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DA
FILOSOFIA À NEUROBIOLOGIA: O
que o Psicólogo Precisa Saber Sobre os Efeitos da Psicoterapia no
Sistema Nervoso* J. Landeira-Fernandez e Antônio Pedro de Mello Cruz
@Copyright 1998 Todos os direitos resrevados. Proibida qualquer forma de reproduçao. Cadernos de Psicologia, Vol. 4 Sociedade Brasileira de Psicologia. Resumo A
posição dualista da atividade psicológica humana vem se tornando cada
vez mais difícil de ser sustentada dado ao acúmulo de conhecimento
sobre o desenvolvimento, a organização é funcionamento do sistema
nervoso. Existe hoje um
verdadeiro exército de pesquisadores que vem promovendo avanços nunca
vistos em torno da neurobiologia. São esses avanços que levam a crer
que a atividade psicológica humana tem um substrato neural. Desta
forma, a posição Cartesiana, que um dia serviu como ponto de partida
para impulsionar o desenvolvimento da psicologia como um todo, vem hoje
contra uma posição mais psicobiologia que sugere uma base material
para a atividade psicológica humana. Embora a neurociência esteja
alcançando grande avanço na compressão da mente humana, sua interação
com a psicologia clínica ainda é bastante incipiente. Isto talvez se
deva à antiga crença de que a psicoterapia tem o poder de promover
alterações na atividade mental humana através de forças imateriais,
enquanto o sistema nervoso, formado por matéria, é rígido e
totalmente programado geneticamente. O objetivos desta apresentação é
o de mostrar que esta crença é infundada. Sabe-se hoje que o cérebro
humano é extremamente plástico e está em constante modificação.
Apresentamos alguns experimentos com animais mostrando a importância do
meio social na modificação do funcionamento neural. Apresentamos também
resultados experimentais indicando que a psicoterapia tem um efeito na
atividade mental do paciente graças a sua capacidade de promover
transformações no funcionamento neural do sujeito, alterando o padrão
de comunicação neural em áreas específicas do cérebro. Calcado
nessas descobertas, é importante discutir se esse conhecimento
produzido pela psicobiologia pode oferecer novas alternativas de se
compreender a relação mente-cérebro bem como o efeito da psicoterapia
sobre a mente humana. Introdução Desde
os filósofos gregos da antigüidade o homem vem buscando compreender as
qualidades de sua própria mente. A busca do entendimento do
processamento de nossos pensamentos, idéias, percepções e emoções
atravessou os dois últimos milênios com discussões calorosas entre as
mais diversas escolas filosóficas. Posições dualistas,
interacionistas e monistas da mente e do corpo vêm sendo
sistematicamente debatidas entre filósofos e psicólogos. Esta
apresentação pretende mostrar resultados recentes produzidos pela
neurociência e seu impacto no debate filosófico relacionado com a
questão mente-corpo. Pretende-se também mostrar que psicoterapia
exerce efeitos duradouros sobre o funcionamento do sistema neural
semelhantes aos efeitos produzidos por drogas psicotrópicas.
Embora
o pensamento ocidental sobre a essência da mente tenha sido
influenciado desde os primórdios da filosofia grega, foi somente com
Descartes que esse debate foi claramente sistematizado. Este
filósofo, matemático e cientista francês concluiu que o universo é
dualista, consistindo dessas duas substâncias distintas, mente e matéria.
O corpo faz parte da matéria. Sua essência é a extensão. Ele pode
realizar uma grande variedade de ações por si só, sem a intervenção
da alma (da mente). A essência da mente é pensar. Ao contrário do
corpo, a mente não faz parte do universo estendido. Descartes foi também
um interacionista, pois acreditava que alma (a mente) e corpo
interagiam. Foi ainda mais além ao sugerir que tal interação se daria
em uma determinada região cerebral, a glândula ou corpo pineal. A própria
escolha desta região cerebral como sede da interação mente-corpo não
foi ao acaso. Segundo ele, a glândula era o único órgão do corpo que
não era bilateralmente duplicado. Localizava-se justamente no centro de
duas partes simétricas do corpo e, de acordo com Descartes, somente os
seres humanos a possuíam - lembremos que para Descartes os animais não
possuíam alma. Suas ações eram meramente controladas por reflexos do
corpo . Mas como duas entidades essencialmente distintas poderiam interagir? Esse dilema, que Vesey (1965) denomina de "impasse cartesiano", vem sendo debatido desde o século XVII. Desde então, a história da filosofia sobre o problema mente-corpo é caracterizada por um conjunto de tentativas de se fugir ao impasse cartesiano. Um dos aspectos cruciais do dualismo cartesiano é a concepção de causalidade e suas inter-relações entre a metéria e o espírito. Não surpreende, portanto, que ainda no século XVII tais aspectos tenham sido duramente combatidos. O ocasionalismo de Malebranch, a teoria de duplo-aspecto de Spinoza e o paralelismo psicofísico de Leibniz são exemplos marcantes de oposição ao dualismo interacionista de Descartes (para uma revisão destes conceitos, ver Damásio, 1996; Chalmers, 1996). Independente
das mais variadas concepções filosóficas contra o dualismo
cartesiano, essa divisão entre mente e corpo vem sendo aparentemente
perpetuada na prática psicológica. Por exemplo, enquanto o psiquiatra
cuida do corpo ou do material, o psicólogo cuida da mente ou do
imaterial. Esta divisão de campo de atuação é preliminar à própria
atuação do profissional no mercado de trabalho. Os currículos dos
cursos de psicologia vêm sendo sistematicamente enfraquecidos em relação
ao conteúdo de disciplinas de cunho mais biológico que compreende a
mente humana como conseqüência de atividade neural. Esse processo
fundamenta-se em uma ordem lógica. Afinal, se a psicoterapia atua no psíquico,
então as bases da psicologia clínica estão na compreensão dos
aspectos sociais envolvidos na etiologia
e tratamento dos distúrbios psicológicos. O psiquiatra, inserido
obviamente em uma prática médica que tradicionalmente privilegia o físico,
atua no material ou biológico. Basicamente, isto tem sido feito através
de um grande arsenal drogas psicotrópicas que modificam padrões de
comunicação sináptica entre células nervosas de regiões específicas
do cérebro. De
fato, um grande conjunto de evidências experimentais e clínicas mostra
que a intervenção farmacológica nesse padrão de comunicação sináptica
é capaz de alterar profundamente o processamento mental de um indivíduo.
Mas a psicoterapia faria algo semelhante? Estaria o psicólogo
colaborando na modificação de padrões de comunicação sináptica? Se
isto é verdadeiro, seria então a prática psicológica uma prática
biológica? Parece que sim. A seguir são apresentados e debatidos
estudos que corroboram esta afirmação. Psicoterapia e Modificações no Funcionamento das Células Cerebrais Através
de um experimento clínico controlado e altamente engenhoso, Baxter e
colaboradores (1992) foram capazes de mostrar que o funcionamento de uma
determinada área do cérebro podia sofrer alterações de maneira
semelhante tanto por intervenções clínicas de base farmacológica
como também por intervenções de natureza exclusivamente psicológica.
Mais ainda, a melhora do quadro clínico estava diretamente associada a
modificações no padrão do funcionamento neural.
Tratava-se
de grupos de pacientes obsessivos-compulsivos que foram submetidos aos
seguintes tratamentos: psicoterapia comportamental ou farmacoterapia com
antidepressivo (no caso, a flouxetina). Todos esses pacientes tiveram o
funcionamento de seu cérebro acompanhado sistematicamente, antes e
depois dos tratamentos, através de tomografias computadorizadas por
emissão de pósitrons (PET Scan). Esta técnica de neuroimagem permite
não apenas um mapeamento cerebral preciso, mas também é capaz de
identificar qual área cerebral encontra-se mais ativada e um
determinado momento. Os resultados foram bastante conclusivos. O
tratamento com antidepressivo e psicoterapia promoveram não só os
mesmos resultados clínicos relacionados com os sintomas dos pacientes
como também modificaram o padrão de funcionamento de tecido neural
desses pacientes. Mais interessante ainda, ambas as formas de tratamento
produziram alterações neurais na mesma estrutura neural: o núcleo
caudado. Dado o impacto da descoberta de que psicoterapia promove um
efeito em determinado transtorno psicológico graças à sua capacidade
de alterar o padrão de funcionamento da atividade neural, esses mesmos
resultados foram replicados de forma positiva pelo mesmo grupo alguns
anos mais tarde (Schwartz e colaboradores, 1996). Resultados
provenientes da utilização de modelos animais apontam para a mesma
direção. Analisemos, por exemplo, um estudo realizado no início da década
de 90 (Landeira-Fernandez, Woody, Wang, Chizhevsky & Gruen, 1991;
Woody, Wang, Gruen & Landeira-Fernandez, 1992). Através do
monitoramento eletrofisiológico de um único neurônio do núcleo
coclear dorsal de gatos (a primeira sinápse da via auditiva), foi possível
identificar um padrão eletrofisiológico característico desta célula
em resposta a um som. Este estímulo sonoro foi posteriormente associado
a um jato de ar no olho do animal (um procedimento padrão de
condicionamento clássico aversivo da resposta de pestanejar). Os
resultados mostraram que conforme os animais foram aprendendo a resposta
condicionada, os neurônios do núcleo coclear dorsal passaram a
apresentar um padrão eletrofisiológico totalmente diferente daquele
observado antes da associação. Ou seja, a partir do momento em que o
som passou a ter um outro significado para o gato, aqueles neurônios do
núcleo cóclear passaram a funcionar de uma forma correspondente a este
novo significado. Ou, quem sabe, a partir do momento em que essas células
passaram a responder de forma diferente, o som passou a ter um novo
significado para o gato. Estudando
uma espécie de peixe africano, um grupo de neuroetólogos, liderado por
Russel Fernald, vem mostrando como o cérebro modifica-se funcional e
estruturalmente em função da experiência do sujeito no meio ambiente
(Fernald,1995; Fox,
White, Kao & Fernald 1997; Francis, Soma & Fernald, 1993; Soma,
Francis, Wingfield & Fernald, 1996; Winberg, Winberg & Fernald,
1997). O sistema social nessa espécie de
peixe baseia-se na dominância territorial. Os machos dominantes
representam mais ou menos 10% da população, controlando praticamente
todos os recursos, especialmente alimentos. Tais machos são de coloração
viva, e pouco tempo depois da dominação do território seus testículos
crescem. Subseqüentemente, regiões cerebrais correspondentes ao hipotálamo
humano tornaram-se mais desenvolvidas nesses animais. Esse núcleo,
portanto, passa a ser maior nos animais bem sucedidos socialmente, uma
marca neural de seu sucesso social. Mais surpreendente ainda é o fato
de que, em uma eventual perda do status social desse macho, em decorrência
de novas disputas territoriais
com outros machos, o núcleo cerebral correspondente também regride de
tamanho. De
fato, o cérebro é um órgão extremamente plástico. Ele não apenas
modula o comportamento, mas também se comporta. Suas relações com o
meio externo obedecem uma via de mão-dupla. Finalmente, ele não apenas
processa diversos estímulos, mas também é responsável pela atribuição
de diferentes significados a esses estímulos. E tudo isso somente é
possível devido às características das células nervosas (neurônios)
que o compõe, mais especificamente, devido ao processo de comunicação
(sinápse) entre essas células. A Dinâmica da Sinápse: O Papel da Droga Psicotrópica e da Psicoterapia Estima-se
que o cérebro humano contenha entre 50 a 100 bilhões de neurônios
(Hubel, 1979; Lent, 1982). As informações de um neurônio são
repassadas para outros neurônios através de um grande número de sinápses
(algo comparado ao número de estrelas de nossa galáxia). É justamente
neste processo dinâmico de comunicação que agem as drogas psicotrópicas.
Resumidamente, o processo envolve os seguintes passos: (a) a síntese de
um neurotransmissor, (b) seu armazenamento em vesículas sinápticas,
(c) a inativação do neurotransmissor por enzimas do citoplasma, (d) a
liberação do neurotransmissor na fenda sináptica, (e) sua ligação
em receptores pré e pós-sinápticos, (f) sua recaptação pela
membrana pré-sináptica, ou, finalmente, (g) a inativação do
neurotransmissor por enzimas na fenda sináptica. A
grande variedade de drogas psicotrópicas expressa as diversas
possibilidades do composto atuar em uma dessas etapas. Drogas que
facilitam a ação de um determinado neurotransmissor podem agir, por
exemplo, mimetizando a síntese do neurotransmissor, liberando uma maior
quantidade do neurotransmissor na fenda sináptica, diminuindo a recaptação
pela membrana pré-sináptica, ou até mesmo estimulando diretamente os
receptores pós-sinápticos. Drogas que inibem a ação de um
determinado neurotransmissor podem, por exemplo, inibir sua síntese,
impedir a capatação ou esgotar o estoque do neurotransmissor nas vesículas,
aumentar o mecanismo de recaptação pela membrana pré-sináptica,
estimular os receptores pré-sinápticos ou autoreceptores, ou, ainda,
bloquear os receptores pós-sinápticos. Uma
das conseqüências de toda essa confluência química no processo de
transmissão sináptica é a possibilidade de alteração do sinal elétrico
que está sendo transmitido através desses neurônios. É justamente
esta alteração do sinal elétrico que dá origem à nossa vida psicológica.
Assim, enquanto nosso código genético nos fornece o material para
formarmos um mesmo cérebro humano, as experiências ambientais de cada
indivíduo determinarão as diferenças individuais ou sua estrutura de
personalidade; ou seja, as células ou os padrões de comunicação sináptica
de cada indivíduo respondem em função das mais variadas fontes de
estimulação e significados com que esse indivíduo se deparou. Conforme
sugeriu o psicólogo Donald Hebb (1949), os processos plásticos
produzidos pela interação do sujeito com seu meio têm como base o
fortalecimento ou o enfraquecimento das sinápses. O
fenômeno denominado de potencialização a longo prazo (LTP) é um dos
processos capazes de alterar o funcionamento sináptico. A LTP
decorre de um aumento da atividade sináptica por períodos prolongados
de tempo, produzido através de uma descarga neuronal intensa. Estudo
experimentais indicam que a formação de memórias de longo prazo
(Davis, Butcher & Morris, 1992; Kim, DeCola, Landeira-Fernandez
& Fanselow, 1991; Miserandino, Sananes & Davis, 1990), mas não
as de curto prazo (Kim, Fanselow, DeCola & Landeira-Fernandez,
1992), é mediada através desses mecanismos de LTP. Tem sido ainda
demonstrado que a capacidade de um determinado estímulo produzir
descargas neuronais intensas e formar LTP varia em função de seu valor
biológico . Estímulos com alto valor biológico para o sujeito, como
por exemplo choques elétricos, são mais aptos em produzir tais efeitos
(Landeira-Fernandez, Fanselow, DeCola & Kim, 1995;
Landeira-Fernandez, 1996; Martinez & Derrick, 1996). De uma maneira
geral, podemos afirmar que a capacidade de uma informação produzir LTP
e formar memórias de longo prazo está diretamente relacionada ao valor
biológico dessa informação. Consequentemente, o impacto que a
psicoterapia pode desempenhar sobre o tecido neural, modificando o padrão
de transmissão sináptica e alterando o comportamento, talvez esteja
diretamente relacionado ao valor biológico ditado pelo significado das
informações verbais envolvidas no tratamento. Quanto mais forte for o
significado biológico da prática psicológica, maior será a
possibilidade dessa psicoterapia atingir seus objetivos através do seu
impacto no tecido neural. A seleção e manipulação dessas variáveis
simbólicas de alto valor biológico é algo a ser determinado - e
talvez nunca sejam devido às peculiaridades e singularidade da experiência
ambiental de cada um. Psicoterapia,
porém, envolve muito mais do que memória de longo prazo. Grande parte
das técnicas psicoterápicas baseia-se no diálogo. A palavra falada é
um som decodificado em impulso elétrico através de receptores na cóclea.
Através do nervo coclear, esse impulso neural faz sua primeira
sinapse no núcleo coclear. A partir daí, surge um novo sistema de
fibras com projeções para várias estruturas localizadas no tronco
encefálico, diencéfalo e cerebelo. Dentre essas estruturas está o
corpo geniculado medial, que através de projeções para o córtex
auditivo primário completa o trajeto da via sensorial auditiva. Muito
importante notar que a consciência da ocorrência do som se dá neste
momento, embora sua compreensão como algo que carrega significado específico
somente ocorra quando o impulso neural é transmitido do córtex
auditivo primário para a área de Wernicke, localizada no hemisfério
cerebral esquerdo. A mesma área cortical no hemisfério direito fornece
o caráter emocional da musicalidade da palavra (Borod, Andelman, Obler,
Tweedy & Welkowitz, 1992; VanStrein & Morpurgo, 1992). Projeções
dessas áreas com outras áreas corticais adjacentes produzem percepções
diretamente associadas com memórias para esta palavra. Através
de técnicas de neuroimagem, como o PET Scan, diversos neuropsicólogos
têm verificado a existência de uma especialização cortical envolvida
com o reconhecimento de palavras, compreensão de seu significado semântico
e habilidade de converter pensamentos em palavras (Damasio &
Geschwind, 1984; Frith, Friston, Liddle & Frackowiak, 1991;
Gescwind, 1979; Kosslyn, Alpert, Thompson, Malijkovic, Weise, Chambris,
Hamilton, Raush & Buonanna, 1993; Petersen, Fox, Posner &
Raichle, 1988). Quando falamos uma determinada palavra, áreas motoras
da fala são ativadas. Ao lermos em silêncio essa palavra, áreas do córtex
occipital são ativadas. Finalmente, quando pensamos no significado
dessa palavra, áreas do córtex pré-frontal são ativadas. Considerações Finais Nos
últimos anos nenhum outro órgão do corpo humano foi tão estudado
quanto o cérebro, e não há dúvidas da grande importância que o meio
ambiente e as relações sociais desempenham no funcionamento deste órgão.
Muitos exemplos, além dos utilizados aqui, demostram a relação
bidirecional entre cérebro e comportamento - e estamos aqui definindo
comportamento em seu sentido mais amplo, incluindo desde padrões
motores até percepções, emoções, pensamentos ou cognições.
Procurou-se mostrar que não existe atividade psicológica
independente de uma atividade neural. Consequentemente, toda prática
psicológica é também uma prática biológica. Neste sentido, a
psicoterapia não difere muito da psicofarmacoterapia: ambas têm a
capacidade de modificar o padrão de comunicação sináptica. Evidentemente,
a compreensão da mente humana sob uma ótica monista não implica
necessariamente em uma mudança na prática psicoterápica. A mudança
está na forma de se delimitar e entender o problema, levando-se em
consideração fatores biológicos como variáveis importantes no
entendimento da atividade mental. Da mesma forma, esta posição não
reduz a atividade psicológica a mecanismos puramente biológicos. A própria
natureza multifatorial do fenômeno psicológico impede tal
reducionismo. A maior dificuldade talvez esteja no ceticismo do psicólogo
clínico quanto a enorme quantidade de evidências clínicas e
experimentais mostrando que nossos pensamentos, motivações, idéias,
crenças e emoções, em um dado momento de nossas vidas, são produtos
finais do impacto que o meio ambiente e as relações sociais tiveram
sobre a plasticidade sináptica de nossas células nervosas. Na
verdade, podemos dar um passo ainda mais adiante nesta última afirmação
ao dizermos que somente mudamos uma percepção, emoção,
pensamento, idéia, crença ou motivação para alguma coisa no
momento em que o padrão de comunicação sináptica das células ou
conjunto de células que reagem a esta coisa muda. Será? No caso desta
afirmativa ser verdadeira, os resultados daqueles os experimentos
(Landeira-Fernandez, Woody, Wang, Chizhevsky & Gruen, 1991; Woody,
Wang, Gruen & Landeira-Fernandez, 1992) em que células envolvidas
na primeira sinápse da via auditiva de gatos passaram a responder de
forma diferente em função do novo significado de um som associado a um
estímulo aversivo, poderiam ser interpretrados da seguinte maneira: o
som passou a ter um novo significado para o gato no momento em que as
referidas células da cóclea passaram a responder de forma diferente.
De qualquer forma, ambas as afirmações sugerem uma abordagem monista
que contrapõe a idéia dualista de Descartes de que a natureza da mente
independe da matéria. Bibliografia Baxter,
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