estruturais e capota de lona.
Opcionalmente poderia ser equipado com uma capota removível
de fibra de vidro. Preenchendo a vaga deixada no mercado
pelos Karmann Ghia conversível e Interlagos conversível, o
Puma GTS agradou em cheio. Mesmo com o preço entre um Opala
SS e Dodge Charger R/T, pouco tempo depois de seu lançamento
surgiram filas de interessados na compra do GTS. Essa por
sinal, foi durante muito tempo uma condição para aqueles
que desejavam possuir um Puma, e se agravou ainda mais com
as crescentes exportações e a explosão de consumo gerada
pelo "Milagre Econômico" brasileiro do início
dos anos 70, que fez o consumidor brasileiro conhecer o ágio
e meses de filas de espera pelo se "zero Km".
Durante a década de 70 no mercado de usados, os Pumas eram
os modelos com mais alto nível de valorização do mercado
nacional.
O
PUMA-CHEVROLET
Em 1971 foi
apresentado o primeiro protótipo do Puma GTB, conhecido
como Puma Chevrolet, que possuía uma carroceria em fibra de
vidro maior que as tradicionais, na qual foi montado um
motor de 6 cilindros Chevrolet 3800cc. Era a saída da Puma
para atender os consumidores que insistiam em comparar os
resultados dos modelos tradicionais da marca à esportivos
importados ou mesmo a Opalas e Dodges em suas versões
esportivas. A versão definitiva, porém com motor de 4100cc
foi apresentada com o nome de Puma GTO no salão do automóvel
de 1972. O modelo entrou em produção regular somente em
1974 e era um dos mais caros automóveis nacionais.
Em 1979 foi
lançado o modelo GTB S/2 utilizando a mecânica Chevrolet
250-S e com uma carroceria totalmente nova de linhas mais
suaves e harmoniosas que as dos GTBs anteriores. Sua marca
registrada foi a frente com quatro faróis e grades sem
nenhum detalhe cromado, apenas o nome Puma destacado em
vermelho e prata.
ANOS DIFÍCEIS
Em 1976
surgiram mudanças na linha GTE/GTS; encurtaram o chassis da
Brasília ao invés do Karmann Ghia e, foi desenvolvida uma
nova carroceria, mais larga, com poucos cromados e várias
melhorias executadas. A versão "fechada" foi
dotada de janelas laterais. Mecanicamente os modelos, que já
usavam o motor 1600cc da Brasília ao invés do Karmann Ghia
desde 1975, permaneceram inalterados.
Mas a
Segunda metade da década de 70 viu algumas mudanças no
mercado. Surgiram uma infinidade de modelos "fora-de-série":
Lafer, Bianco, Adamo, Santa Matilde, Farus, Ventura e Miura
eram alguns dos fabricantes, além dos especializados em réplicas.
Também carros como Passat TS, o "novo" FIAT 147
Rallye eram tidos como os "pequenos" esportivos do
momento, pois além de terem preços mais competitivos que
os dos Pumas, traziam muitas novidades tecnológicas como:
suspensão independente, carroceria monobloco e motores
refrigerados à água de geração mais moderna que os
utilizados pela marca.
Foi o início
do declínio da Puma. Apesar de suas vendas continuarem boas
a empresa começou a passar por sérios problemas
financeiros. Ainda assim idealizou e lançou um novo modelo
em 1980: era o P 018. Tratava-se do Puma GTE redesenhado,
com acabamento interno mais sofisticado, novas rodas de liga
leve, e quase nenhuma modificação mecânica.
Resultado, apenas 28 modelos foram vendidos entre 1981 e
1984.
No ano de
1981 os modelos tradicionais também sofrem modificações
de estilo: novos pára-choques, novas lanternas e outros
pequenos detalhes transformaram o GTE em GTI e o GTS em GTC.
Porém o destino da Puma estava selado. Em 1984 quando a
produção foi de exatas 100 unidades (56 GTB, 32 GTC, 4 GTI,
6 P 018 e dois restantes modelos desmontados para exportação),
a Puma atolada em dívidas pediu concordata e suspendeu a
produção.
NOVA FÁBRICA
Apesar da
situação complicada uma nova empresa, em 1986, denominada
Araucária Veículos adquiriu os direitos de propriedade das
marcas e patentes da Puma, transferindo a fábrica de São
Paulo para Curitiba, no Paraná, onde retomou a produção.
Nesta fase
foram produzidos Pumas GTC, GTI, GTB S/2, o caminhão 4T, e
foi implantada uma linha de produção específica para
venda e montagem de kits de carroceria do GTI/GTC denominada
Puma Kit. No ano seguinte foi alinhavado um acordo comercial
entre a Araucária e o lutador de box Muhammad Ali (Cassius
Clay) para produzir um modelo exclusivo de exportação
(partindo do projeto P 018) para o Oriente Médio, mas o
acordo final não foi fechado e com isso a produção também
não foi adiante. Infelizmente não se tem conhecimento dos
registros de produção da Araucária, mas estima-se uma
produção bem pequena, próxima de 20 ou 30 carros no
total.
Novamente
surge outro interessado em resgatar os Pumas. Níveo de
Lima, em 1988, compra a Araucária já em processo
falimentar e transfere os direitos de uso das marcas e
patentes para sua indústria de auto peças. Surge então a
Alfa Metais Veículos, também de Curitiba.
Os modelos
foram todos relançados com novos nomes e algumas modificações:
AMV (GTB S/2), AM1 (P 018 Coupé) e AM2(P 018 Conversível)
sendo aposentados definitivamente os anteriores GTI e GTC.
Ainda seria relançado o caminhão 4T com o nome 914 e um
modelo de de cabine dupla.
Ao modelo
AMV foi dada uma nova grade, luzes de direção, rodas de
liga leve, pára-choques envolventes além das lanternas
traseiras. Internamente o modelo recebeu um painel
redesenhado com ar condicionado integrado e bancos Recaro. O
projeto do P 018 com pequenas modificações tais como maçanetas
de porta, espelhos e posição do tanque de combustível,
originou os modelos AM1 e AM2 que em 1989 passaram por uma
grande transformação mecânica originando novos AM3 e AM4.
Os engenheiros da Alfa Metais modificaram o projeto do
chassi e carroceria para que os carros utilizassem o motor VW AP 1800 (Gol GTS) refrigerado a água. Posteriormente o
modelo AM3 foi rebatizado de AM4 Coupé e o conversível de
AM4 Spider.
ABERTURA
DO MERCADO
Porém o
mercado de automóveis mudou novamente. Além dos problemas
financeiros que o plano Collor gerou às empresas
brasileiras, trouxe em particular, mais um para a Alfa
Metais. A chegada dos carros importados, que no período de
1991 a 1993, fizeram despencar as vendas o que acabou
inviabilizando a continuidade nos investimentos para o
desenvolvimento dos projetos. Somado a este quadro morreu em
janeiro de 1993 Níveo de Lima, curiosamente, vítima de um acidente
automobilístico. Desta forma a empresa decidiu parar a
produção de carros, o último um AM4 Spider 1995,
permanecendo apenas a linha de caminhões leves.
Por fim, em
1999, a Alfa Metais suspende a produção dos caminhões
modelo 7900, o último produto Puma fabricado pela empresa.
Em 2001 a empresa encerrou suas atividades.
Texto
original: Revista Collectors.
Informações adicionais: Rubens Rossatto Filho.
Adaptação: Rafael Wons.
|
|

Detalhe da roda
do Puma GTB/S2
|
|

Puma GTB S/2
|
|

Painel do Puma GTB/S2
|
|

Puma GTC
|
|

Detalhe da lateral
dianteira direita do Puma GTC/GTI
|
|

Puma AM1
|
|

Puma AM2
|
|

Puma 914
|
|

Puma 7900 CB
|
|

Puma 7900 CD
|
|
|
|
|
|