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A PROBLEMÁTICA CORPO-ALMA 

NA OBRA DE FREUD

Monah Winograd

 

Cadernos de Psicanálise da SPCRJ, v. 19, n. 22, 2003

 

Assim como nos romances policiais, gostaria de começar esta história propondo uma conclusão que pode parecer óbvia para alguns, mas que, para mim só foi possível depois de algum tempo e de algumas tomadas de posição: o sujeito psicanalítico não é uma abstração pura, não é apenas efeito de uma operação lingüística; tampouco é uma substância pensante, pura razão ou faculdade do espírito. O sujeito é sobretudo um corpo (matéria) que, por sua complexidade, constrói signos e pode enunciá-los e articula-los em rede. Portanto, referir-se a um “sujeito” é referir-se a um corpo que pensa, fala e age.

Três idéias ajudam sustentar esta conclusão, conforme expus noutro artigo (Winograd, 2002). Aqui, vou apenas citá-las brevemente. A primeira é a possibilidade de pensarmos no Eu como uma membrana ou como uma interface entre o psiquismo, o corpo próprio e os outros corpos, ou seja, a exterioridade. O conceito freudiano de Eu o define como a projeção mental da superfície corporal. Não somente o Eu é uma entidade de superfície (psíquica), já que se constitui como mediação entre o psiquismo e a exterioridade, mas, por definição, ele deriva das sensações corporais, principalmente das que tem lugar na superfície corporal. A segunda idéia também opera com a noção de membrana, desta vez, articulada ao Isso. Assim como o Eu, também podemos pensar no Isso como uma membrana ou uma interface entre o psiquismo e o corpo. O próprio Freud sugeriu isso quando, em 1933, definiu o Isso como um “caos”, um “caldeirão cheio de excitação fervilhante” pelo contato direto com o corpo (Freud, 1933). Não é por acaso que o modelo de 1933, baseado no de 1923, é aberto em sua parte inferior: o Isso funde o aparato psíquico com o corpo, tornando-os indiscerníveis neste nível. Finalmente, a terceira idéia é menos uma idéia propriamente dita e mais a formulação de dois problemas interconectados: o das relações corpo-psiquismo na obra de Freud e, como decorrência direta, o problema da individuação.

A estas três idéias, pode-se acrecentar uma observação extraída da leitura diária de jornais. Na última década, assistimos à explosão discursiva da Biologia sob duas perspectivas: (1) ou ela opera uma redução sumária do indivíduo (modos de pensar e agir) à sua configuração biológica: variações psíquicas resultam de variações neurobiológicas e modos de ser resultam de configurações genéticas; (2) ou apresenta como “descoberta grandiosa” a verificação da relação entre corpo e psiquismo. A primeira, do ponto de vista da psicanálise, não fazia o menor sentido, ou melhor, só fazia sentido se fosse situada no projeto de naturalização do espírito que marcou o século XX, diagnosticado e descrito por Pascal Engel (1994). A segunda observação causava surpresa apenas por apresentar como uma descoberta recente o que os psicanalistas já verificaram há muito tempo.

Para articular a conclusão, as idéias e as observações expostas acima, meu movimento inicial consistiu em confrontar Psicanálise e Biologia. A bibliografia consultada levou-me rapidamente à conclusão de que as posições assumidas derivam explicitamente da concepção filosófica de cada grupo de autores sobre as relações corpo-psiquismo. Mas, assim como cada autor consultado tinha a sua posição, Freud também deveria ter tido a dele. Pareceu-me oportuno, então, verificar a posição de Freud relativamente a este problema, tema freqüentemente deixado de lado, como atesta a ausência de bibliografia a respeito. Como Freud pensou a relação entre corpo e psiquismo? Eu tinha uma hipótese, que confirmei ao final da pesquisa: a problemática das relações entre corpo e psiquismo está presente ao longo de toda a obra freudiana, do começo ao fim, de modo visível ou subterrâneo. Tratava-se de trazê-la à luz.

Lancei-me, então, na tarefa de ler cada texto de Freud, do primeiro ao último volume das obras completas, e mais outros tantos escritos que foram publicados separadamente. Eu começava a fazer o que depois chamei de inventário temático-cronológico da obra de Freud (atualmente em fase de finalização para publicação posterior, com patrocínio da FAPERJ e o acolhimento do Departamento de Psicologia da PUC-Rio). O objetivo era perceber quando, como e porquê o problema das relações entre corpo e psiquismo aparecia.

Para ajudar o leitor no acompanhamento de minhas observações sobre a obra de Freud, organizo-as tematicamente, destacando apenas alguns pontos dentre os inúmeros possíveis. A escolha dos temas aconteceu a partir do que foi mais trabalhado até o momento, e não por serem os mais importantes. No final, proponho uma periodização da obra baseada exclusivamente na problemática das relações corpo-psiquismo. Meu objetivo é somente esquematizar a questão para dar-lhe o relevo que ela merece.

O paralelismo psicofísico

Em 1888, Freud publica num dicionário de medicina um artigo chamado “Cérebro[1]. Este texto salta aos olhos como especialmente revelador. É um dos artigos mais longos do dicionário e pretende ser uma introdução sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro humano. A parte do artigo mais interessante é a segunda. Nela[2], Freud parte de uma definição geral do cérebro como o órgão no qual as excitações sensórias centrípetas são convertidas em impulsos centrífugos de movimentos. Esta função do cérebro recebe o estatuto de causalidade mecânica, cujo modelo é o arco-reflexo.

Contudo, a atividade cerebral não se reduz a esta função. Freud escreve: “(...) simultaneamente ao estado de excitação, definível mecanicamente, de elementos cerebrais determinados, podem ter lugar estados de consciência determinados (...)” (Freud, 1888a, pág. 62). A tradução do inglês para o português é minha). Entre os estados de excitação cerebral e os estados de consciência, Freud concebe uma relação de conexão ou de ligação que pode ser formulada da seguinte maneira: as mudanças materiais de estado (excitação de elementos cerebrais) estão em conexão com as mudanças de estados de consciência. Esta conexão constitui uma primeira determinação do psíquico, ela faz do cérebro “o órgão da atividade mental (Seelenthätigkeit)”. O termo “mental” tendo, aqui, o mesmo sentido que o termo “psíquico”. O que nos diz Freud desta atividade mental?

a)  A conexão que a constitui não tem origem numa causalidade mecânica: a aparição de um estado de consciência implica necessariamente a excitação de elementos corticais, mas a recíproca não é verdadeira, pois um mesmo estado de excitação cortical pode, de acordo com cada momento, estar ou não em conexão com um estado de consciência.[3]

b)  A conexão, quando tem lugar, se traduz em termos de franqueamento ou não-franqueamento do limiar da consciência. Deste ponto de vista, a aparição de um estado de consciência tem por modelo o ato voluntário, mas os estados de consciência podem tomar outras formas: sensaçôes, percepçôes de objeto, representaçôes, etc.

c)   Os estados de consciência somente são acessíveis à introspecção. Que tenham ou não lugar não afeta em nada a forma do comportamento observável.

A partir destes aspectos, pode-se, provisoriamente, concluir que, de um lado, a ausência de causalidade mecânica entre estado de excitação cortical e estado de consciência induz à idéia de uma distinção de níveis entre os dois, da qual ainda não se sabe se é nominal ou real. Por outro lado, há o mental a partir do momento onde a conexão se efetua entre os dois níveis, o estado de excitação cortical sendo uma condição necessária, mas não suficiente, do estado de consciência. É o que Pierre Bruno (1971) chama, em sua análise deste artigo, de determinação I do psíquico. A análise do restante do texto freudiano não permite a permanência nesta primeira determinação. Com efeito, ao lado da relação de conexão, Freud acrescenta um segundo tipo de relação, desta vez, operando entre os próprios elementos psíquicos.

Esta relação tem a forma de uma cadeia, cujos elos são os próprios elementos psíquicos, constituídos, por exemplo, pelos diversos estados de consciência, ou pelas diversas idéias. Segundo a primeira relação (determinação I), esta cadeia psíquica está em ligação com a cadeia material, mas é, ao mesmo tempo, distinta dela. Entre as duas, haveria uma correspondência de tipo elo à elo? Vejamos o caminho que Freud nos aponta.

São três as possibilidades de composição da cadeia psíquica: 1) todos os elos da cadeia (psíquica) franquearam o limiar da consciência — é o caso mais simples; 2) somente alguns elos franquearam este limiar; 3) algum elo não franqueou este limiar.

A pergunta é inevitável: se a ligação entre as cadeias pode ou não ocorrer, qual o destino dos elos que não franquearam o limiar da consciência? Numa primeira eventualidade, os elos que não franquearam o limiar da consciência só existiriam como elos da cadeia material. No caso de alguns elos terem franqueado o limiar da consciência, como a cadeia não seria rompida? Devemos supor a existência de uma possibilidade de associação entre um elo da cadeia psíquica e um elo da cadeia material. No caso em que nenhum elo franqueie o limiar da consciência, a aplicação desta eventualidade resulta na redução total da cadeia psíquica à cadeia material. Vê-se o que daí decorre: o psíquico não é nada mais do que a fisiologia cortical, incluindo a possibilidade, mas não a necessidade, da consciência. Numa segunda eventualidade, os elos que não franquearam o limiar da consciência subsistem como elos não-conscientes, distintos da cadeia material. Neste caso, resultaria daí a produção de uma diferença irredutível entre psíquico (consciente e não consciente) e fisiológico (material). Nada, no texto de 1888, permite escolher seguramente uma das duas possibilidades. Somente uma coisa é certa: há uma determinação I do psíquico que, segundo as eventualidades 1 e 2, pode especificar-se em determinação I.1 ou I.2.

O ponto de vista freudiano será formalizado 3 anos depois, na célebre monografia sobre as afasias (Freud, 1891). Ao querer desenhar um aparato capaz de produzir o discurso espontâneo, Freud pretendia que este aparato fosse capaz de pensamento, de processos psíquicos implicando representações-objeto, representações-palavra, associações entre tais representações e por aí vai. Mas, para Freud, ainda era necessário relacionar estas atividades psíquica à estrutura e ao funcionamento material do cérebro.  Na parte V do livro sobre as afasias, ao criticar a doutrina “córtico-cêntrica” de Meynert e a hipótese da localização anatômica cerebral das funções, dela derivada, Freud explicita e defende a idéia de que a relação entre os processos fisiológicos do sistema nervoso e os processos psicológicos não é de causalidade:

A cadeia dos processos fisiológicos no sistema nervoso não se encontra, provavelmente, numa relação de causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não se interrompem ao iniciarem-se os processos psíquicos. Ao contrário, a cadeia fisiológica prossegue, só que a partir de um certo momento, um fenômeno psíquico corresponde a um ou mais de seus elos. O processo psíquico é, assim, paralelo ao processo fisiológico (“a dependent concomitant”) (Freud, 1891, pág. 105. A tradução do francês é minha)

Se a relação entre fisiológico e psicológico é de concomitância, e não de causalidade mecânica, os processos fisiológicos e psicológicos não se confundem, embora estejam conectados. Por isso, a localização de uma representação numa célula nervosa era, para Freud, uma conclusão equivocada. O correlato fisiológico da representação não seria algo em repouso, mas alguma coisa da natureza de um processo, cujas propriedades, por sua vez, deveriam ser definidas por si mesmas e independentes de seu correlato psicológico. O mesmo sendo válido para os processos psicológicos: sua estrutura interna independeria das estruturas anatômica e fisiológica, cada qual devendo ser abordada em seus próprios termos.  

A hipnose: processo de dupla face

Se realmente Freud acreditava numa relação de concomitância dependente entre processos psíquicos e processos corporais, nada mais coerente do que ter considerado o método hipnótico como uma possibilidade interessante no tratamento de algumas afecções, ainda que ele mesmo a abandone por outros motivos.

Em seu prólogo a tradução de H. Bernheim, “De la suggestion”, também de 1888, Freud apresenta o problema de como o hipnotismo deveria ser considerado, se como um fenômeno psíquico (desencadeado a partir da ‘sugestão’) ou como um fenômeno físico e fisiológico. Como era de se esperar, ele não assume nenhuma das duas posições. Ao contrário, empenha-se em descrever, tanto os processos fisiológicos, quanto os processos psicológicos envolvidos e justifica seus argumentos concordando com Bernheim sobre o equívoco em classificar os fenômenos hipnóticos como puramente fisiológicos ou puramente psíquicos. Trata-se, na verdade, de um processo de dupla face que implica, simultaneamente, variações psíquicas e fisiológicas. A especificação, de acordo com sua natureza, dos mecanismos em ação na hipnose deve, portanto, ser considerada um falso problema: “Creio, então, que é preciso desautorizar a pergunta sobre se a hipnose mostra fenômenos psíquicos ou fisiológicos, e submeter a decisão a uma indagação especial para cada fenômeno singular.”(Freud, 1888b, pág. 91). Para Freud, um determinado fenômeno (no caso, especificamente o hipnotismo) será psíquico ou fisiológico, anímico ou corporal, de acordo com o registro de incidência da investigação, o que faz da decisão sobre o quê causou o quê uma questão irrelevante.

Em 1890, versando, mais uma vez, sobre o polêmico tratamento hipnótico, Freud revela com clareza seu ponto de vista sobre o próprio hipnotismo, a medicina de seu tempo e, sobretudo, o paralelismo psicofísico. A passagem é bastante clara e mostra a atitude singular de Freud frente ao modo como seus colegas médicos pensavam a vida anímica:

É verdade que a medicina moderna teve ocasião suficiente de estudar os nexos entre o corporal e o anímico, nexos cuja existência é inegável; mas, em nenhum caso, deixou de apresentar o anímico como comandado pelo corporal e dependente dele. Destacou, assim, que as operações mentais supõem um cérebro bem nutrido e de desenvolvimento normal, de sorte que resultam perturbadas toda vez que esse órgão se enferma; (...). A relação entre o corporal e o anímico (no animal, tanto como no homem) é de ação recíproca; mas, no passado, o outro flanco desta relação, a ação do anímico sobre o corpo, encontrou pouca honra aos olhos dos médicos. Pareciam temer que, se concedessem certa autonomia à vida anímica, deixariam de pisar o terreno seguro da ciência.” (Freud, 1890, pág. 116, o grifo é meu).

O afeto: soma de excitação, intensidade dos processos e  fator traumático

Em 11 de janeiro de 1893, Freud faz uma conferência na qual expõe as teses do primeiro capítulo da “Comunicação Preliminar”, escrito com Breuer no mesmo ano. Costuma-se sublinhar-se a preponderância dada ao fator traumático na etiologia da histeria, o que revelaria a forte influência de alguns dos pontos de vista de Charcot nas formulações freudianas. Porém, mais do que na simples especificação do fator traumático, a importância desta apresentação está na introdução de um pequeno desdobramento do ponto de vista paralelista de Freud sobre as relações corpo-psiquismo: a introdução do afeto como o correlato da soma de excitação, ou mais radicalmente, como um dos elementos que conecta as séries psíquica e corporal.

Para explicar a hipótese de que qualquer sintoma histérico seria determinado por um trauma psíquico, Freud  apresenta algumas reflexões sobre as condições sob as quais se desgasta a intensidade das representações. Para tanto, ele parte da correlação entre qualquer impressão psíquica e o acréscimo de uma “soma de excitação” no sistema nervoso. Uma vez que, em todo indivíduo, existiria o afã de tornar a diminuir esta soma de excitação, o sistema nervoso reagiria, por vias motores, no sentido da descarga da quantidade recebida. Desta reação dependeria “o quanto restará da impressão psíquica inicial”, ou, em termos fisiológicos, o quanto restará da soma de excitação recebida anteriormente pelo sistema”(Freud, 1893a, pág. 37). Reagir adequadamente é descarregar o mesmo tanto recebido, para o que existem três modalidades gerais: os processamentos motriz, por palavras (fala) e associativo.

Ou seja, se o processamento de uma quantidade de excitação (processo fisiológico) pode se dar por meio de um processamento associativo entre representações (processo psíquico) é porque há uma relação entre eles. Novamente, esta relação não é causal, mas de concomitância, já que, na descarga, ainda há uma quantidade de excitação em jogo. A novidade é que, ao se referir aos mecanismos psíquicos de descarga, Freud utiliza o termo “afeto” para designar a quantidade em tramitação e a que é descarregada (Freud, 1893a). Referência reafirmada no outro texto deste mesmo ano, “Algumas considerações...”: “Cada evento, cada impressão psíquica estão providos de certo valor afetivo [Affektbetrag {monte de afeto}], do qual o eu se livra pela via de uma reação motriz ou por um trabalho psíquico associativo.(Freud, 1893b, pág. 209). Isto leva a supor ser o afeto um modo de expressão psíquica das excitações recebidas e em trânsito no sistema nervoso. Tanto que, um ano depois, Freud afirma, adiantando um dos pilares de toda a sua construção conceitual posterior, que, nas funções psíquicas, deve-se distinguir um monte de afeto ou uma soma de excitação que possui todas as propriedades de uma quantidade — embora não seja mensurável, pelo menos naquela época —, capaz de aumento, diminuição, deslocamento e difusão pelas vias mnêmicas, “(..) como o faria uma carga elétrica pela superfície dos corpos.”(Freud, 1894, pág. 61).

Com efeito, neste momento da obra de Freud, a correlação ostensiva dos processos psíquicos com os processos fisiológicos permite a conclusão de que, para ele, além da representação, o monte de afeto também estaria numa relação de “concomitância dependente” com a série corporal. Noutras palavras, é impossível separar os acontecimentos psíquicos, incluindo o valor afetivo ou a intensidade dos processos, dos (neuro)fisiológicos.

A noção de limiar: resolução provisória da relação entre as séries corporal e psíquica

Em 1895, diferenciando a angústia histérica, diretamente relacionada aos processos anímicos, da recém-definida neurose de angústia, Freud conclui que, nesta última, a angústia tem sua fonte em fatores físicos da vida sexual. A impossibilidade de transpor a tensão sexual física para o plano psíquico acarretaria um acúmulo exacerbado desta tensão e a conseqüente descarga motora através de taquicardias, hiperventilação, tremores, etc., caracterizando o estado de angústia. Sua hipótese é a de que, para que uma excitação endógena se faça notar psiquicamente, ela deve atingir certo limiar, a partir do qual será valorizada, entrando em relação com certos grupos de representações que põem em cena a solução específica.

Dito de outro modo, no caso da tensão física sexual, ela deve atingir um certo valor, uma certa quantidade acumulada, para que desperte a libido psíquica. Uma vez transposto este limiar, o grupo de representações sexuais presente no psiquismo seria dotado de “energia”, ou seja, o estado psíquico de tensão libidinosa seria gerado e levaria ao esforço de cancelar esta tensão.

Nota-se que não se trata aqui de ‘transformação’ da energia sexual física em psíquica, mas de valorização psíquica de uma excitação material de natureza sexual recebida pelo sistema, isto é, a exteriorização psíquica de uma excitação física depende do grau de intensidade por ela atingido. Freud escreve:

Se, para fixar melhor nossas representações sobre isto, supormos que a excitação sexual somática se exterioriza como uma pressão sobre a parede, provida de terminações nervosas, as vesículas seminais, então, esta excitação visceral aumentará de modo contínuo, mas apenas a partir de certa altura será capaz de vencer a resistência [Widerstand] da condução interpolada até o córtex cerebral e exteriorizar-se como estímulo psíquico” (Freud, 1895, pág. 108)

O estímulo psíquico é, portanto, um dos modos de exteriorização das excitações em trâmite no sistema, não seu efeito. Se é assim, podemos afirmar que, para Freud, a sexualidade brota de ambas as séries corporal e psíquica, podendo ser definida como uma excitação física necessariamente associada a um grupo de representações afetivamente intensificado. Este ponto de vista desembocará, no ano seguinte, em questões relativas à causação das neuroses, só plenamente desenvolvidas em 1896.

A etiologia das neuroses: da relação cérebro-pensamento à problemática da sexualidade

Freud diferencia três classes de fatores etiológicos, retomando as considerações feitas no texto “Uma réplica às críticas do meu artigo sobre neurose de angústia”, de 1895:

1)     as condições ou precondições: são os fatores indispensáveis, de caráter geral. Encontráveis na etiologia das neuroses e de outras afecções. Funcionam como causas necessárias, mas não suficientes;

2)     as causas concorrentes ou acessórias: não são indispensáveis, funcionando tanto na causação das neuroses quanto de outros distúrbios. São chamadas de “agentes banais”, tais como esgotamento físico, doenças graves, sobrecarga intelectual, etc;

3)     as causas específicas: são tão indispensáveis quanto as condições, mas de modo estrito. Só estão presentes na etiologia da afecção da qual são causa específica.

A hipótese de Freud é que a hereditariedade funciona como condição, não podendo prescindir das causas específicas para a produção de uma neurose. Mas, quais são estas causas específicas? Pela primeira vez, Freud apresenta positiva e afirmativamente sua tese segundo a qual

(...) cada uma das grandes neuroses que enumerei [neurastenia, neurose de angústia, histeria e neurose obsessiva] tem como causa imediata uma perturbação específica da economia do sistema nervoso, e que essas modificações patológicas funcionais têm como fonte comum a vida sexual do sujeito, quer residam num distúrbio de sua vida sexual contemporânea, quer em fatos importantes de sua vida passada (Freud 1896, pág. 149)

O artigo prossegue com o aprofundamento deste argumento relativamente a cada grupo e tipo de neurose em particular.

Aqui, e nos outros artigos deste mesmo ano, o problema das relações corpo-psiquismo se apresenta como o das causas das neuroses, dando corpo à problemática da sexualidade e roçando a questão da interseção entre o inato e o adquirido. De um lado, os fatores hereditários, portanto, a natureza do indivíduo; de outro lado, as experiências sexuais vividas na infância, portanto, fatores contingenciais e acidentais. Em termos bastante simplificados, a discussão é sobre o que é mais determinante para o funcionamento psíquico em todas as suas variações: se a natureza do indivíduo independente do que ele experimenta, ou, ao contrário, se o que o indivíduo experimenta e como experimenta, mais do que sua natureza. Se Freud dá destaque às experiências do sujeito, demonstrando uma certa preponderância do registro psíquico, ele não descarta a influência da natureza do indivíduo no efeito psíquico destas experiências e seus desdobramentos. Apenas, a natureza, por si só, não basta, nem para determinar, nem para explicar, as variações psíquicas. Também não bastam apenas as causas específicas. O que o indivíduo é e se torna é determinado pela convergência de ambas as séries — o que inclui a cultura como formadora e participante da série mental.

Por enquanto, este problema encontra-se no âmbito da etiologia das neuroses, operando como argumento diferenciador da posição de Freud relativamente a Charcot e a Escola Francesa: ao invés da exclusividade da hereditariedade, a participação determinante de uma experiência sexual contingencial.

A natureza sexual dos humanos e a sexualidade infantil

Rapidamente Freud faz com que o foco recaia sobre as experiências sexuais infantis, sem que isso signifique ter havido um trauma. A sexualidade infantil começa a ser reconhecida como universal e própria à natureza humana. Contudo, seu papel fundamental na subjetivação dos indivíduos só será realmente aprofundado após 1905. Até lá, as psiconeuroses tinham como origem o corpo infantil seduzido, traumatizado, ainda que os efeitos deste acontecimento só se fizessem notar a posteriori. A partir da gradual conceitualização da sexualidade infantil — o que inclui sua generalização e naturalização — as neuroses já não decorrem do corpo infantil seduzido, mas daquilo mesmo que constitui a natureza deste corpo, ou seja, “as forças pulsionais sexuais” (Freud, 1898, pág. 273). Qualquer variação no destino destas forças na infância produz efeitos no modo de funcionamento do psiquismo. Noutras palavras, o que afeta o corpo, afeta o psiquismo.

Neste ponto, já se pode notar que o tema das relações cérebro-pensamento diluiu-se naquele das “forças pulsionais sexuais” e seus efeitos no funcionamento psíquico. Gradualmente, uma nova rede problemática ganha forma, engendrando a elaboração de diversos conceitos que, superficialmente, parecem destacar-se do problema corpo-psiquismo. Contudo, se atentamos para a germinação de um novo modelo de aparato (culminando no que será desenhado em 1900) que abraçará, aprimorará e fará funcionar os conceitos produzidos — fazendo parecer que, doravante, apenas o funcionamento psíquico normal e variado será tema de reflexão —, perceberemos a permanência do problema das relações corpo-psiquismo, agora com uma nova roupagem. Seja nas formulações sobre a relação cérebro-pensamento, seja na discussão entre inato e adquirido, seja ainda na suposição de “forças sexuais” naturais ao homem conflitantes com sua “moral civilizada”, ou mesmo em questões relativas à própria concepção do aparato (como, por exemplo, o porquê dele ser regido pelo princípio do prazer), é sempre a mesma questão complexa em operação: a das relações corpo-psiquismo. Não se trata de decidir o que, para Freud, prevalece e determina — embora o registro psíquico seja privilegiado como objeto de reflexão e teorização — mas de evidenciar a necessária imbricação entre os dois registros. Para Freud, o indivíduo é corpo e psiquismo, as duas séries afetando-se mutua e necessariamente. É isso o que é reafirmado o tempo todo, dando, por vezes, a impressão de tratar-se de um resquício de biologismo decorrente de sua formação positivista. Se há algo que Freud parece nunca ter esquecido é que não há psiquismo sem corpo e que ambos são necessários para existirem indivíduos humanos. Daí a questão permanecer em operação do início ao fim de sua obra, às vezes com mais, às vezes com menos visibilidade, mas sempre lá.

A pulsão, o apoio do sexual no autoconservativo e as relações entre inato e adquirido

Em 1905, nos ensaios sobre a sexualidade, são vários os pontos de irrupção do problema das relações corpo-psiquismo, dentre os quais destaco três:

1)     a discussão entre os fatores acidentais e os fatores disposicionais na causação das neuroses. Por vezes, esta discussão assume os contornos do problema entre o que é  inato e o que é adquirido, ou entre o hereditário e o acidental, ou ainda a relação entre ontogênese e filogênese;

2)     a montagem do conceito de pulsão. Em 1905, as formulações são sobre pulsões sexuais, pulsões de autoconservação, e a relação entre as duas, roçando o problema da sexualidade infantil;

3)     a noção de apoio, só plenamente introduzida no texto em 1915.

O primeiro ponto é destacado pelo próprio Freud no prólogo à terceira edição, escrito em 1914, no qual ele sublinha a prioridade dada aos fatores acidentais, já que a apreciação dos fatores disposicionais ultrapassa o campo de trabalho da psicanálise. As fronteiras entre psicanálise e biologia aparecem melhor demarcadas do que em 1896, os dois campos apresentando focos de miscibilidade e de divergências aos olhos de Freud:

A rigor, meu objetivo foi sondar o quanto se pode apurar sobre a biologia da vida sexual humana com os meios acessíveis à investigação psicológica; era-me lícito assinalar os pontos de contato e concordância resultantes dessa investigação, mas não havia porque me desconcertar com o fato do método psicanalítico, em muitos pontos importantes, levar a opiniões e resultados consideravelmente diversos dos de base meramente biológica” (Freud, 1905 [acrescentado em 1914], pág. 119)

Esta passagem é importante por dois motivos principais. De um lado, pode-se notar a suposição de que diversos aspectos da vida sexual dos humanos devem-se à sua natureza específica, daí a referência à “biologia da vida sexual humana”. Por outro lado, Freud assume uma posição de independência relativamente à esta mesma biologia com a qual pretende contribuir: os fatores acidentais que a psicanálise dá a conhecer não são priorizados ou levados em conta pelas ciências biológicas. Noutras palavras, o indivíduo humano é e se torna aquilo que a ele acontece ao longo do tempo, no que estão incluídos seu corpo e seu psiquismo, sem que seja possível separar o que acontece a um e a outro. Por exemplo, na discussão sobre o homossexualismo, Freud é levado à conclusão de que a alternativa inato-adquirido é incompleta, não abarcando todas as situações envolvidas no problema da inversão: o que em alguns indivíduos parece determinar seu homossexualismo, em outros não produz o mesmo efeito.

Conforme o próprio Freud afirma, “seria errôneo supor uma oposição onde existe um nexo de cooperação” (1905, pág. 155). Desta discussão, duas idéia são extraídas: a de uma disposição bissexual própria à natureza humana — o que leva Freud a postular que entre a pulsão sexual e o objeto há somente uma solda — e a de que a pulsão sexual pode ser afetada em seu desenvolvimento, o que provoca variações nas escolhas de objeto. Ou seja, a conduta sexual humana resulta da imbricação entre uma multiplicidade de fatores disposicionais e acidentais; multiplicidade refletida na diversidade dos modos de exercício da sexualidade. Em sua montagem, o conceito de pulsão incluirá estes aspectos — de certo modo, já presentes nos sentidos expressos pelo termo alemão[4] — funcionando como um aglutinador. Elevado à categoria de conceito, Trieb recebe sua mais célebre definição: é um conceito fronteiriço entre o psíquico e o somático.

Uma fronteira é a parte de um território que entesta com um outro território, uma linha divisória não necessariamente fina. Nos trechos em que é vigiada e controlada, a fronteira é uma faixa de terra de largura extensa, pertencente simultaneamente a ambos os territórios, como uma zona de interseção. A pulsão, definida como fronteiriça, manifesta tal interseção ao guardar a dupla face de suas conotações: é somática, pois opera como uma força “biológica”, derivando das excitações corporais endógenas, e é, simultaneamente, psíquica, pois se manifesta para o indivíduo como a representação desta força. Tais aspectos são expressos nas seguintes formulações, ainda restritas à pulsão sexual:

a)     a pulsão sexual é natural aos homens e aos animais, assim como a pulsão de nutrição. Especificamente nos humanos, as moções sexuais estão entre as menos “dominadas pelas atividades superiores da alma, mesmo em pessoas normais” (Freud, 1905, pág. 135) e, por oposição aos animais, não estão submetidas a nenhuma espécie de ciclo — a pulsão sexual é uma força constante, fluída e intensa que exige uma ação.

b)     em sua origem, a atividade sexual se apóia nas funções orgânicas à serviço da conservação da vida;

c)      o objeto sexual, aquilo que atrai sexualmente, é variável e não se confunde com a meta sexual, a saber, a ação para a qual a pulsão impele, a obtenção de prazer, a satisfação, e não a reprodução. Num primeiro momento, o prazer visado é o “prazer de órgão”, local, pontual e eminentemente corporal, posteriormente, o prazer ultrapassará os limites do estritamente corporal e ganhará um sentido mais lato;

d)     os indivíduos apresentam diversas variações — sem que seja possível decidir pela determinação de fatores contingentes ou constitucionais, embora a psicanálise só possa se ocupar dos primeiros — tanto com relação aos objetos sexuais eleitos, quanto com relação à meta sexual (entendida, neste caso, como a união dos genitais);

e)     originariamente, a pulsão sexual é “perversa” em todos os indivíduos, ou seja, o que determinará a escolha dos objetos é entre outras coisas, os “diques do recalque”, quais sejam, o nojo, a vergonha e a moralidade, que direcionam, restringem e determinam os caminhos de obtenção de prazer, circunscrevendo a sexualidade dentro das fronteiras consideradas normais, ou, por uma variação qualquer, configurando-a de modo diverso.

Os pontos (a), (b) e (c) tornam evidente a ligação da pulsão ao corpo e à algo da natureza humana. Por sua vez, os pontos (d) e (e) introduzem as dimensões simbólica e imaginária, complexificando o conceito. Trocando em miúdos, Freud parte da idéia de que a espécie humana, assim como as outras espécies animais, apresenta uma disposição sexual própria à sua natureza. Mas, o modo como esta disposição se apresentará em cada indivíduo, neurótico ou não, depende de outras coisas, precisamente o que a psicanálise prioriza e dá a conhecer. A sexualidade (conjunto das fantasias, identificações e escolhas objetais do indivíduo) constitui-se como uma conjunção entre a natureza sexual humana (individual e da espécie) e o que acontece ao indivíduo em sua história pessoal — entroncamento entre corpo e psiquismo, sem que seja possível decidir por uma determinação última.

Nota-se que, a esta altura, o problema da relação entre corpo e psiquismo foi deslocado para a questão bastante complexa das origens e do estatuto da sexualidade e da atividade sexual nos humanos. É importante atentar para o fato de que, nos ensaios sobre a sexualidade, não é o surgimento da pulsão sexual como tal que é interrogado, mas o aparecimento da exteriorização sexual na primeira infância. Desenhando uma espécie de vetor retroativo, a noção de apoio (só plenamente introduzida por Freud em 1915, ao efetuar a revisão do texto para sua 3a. edição[5]) pode ser lida como uma tentativa de resposta para este problema. Jean Laplanche (1997) propõe que a noção de apoio seja pensada como uma espécie de emergência, representada graficamente por um esquema composto de duas flechas, a da autoconservação e a da sexualidade, que, após um momento inicial de conjunção, separam-se progressivamente.[6] Operada no plano da autoconservação, a intervenção de um outro indivíduo é a responsável pelo surgimento da excitação sexual e pela diferenciação progressiva da pulsão sexual, instalando a sexualidade. A idéia de sedução seria, estritamente segundo este ponto de vista, um elemento chave da noção de apoio, aquilo que a torna fundamental para o pleno funcionamento da máquina conceitual freudiana, “salvando-a” de um encontro com a biologia.

Há, contudo, um complicador: no mesmo ano de 1915, em que a referência ao apoio é incluída no texto original de 1905, Freud escreve noutro texto, que “em sua primeira aparição [as pulsões sexuais] se apóiam nas pulsões de autoconservação, das quais somente pouco a pouco se desligam; (...)” (Freud 1915, pág. 121). Mas, em que sentido deve-se compreender esta idéia de que as pulsões sexuais apóiam-se nas de autoconservação? A primeira possibilidade é entendê-la em termos genéticos e de modo literal: as pulsões sexuais decorrem, nascem, derivam, emanam, provém das pulsões autoconservativas, temporalmente anteriores. A segunda possibilidade, mais fecunda, é pensar o apoio como a relação inicialmente conjuntiva entre autoconservação e prazer. O apoio da sexualidade na autoconservação conotaria, então, uma espécie de qualificação e categorização afetiva originária, segundo o prazer ou desprazer sentido corporalmente. Esquematicamente, num primeiro momento o prazer era obtido de modo local e associado às funções corporais próprias à manutenção da vida, como a alimentação e a higiene, que, por sua vez, implicam a intervenção de um outro indivíduo. Num momento seguinte, o prazer adquire autonomia, podendo ser obtido, ainda localmente, por auto-estimulação, mas já sobredeterminado pela intervenção de um outro. Estes dois momentos estão incluídos no que Ferenczi (1913) chama de estágio autoplástico, no qual o indivíduo, ainda sem condições de uma ação efetiva no mundo externo, retorna sobre seu próprio corpo como fonte de prazer. Somente num terceiro momento, a sexualidade (fantasias, escolhas objetais etc.) ganha forma, entre outros fatores, pela inserção gradual do indivíduo num regime simbólico e imaginário — é o estágio aloplástico, no qual já é possível um processo de pensamento, e conseqüentemente, a intervenção direta no mundo externo com vistas à obtenção de prazer.

Luiz Alfredo Garcia-Roza (1995) discorda da importância dada por Laplanche à “teoria do apoio”. Segundo sua leitura, a noção de apoio é local e circunscrita a um momento preciso que Freud pretende explicar, o do auto-erotismo, momento de disjunção entre o pulsional e o instintivo. Com efeito, o apoio não parece merecer todo o destaque que lhe dá Laplanche. Porém, no que se refere ao problema investigado aqui, a averiguação desta noção revela o que está subterraneamente em jogo: a constituição do psiquismo em sentido lato, uma vez que a demarcação das zonas erógenas e a autonomização do prazer relativamente às funções orgânicas participam da montagem do aparato psíquico, com seus sistemas inconsciente, pré-consciente e consciente e suas instâncias, isso, eu e supereu. Mais do que uma discussão sobre o que é inato e o que é adquirido, ou sobre as origens da pulsão sexual e da sexualidade, a noção de apoio parece evidenciar o ponto de vista freudiano segundo o qual o indivíduo deve ser concebido “biopsiquicamente”. Os tipos de encontros pelos quais o indivíduo passa em sua história estabelecem modelos, padrões imaginários que funcionam como lemes e direcionam escolhas. O problema das relações corpo-psiquismo permanece em aberto se a pergunta é sobre como se dá a passagem de um registro ao outro, seja em termos de constituição do psiquismo, seja em termos das variações causadas no corpo por este psiquismo. Quando a referência era a da relação entre cérebro e pensamento, era exatamente desta pergunta que se tratava. Agora, quando a sexualidade é o lugar de reflexão e teorização privilegiado, corpo e psiquismo ganham outros contornos e suas relações evidenciam o pressuposto freudiano do paralelismo entre as séries: o que afeta um, necessariamente afeta o outro. Se, de um lado, pode-se afirmar que, para Freud, a alma fábrica corpos reais, simbólicos e imaginários, de outro lado, também é preciso dizer que o corpo é a fábrica da alma.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOUN, P-L. Psychanalyse, Paris: PUF (Collection Premier Cycle), 1997

BRUNO, P. Sur la formation des concepts freudiens de psychique/physiologique.  Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 3., 1971

ENGEL, P. Introduction à la Philosophie de L’esprit, Paris: la Découverte, 1994

FERENCZI, S. (1913). O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios.

Ferenczi-Obras Completas. São Paulo: Martins Fontes, 1992

FREUD, S.(1888a). ‘Brain’. In: A Moment of transition - Two Neuroscientific Articles by Sigmund Freud. Londres: Karnac Books/ The Institute of Psychoanalysis

--------- (1888b). Prólogo a la traduccion de H. Bernheim, “De la suggestion”. In: Sigmund Freud – Obras Completas, vol. 1. Buenos Aires: Amorrortu, 1996 (A.E., vol. 1)

--------- (1890). Tratamiento psíquico. A.E., vol. 1

--------- (1891). Contribution à la conception des aphasies. Paris: PUF, 1986

--------- (1893a). Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos. A.E., vol. 3

--------- (1893b). Algunas consideraciones con miras a un estúdio comparativo de las

parálisis motrices orgánicas e histéricas. A.E., vol. 1

--------- (1894). Las neuropsicosis de defensa, A.E., vol. 3

--------- (1895). A propósito de las críticas a la ‘neurosis de angustia. A.E., vol. 3

--------- (1896). La herencia y la etiologia de las neurosis. A.E., vol. 3

--------- (1898). La sexualidad en la etiología de las neurosis, A.E., vol. 3

--------- (1905). Tres Ensayos de Teoría Sexual. A.E., vol. 7

--------- (1915). Pulsiones y destinos de pulsión. A.E., vol. 14

--------- (1933). 31ª conferencia. La decomposición de la personalidad psíquica.  A.E., vol. 22

GARCIA-ROZA, L-A. Introdução à metapsicologia freudiana 3. Rio de Janeiro:         Zahar, 1995

LAPLANCHE, J. Freud e a sexualidade – o desvio biologizante. Rio de Janeiro:        Zahar, 1997

WINOGRAD, M. Freud, o corpo e o psiquismo. Revista Percurso, n. 28, 1o semestre  de 2002

   



[1] Em 1888, Freud terminou de escrever três artigos, Cérebro, Afasia e Histeria para o primeiro volume do Handwörterbuch der gesamten Medizin, um dicionário de medicina geral em dois volumes, editado por Albert Villaret. Apenas o artigo Histeria consta da edição das obras completas, ainda que, como os outros dois, não tenha sido assinado por Freud. Para uma discussão sobre o estabelecimento da autoria destes textos, cf. Solms & Saling, 1990.

[2] Neste e nos próximos parágrafos, baseio-me na argumentação de uma pequena parte da bela apresentação deste artigo feita por Pierre Bruno (1971).

[3] Segundo Freud, o estado atual dos conhecimentos não permite dizer se a ocorrência desta conexão depende de uma mudança de estado de outros elementos cerebrais, ou “de outra coisa”. Vemos aqui a abertura de um espaço teórico para a formulação da hipótese do inconsciente, o que exigiria que sua história recuasse alguns anos e começasse precisamente em 1888, bem antes de onde comumente faz-se com ela comece.

[4] Segundo o Dicionário Comentado do Alemão de Freud (Haans, 1996), a palavra Trieb tem conotações e significados múltiplos. É uma espécie de força “interna” que impele à ação, algo como uma tendência, inclinação, vontade intensa, ânsia; mas é também uma força de origem biológica cuja meta é determinada, como a pulsão de mamar, no bebê. Antigo e pleno de sentidos, o termo designa, de modo geral, algo que propulsiona, incita, impele, põe em movimento, não deixa parar.

[5] No texto original de 1905, a única utilização do termo ocorre numa curta referência ao apoio da sexualidade anal na função corporal de excreção (Freud, 1905, pág. 168).

[6] A articulação conceitual de Laplanche inclui, de modo central, as noções de “linguagem da ternura” e “linguagem da paixão”, esboçadas por Sándor Ferenczi no artigo de 1932, ‘Confusão de língua entre os adultos e a criança’.

 

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