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Freud e os conceitos-membrana 

 

 Monah Winograd  

   

publicado pela Revista Percurso, n. 28, 1/2002

com o título “Freud, o corpo e o psiquismo”

 

Resumo

Este ensaio trata da articulação entre corpo e psiquismo na obra de S. Freud através de dois eixos. O primeiro eixo é o dos pressupostos, ou seja, idéias mais ou menos implícitas que servem de fundamento para a construção dos conceitos freudianos. Dentre eles, destacamos: a concomitância dependente, a filogenia anímica e a equação etiológica. O segundo eixo é o dos conceitos metapsicológicos nos quais corpo e psiquismo se confundem. São eles: afeto, pulsão e isso.

 

Naturalização do psiquismo

Há alguns anos, a imprensa americana apresentava como “descoberta científica” o fato de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, terem comprovado que “terapias não-químicas” (no caso, utilizou-se a terapia cognitiva ou comportamental, mas isso é o de menos) provocam alterações comparáveis à intervenções químicas do ponto de vista da atividade cerebral.[2] Mais recentemente, a Folha de São Paulo de 10/08/2001 publicou uma pequena reportagem sobre um estudo com doentes do mal de Parkinson, realizado por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Os resultados deste estudo sugerem que o simples ato de receber algum tipo de tratamento pode produzir efeitos devido à expectativa de benefício que ele cria. No caso desses doentes canadenses, a crença de estarem tomando algo realmente eficaz contra sua doença teria causado a liberação de dopamina, um mensageiro químico do cérebro, envolvido, entre outros, no controle dos movimentos automáticos e involuntários do corpo.

Com esta descoberta, os cientistas da Colúmbia Britânica dizem pretender desfazer a crença corrente entre eles de que, no corpo humano, não haveria nenhum tipo de “resposta química” correspondente ao “efeito placebo”; qualquer efeito verificado seria apenas resultado de auto-sugestão. Para Jon Stoessl e seu grupo canadense, ao contrário, o chamado “efeito placebo” provocaria alterações cerebrais de magnitude e realidade comparáveis às provocadas por anfetaminas — substância conhecida por liberar grandes quantidades de dopamina.

Antes de Stoessl e seu grupo, em 1888, Sigmund Freud fez uma descoberta parecida. Trabalhando com pacientes histéricas, o futuro inventor da psicanálise percebeu que os tratamentos psíquicos eram tão eficazes[3] quanto os que intervém no corpo do paciente. Assim como o que ocorre em nosso corpo produz efeitos no modo como pensamos, o que ocorre no modo como pensamos produz efeitos em nosso corpo. Qualquer intervenção, química, verbal etc., é necessariamente, em parte, de natureza física e, em parte, de natureza psíquica.[4] 113 anos depois, estaríamos um pouco mais próximos da controversa “comprovação científica”, cuja inexistência serviu de argumento contra a teoria e a clínica psicanalíticas? Teríamos enfim encontrado a caixa preta do psiquismo humano?

Esta questão é importante porque problematiza os limites da psicanálise, epistemológicos, metapsicológicos e clínicos. Mas, o que chama a atenção nesta reportagem nem é tanto a verificação empírica, oficialmente científica, da reciprocidade da relação entre a biologia do corpo e as variações psíquicas. Para um psicanalista não há aí nenhuma surpresa. A manchete da reportagem, Substância inócua combate Parkinson, esta sim, causou estranheza. Mesmo depois de “provado cientificamente” que imaginar a própria melhora quando se está doente pode produzir variações neuroquímicas de grande magnitude, pretende-se continuar fazendo crer que estas variações foram “produzidas” por uma substância, o placebo.

Trata-se, na verdade, de um projeto de naturalização do psiquismo que vem sendo implementado desde meados do século XX, em conformidade com a hegemonia pretendida pela concepção do ser humano como uma máquina que pode ser projetada, construída e programada. Deste ponto de vista, assim como o fígado secreta a bile, o psiquismo seria quase somente uma secreção cerebral, para usar a expressão cunhada por George Canguilhem, numa conferência célebre, proferida em dezembro de 1980.[5] Nela, como bem lembrou Elisabeth Roudinesco, Canguilhem combatia em bloco, não as ciências e seus avanços, não os trabalhos modernos sobre os neurônios, os genes ou a atividade cerebral (embora algumas das conclusões destes trabalhos possam nos parecer óbvias demais).[6] Mas, sim, essas psicologias que, ao misturarem ciência da cognição, inteligência artificial, experimentalismo, neurobiologia etc., não passam de instrumentos de poder, biotecnologias do comportamento humano que enfraquecem a liberdade e a potência de pensar.

 

A problemática corpo-psiquismo

Como nós, psicanalistas, devemos entender tais discursos biológicos e como devemos nos posicionar é uma questão que vem sendo alvo de debates quentes. É o caso de buscar composições com as biologias? Se sim, com quais discursos a psicanálise poderia compor? Por quê compor? Como fazê-lo? Ou, antes, não caberia à psicanálise analisar distanciadamente tais discursos e os modos de subjetivação que eles produzem, mais do que compor com eles ou não? Estas perguntas são apenas exemplos das que certamente têm nos ocupado ultimamente.

Uma rápida consulta à bibliografia sobre as relações entre psicanálise e discursos biológicos (especialmente neurociências, mas não só) mostra que há um aspecto importante que aparece mais claramente ao fazermos um recuo estratégico: das vizinhanças do campo psicanalítico para o centro da metapsicologia. Trata-se de uma questão teórica e clínica central para a psicanálise e nem de longe esgotada: a das relações em diversos níveis entre corpo e psiquismo. A investigação deste problema internamente ao campo da psicanálise, particularmente na obra de Freud, é interessante porque mostra os fundamentos da psicanálise.

A bibliografia especificamente psicanalítica — especialmente a francesa — privilegia o problema da representação psíquica do corpo, de como ele é, mais do que afetado, constituído pelo simbólico e pelo imaginário. Noutras palavras, de como o corpo é feito de palavras. Isto é verdadeiro do ponto de vista da psicanálise, mas é só parte do problema. Tomá-lo pelo todo resulta em equívocos tão teoricamente ingênuos e clinicamente graves quanto os cometidos pela neurobiologia a mais reducionista.

Da história de minha formação pessoal, lembro-me de trechos do texto freudiano usualmente tachados de “resquício de biologismo”, “sobra da formação positivista de Freud”, a-significantes e mesmo desimportantes. É muito comum tais trechos serem lidos sem sequer serem problematizados. Parece que importa somente destacar a originalidade de Sigmund Freud, e a partir dele da psicanálise em geral, por ter “descoberto” que o corpo humano é formado, afetado e determinado pela linguagem ou pela representação, para usarmos termos estritamente freudianos.

Não se trata de discordar da “descoberta” freudiana, mas, ao contrário, de compreendê-la em toda a sua complexidade. O problema do corpo na psicanálise não se esgota na afirmação de não haver corpo sem palavras que o constituam como tal. Ou, noutras palavras, de que é somente do lugar da linguagem que podemos falar deste corpo. De fato, se falamos seja o que for, estamos na linguagem. Mas, daí à concluir que só e somente só o que importa na determinação do corpo e do psiquismo sejam as palavras, a distância é grande e muito freqüentemente tratada como desprezível.

Se acompanharmos a obra de Freud desde seu início, texto a texto, perceberemos que esta problemática das relações entre corpo e psiquismo permeia toda a sua produção. Num primeiro momento, ela aparece diretamente ligada à questão das relações entre cérebro e pensamento, e é mais explícita. Depois, ela se torna subterrânea, mas está lá, em operação, vindo novamente à tona, por exemplo, com a circunscrição do conceito de pulsão, ou mesmo antes, com a problematização da sexualidade.

Ao invés de respostas conclusivas, encontramos diversos pontos de articulação, dos quais podemos selecionar alguns e organizá-los em dois blocos. O primeiro bloco diz respeito aos pressupostos mais ou menos implícitos do pensamento freudiano. São pontos de vista e posicionamentos teóricos a priori, ou seja, que sobredeterminam a imagem de psiquismo que Freud construiu. O segundo bloco, formado pelos conceitos metapsicológicos propriamente ditos, deriva dos pressupostos. São o que podemos chamar de conceitos-membrana, ou simplesmente de membranas, inspirando-nos na idéia freudiana de Grenzbegriff (Grenz: limite, fronteira; begriff: conceito).

 

Pressupostos implícitos da teoria de S. Freud

O termo Grenzbegriff nunca foi utilizado por ninguém antes de Freud e suas traduções tiveram que desmembrar a nova palavra. James Strachey propôs que ela fosse traduzida por “concept on the frontier”, por sua vez traduzido para o português como “conceito situado na fronteira”.[7] Esta tradução para o português é correta apenas em parte, pois, se ressalta a localização do conceito na geografia da metapsicologia como estando na fronteira, não transmite claramente o sentido de que este conceito também é a própria fronteira. Os tradutores da edição argentina, por sua vez, preferiram fazer uso de “concepto fronteirizo”, ao passo que a tradução francesa, proposta por Laplanche e Pontalis, preferiu utilizar “concept limite” — tradução mais interessante, pois se aproxima em sua composição da palavra criada por Freud, sem privilegiar um ou outro sentido. Com efeito, Grenzbegriff pode ser compreendido como estando na fronteira, como sendo um conceito fronteiriço. Mas, isso acontece apenas na medida em que ele é a própria fronteira, ou seja, na medida em que ele delimita uma determinada região e opera trocas com as regiões vizinhas.

Se é assim, se para Freud há regiões diferentes, mas fronteiriças, devemos perguntar: que fronteira é essa? Que regiões estão sendo delimitadas? O termo Grenzbegriff foi utilizado para definir uma força de fonte corporal que exige a constituição da alma e é sua mola mestra: “A pulsão é um conceito-fronteira entre o anímico e o somático (...)”.[8] Desta frase, basta, por ora, que consideremos o seguinte: Freud pensava o “anímico” e o “somático” como duas ordens de realidade distintas, a realidade das idéias e a realidade das coisas, ou se preferirem, a realidade psíquica e a realidade objetiva. Numa carta escrita para Georg Groddeck em 5 de junho de 1917, Freud responde à tentativa de ser convencido de um ponto de vista monista: “Receio que o Sr. Seja também um filósofo e que tenha a tendência monística a desdenhar todas as belas diferenças na natureza em troca do engodo da unidade. Estaremos assim nos livrando das diferenças?.[9] Mas, o dualismo de Freud era apenas aparente, pois estas duas ordens de realidade sendo distintas, ele buscou insistentemente o que as ligasse, o que se situasse em seus limites nas relações de contigüidade (além do fato destas duas ordens constituírem dualidades, e não dualismos propriamente ditos).

A posição de Freud era assumidamente materialista, com raízes profundas em sua convicção evolucionista e seu anti-espiritualismo adquiridos ainda na juventude. Ele nunca teve dúvidas de que a alma depende da atividade corporal. Em contrapartida, também não tinha dúvidas de que a recíproca fosse verdadeira: o corpo depende igualmente da atividade da alma.

Noutras palavras, o fato de considerar o psíquico e o corporal como ordens de realidade distintas não significa que ele as compreendesse como ordens de realidade autônomas. Distinção não é necessariamente correspondente à autonomia, independência.

Por exemplo, em sua juventude, Freud propôs que se desautorizasse a pergunta sobre se determinados fenômenos como a hipnose mostram processos psíquicos ou processos fisiológicos.[10] Para ele, este era um falso problema do qual se livrou bem cedo. Processos fisiológicos e processos psíquicos acontecem concomitantemente e na dependência uns dos outros; não são processos autônomos, mas também não podem ser reduzidos uns aos outros com o estabelecimento de uma hierarquia causal. Eis a beleza do pensamento freudiano: seu materialismo não era do tipo que cega para “as belas diferenças na natureza”.

Este é o primeiro pressuposto que gostaria de destacar. É o mais determinante, o fundamento mesmo do todo o resto — a idéia de concomitância dependente. Esta idéia aparece com clareza em alguns dos classicamente chamados “textos pré-psicanalíticos”, quando a questão era a das relações entre cérebro e pensamento. Ela foi formulada explicitamente no primeiro livro de Freud, publicado em 1891, quando ele tinha 35 anos.

Vale a pena ler o texto: “A cadeia dos processos fisiológicos no sistema nervoso não se encontra, provavelmente, numa relação de causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não se interrompem ao iniciarem-se os processos psíquicos. Ao contrário, a cadeia fisiológica prossegue, só que, a partir de um certo momento, um fenômeno psíquico corresponde a um ou mais de seus elos. O processo psíquico é, assim, paralelo ao processo fisiológico (“a dependent concomitant”).”.[11]

Para Freud, a conexão entre processos fisiológicos e processos psicológicos não é de causalidade mecânica: são processos paralelos, concomitantes e dependentes reciprocamente uns dos outros. Podemos dizer que cada um é causa do outro e de si mesmo, noutras palavras, cada ocorrência numa das séries produz efeitos nesta mesma série e na outra. Deste ponto de vista, é problemático qualquer discurso que pretenda reduzir uma série à outra, seja biologizando o sujeito, seja psicologizando-o. A psicanálise está assentada neste paralelismo psicofísico de Freud que, provavelmente, é o seu pressuposto mais importante.

O segundo pressuposto deriva do primeiro e diz respeito à pertença de Freud a uma linhagem de pensamento evolucionista, expressa, exemplarmente em sua tentativa de inventar uma filogenética anímica, paralela, concomitante, dependente e numa relação de ação recíproca com a filogenia biológica. Com isso, tentava explicar a gênese das formas anímicas atuais e suas variações do ponto de vista de uma memória coletiva. Noutras palavras, tentava entender como o psiquismo humano chegou à organização que chegou, quais os tipos que se pode encontrar e porque estes e não outros? Assim como para Haeckel e para Darwin, também para Freud deveria haver uma ligação entre a evolução das formas no desenvolvimento embrionário e no desenvolvimento da espécie e de suas linhagens diversas. Apenas, as formas consideradas pela psicanálise devem ser as anímicas, não as biológicas.

Como qualquer médico que se graduasse na Viena fin-de-siècle, Freud teve a teoria da evolução em sua formação básica. Tinha também, em seu currículo, um trabalho publicado em 1877, Observações sobre a conformação do órgão lobuloso da lampréia, descrito como glândula germinal masculina, no qual prestava importante contribuição para o assunto. Este tinha sido seu primeiro trabalho no laboratório de Brücke, onde estudou fisiologia nervosa de 1876 até 1882. Era sobre a histologia do sistema nervoso, mais especificamente, sobre a histologia de uma forma peculiar de células nervosas descobertas numa espécie de peixe, o Petromyzon ou, para os leigos, a lampréia. Sabia-se, até então, que os animais vertebrados inferiores apresentavam células bipolares (possuidoras de dois processos) no gânglio espinhal, ao passo que os animais vertebrados superiores tinham células unipolares. As pesquisas do jovem Freud levaram-no à conclusão de que as células do Petromyzon constituíam uma espécie de células intermediárias.

Nos anos 1870, a teoria da seleção natural mantinha-se bastante controversa. Darwin situara o homem no reino animal, arriscando-se a explicar seu surgimento, sobrevivência e desenvolvimento diferenciado. As causas que operavam nas transformações na ordem natural dos seres vivos não eram mais remetidas a uma divindade, mas expressavam a luta entre o organismo e seu meio, através dos tempos e das catástrofes. O jovem Freud, estudioso das células do sistema nervoso, estava plenamente empenhado em participar deste novo modo de conceber a história natural, ao qual foi apresentado por Carl Claus (1835-1899), seu professor de evolucionismo. Suas descobertas histológicas comprovavam processos evolutivos e faziam com que uma lacuna na teoria da evolução fosse preenchida. As células intermediárias do Petromyzon revelavam o modo como se deu o trajeto evolutivo dos vertebrados inferiores aos vertebrados superiores. Através da demonstração de que o sistema nervoso dos animais inferiores e superiores é composto por elementos idênticos, a continuidade entre as espécies poderia ser estabelecida. Freud aderia às idéias de Darwin e participava dos esforços para demonstrar os caminhos da evolução.

Derivado do segundo, o terceiro pressuposto expressa-se na idéia de equação etiológica, posteriormente complementada com a de séries complementares. A idéia de uma equação etiológica sugere que, na origem e no devir de cada psiquismo em particular, trata-se da conjugação quantitativa de fatores “constitucionais” e “acidentais”, nos termos do próprio Freud. Hoje poderíamos dizer: trata-se da conjugação de fatores genéticos e de fatores acidentais. Vê-se que aqui, a questão das relações entre corpo e psiquismo se confunde com o problema da oposição inato/adquirido, hereditário/acidente. Oposição que, em Freud, perde seu sentido, pois para ele o indivíduo é o que ele traz à vida e o que a vida lhe traz. Não há como separar a alma daquilo que a fabrica.

 

Entre o corpo e o psiquismo: os conceitos-membrana

São estes pressupostos que vão operar, de modo mais ou menos implícito, na elaboração da metapsicologia propriamente dita, na qual o problema das relações entre corpo e alma aparece em três conceitos fundamentais — não são os únicos, mas me pareceu serem os mais importantes para o problema que me interessava. Por ora, apenas os apontaremos.

Como nos ensinou Gilles Deleuze, um conceito é formado por elementos que se tornam seus componentes inseparáveis, embora sejam distintos e heterogêneos.[12] É isso o que define sua consistência interior, ou como diz o filósofo, sua endo-consistência. Cada componente distinto apresenta um recobrimento parcial em sua vizinhança com outro. Por exemplo, no caso da força que anima a alma, a pulsão, cujos componentes Freud discerne com clareza, o objeto (infinitamente variável), a fonte (corpo vivo), a pressão (intensidade constante) e o alvo (descarga ou satisfação) são inseparáveis, embora sejam distintos. A pressão não existe sem a fonte, embora se diferencie dela como a força é distinta do músculo que a atualiza; por sua vez, ao mesmo tempo em que a satisfação não se confunde com o objeto (daí sua variabilidade ao infinito), ela acontece através dele, constituindo-o como tal.

Esta inseparabilidade define a consistência interior do conceito, mas este tem igualmente uma exo-consistência relativa aos outros conceitos. São os pontos de vizinhança, de indiscernibilidade entre eles, onde já não é possível decidir a que ordem de acontecimentos se referem. Por isso, Deleuze diz que a exo-consistência implica na construção de uma ponte. No exemplo da pulsão, esta ponte é evidente em pelo menos um de seus elementos, a fonte (corpo). Por isso, Freud é levado a situá-la nas fronteiras da psicanálise com os saberes sobre o corpo e nas fronteiras do aparelho psíquico com o corpo. Porém, não é somente a pulsão que realiza esta ponte. Embora ela seja o único conceito-limite propriamente dito, o metapsicólogo monta pelo menos mais dois: afeto e isso.

Embora Freud tenha nos fornecido a idéia de Grenzbegriff, ele o faz somente para referir-se à pulsão. Portanto, ao pé da letra freudiana, o termo não seria aplicável a outros conceitos além da pulsão, embora não fosse incorreto fazê-lo. Por outro lado, a idéia de membrana enriquece a questão da fronteira ao ressaltar sua porosidade e, no caso das membranas vivas, sua diferenciação contínua como envoltório de uma região de interioridade. Além disso, pode ser desdobrada na idéia de que o psiquismo se constitui em camadas. Idéia esta expressa, por exemplo, no texto de 1920, Mais além do Princípio do Prazer, no qual Freud se utliza da metáfora da crosta que se forma na camada superficial de uma vesícula indiferenciada, pelo contato com o mundo externo. Abaixo dela, camadas mais profundas funcionam diferentemente. Ou mesmo no modelo de 1900, concebido como um telescópio, instrumento formado pela superposição de lentes. Ou ainda na emblemática metáfora arqueológica que ilustra a concepção freudiana da memória. 

Seja como for, o que permite a visualização dos conceitos de afeto e de isso, ao lado da pulsão, como membranas é sua situação metapsicológica e epistêmica:

1. Metapsicologicamente, referem-se às fronteiras da alma, às bordas do aparato anímico. O afeto é definido como variação quantitativa e consciência parcial desta variação. Por sua vez, a pulsão é a força, simultaneamente somática e anímica, o Grenzbegriff por excelência. E, finalmente, o isso representa a instância anímica originária, espontânea e sempre atual, confundida em sua base com o corpo no qual e a partir do qual se desdobra.

2. Epistemicamente, são conceitos situados nas bordas da metapsicologia freudiana, mediando as interlocuções com campos de saber vizinhos, como a biologia ou a filosofia. No caso da primeira, Freud sempre acreditou, de um lado, que ela poderia complementar ou derrubar suas hipóteses e, de outro, que ele fazia contribuições importantes para ela justamente com estes conceitos. Já com relação à filosofia, Freud não hesitava e recorrer a ela em busca de auxílio para sustentar algumas formulações importantes, como a pulsão de morte, por exemplo.

De modo mais esquemático, podemos afirmar que afeto, pulsão e isso são conceitos através dos quais Freud estabelece a ponte da qual fala Deleuze. Ponte por se efetuam as trocas com o que versa sobre a ordem de realidade corporal, sobre à qual não cabe à psicanálise teorizar, sob pena de deixar de ser uma psico-análise. Poderíamos também pensá-los como interfaces, responsáveis pela tradução e pelo transporte de informação entre corpo e alma, epistemica e metapsicologicamente.

Tanto estas membranas, quanto os pressupostos apontados acima, são apenas exemplos (bastante representativos e, de certo modo, sintéticos) do que se pode encontrar na obra de Sigmund Freud sobre o problema das relações entre corpo e psiquismo. Existem outros pontos adjacentes, mas igualmente importantes, como por exemplo, a idéia de conversão (estreitamente ligada à noção de afeto), o conceito de sexualidade (embutido no problema da pulsão) e a constituição do eu (articulada à instância do isso). O que importa, por ora, é perceber o quanto esta problemática das relações entre corpo e psiquismo é fundamental na obra freudiana, pois sobre ela seus alicerces foram edificados.



[2] Cf. C. Calligaris. “A ressaca do Prozac e o milagre da fala”, Folha de São Paulo, 17 de março de 1996.

[3] Unicamente no sentido de que produzem efeitos, sem considerar a qualidade dos efeitos produzidos.

[4] Cf. S. Freud. “Histery” in M. Solms & M. Saling, A moment of transition. Londres: Karnac Books, 1990

[5] Cf. “Le cerveau et la pensée” in Colloque Georges Canguilhem. Philosophe, historien des sciences - Actes du Colloque, Paris: Albin Michel, 1992

[6] Cf. E. Roudinesco, Por que a psicanálise?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000

[7] Cf. Nota ao “Pulsiones y destinos de pulsión” in Obras Completas de Sigmund Freud, Buenos Aires: Amorrortu, 1996

[8] S. Freud, “ Pulsiones y destinos de pulsión” (1915) in Obras Completas de Sigmund Freud, Buenos Aires: Amorrortu, 1996, pág. 117

[9] S. Freud, Carta a G. Groddeck de 5/06/1917 in G. Groddeck, O homem e seu isso, São Paulo: Perspectiva, 1994, pág. 11

[10] Cf. S. Freud, Prólogo à tradução de H. Bernheim, “De la suggestion” (1888) in Obras Completas de Sigmund Freud, Buenos Aires: Amorrortu, 1996

[11] Contribution à la conception des aphasies (1891), Paris: PUF, 1986, pág. 105

[12] Cf. O que é a filosofia?, Rio de Janeiro: Editora 34, 1992

 

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