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É o sangue que faz com que nós pensemos, ou bem o ar, ou o fogo? Ou bem não é  nenhuma destas coisas, mas antes o cérebro...?”, já se perguntava Platão no Phedon[1]. Sem querer remontar até os pensadores da antiguidade, é certo que nosso interesse pelo cérebro não data de hoje. Desde a segunda metade do século XIX, época do nascimento da neurologia “verdadeiramente científica”, encantamo-nos por este domínio. Materialistas e espiritualistas se atormentaram com a questão da relação entre corpo e espírito, bem como com a questão da unidade ou pluralidade do eu ou com o conceito de localização cerebral. Neste contexto, apareceram o famoso Matéria e Memória (1897) de Henri Bergson, em Paris, os Princípios de Psicologia (1890) de William James, em Nova Iorque e o Interpretação das Afasias (1891) de Sigmund Freud, em Viena, seguido pelo marcante A Interpretação dos Sonhos(1900). Em seguida, nossa atenção nos saberes sobre o cérebro enfraqueceu nitidamente, mesmo se, nos primeiros decênios do século XX, tenham sobrevindo ainda — impulsionados pelos adeptos da teoria da Gestalt — debates animados em torno da questão das localizações cerebrais. 

Em nossos dias, um entusiasmo admirável com as ciências do cérebro renasceu nos Estados Unidos em particular. As Neurociências — assim como disciplinas vizinhas como a Psicologia Cognitiva e a Inteligência Artificial — cativam cada vez mais pensadores. Do mesmo modo, filósofos americanos como Patrícia e Paul Churchland, encorajam seus pares a se iniciar em Neurociências. Alguns chegam mesmo a propor termos híbridos, como “neurofilosofia” (Patrícia Smith Churchland, 1991) ou “neuropsicanálise” (Mark Solms, 1998). Outros, como Antonio Damásio e Daniel Dennett, tentam criar links entre filosofia, psiquiatria, psicologia cognitiva, inteligência artificial e neurociências. Mas, este fenômeno não é exclusivo dos Estados Unidos. 

Nos países francófonos, um movimento similar desenhou-se. O francês André Comte-Sponville (1989), por exemplo, observou — num artigo intitulado O demônio de Changeux: neurociências e filosofia — que as Neurociências são importantes também filosoficamente porque permitem formular a questão “que sou?” em termos novos e, sobretudo, responder ou começar a responder de uma maneira mais precisa. Comte-Sponville acredita dever responder a esta pergunta sobre o que sou, afirmando que a resposta que as Neurociências não inventaram e nem provaram, mas que tornaram cada vez mais plausível é a seguinte: eu sou o meu corpo (do qual o cérebro é uma das partes mais importantes). Eis aí uma opinião que não contradiria Jean-Pierre Changeux, autor do O homem neuronal (1985) e um dos chefes da doutrina materialista. Também não contradiria Sigmund Freud, inventor da psicanálise, mesmo seu ponto de vista sendo menos fisicalista e operando com conceitos como inconsciente, pulsão, desejo e recalque, vistos até hoje como problemáticos para as Ciências Cognitivas em geral e para as Neurociências em particular.

Apesar de seu reducionismo evidente, e mesmo por causa dele, Changeux foi um dos primeiros neurocientistas que encorajou e desafiou a Psicanálise a retomar seu interesse pelas ciências do cérebro. As teorias sobre o funcionamento do cérebro e aquelas sobre o funcionamento do espírito raramente concerniram às mesmas pesquisas. No passado, com efeito, o fosso que separava estes dois tipos de teorias era o mesmo que separava a Ciência da Filosofia. Entretanto, no curso do século XX, um novo corpus de conhecimentos científicos emergiu: ele é de uma importância tal que não pode mais ser ignorada pela Psicanálise.

Os temas sobre os quais um diálogo entre Psicanálise, Cognitivismos e Neurociências pode se dar são múltiplos. Citemos apenas alguns: o problema tradicional da relação entre corpo e espírito, a questão da consciência, a noção de intencionalidade, o conceito de localização cerebral, a metodologia a adotar para um estudo dos fenômenos mentais, as relações entre inato e adquirido, o papel eventual da teoria darwinista da evolução numa teoria do funcionamento do “espírito-cérebro”, a validade das noções de “unidade do eu” ou de ”unidade do espírito”, dentre tantos outros.

Talvez tenha chegado o momento de retomar o Projeto de psicologia (1895) de Freud sobre novas bases, bem como o seu Interpretação das Afasias (1891), ou mesmo o texto Gehirn (cérebro) (1888, inédito em português) textos precoces — pré-psicanalíticos segundo algumas classificações — nos quais podemos enxergar os fundamentos de toda a teoria subseqüente. Com freqüência excessiva, esquecemos que Freud foi neurólogo de profissão. Depois de 1895, os múltiplos avatares da Psicanálise cindiram-na das suas bases propriamente biológicas. Será este reatar do diálogo com as ciências “duras” indício de um novo tempo, mesmo de um retorno às origens para propor um novo ponto de partida?

Antes que prossigamos nesta direção, convém nos determos um pouquinho mais sobre o que os dois últimos decênios nos forneceram em termos de “fatos científicos novos” que modificaram profundamente o estatuto das questões relativas ao psiquismo-cérebro, fazendo-o deixar de ser um mistério impenetrável.

De modo geral, os fatos novos são de três ordens:

1. Produziu-se uma floração inédita de dados descrevendo o sistema nervoso. Novas técnicas neurocientíficas tornaram possíveis descrições estruturais e funcionais muito detalhadas do sistema nervoso em seus diversos níveis de organização. Isto contribuiu tanto para desfazer certas concepções errôneas sobre os mecanismos cerebrais quanto para catalisar o desenvolvimento de teorias novas e a retomada de outras antigas, como a própria Psicanálise.  Em psicologia experimental e em etologia, estudos cada vez mais sutis e sofisticados do comportamento aprofundaram muito nossa compreensão do que são exatamente as capacidades psicológicas, clarificando por aí os fenômenos molares para os quais a neurobiologia busca os mecanismos — aqui, cabe perguntar porque os fenômenos identificados pela Psicanálise não foram até recentemente considerados como fenômenos molares dos quais a neurobiologia deveria pesquisar os fundamentos biológicos.

2. As abordagens computacionais permitindo simular de modo espantoso as redes neuronais conduziram a descobertas sobre o modo como as redes de neurônios artificiais — possuindo conexões sinápticas artificiais organizadas em paralelo — podem realizar certas tarefas complexas como a memória associativa ou o reconhecimento de padrões. Como as funções cognitivas e afetivas revelam-se propriedades de níveis de organização sistêmica — e podem portanto ser consideradas como propriedades emergentes — estas abordagens prometem fazer as vezes de ponte entre Neurociências, Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise.

3. Dados neurobiológicos relativos a questões caras aos psicanalistas, como a representação, a consciência, a percepção, a busca de prazer, a sexualidade, entre outros, começam a estar disponíveis. Os psicanalistas em geral não podem mais especular sobre estas questões ignorando estes dados. Não se trata de ajoelhar-se frente as Neurociências, mas, antes, de conversar e ouvir o que elas têm a nos dizer e as informações novas que trazem. O próprio inventor da Psicanálise previa ser a biologia uma terra de possibilidades ilimitadas que poderia pôr por terra todo o “nosso edifício artificial de hipóteses” (Freud, 1920). Ele também tinha certeza de que, por exemplo, na sexualidade humana fatores químicos desempenhavam papel fundamental. Como poderia ser diferente?

Os psicanalistas tendem a admitir que os homens são particulares no sentido de que a vida mental do homem deve ser localizada para além de uma compreensão inteiramente científica, ou , pelo menos, fora da visada das neurociências. De fato, os homens são particulares e o cérebro humano aparece como o mais complexo do planeta. Apesar de nossas capacidades notáveis, nós somos, como qualquer outro organismo, produto da seleção natural: nosso cérebro evoluiu a partir de cérebros mais simples. A evolução, como nos lembra François Jacob (1981), não procede recriando a partir do nada, mas modificando o que já está aí. Ter em mente a lição darwinista é, talvez, o elemento mais importante para desfazer a abordagem psicanalítica tradicional que rejeita o Cognitivismo e a Neurociência como sendo fora de propósito para o entendimento de nossa natureza psíquica.

Por outro lado, não foi somente a Psicanálise que rejeitou o Cognitivismo e a Neurociência. A recíproca foi completamente verdadeira. A partir dos anos 50, os científicos decidiram que, por não ter como método principal de pesquisa a experimentação controlada de laboratório, mas somente o encontro clínico no consultório, a Psicanálise não fornecia hipóteses confiáveis, merecedoras de crédito. Os tratamentos medicamentosos ganharam terreno e a biologização irrestrita do entendimento das afecções psíquicas não cansou de anunciar a morte iminente da teoria construída por Freud. Na década de 80, conceitos como “inconsciente”, “ego, id e superego”, “desejo”, “pulsão” eram considerados falsos e obsoletos. O motivo “real” do mal-estar dos indivíduos estava num desequilíbrio em suas substâncias neuroquímicas. Os modelos freudianos do psiquismo deveriam ser totalmente descartados por serem equivocados e ultrapassados pela terminologia informacional. Mais radicalmente, assistíamos a um projeto de naturalização do psiquismo denunciado ferozmente por G. Canguillhem (1980) e ignorado histericamente pelos psicanalistas.

Mas, também a psicofarmacologia não foi capaz de oferecer uma teoria consistente sobre o psíquismo, sua organização e seus modos de funcionamento. Sem esse modelo, as Neurociências concentraram seu trabalho em pontos específicos e, cada vez que retomavam o quadro geral, davam as mãos para alguma teoria psicológica. Foi assim que, nos anos 90, o Cognitivismo reapresentou a sua face conexionista e se fundiu, a ponto de ser mesmo confundido, com as ciências do cérebro. Assim é que, no começo do século XXI, pesquisadores “neurocientíficos” como Mark Solms, Jaak Panksepp, Vilayanur S. Ramachandran (cf. bibliografia), entre outros, pretendem dar à teoria freudiana do funcionamento mental o lugar de modelo de interpretação dos dados que eles extraem da observação empírica “científica”. “Freud está de volta!”, “Vamos terminar o serviço!”, eles anunciam em tom belicoso, defendendo a possibilidade e a necessidade de composição de grupos interdisciplinares que reúnem campos nem tão distantes, nem tão contrários como Psicanálise, Neurociências, Psicologia, Psiquiatria, etc. (Solms, 2004). A verdadeira palavra de ordem é “interdisciplinaridade!”.

Neste espírito interdisciplinar, tais pesquisadores pretendem desenvolver o que eles chamam de “novos parâmetros intelectuais” dentro dos quais a teoria sobre a organização cerebral desenhada por Freud, não só deve ser o modelo, como deve e pode ser enriquecida por novidades extraídas a partir da experimentação neurocientífica. Repetindo a conduta inicial do próprio Freud, mas agora tendo a tecnologia ao seu dispor, estes pesquisadores afirmam ter, entre outras coisas, confirmado cientificamente a existência e o papel essencial dos processos psíquicos inconscientes. O exemplo é a verificação de que o comportamento de pacientes incapazes de lembrar de acontecimentos passados por causa de lesões em estruturas cerebrais responsáveis pelo armazenamento de memória é claramente influenciado pelos fatos “esquecidos”. Os neurocientistas cognitivos explicam casos assim através da hipótese de que a memória seria formada por alguns sistemas mnêmicos diferentes que processam a informação “explicitamente” (conscientemente) ou “implicitamente” (inconscientemente). Nem é preciso dizer que os modelos de aparelho psíquico desenhados por Freud, incluindo aí o modelo neurônico de 1895, eram formados por sistemas de memória diferentes nos quais ocorriam processos que poderiam ou não vir a tornarem-se conscientes. Neste caso, qualquer semelhança será mera coincidência? (Cf. Solms, 2004)

Outro exemplo é a identificação, na terminologia neurocientífica, de sistemas de memória que controlam o aprendizado emocional. Em 1996, na Universidade de Nova Iorque, LeDoux (In: Solms, 2004) demonstrou a existência, sob o córtex consciente, de uma via neuronal que conecta informações  perceptivas com estruturas primitivas do cérebro responsáveis pela geração de reações de medo. Atravessando o hipocampo — gerador de memórias conscientes — esta via parece estar envolvida no desencadeamento de lembranças carregadas de afeto a partir de percepções atuais, provocando sensações aparentemente irrefletidas como uma sensação estranha ao ver homens de barba, por exemplo.

Ainda outra “descoberta” científica bastante representativa da possibilidade de, pelo menos uma interlocução entre Psicanálise, Cognitivismos e Neurociências foi divulgada pelo caderno Mais! Da Folha de São Paulo de 2/06/2004. Com o título de A chave da memória, a matéria apresentava as conclusões das pesquisas de um grupo de cientistas do MIT. O grupo liderado pelo biólogo japonês Susumu Tonegawa, Nobel de Fisiologia em 1987, acredita ter esbarrado na chave para a consolidação das memórias. Eles encontraram uma proteína que funciona como um disjuntor nas células do cérebro, ativando uma série de reações fundamentais para estabelecer a memória de longo prazo. Tal proteína, conhecida pela sigla MAPK, pertence ao grupo das quinases, uma família de interruptores moleculares. Em estudo publicado em fevereiro na revista Cell (www.cell.com), o cientista e quatro colaboradores mostraram, a partir de experimentos com camundongos, que a proteína-interruptor é ligada nos neurônios toda vez que memórias de longa duração — as que definem o aprendizado — se consolidam. A ativação acontece na vizinhança das sinapses, mais especificamente, nos dendritos, modificando-as conforme o estabelecimento da memória. A associação entre os traços de memória e o seu registro de longo prazo revelam agora seu substrato material? Na base desta concepção está a idéia de que as sinapses se modificam durante a consolidação de uma memória, hipótese que Freud esboçou em 1895 ao falar das “facilitações” entre os neurônios, uma vez que não dispunha ainda do conceito de sinapse.

Mantendo-nos neste tema da memória, a Neurociência também demonstrou  que as principais estruturas do cérebro essenciais para a formação de memórias conscientes não são funcionais durante os dois primeiros anos de vida, explicando o que Freud identificou como  amnésia infantil. Assim como o metapsicólogo hipotetizou, não poder trazer à luz da consciência a maior parte de nossas memórias de infância não quer dizer que elas não tenham se inscrito em nós, nem que não afetem nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos presentes. Quem negaria que as experiências da primeira infância, sobretudo entre mãe e bebê, influenciam o padrão das conexões cerebrais e, correlativamente, o padrão de nossos atos e pensamentos. Mesmo assim, não podemos lembrar destas experiências conscientemente.

Igualmente, hoje em dia, já se acumulam estudos que pretendem oferecer sustento experimental para a hipótese freudiana do recalque. Um dos mais recentes foi anunciado na mídia como tendo revelado um mecanismo neurológico de bloqueio da memória. No último janeiro, em Washington, cientistas americanos identificaram em imagens de ressonância magnética o mecanismo biológico por meio do qual as pessoas esquecem ativamente lembranças indesejáveis (Science, 9/jan/2004). O estudo de cientistas da Universidade de Stanford (Califórnia) e da Universidade de Oregon pretendeu explicar casos de bloqueio de memória especialmente nas situações de abusos sexuais sofridos por crianças que não lembram deles quando se tornam adultos.[2] Sua existência foi percebida através da utilização de imagens cerebrais que mostravam os sistemas neurológicos participantes deste bloqueio.

Os cientistas afirmaram ter descoberto o mecanismo em uma complexa experiência com 24 pessoas que as fazia lembrar de nomes de coisas sem nenhuma relação entre si. Ao mesmo tempo, passaram por um exame de ressonância magnética (scanner) onde foi demonstrada a atividade cerebral quando tentavam esquecer de algumas das palavras. Observou-se que a lembrança de uma coisa piora quanto mais tentamos não pensar nela. Os cientistas afirmaram também ter demonstrado que o controle de lembranças não desejadas está ligado a uma maior atividade do córtex frontal esquerdo e direito, o que reduz a do hipocampo, o setor da memória. "Pela primeira vez vimos um certo mecanismo que poderia desempenhar um papel no esquecimento ativo", declarou John Gabrieli, professor de psicologia de Stanford e co-autor do relatório.

Sempre é bom lembrar do famoso “esquema pente”, o modelo desenhado em 1900 por Freud formado por sistemas de captura de estímulos, sistemas de registro das informações (memória-inscrição) e sistemas de conexão da informação (memória-articulada) conhecidos como Inconsciente e Pré-Consciente/Consciente. Através deste modelo, podemos visualizar que a maior parte de nossa atividade psíquica ocorre fora do sistema Pré-consciente, sendo portanto inconsciente. Tal atividade de produção de pensamento desejante é regida por princípios diferentes do Princípio de Realidade que organiza boa parte da atividade egóica consciente. Levando isso em consideração, alguns neurocientistas fizeram a hipótese de que danos em estruturas inibidoras do cérebro permitiriam a emergência de formas “irracionais” das funções psíquicas. O campo de estudo foram pacientes com danos na região límbica frontal que controla alguns da autoconsciência. Eles apresentavam uma síndrome conhecida como psicose de Korsakoff: não percebem que têm amnésia e preenchem as lacunas da memória com invenções, construindo a realidade como desejava que ela fosse. Conclusões de pesquisas semelhantes alegam basicamente que danos na região límbica frontal que produzem estas confabulações prejudicam os mecanismos de controle cognitivo — base da monitoração normal da realidade — intensificando a influência do desejo na percepção, na memória e no julgamento.

Enfim, poderíamos citar outros tantos exemplos como esses (vide Bibliografia em anexo). Freud não veria motivos para antagonismos entre Psicanálise e Neurociências, nem entre Psicanálise e Cognitivismo. Em seu A mente incorporada (1991), Francisco Varela nos lembra que Freud foi o primeiro cognitivista, tendo freqüentado o curso de Brentano em Viena, e tendo endossado integralmente a visão representacional e intencional do psiquismo. Para Freud, somente o que fosse mediado por uma representação, mesmo no caso da pulsão, pode afetar o comportamento, ou nos termos estritamente freudianos, fazer-se representar no psiquismo.

Além disso, as descrições feitas por Freud das estruturas e dos processos mentais são tão gerais e metafóricas que se mostraram passíveis de tradução, com graus discutíveis de perda de sentido, para uma linguagem de outra teoria psicológica. Por exemplo, a tradução feita por M. H. Erdelyi (1995) para a linguagem de processamento de informações com base cognitivista, placidamente aceita. O conceito freudiano de recalque/censura tornou-se, em termos cognitivos, o emparelhamento de informações a partir de uma percepção ou idéia para um nível do padrão do julgamento de quantidades de ansiedade aceitáveis: se está acima do padrão de julgamento, ele vai para uma caixa que impede o processamento/acessamento de informações, de onde é jogada de volta para o inconsciente; se abaixo do padrão de julgamento, tem sua entrada no pré-consciente permitida. Depois que outro padrão de julgamento for emparelhado na árvore da decisão, ele é permitido no comportamento ou suprimido (cf. Varela, 1991).

Esta descrição acrescenta alguma coisa a Freud? Certamente, ela serve para “traduzir” noções como a de Inconsciente freudiano para o que é considerado uma moeda corrente no meio científico atual. Também se pode dizer que muitos teóricos contemporâneos pós-freudianos, na Europa, como Jacques Lacan, discordariam veementemente: esta teorização não apreenderia o espírito central do empreendimento psicanalítico, qual seja, mover-se além da armadilha das representações, incluindo as representações sobre o inconsciente.

Atualmente, está na moda dizer que Freud descentrou o self, mas, na verdade o que ele fez foi dividir o self em vários selves. Freud não era um cognitivista estrito como Jerry Fodor (1983) ou Zenon W. Pylyshyn (1988): seu conceito de inconsciente inclui os mesmo tipos de representações que o consciente, todas as quais poderiam, pelo menos em tese, tornar-se ou terem sido conscientes. O Cognitivismo moderno estrito tem uma visão muito mais radical e alienante do processamento inconsciente.

Neste sentido, ao mesmo tempo em que a terminologia informacional permite que organizemos diferentemente as idéias psicanalíticas dando-lhes força, o mesmo podemos dizer das idéias cognitivistas e neurocientíficas. A Psicanálise tem muito a dizer e a escutar num debate do qual os grandes beneficiários serão os que precisam recorrer ao que Henri F. Ellenberger (1995) chamou de “medicinas da alma”.  

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