matériapensante

Notas sobre as idéias de Brücke, 

Meynert e do jovem Freud  

acerca do sistema nervoso 

e do psiquismo

 

Monah Winograd

 

 

"O cérebro é o espírito mesmo."

Gilles Deleuze e Félix Guattari

 

“Objectum ideæ, humanam Mentem constituentis, est Corpus, ...”

Spinoza

   

         Este ensaio tem como objetivo uma compilação e uma análise iniciais sobre o modo como Freud tratava o problema das relações entre a atividade psíquica e o sistema nervoso em seus primeiros escritos, até o Projeto Para Uma Psicologia Científica de 1895, exclusive. Para tanto, investigaremos alguns textos “menores” e “marginais”, nos quais este problema aparece direta ou tangencialmente, sugerindo um primeiro delineamento de um plano conceitual propriamente psicanalítico.[1]

        Com vistas a um enriquecimento de nosso trabalho, apresentaremos algumas notas sobre os três pontos que se seguem (não necessariamente nesta ordem), tentando esboçar uma articulação inicial entre eles:

1. as teses de Ernst Brücke, eminente fisiologista e um dos fundadores da Escola de Helmholtz, e Theodor Meynert, distinto psiquiatra e anatomista do cérebro, ambos professores de Freud e representantes do pensamento médico-biológico vienense de final do século passado;

2. o ponto de vista do jovem Sigmund Freud sobre a relação entre o sistema nervoso e a atividade psíquica;

3. alguns conceitos e paradigmas da biologia no final do século XIX, pertinentes ao nosso tema.

         Nossa hipótese de trabalho — que justifica a escrita deste ensaio — é a suposição de que Freud partilhava, de uma maneira que foi-se tornando bastante singular, do ponto de vista materialista e empirista dominante no final do século passado, internamente ao campo da biologia e da medicina.[2] Os relatos sobre sua vida e sobre o início de suas atividades profissionais revelam sua preocupação em manter-se próximo a este modo de pensar e dentro dos limites deste campo, ainda que, mais adiante, novos conceitos sejam esboçados, trazendo luz a alguns pontos obscuros para ciência de sua época e inaugurando um campo absolutamente inédito.

        Freud nunca duvidou de que o pensamento ou a atividade psíquica tem relações estreitas com uma determinada composição e configuração da matéria viva. Ao contrário, uma de suas premissas — expressa também pela utilização de termos importados da neurologia — era que os processos fisiológicos e psíquicos são “concomitantes dependentes”, constituindo duas séries heterogêneas, mas não autônomas, em constante relação.[3] Ou seja, não sendo apenas um epifenômeno dos processos somáticos, nem constituindo uma substância distinta, o pensamento está em relação com a matéria viva de modo extremamente complexo, pois não há a prevalência de uma série sobre a outra.

        A interrogação sobre a natureza desta relação é um dos problemas que atravessa, em filigrana, toda a elaboração metapsicológica freudiana. Que tipo de relações entre a atividade psíquica e o sistema nervoso podem ser supostas? Quais as manifestações disto no próprio campo da atividade psíquica? Como, em que momento e sob que condições surge a atividade psíquica a partir de um substrato material? Acompanhando direta ou tangencialmente a maioria dos textos de Freud, estas questões abriram — e ainda abrem — o campo problemático a partir do qual a psicanálise pode ser inventada.

Ernst Brücke e a fisiologia do sistema nervoso

         Foi Brücke quem iniciou Freud no estudo da neurologia, já em seu primeiro semestre de formação acadêmica na Escola de Medicina da Universidade de Viena, em outubro de 1873. Por mais nove anos consecutivos, até que deixasse o Instituto de Fisiologia, em 1882, Freud se dedicou ao estudo e à investigação da anatomia e da fisiologia do sistema nervoso, não deixando dúvidas sobre as fortes influências deste mestre em fisiologia nervosa na sua formação.

        Ao lado de Emil du Bois-Reymond, Carl Ludwig e Hermann Helmholtz, Brücke foi um dos fundadores do movimento conhecido como a Escola de Helmholtz, que dominou a fisiologia alemã na segunda metade do século XIX. Seu objetivo geral era trazer o programa das ciências naturais — descobertas e métodos — para a investigação de todos e quaisquer pensamentos e ações humanos. Sua hipótese básica era a suposição de que as funções  orgânicas poderiam e deveriam ser explicadas em termos físicos, ou seja, supunha-se que somente as forças físico-químicas comuns — inerentes à matéria e redutíveis às forças de atração e repulsão — seriam ativas no organismo e sua forma de ação deveria ser pesquisada através dos métodos físico-matemáticos.[4] Rejeitando categoricamente a metafísica e a teologia, Brücke era um positivista convicto: os fenômenos naturais eram, para ele, fenômenos de movimento.

         Aos vinte anos, em 1876, Freud iniciou seus trabalhos como pesquisador sob a orientação de Brücke, em seu Instituto de Fisiologia, após ter assistido assiduamente seus cursos por três anos consecutivos. Uma vez graduado em medicina, no ano de 1881, permaneceu no Instituto de Brücke por mais um ano. Segundo Ernest Jones, em 1882, questões financeiras teriam-no obrigado a deixar o trabalho de pesquisa, que tanto lhe aprazia, para exercer a contragosto a medicina.[5] Desejava casar-se com uma moça de nome Martha Bernays (que viria a ser, de fato, sua esposa) e como os dois assistentes de Brücke eram apenas dez anos mais velhos do que ele, suas perspectivas quanto a uma vaga de Assistente que pudesse ocupar não eram nada boas. De modo que, em última instância, a elaboração da psicanálise parece ter sido obra do acaso, de um encontro de amor que levou Freud a determinadas atitudes que, por sua vez, foram condição de sua aproximação dos “doentes mentais”, de seu encontro posterior com Charcot e das interrogações que exigiram a construção de conceitos.

         Voltando à época em que ainda era estudante de medicina, o primeiro trabalho de Freud com Brücke foi sobre a histologia do sistema nervoso, mais especificamente, sobre a histologia de uma forma peculiar de células descobertas numa espécie de peixe, o Petromyzon. Sabia-se, até então, que os animais vertebrados inferiores apresentavam células bipolares (possuidoras de dois processos) no gânglio espinhal, ao passo que os animais vertebrados superiores tinham células unipolares. As pesquisas do jovem Freud levaram-no à conclusão de que as células dos Petromyzon constituíam uma espécie de células ganglionares intermediárias, revelando o modo como se dá o trajeto evolutivo que vai dos animais vertebrados inferiores aos superiores.[6]

           Nos anos 1870, a teoria da seleção natural mantinha-se bastante controversa. Darwin situara o homem no reino animal, arriscando-se a explicar seu surgimento, sobrevivência e desenvolvimento diferenciado a partir de razões totalmente seculares. As causas que operavam nas transformações na ordem natural dos seres vivos, difundidas por Darwin, não eram mais remetidas a uma divindade, mas sim, expressavam a luta entre o organismo e seu meio, através dos tempos e das catástrofes.[7] O jovem Freud, estudioso das células do sistema nervoso, estava plenamente empenhado em participar deste novo modo de conceber a história natural. Suas descobertas comprovavam processos evolutivos revelados nas estruturas nervosas dos peixes, fazendo com que uma lacuna na teoria da evolução fosse preenchida. Através da demonstração de que o sistema nervoso dos animais inferiores e superiores é composto por elementos idênticos, a continuidade entre as espécies poderia ser estabelecida. Intencionalmente, Freud aderia ao darwinismo, participando do esforço de seu tempo em demonstrar os caminhos da evolução.

         Relativamente ao funcionamento nervoso do ser humano, Brücke ensinava que apenas um tipo de excitação, hipoteticamente de natureza elétrica, opera no sistema nervoso: os “estímulos”, as “excitações” ou os “impulsos”. Transmitidos através do nervo e variando quantitativamente, eles definiriam uma propriedade básica do sistema nervoso, permitindo a descrição dos processos nervosos em termos de quantidades de excitação, supostamente originadas num local específico do sistema. Se um estímulo durasse tempo suficiente para sua acumulação, ele desencadearia um movimento reflexo, após o qual o estado de equilíbrio seria reestabelecido até que um novo impulso fosse acumulado, desencadeando um novo movimento reflexo e assim sucessivamente.[8] Noutras palavras, as hipóteses básicas sobre o funcionamento do sistema nervoso de modo geral seguiam o modelo reflexo.

         Pensada como um fenômeno quantitativo, a noção de acúmulo de excitação, por sua vez, permitia que se explicasse de modo plausível o tempo observado entre uma estimulação e sua resposta reflexa. Originando-se tanto do mundo externo, quanto das partes não nervosas do organismo, as excitações desencadeariam os movimentos reflexos apenas após sua transmissão para os nervos motores, o que só ocorreria depois que fossem minimamente acumuladas.[9]

        Além disso, para Brücke, as excitações não variavam quantitativamente durante sua passagem pelo sistema nervoso: nada era acrescentado ou subtraído à quantidade original. No caso do acúmulo de estímulo, a excitação era armazenada num determinado centro nervoso, sem que nada lhe fosse acrescentado. Do mesmo modo, qualquer variação negativa era pensada como uma transferência intercelular da excitação, isto é, a aparente diminuição na quantidade de  excitação decorria da possibilidade dela ter sido transmitida para outra região do córtex.[10]

         Contudo, Brücke não se deteve muito em formulações sobre a transmissão da excitação através do cérebro ou sobre a parte do sistema que envolveria a consciência, as idéias e a vontade, referindo grande parte do que discutia sobre o tema às opiniões de Meynert, uma das maiores autoridades no assunto. Quando abordava o problema dos processos envolvendo fenômenos mentais, assumia que eles eram paralelos aos fenômenos físicos, jamais discutindo tal posição. Isto permitia que ele se aproximasse de ambos os lados do paralelismo, descrevendo os processos, tanto em termos físicos, quanto em termos psíquicos.[11] Esta alternância nos termos das descrições era característica dos trabalhos dos professores de Freud, e dele próprio, evidenciando que os processos mentais não eram concebidos, em nenhum aspecto, de modo independente dos processos físicos — o que eliminava a consideração cartesiana e cristã da alma como algo independente do corpo por ela habitado.

        Ainda assim, em última instância, as funções nervosas eram sumariamente reduzidas aos reflexos físicos, eliminando o psíquico como um agente eficaz e mantendo-se de acordo com a orientação da Escola de Helmholtz. Se somente as forças físico-químicas são ativas no organismo, não há lugar para a atividade de processos não-físicos, como os psíquicos. Porém, se o professor de Freud levava em conta a eminência de uma série sobre a outra, Freud irá pensá-las como estritamente paralelas, onde a cada variação numa corresponde uma variação na outra, sem que nenhuma delas seja determinante.

         De modo esquemático, podemos apontar algumas idéias de Brücke pilhadas por Freud, vários anos após o final de seu trabalho em conjunto e já num momento de gestação do que viria a ser a psicanálise (algumas delas permanecem fundamentais até o final da obra de Freud). Evidentemente, estas idéias serão transformadas e ajustadas à uma nova concepção do funcionamento dos processos nervosos e psíquicos, fertilizando o solo no qual a metapsicologia dará suas flores. São elas:

1. a descrição dos processos nervosos em termos de quantidades de excitação. Eeste recurso descritivo estará presente praticamente do começo ao fim da obra de Freud, mesmo quando o registro em questão for o psiquismo. Daí, talvez, decorra também a idéia fundamental de que as representações são acompanhadas de quantum de afeto [Affektbetrag];

2. a idéia de um movimento e de uma transferência das excitações através do sistema nervoso. Transposta para a elaboração do modo de funcionamento da atividade psíquica, o movimento e transferência de excitação correspondem, possivelmente, ao deslocamento do afeto na cadeia associativa;

3. a noção de acumulação, a partir da qual a excitação desencadearia um movimento reflexo. Não só o modelo reflexo será importado por Freud, como também a suposição de um acúmulo de excitação estará presente na postulação da existência de um limiar, a partir do qual as excitações somáticas podem ser expressas no plano psíquico[12];

4. a postulação de um estado de equilíbrio prévio, a ser reestabelecido após o movimento reflexo. Presente na elaboração do célebre princípio de constância ou inércia, traduzido como a tendência do aparato nervoso ou psíquico em manter o mais baixo possível o nível de excitação;

5. a noção de paralelismo psicofísico. Levado às últimas conseqüências, a idéia de paralelismo ou ‘relações recíprocas’ parece justificar a importação de termos da neurologia para tratar do registro psíquico.

         Brücke, contudo, não fora o único professor de Freud a impressioná-lo, durante e depois de sua formação acadêmica. Segundo Peter Gay, o pensamento e a figura de Theodor Meynert também exerceram grandes influências no jovem Freud, ainda que, nos anos 1890, eles tenham se desentendido por questões como a hipnose e a histeria.[13] Até lá, a postura filosófica de Meynert funcionava como confirmação e estímulo a Freud. Pretendendo empreender uma psicologia científica, Meynert era um determinista estrito que descartava o livre-arbítrio e considerava que a mente obedecia a uma ordem fundamental oculta (mas, nem por isso, metafísica ou teológica) que merecia ser trazida à luz.

 

Theodor Meynert e o funcionamento psicofísico

         No ano de 1881, Freud deixou o Instituto de Brücke para preparar-se para a carreira da prática médica. Como precisava de treinamento, pois até então dedicara-se somente à pesquisa de laboratório, transferiu-se para o Hospital Geral de Viena na qualidade de uma espécie de estagiário, tendo trabalhado por curtos períodos de tempo em vários departamentos clínicos. Em 1883, quando tornou-se um Sekundaratz (equivalente a residente), trabalhava na Clínica Psiquiátrica de Meynert, cujas aulas sobre prática médica foram as únicas a lhe interessarem quando era estudante. No total, Freud ficou cinco meses na clínica de Meynert e, por vários anos depois, utilizava o laboratório desta clínica para pesquisas sobre a anatomia do cérebro humano.[14]

         Após uma passagem pelo Departamento de Dermatologia, no final de 1883, Freud foi transferido para o recém-formado Departamento de Doenças Nervosas, onde permaneceu por quatorze meses. Ao contrário do que imaginara, a decisão de abandonar a vida de pesquisador não acarretou mudanças tão drásticas. Nos anos passados no Hospital de Viena, Freud encontrou tempo suficiente para continuar suas pesquisas sobre a anatomia do sistema nervoso no laboratório de Meynert. Um dos frutos deste trabalho foi ter realizado um de seus objetivos mais antigos: tornar-se um Privatdozent (uma espécie de conferencista a quem não é permitido freqüentar as reuniões de faculdade, não recebe salário, mas pode manter um certo número de classes, geralmente, sobre temas extracurriculares). Sua indicação fora para a área de neuropatologia, embora ele tivesse manifestado sua preferência por anatomia e fisiologia do sistema nervoso, bem como suas patologias. De qualquer modo, esta nova posição garantia-lhe  prestígio acadêmico e junto ao público, podendo ser útil, tanto em sua carreira médica, quanto como pesquisador.[15]

         A convivência com Meynert fora bastante proveitosa, não somente em termos de ascensão profissional, como sobretudo por partilharem diversos pontos de vista. O interesse de Meynert sempre fora relacionar a estrutura do sistema nervoso com o funcionamento mental normal e anormal, tanto que, nos anos em que Freud esteve em contato com ele, suas pesquisas estavam dirigidas para este tema, em detrimento da pesquisa em anatomia.

        Meynert concordava com Brücke sobre a exclusividade de apenas um tipo de energia ou de excitação operando no sistema nervoso e atestava explicitamente que toda esta excitação tinha origem nas terminações periféricas dos nervos aferentes. Os termos por ele utilizados para denominar esta energia eram: “sensibilidade”, “energia”, “força”, “impulso”, “estímulo” e, como não poderia deixar de ser, “excitação”. Contudo, ao contrário de Brücke, Meynert acreditava que a excitação poderia variar quantitativamente e que a variação negativa marcava a passagem da excitação pelo nervo, embora fosse somente um fenômeno concomitante aos acontecimentos químicos sintéticos  correspondentes.[16]

        Assim como Brücke, Meynert supunha ser a maioria das respostas reflexas mediadas por vias subcorticais e determinadas no nascimento, ou seja, as trilhas nervosas, nas quais a transferência da excitação tinha lugar, eram inatamente determinadas, embora pudesse haver algumas modificações no modelo dos reflexos subcorticais ao longo da vida do indivíduo, insignificantes do ponto de vista do funcionamento normal.[17]

         De modo mais geral, Meynert partilhava da opinião comum segundo a qual o cérebro seria o órgão da inteligência, por ele entendida como associação de percepções atuais ou passadas. O concomitante físico de uma percepção sensorial presente seria a excitação fluindo desde os nervos sensórios até o córtex cerebral. Por outro lado, a memória dependeria das “imagens” deixadas no córtex por estes influxos de excitação e a associação das percepções, por sua vez, dependeria de um mecanismo, cuja estrutura anatômica seriam os nervos que ligam uma parte do córtex à outra. Para Meynert, cada hemisfério cerebral consistia em: sistemas projetivos (responsáveis pela ligação do córtex às superfícies sensíveis e aos órgãos motores) e sistemas de associação (responsáveis pela ligação das partes do córtex, próximas ou distantes, entre si). O que faria com que o córtex fosse diferente do resto do sistema seriam os feixes associativos  transformados em trilhas de transferência de excitação quando conectavam partes do córtex que receberam influxos de excitação simultaneamente. Uma vez estabelecidos estes feixes ou trilhas, a excitação percorreria preferencialmente este caminho.[18]

         A abertura destes feixes associativos, permitindo a transferência de excitação, era descrita por Meynert também em termos psicológicos, como uma função lógica fundamental — a indução. Se duas imagens são registradas simultaneamente, o reavivamento de uma delas induziria necessariamente à reprodução da outra. As imagens estariam, portanto, associadas, de modo que a re-excitação de uma delas se estenderia pelas fibras associativas até as células nas quais a outra imagem fora registrada. Os feixes associativos seriam como uma linha de conexão que permitiria que uma imagem evocasse outra, sob o limiar da consciência. Assim, a associação poderia se dar, não apenas entre duas percepções simultâneas, como também entre duas percepções contíguas.[19]

        Percebe-se claramente as influências da psicologia da associação nas concepções de Meynert. Empenhado em descrever fisiologicamente o modo como os processos mentais seriam constituídos pela associação de percepções presentes e passadas, ele supunha ser a associação entre estas percepções um processo seguinte à estimulação dos órgãos sensoriais e sua natureza seria determinada pelas relações temporais entre as estimulações.[20] Mas, na verdade, Meynert não se deteve na descrição dos concomitantes nervosos dos processos apontados pelos psicólogos associacionistas. Sua concepção do funcionamento do sistema nervoso apresentava uma variação do conceito de reflexo, expressa pela idéia de transferência de excitação de uma parte à outra do sistema nervoso — noção sem equivalente na psicologia associacionista.

        Os movimentos musculares, originalmente resultantes de reflexos, eram explicados pela postulação da existência de sensações da inervação, resultantes da passagem da excitação pelos centros subcorticais. Assim como quaisquer outras, também as sensações da inervação produziam uma imagem física nas células do córtex cerebral (Meynert utilizava o termo ‘imagem’ para designar tanto entidades físicas quanto psicológicas). Esta imagem da inervação mediava, assim, a passagem da excitação para os chamados atos voluntários.[21]

        O estabelecimento das associações entre imagens era, para Meynert, o próprio processo de desenvolvimento do que ele chamava de ‘individualidade’, na qual o instinto não tinha lugar. Ainda que o primeiro instinto fosse o instinto por comida, nada, na sensação de fome, poderia ser apontado como indicador do modo de remediar esta dor — somente o conceito de dor poderia ser obtido pela criança. Se, ao invés de ser deixada só, algum bico fosse colocado na boca do bebê faminto, a sensação assim excitada desencadearia o mecanismo reflexo do sugar. A criança, então, adquiriria o conceito de que a sensação de saciamento conecta-se com o ato de sugar e, por sua vez, estas duas memórias sensoriais ligam-se com a sensação de inervação implicada no ato de sugar e, provavelmente, com a visão do seio materno. O ato de sugar produziria, assim, imagens que teriam sido registradas no córtex, de modo que, para Meynert, o movimento de virar a cabeça na direção do seio materno não seria um movimento reflexo ou instintivo, mas sim, consciente e baseado na associação de sensações dolorosas e sensações de inervação. Não haveria lacuna alguma entre o movimento reflexo e a consciência a ser preenchida pelo instinto.[22]

        Esta seqüência de eventos fisiológicos era considerada como o processo típico pelo qual o córtex plástico desenvolvia-se em resposta ao meio:

1. a excitação que impactava o córtex produziria a sensação de dor;

2. a descarga desta excitação por via reflexa (presumidamente subcortical) faria cessar, mesmo que provisoriamente, o impacto, levando o sistema ao repouso geral;

3. a imagem cortical do agente externo que tornou possível o fim do impacto da excitação, a sensação da inervação cortical dos movimentos mediados inicialmente por vias reflexas subcorticais e a representação cortical do final da excitação associariam-se  psicologicamente e fisiologicamente por fibras associativas;

4. a repetição de uma excitação idêntica causaria a ligação das duas partes do córtex, estabelecendo definitivamente a associação.

        Tais experiências formariam o que Meynert chamava de “ego” [Ich] primário, pensado como o núcleo da individualidade: as vias formadas no córtex, neste momento inicial, seriam fundamentais e determinantes para o comportamento posterior do indivíduo. E mais: o objetivo básico e determinante de toda e qualquer ação humana seria evitar a dor. De modo geral, todas as transmissões de excitação nervosa e todas as trilhas corticais postas em funcionamento para esta transmissão eram pensadas como servindo para descarregar todas as excitações impactantes. Assim, a excitação recebida causava o funcionamento do sistema e, simultaneamente, providenciava a força para que funcionasse no sentido de fazer cessar a geração da excitação. Como vimos, a transferência da excitação poderia ter lugar tanto nas trilhas determinadas inatamente ou por influxos prévios de excitação, quanto em novas trilhas postas em funcionamento se as já estabelecidas não servissem para cessar o impacto da excitação.[23]

        De modo geral, a atividade nervosa era subdividida em duas classes: inatas ou congênitas e mediadas subcorticalmente, ou determinadas pela experiência e mediadas corticalmente. Na explicação de Meynert, nenhum instinto era determinante do comportamento: antes do estabelecimento da individualidade pela repetição de excitações idênticas, haveria um estado cortical por ele chamado de “confusão”. Na criança, haveria uma condição desordenada originária e as conexões estabelecer-se-iam por acaso. Ou seja, não apenas as imagens corticais da fome, do seio materno etc. seriam conectadas por trilhas associativas, como  também as imagens corticais de tudo o que acontecia ao mesmo tempo no ambiente somático e externo ao cérebro entrariam em conexões funcionais com as partes essenciais de nervos paralelos ao ato de aprender. Quaisquer outras imagens corticais fortuitas com relação ao processo de aprendizagem eram chamadas de “associações adjacentes”.[24]

         Nota-se que Meynert, assim como Brücke, deslizava de um lado a outro do paralelismo psicofísico em suas descrições do funcionamento e da constituição do sistema nervoso e da atividade mental. Mas, como um crente fiel do positivismo científico que inundava a academia vienense do final do século, ele era unilateral: em última instância, os processos físicos determinavam os psíquicos. Freud, em sua concepção particular destes processos, retomará, não apenas a noção de paralelismo, como também as seguintes idéias básicas:

1. a exclusividade de apenas um tipo de energia ou de excitação operando no sistema nervoso. Também partilhada por Brücke, esta idéia sustenta e justifica a descrição dos processos nervosos em termos de quantidades de excitação. Freud, por sua vez, a utilizará também em suas descrições dos processos psíquicos;

2. o funcionamento do sistema na direção da descarga de energia, levando a um estado mínimo de tensão ou de repouso geral. Correlatas do modelo reflexo, as noções de descarga e de estado mínimo de tensão terão um lugar central na construção de vários dos modelos de aparato psíquico freudianos;

3. a existência de trilhas nervosas no sistema nervoso, nas quais a transferência da excitação tem lugar preferencialmente. Correspondentes aos trilhamentos ou às facilitações [Bahnungen] do Projeto, de 1895, a suposição da existência de trilhas preferenciais de passagem das excitações (somáticas ou ‘psíquicas’) sustentará toda a elaboração posterior de Freud acerca do estabelecimento e do movimento da cadeia associativa, com suas séries de representações;

4. o estabelecimento destas trilhas pela contiguidade ou simultaneidade do impacto da excitação em diferentes partes do sistema nervoso. Especificamente no Projeto, esta noção será correspondente ao investimento colateral. De modo global, o efeito da contiguidade ou da simultaneidade será transposto para o registro psíquico e, devido a notoriedade desta noção, dispensa maiores comentários;

5. o corresponde psicológico de 2 e 3: estas trilhas associativas nervosas correspondem às associações de percepções registradas como imagens, constituindo a memória. Também para Freud, os trilhamentos correspondem à associação de percepções, registradas como traços mnêmicos, dando lugar às representações, à memória e, sobretudo, ao próprio aparato psíquico;

6. a suposição de um estado inicial de desordem, a ser ordenado pelas associações estabelecidas a partir do contato com a exterioridade, dando lugar a um ego primário. Ao longo de toda a obra freudiana, o Eu será pensado como uma instância produzida a partir de uma desordem original e pelo contato com a exterioridade;

7. o abandono da noção de instinto como determinante do funcionamento nervoso e mental. De certo modo, toda a elaboração freudiana sobre o funcionamento psíquico desdobrará este ponto, desde a elaboração do conceito de pulsão, até as formulações sobre as escolhas de objeto;

8. a descrição da experiência primária da fome e das associações estabelecidas a partir do saciamento deste estímulo, para o qual é necessário a intervenção de um agente externo. A ilustre experiência ou vivência primária de satisfação, descrita por Freud de modo bastante semelhante a Meynert (embora as conseqüências, para um e outro, sejam diferentes), será o ponto de partida para a construção do conceito central de desejo, com todos os seus desdobramentos.

         Como se vê, algumas idéias de Meynert serão retomadas por Freud a partir de inquietações absolutamente particulares, nascidas de seu contato com os chamados “doentes mentais” que não apresentavam lesões orgânicas ou alterações somáticas no funcionamento de seu sistema nervoso. Na tentativa de fornecer uma explicação plausível deste tipo de afecções, bem como do funcionamento “normal” da mente humana, Freud seqüestrará, numa perspectiva bastante singular, o que aprendera com Brücke e Meynert. Obviamente, estas idéias serão reajustadas e transformadas, dando lugar a um plano de pensabilidade novo, a partir do qual o pensamento e a ação humanos serão concebidos diferentemente.

 

Sigmund Freud e o órgão anímico

         Sobretudo no início de sua obra, Freud preocupava-se em descrever o modo de funcionamento “normal e patológico” do sistema nervoso e da atividade psíquica. Seu contato com pacientes que apresentavam alterações no funcionamento psicofísico, sem lesões aparentes, colocara-o frente a um problema insolúvel para a medicina e a neurologia de sua época. No final do século XIX, a especificação das variações somáticas ligadas a este tipo de afecções fundava-se em especulações e, mesmo sem verificação empírica, a premissa era sempre a da determinação do psíquico pelo somático. Ainda que as variações físicas correspondentes à uma afecção qualquer fossem desconhecidas, sua existência não só era suposta, como era necessariamente determinante. Neste contexto, Freud lança mão do que aprendera com seus professores na tentativa de contribuir para o conhecimento “científico” da mente humana. Mas, pouco à pouco, distancia-se deles para apresentar seu ponto de vista singular.

        A juventude de Freud contribuía para sua simpatia por métodos de tratamento inaceitáveis para a tradição positivista. Ao contrário de seus mestres, Freud via no hipnotismo uma alternativa possível para os “doentes” que não encontravam alívio através dos tratamentos clássicos. Mais especificamente, o hipnotismo permitia eliminar sintomas cujas causas não eram visíveis, mas apenas especuladas. Contudo, a simpatia de Freud por este novo método de tratamento justificava-se, mais profundamente, por uma posição própria e diferenciada  relativamente às relações entre o sistema nervoso e a atividade psíquica. Embora assumisse como válidas as descrições fisiológicas empreendidas por Brücke e Meynert, partilhando e apropriando-se delas, Freud levava às últimas conseqüências o que aprendera sobre o paralelismo psicofísico.

        No ano de 1888, publica um artigo entitulado ‘Histeria’, num Dicionário de Medicina Geral, no qual é possível entrever algumas de suas concepções sobre as relações entre sistema nervoso e psiquismo.[25] Já na parte I, pode-se encontrar uma passagem na qual, surpreendentemente, Freud declara que a histeria baseia-se inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso, ainda que não esteja relacionada a nenhuma alteração anatômica. Adiante afirma, aparentemente contradizendo-se, que as afecções físicas próprias da histeria (paralisias, ataques, etc.) não refletem uma possível perturbação orgânica, pois não correspondem ao que usualmente acontece nestes casos. Trata-se, em verdade, de alterações no decurso e na associação das representações. Em resumo, a histeria revela modificações (por causas não-orgânicas) na distribuição normal das magnitudes estáveis de excitação sobre o sistema nervoso. Mais ainda, nestes casos, o influxo dos processos psíquicos sobre os processos físicos do organismo estaria aumentado, devido a um excedente de excitação (o famoso fator traumático), exteriorizado através de inibições e estimulações, e deslocando-se livremente no sistema nervoso.[26]

        Ora, nestas poucas páginas é possível perceber — além das referências que denunciam sua tênue e polêmica filiação aos mestres (como, por exemplo, a noção de associação de representações e a suposição da passagem de magnitudes estáveis de excitação pelo sistema nervoso) — o modo como Freud pensava as relações entre as séries psíquica e somática. A cada configuração somática das forças em ação no sistema nervoso, ou segundo o punho de Freud, a cada ‘estado encefálico’ corresponderia um ‘estado de alma’, sem que a relação seja causal: as relações são recíprocas e as séries estão enlaçadas.[27] É isto que permite o deslizamento e a indecisão, embaraçosos para o leitor, entre a utilização de termos psicológicos e fisiológicos: são dois modos de descrever um mesmo processo.

        Se era realmente este o seu ponto de vista, nada mais coerente do que considerar o método hipnótico como uma possibilidade interessante no tratamento de algumas afecções. Em seu ‘Prólogo a tradução de H. Bernheim, De la suggestion’, também de 1888, Freud apresenta o problema de como o hipnotismo deveria ser considerado, se como um fenômeno psíquico (desencadeado a partir da ‘sugestão’) ou como um fenômeno físico e fisiológico. Como era de se esperar, ele não assume nenhuma das duas posições. Ao contrário, empenha-se em descrever, tanto os processos fisiológicos, quanto os processos psicológicos envolvidos e justifica seus argumentos concordando com Bernheim sobre o equívoco em classificar os fenômenos hipnóticos como puramente fisiológicos ou puramente psíquicos.[28] Trata-se, na verdade, de um processo de dupla face que implica, simultaneamente, variações psíquicas e fisiológicas. A especificação, de acordo com sua natureza, dos mecanismos em ação na hipnose deve, portanto, ser considerada um falso problema: “Creio, então, que é preciso desautorizar a pergunta sobre se a hipnose mostra fenômenos psíquicos ou fisiológicos, e submeter a decisão a uma indagação especial para cada fenômeno singular.”.[29] Ou seja, de acordo com o registro de incidência da investigação, um determinado fenômeno (no caso, especificamente o hipnotismo) será psíquico ou fisiológico, mental ou corporal — o que faz da decisão por um determinante último uma questão irrelevante.

        Finalmente, as relações entre o anímico e o corporal são o mote principal de ainda outro texto, escrito em 1890 para um manual de medicina (Die Gesundheit).[30] Versando novamente sobre o polêmico tratamento hipnótico, Freud revela explicitamente seu ponto de vista sobre o próprio hipnotismo, a medicina de seu tempo e, sobretudo, o paralelismo psicofísico. A passagem é bastante clara e revela a atitude singular de Freud frente ao modo como seus colegas médicos pensavam a vida anímica:

          É verdade que a medicina moderna teve ocasião suficiente de estudar os nexos entre o corporal e o anímico, nexos cuja existência é inegável; mas, em nenhum caso, deixou de apresentar o anímico como comandado pelo corporal e dependente dele. Destacou, assim, que as operações mentais supõem um cérebro bem nutrido e de desenvolvimento normal, de sorte que resultam perturbadas toda vez que esse órgão se enferma; (...). A relação entre o corporal e o anímico (no animal, tanto como no homem) é de ação recíproca; mas, no passado, o outro flanco desta relação, a ação do anímico sobre o corpo, encontrou pouca honra aos olhos dos médicos. Pareciam temer que, se concedessem certa autonomia à vida anímica, deixariam de pisar o terreno seguro da ciência.”.[31]

         Adiante, vemos a neurose ser surpreendentemente definida como uma afecção do sistema nervoso em seu conjunto, embora não tenha sido possível comprovar alterações cerebrais visíveis — em resumo, são alterações funcionais do sistema nervoso.[32] Ora, se as relações entre o anímico e o corporal são supostas como recíprocas, a neurose (entendida como um modo diferenciado de atividade psíquica) implica necessariamente uma variação na configuração material dinâmica do sistema nervoso, mesmo que não possa ser verificada empiricamente. Mais uma vez, o problema da verificação empírica deve ser descartado na medida em que, como vimos, a premissa é a de que trata-se de dois modos possíveis e legítimos de descrição de um mesmo acontecimento.

        Contudo, a argumentação de Freud pretende demonstrar que se, de um lado, estas alterações do sistema nervoso em seu conjunto podem ser causadas por variações fisiológicas, por outro lado, elas também podem ter como causa imediata variações nos processos anímicos — este seria especificamente o caso da histeria.[33] A premissa desta formulação é a suposição de que o pensamento provoca variações e exteriorizações corporais (além de alterações no sistema nervoso) de acordo com o conteúdo das representações. Por si só, isto já justificaria a retomada do pólo deixado de lado pela ‘medicina moderna’ do final do século XIX, trazendo para o primeiro plano a questão da ação recíproca entre o corporal e o anímico.

        Neste ponto, devemos perguntar: de que modo a articulação entre o físico (no caso, especificamente o sistema nervoso) e o psiquismo será pensada por Freud? Como se dá, segundo sua perspectiva, a passagem de um registro ao outro? A resposta a esta interrogação manifestará os pontos de convergência e divergência entre as idéias do jovem Freud e as de Brücke e Meynert.[34]

        Em 11 de janeiro de 1893, Freud faz uma conferência, no Clube Médico de Viena, sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, na qual se sublinha, classicamente, a preponderância dada ao fator traumático na etiologia da histeria, o que revelaria a forte influência de Charcot nas formulações freudianas.[35] Porém, mais do que na simples  especificação do fator traumático, a importância deste texto está na apresentação de algumas idéias básicas (sustentáculos da própria postulação de um fator traumático na etiologia da histeria) das quais derivará o delineamento de um modelo de funcionamento ou de aparato psíquico. A primeira destas idéias a ser expressa na argumentação do texto é a correlação entre uma impressão psíquica e o acréscimo, por vias sensoriais, de uma ‘soma de excitação’ no sistema nervoso. Noutras palavras, a cada impressão psíquica corresponderia uma variação neurofisiológica. Uma vez que, em todo indivíduo, existiria o afã de tornar a diminuir esta soma de excitação, o sistema nervoso reagiria, por vias motores, no sentido da descarga da quantidade recebida. Desta reação depende “o quanto restará da impressão psíquica inicial”, ou, em termos fisiológicos, o quanto restará da soma de excitação recebida anteriormente pelo sistema.[36] A reação adequada seria aquela que descarrega a mesma soma recebida. Até aqui, tudo parece ter sido importado de Brücke e Meynert: o sistema é impactado desde fora por uma soma de excitação, correspondente a uma impressão psíquica, e trabalha no sentido da descarga desta excitação por vias motoras — modelo reflexo.

        Porém, para Freud, a reação adequada é sempre da ordem da ação, mesmo que esta ação seja a enunciação de palavras. Se o acréscimo de excitação no sistema for pequeno, a reação será somente alterações leves no próprio corpo, como chorar, insultar em resposta, etc. Por outro lado, quanto mais intensa for a impressão psíquica recebida (o termo utilizado por Freud é “trauma psíquico”, mesmo quando ele se refere à soma de excitação adequadamente descarregada[37]), maior será a reação. Ainda, quando o processamento motriz ou por palavras estiver impedido, o mecanismo psíquico pode reagir fazendo tramitar a excitação pela cadeia associativa. Ou seja, de certo modo, o pensamento e a fala, não só são formas de descarga, como são disparados por somas de excitação, não necessariamente provenientes do mundo externo, que impactam o sistema nervoso e nele tramitam. Novamente os processos fisiológico e psíquico são paralelos e interdependentes: cada evento psíquico corresponde a um evento fisiológico, e vice-versa, o que permite que o processamento associativo seja considerado como uma forma possível de descarga.

        Ao se referir aos mecanismos psíquicos de descarga, Freud utiliza o termo “afeto” para designar a quantidade em tramitação e a que é descarregada.[38] Isto leva a supor ser o afeto um modo de expressão psíquica das excitações recebidas e em trânsito no sistema nervoso. Tanto que, um ano depois, Freud afirma, adiantando um dos pilares de toda a sua construção conceitual posterior, que, nas funções psíquicas, deve-se distinguir um monte de afeto ou uma soma de excitação que possui todas as propriedades de uma quantidade — embora não seja mensurável, pelo menos naquela época —, capaz de aumento, diminuição, deslocamento e difusão pelas vias mnêmicas, “(..) como o faria uma carga elétrica pela superfície dos corpos.”.[39] A imagem não parece ser ingênua ou casual. Com efeito, neste momento da obra de Freud, a correlação ostensiva dos processos psíquicos com os processos fisiológicos permite a conclusão de que o monte de afeto seria, de fato, a expressão psíquica de uma carga elétrica (a soma de excitação), difundindo-se pelo sistema e, correlativamente, pelas vias associativas. Se é assim, parece impossível separar os acontecimentos psíquicos de seus correspondentes (neuro)fisiológicos e vice-versa — o cérebro torna-se a fábrica da alma.

        Mas, se o paralelismo e as conseqüentes relações recíprocas entre as séries física e psíquica destacam-se quase espontaneamente do texto freudiano, o problema de como esta relação ocorre permanece em aberto: como se chega de uma série à outra, segundo a perspectiva freudiana? Embora, aparentemente, este problema perca terreno ao longo da elaboração da psicanálise, neste momento, ele é minimamente resolvido com a noção chave de limiar.

        Em resumo, até aqui, as hipóteses básicas de Freud sobre o funcionamento do sistema nervoso e do psiquismo são as seguintes:

1. no sistema nervoso há uma quantidade de excitação em circulação, sendo que, a cada impressão psíquica recebida, corresponde um acréscimo nesta quantidade;

2. a fonte desta excitação é, tanto externa, quanto interna ao próprio organismo do qual o sistema nervoso é parte:

3. o sistema funciona no sentido da descarga das excitações recebidas, o que pode ser feito  por vias motrizes, por processamento por palavras ou associativo — no caso das excitações de fonte exógena, basta qualquer reação que diminua em igual quantidade a excitação “psíquica” correspondente. No caso das excitações de fonte endógena, só valem reações específicas, ou seja, reações que impeçam que a excitação nos órgãos terminais correspondentes permaneçam sendo produzidas, não importando o gasto de energia exigido para este fim;[40]

4. a soma de excitação pode ter expressão psíquica como afeto e é capaz de aumento, diminuição, deslocamento e difusão nas vias mnêmicas;

        Uma apresentação sobre o mecanismo normal de tramitação da excitação recebida pelo sistema e das condições de sua transposição para o registro psíquico decorre da investigação sobre a angústia, em 1894.[41] Neste momento, porém, as formulações de Freud referem-se exclusivamente às excitações sexuais, seja no plano somático, seja no plano psíquico. Diferenciando a angústia histérica, diretamente relacionada aos processos anímicos, da recém-definida neurose de angústia, Freud conclui que, nesta última, a angústia tem sua fonte em fatores físicos da vida sexual. A impossibilidade de transpor a tensão sexual física para o plano psíquico acarretaria um acúmulo exacerbado desta tensão e a conseqüente descarga motora através de taquicardias, hiperventilação, tremores, etc., caracterizando o estado de angústia.

        Sua hipótese é a de que, para que uma excitação endógena se faça notar psiquicamente, ela deve atingir certo limiar, a partir do qual será valorizada, entrando em relação com certos grupos de representações que põem em cena a solução específica. Dito de outro modo, no caso da tensão física sexual, ela deve atingir um certo valor, uma certa quantidade acumulada, para que desperte a libido psíquica.[42] Uma vez transposto este limiar, o grupo de representações sexuais presente no psiquismo seria dotado de “energia”, ou seja, o estado psíquico de tensão libidinosa seria gerado e levaria ao esforço de cancelar esta tensão.

        Nota-se que não se trata aqui de ‘transformação’ de energia física em psíquica, mas de valorização psíquica de uma excitação recebida pelo sistema, isto é, a expressão psíquica de uma excitação física depende do grau de intensidade por ela atingido.[43] Portanto, a noção de limiar parece ser bastante coerente com o paralelismo freudiano, resolvendo, ao menos provisoriamente, o problema da relação entre as séries.

 

Bibliografia

 

AMACHER, P., “Brücke and Reflex Function” in ..............

 ____________ , “Theodor Meynert and the Anatomy of Mind” in ...............

 COMTE-SPONVILLE, A ., verbete: Materialisme in Encyclopedie Philosophique Universelle,

        Paris: P.U.F., 1990

FREUD, S., Interpretação das Afasias, Lisboa: Edições 70, 1979

 _________., ‘Histeria’ (1888) in Sigmund Freud - Obras Completas, vol. 1, Buenos Aires:

    Amorrortu Editores, 1994 (Os textos listados abaixo referem-se a esta edição, de modo

    que indicaremos apenas o ano de sua primeira publicação e o volume no qual se

    encontram)

 _________., ‘Prólogo a la traducción de H. Bernheim, De la suggestion’ (1888 [1888-9]), vol. 1

 _________.,‘Reseña de August Forel, Der Hypnotismus’ (1889), vol. 1

 _________.,‘Tratamiento psíquico (tratamiento del alma)’ (1890), vol. 1

 _________.,‘Algunas consideraciones com miras a un estudio comparativo de las paralisias

    motrices orgánicas e histéricas’ (1893 [1888-93]), vol. 1

 _________.,’Manuscrito E. ¿Cómo se genera la angustia?’ (sem data. 1894?), vol. 1

 _________.,‘Sobre la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en

    calidad de “neurosis de angustia”’ (1895 [1894]), vol. 3

 _________.,‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’ (1893), vol. 3

 _________.,‘Las neuropsicosis de defensa’ (1894), vol. 3

 GAY, P. Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo, São Paulo: Cia das Letras, 1991

 JACOB, F. A Lógica da Vida - uma história da hereditariedade, Rio de Janeiro: Graal,1983

 JONES, E., Vida e Obra de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Zahar, 1979

 NADAL, J., verbete: Empirisme in Encyclopedie Philosophique Universelle, Paris: P.U.F., 1990


[1] De suma importância para o problema tratado aqui, tanto o texto sobre as afasias (1891), quanto o Projeto exigiriam ensaios exclusivos. Acreditamos, contudo, ser interessante averiguar as idéias presentes noutros textos menos célebres, como uma primeira aproximação ao tema desenvolvido aqui. Deixaremos as análises do Projeto e do Interpretação das Afasias para uma próxima oportunidade. Todos os textos utilizados encontram-se na edição argentina das obras completas de Freud. Citaremos, portanto, o ano de sua primeira publicação e os respectivos volumes. Cf. Sigmund Freud — Obras Completas, Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1994.

[2] Por materialismo entendemos qualquer doutrina ou atitude que privilegie, de um modo ou de outro, a matéria. No sentido filosófico, o adjetivo materialista aparece no final do séc. XIX, designando aqueles que afirmam o primado ou a existência exclusiva da matéria, ou seja, a matéria é a realidade fundamental a partir da qual se explica a vida espiritual. Cf. COMTE-SPONVILLE, A ., verbete: Materialisme in Encyclopedie Philosophique Universelle, Paris: P.U.F., 1990. O termo empirismo, por sua vez, refere-se à atitude que explica a produção de conhecimentos a partir da experiência sensível interna e externa, somente com a intervenção dos signos. Cf. NADAL, J., verbete: Empirisme in idem.

[3] “Verossimilmente, a cadeia dos processos fisiológicos no sistema nervoso não está em relação de causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não cessam mal se iniciam os psíquicos, pelo contrário, a cadeia fisiológica prossegue, só que, a partir de um certo momento, a cada seu elemento (...) corresponde um fenômeno psíquico. O psíquico é assim um processo paralelo ao fisiológico (‘a dependent concomitant’)”. FREUD, S., Interpretação das Afasias, Lisboa: Edições 70, 1979, pág. 56.(o grifo é nosso)

[4] Cf. JONES, E., Vida e Obra de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Zahar, 1979, pág. 73 e GAY, P. Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo, São Paulo: Cia das Letras, 1991, págs. 48-9.

[5] Cf. JONES, E., op. cit., págs. 87-8.

[6] Cf. idem, págs. 78-9.

[7] Cf. JACOB, F. A Lógica da Vida - uma história da hereditariedade, Rio de Janeiro: Graal, 1983, págs. 178 e ss.

[8] Cf. AMACHER, P. “Brücke and Reflex Function” in ............, págs. 13-4.

[9]  Esta argumentação não se aplicaria aos movimentos voluntários, pois implicam a participação da consciência, das idéias e da vontade — tema não aprofundado por Brücke.

[10] Cf. idem, pág. 15.

[11] Cf. idem, pág. 16-7.

[12] Cf., dentre outros, ‘Sobre la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en calidad de “neurosis de angustia”’ (1895 [94]), vol. 3, pág. 108-9.

[13] Cf. op. cit., pág. 55.

[14] Cf. JONES, E., op. cit., págs. 92 e ss.

[15] Cf. idem, pág. 96

[16] Cf. AMACHER, P. “Meynert and the Anatomy of Mind” in .............., pág. 24-5.

[17] Cf. idem.

[18] Cf. idem, pág. 26.

[19] Cf. ibidem, pág.27.

[20] Cf. ibidem, pág. 29.

[21] Cf. ibidem, págs. 31 e ss.

[22] Embora, neste caso, a excitação causasse dor, para Meynert, influxos prazeirosos também eram considerados dentro do único tipo de excitação transmitida pelo sistema nervoso. A característica de dor ou prazer dependeria de sua conexão com representações nervosas de idéias dolorosas ou prazeirosas. Cf. idem, pág.34.

[23] Cf. idem, págs.35-6.

[24] Cf. ibidem, págs.38-9.

[25] Em duas cartas a Fliess (28 de maio e 29 de agosto de 1888), Freud faz referência às suas contribuições para a enciclopédia de medicina de Villaret. Como, nesta enciclopédia, os artigos não estão assinados, não é possível ter certeza absoluta sobre sua autoria, de modo que, apenas supostamente, o artigo citado foi escrito por Freud. Cf. STRACHEY, J. Nota introdutória in FREUD, S., ‘Histeria’ (1888), vol. 1.

[26] Cf. FREUD, S. ‘Histeria’ (1888), vol. 1, págs. 53-4.

[27]O feito principal do hipnotismo consiste em que se pode pôr um ser humano num estado de alma (respectivamente, um estado encefálico) semelhante ao dormir.”. ‘Reseña de August Forel, Der Hypnotismus’ (1889), vol. 1, pág. 104 (o grifo é nosso).

[28] Cf. idem, pág. 87-91.

[29] Ibidem, pág. 91 (o grifo é nosso).

[30] ‘Tratamiento psíquico (tratamiento del alma)’ (1890), vol. 1.

[31] Idem, pág. 116 (o grifo é nosso).

[32] Cf. ibidem, pág. 117.

[33] Cf. ibidem, pág. 118.

[34] Cf. a sistematização apresentada nas págs. 6 e 7 infra, sobre Brücke e 11 e 12 infra, sobre Meynert.

[35] Cf. nota introdutória de James Strachey em ‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’(1893), vol. 3, págs. 27-8.

[36] Cf. ‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’(1893), vol. 3, pág. 37.

[37] O trauma psíquico seria, segundo o sentido que Freud lhe atribui em 1893, o efeito de um excedente de excitação que não foi adequadamente tramitado, fazendo com que a lembrança da impressão permaneça com grande valor afetivo e se exteriorize sob a forma de sintomas. Cf. ‘Algunas consideraciones com miras a un estudio comparativo de las paralisias motrices orgánicas e histéricas’ (1893 [1888-93]), vol. 1, pág. 209.

[38] Cf. ‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’(1893), vol. 3, págs. 37-8, ou ainda: “Cada evento, cada impressão psíquica estão providos de certo valor afetivo [Affektbetrag {monte de afeto}), do qual o eu se livra pela via de uma reação motriz ou por um trabalho psíquico associativo.”, ‘Algunas consideraciones com miras a un estudio comparativo de las paralisias motrices orgánicas e histéricas’ (1893 [1888-93]), vol. 1, pág. 209.

[39] ‘Las neuropsicosis de defensa’ (1894), vol. 3, pág. 61.

[40] Cf. ‘Manuscrito E. ¿Cómo se genera la angustia?’ (sem data. 1894?), vol. 1, págs. 231-2.

[41] Cf. idem, pág. 229.

[42] Cf. ibidem, pág. 231-2.

[43] “Se, para fixar melhor nossas representações sobre isto, supormos que a excitação sexual somática se exterioriza como uma pressão sobre a parede, provida de terminações nervosas, as vesículas seminais, então, esta excitação visceral aumentará de modo contínuo, mas apenas a partir de certa altura será capaz de vencer a resistência [Widerstand] da condução interpolada até o córtex cerebral e exteriorizar-se como estímulo psíquico”. ‘Sobre la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en calidad de “neurosis de angustia”’ (1895 [1894]), vol. 3, pág. 108 (o grifo é nosso).

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