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Notas sobre as idéias de Brücke, Meynert e do jovem Freud acerca do sistema nervoso e do psiquismo
Monah Winograd "O
cérebro é o espírito mesmo." Gilles
Deleuze e Félix Guattari “Objectum
ideæ, humanam Mentem constituentis, est Corpus, ...” Spinoza
Este ensaio tem como objetivo uma compilação e uma análise iniciais
sobre o modo como Freud tratava o problema das relações entre a atividade psíquica
e o sistema nervoso em seus primeiros escritos, até o Projeto
Para Uma Psicologia Científica de 1895, exclusive. Para tanto,
investigaremos alguns textos “menores” e “marginais”, nos quais este
problema aparece direta ou tangencialmente, sugerindo um primeiro delineamento
de um plano conceitual propriamente psicanalítico.[1]
Com vistas a um enriquecimento de nosso trabalho,
apresentaremos algumas notas sobre os três pontos que se seguem (não
necessariamente nesta ordem), tentando esboçar uma articulação inicial entre
eles: 1.
as teses de Ernst Brücke, eminente fisiologista e um dos fundadores da Escola
de Helmholtz, e Theodor Meynert, distinto psiquiatra e anatomista do cérebro,
ambos professores de Freud e representantes do pensamento médico-biológico
vienense de final do século passado; 2.
o ponto de vista do jovem Sigmund Freud sobre a relação entre o sistema
nervoso e a atividade psíquica; 3.
alguns conceitos e paradigmas da biologia no final do século XIX, pertinentes
ao nosso tema.
Nossa hipótese
de trabalho — que justifica a escrita deste ensaio — é a suposição de que
Freud partilhava, de uma maneira que foi-se tornando bastante singular, do ponto
de vista materialista e empirista dominante no final do século passado,
internamente ao campo da biologia e da medicina.[2]
Os relatos sobre sua vida e sobre o início de suas atividades profissionais
revelam sua preocupação em manter-se próximo a este modo de pensar e dentro
dos limites deste campo, ainda que, mais adiante, novos conceitos sejam esboçados,
trazendo luz a alguns pontos obscuros para ciência de sua época e inaugurando
um campo absolutamente inédito.
Freud nunca duvidou de que o pensamento ou a atividade
psíquica tem relações estreitas com uma determinada composição e configuração
da matéria viva. Ao contrário, uma de suas premissas — expressa também pela
utilização de termos importados da neurologia — era que os processos fisiológicos
e psíquicos são “concomitantes dependentes”, constituindo duas séries
heterogêneas, mas não autônomas, em constante relação.[3]
Ou seja, não sendo apenas um epifenômeno dos processos somáticos, nem
constituindo uma substância distinta, o pensamento está em relação com a matéria
viva de modo extremamente complexo, pois não há a prevalência de uma série
sobre a outra. A interrogação sobre a natureza desta relação é um dos problemas que atravessa, em filigrana, toda a elaboração metapsicológica freudiana. Que tipo de relações entre a atividade psíquica e o sistema nervoso podem ser supostas? Quais as manifestações disto no próprio campo da atividade psíquica? Como, em que momento e sob que condições surge a atividade psíquica a partir de um substrato material? Acompanhando direta ou tangencialmente a maioria dos textos de Freud, estas questões abriram — e ainda abrem — o campo problemático a partir do qual a psicanálise pode ser inventada. Ernst
Brücke e a fisiologia do sistema nervoso
Foi Brücke quem iniciou Freud no estudo da neurologia, já em seu
primeiro semestre de formação acadêmica na Escola de Medicina da Universidade
de Viena, em outubro de 1873. Por mais nove anos consecutivos, até que deixasse
o Instituto de Fisiologia, em 1882, Freud se dedicou ao estudo e à investigação
da anatomia e da fisiologia do sistema nervoso, não deixando dúvidas sobre as
fortes influências deste mestre em fisiologia nervosa na sua formação.
Ao lado de Emil du Bois-Reymond, Carl Ludwig e Hermann
Helmholtz, Brücke foi um dos fundadores do movimento conhecido como a Escola de
Helmholtz, que dominou a fisiologia alemã na segunda metade do século XIX. Seu
objetivo geral era trazer o programa das ciências naturais — descobertas e métodos
— para a investigação de todos e quaisquer pensamentos e ações humanos.
Sua hipótese básica era a suposição de que as funções
orgânicas poderiam e deveriam ser explicadas em termos físicos, ou
seja, supunha-se que somente as forças físico-químicas comuns — inerentes
à matéria e redutíveis às forças de atração e repulsão — seriam ativas
no organismo e sua forma de ação deveria ser pesquisada através dos métodos
físico-matemáticos.[4]
Rejeitando categoricamente a metafísica e a teologia, Brücke era um
positivista convicto: os fenômenos naturais eram, para ele, fenômenos de
movimento.
Aos vinte anos, em 1876, Freud iniciou seus trabalhos como pesquisador
sob a orientação de Brücke, em seu Instituto de Fisiologia, após ter
assistido assiduamente seus cursos por três anos consecutivos. Uma vez graduado
em medicina, no ano de 1881, permaneceu no Instituto de Brücke por mais um ano.
Segundo Ernest Jones, em 1882, questões financeiras teriam-no obrigado a deixar
o trabalho de pesquisa, que tanto lhe aprazia, para exercer a contragosto a
medicina.[5]
Desejava casar-se com uma moça de nome Martha Bernays (que viria a ser, de
fato, sua esposa) e como os dois assistentes de Brücke eram apenas dez anos
mais velhos do que ele, suas perspectivas quanto a uma vaga de Assistente que
pudesse ocupar não eram nada boas. De modo que, em última instância, a
elaboração da psicanálise parece ter sido obra do acaso, de um encontro de
amor que levou Freud a determinadas atitudes que, por sua vez, foram condição
de sua aproximação dos “doentes mentais”, de seu encontro posterior com
Charcot e das interrogações que exigiram a construção de conceitos.
Voltando à época em que ainda era estudante de medicina, o primeiro
trabalho de Freud com Brücke foi sobre a histologia do sistema nervoso, mais
especificamente, sobre a histologia de uma forma peculiar de células
descobertas numa espécie de peixe, o Petromyzon.
Sabia-se, até então, que os animais vertebrados inferiores apresentavam células
bipolares (possuidoras de dois processos) no gânglio espinhal, ao passo que os
animais vertebrados superiores tinham células unipolares. As pesquisas do jovem
Freud levaram-no à conclusão de que as células dos Petromyzon
constituíam uma espécie de células ganglionares intermediárias, revelando o
modo como se dá o trajeto evolutivo que vai dos animais vertebrados inferiores
aos superiores.[6]
Nos anos 1870, a teoria da seleção
natural mantinha-se bastante controversa. Darwin situara o homem no reino
animal, arriscando-se a explicar seu surgimento, sobrevivência e
desenvolvimento diferenciado a partir de razões totalmente seculares. As causas
que operavam nas transformações na ordem natural dos seres vivos, difundidas
por Darwin, não eram mais remetidas a uma divindade, mas sim, expressavam a
luta entre o organismo e seu meio, através dos tempos e das catástrofes.[7] O jovem Freud, estudioso das células do sistema
nervoso, estava plenamente empenhado em participar deste novo modo de conceber a
história natural. Suas descobertas comprovavam processos evolutivos revelados
nas estruturas nervosas dos peixes, fazendo com que uma lacuna na teoria da
evolução fosse preenchida. Através da demonstração de que o sistema nervoso
dos animais inferiores e superiores é composto por elementos idênticos, a
continuidade entre as espécies poderia ser estabelecida. Intencionalmente,
Freud aderia ao darwinismo, participando do esforço de seu tempo em demonstrar
os caminhos da evolução.
Relativamente ao funcionamento nervoso do ser humano, Brücke ensinava
que apenas um tipo de excitação, hipoteticamente de natureza elétrica, opera
no sistema nervoso: os “estímulos”, as “excitações”
ou os “impulsos”. Transmitidos
através do nervo e variando quantitativamente, eles definiriam uma propriedade
básica do sistema nervoso, permitindo a descrição dos processos nervosos em
termos de quantidades de excitação, supostamente originadas num local específico
do sistema. Se um estímulo durasse tempo suficiente para sua acumulação, ele
desencadearia um movimento reflexo, após
o qual o estado de equilíbrio seria
reestabelecido até que um novo impulso fosse acumulado, desencadeando um novo
movimento reflexo e assim sucessivamente.[8]
Noutras palavras, as hipóteses básicas sobre o funcionamento do sistema
nervoso de modo geral seguiam o modelo reflexo.
Pensada como um fenômeno quantitativo, a noção de acúmulo
de excitação, por sua vez, permitia que se explicasse de modo plausível o
tempo observado entre uma estimulação e sua resposta reflexa. Originando-se
tanto do mundo externo, quanto das partes não nervosas do organismo, as excitações
desencadeariam os movimentos reflexos apenas após sua transmissão para os
nervos motores, o que só ocorreria depois que fossem minimamente acumuladas.[9]
Além disso, para Brücke, as excitações não
variavam quantitativamente durante sua passagem pelo sistema nervoso: nada era
acrescentado ou subtraído à quantidade original. No caso do acúmulo de estímulo,
a excitação era armazenada num determinado centro nervoso, sem que nada lhe
fosse acrescentado. Do mesmo modo, qualquer variação negativa era pensada como
uma transferência intercelular da excitação, isto é, a aparente
diminuição na quantidade de excitação
decorria da possibilidade dela ter sido transmitida para outra região do córtex.[10]
Contudo, Brücke não se deteve muito em formulações sobre a transmissão
da excitação através do cérebro ou sobre a parte do sistema que envolveria a
consciência, as idéias e a vontade, referindo grande parte do que discutia
sobre o tema às opiniões de Meynert, uma das maiores autoridades no assunto.
Quando abordava o problema dos processos envolvendo fenômenos mentais, assumia
que eles eram paralelos aos fenômenos físicos, jamais discutindo tal posição.
Isto permitia que ele se aproximasse de ambos os lados do paralelismo,
descrevendo os processos, tanto em termos físicos, quanto em termos psíquicos.[11]
Esta alternância nos termos das descrições era característica dos trabalhos
dos professores de Freud, e dele próprio, evidenciando que os processos mentais
não eram concebidos, em nenhum aspecto, de modo independente dos processos físicos
— o que eliminava a consideração cartesiana e cristã da alma como algo
independente do corpo por ela habitado.
Ainda assim, em última instância, as funções
nervosas eram sumariamente reduzidas aos reflexos físicos, eliminando o psíquico
como um agente eficaz e mantendo-se de acordo com a orientação da Escola de
Helmholtz. Se somente as forças físico-químicas são ativas no organismo, não
há lugar para a atividade de processos não-físicos, como os psíquicos. Porém,
se o professor de Freud levava em conta a eminência de uma série sobre a
outra, Freud irá pensá-las como estritamente paralelas, onde a cada variação
numa corresponde uma variação na outra, sem que nenhuma delas seja
determinante.
De modo esquemático, podemos apontar algumas idéias de Brücke pilhadas
por Freud, vários anos após o final de seu trabalho em conjunto e já num
momento de gestação do que viria a ser a psicanálise (algumas delas
permanecem fundamentais até o final da obra de Freud). Evidentemente, estas idéias
serão transformadas e ajustadas à uma nova concepção do funcionamento dos
processos nervosos e psíquicos, fertilizando o solo no qual a metapsicologia
dará suas flores. São elas: 1. a
descrição dos processos nervosos em termos de quantidades
de excitação. Eeste recurso descritivo estará
presente praticamente do começo ao fim da obra de Freud, mesmo quando o
registro em questão for o psiquismo. Daí, talvez, decorra também a idéia
fundamental de que as representações são acompanhadas de quantum de afeto [Affektbetrag]; 2.
a idéia de um movimento e de uma transferência
das excitações através do sistema nervoso.
Transposta para a elaboração do modo de funcionamento da atividade psíquica,
o movimento e transferência de excitação correspondem, possivelmente, ao
deslocamento do afeto na cadeia associativa; 3.
a noção de acumulação, a partir da qual a excitação desencadearia um movimento
reflexo.
Não só o modelo reflexo será
importado por Freud, como também a suposição de um acúmulo de excitação
estará presente na postulação da existência de um limiar, a partir do qual as excitações somáticas podem ser
expressas no plano psíquico[12]; 4.
a postulação de um estado
de equilíbrio prévio, a ser reestabelecido após o movimento reflexo.
Presente na elaboração do célebre princípio de constância ou inércia,
traduzido como a tendência do aparato nervoso ou psíquico em manter o mais
baixo possível o nível de excitação; 5.
a noção de paralelismo psicofísico.
Levado às últimas
conseqüências, a idéia de paralelismo ou ‘relações recíprocas’ parece
justificar a importação de termos da neurologia para tratar do registro psíquico.
Brücke, contudo, não fora o único professor de Freud a impressioná-lo,
durante e depois de sua formação acadêmica. Segundo Peter Gay, o pensamento e
a figura de Theodor Meynert também exerceram grandes influências no jovem
Freud, ainda que, nos anos 1890, eles tenham se desentendido por questões como
a hipnose e a histeria.[13]
Até lá, a postura filosófica de Meynert funcionava como confirmação e estímulo
a Freud. Pretendendo empreender uma psicologia científica, Meynert era um
determinista estrito que descartava o livre-arbítrio e considerava que a mente
obedecia a uma ordem fundamental oculta (mas, nem por isso, metafísica ou teológica)
que merecia ser trazida à luz. Theodor
Meynert e o funcionamento psicofísico
No ano de 1881, Freud deixou o Instituto de Brücke para preparar-se para
a carreira da prática médica. Como precisava de treinamento, pois até então
dedicara-se somente à pesquisa de laboratório, transferiu-se para o Hospital
Geral de Viena na qualidade de uma espécie de estagiário, tendo trabalhado por
curtos períodos de tempo em vários departamentos clínicos. Em 1883, quando
tornou-se um Sekundaratz (equivalente a residente), trabalhava na Clínica Psiquiátrica
de Meynert, cujas aulas sobre prática médica foram as únicas a lhe
interessarem quando era estudante. No total, Freud ficou cinco meses na clínica
de Meynert e, por vários anos depois, utilizava o laboratório desta clínica
para pesquisas sobre a anatomia do cérebro humano.[14]
Após uma passagem pelo Departamento de Dermatologia, no final de 1883,
Freud foi transferido para o recém-formado Departamento de Doenças Nervosas,
onde permaneceu por quatorze meses. Ao contrário do que imaginara, a decisão
de abandonar a vida de pesquisador não acarretou mudanças tão drásticas. Nos
anos passados no Hospital de Viena, Freud encontrou tempo suficiente para
continuar suas pesquisas sobre a anatomia do sistema nervoso no laboratório de
Meynert. Um dos frutos deste trabalho foi ter realizado um de seus objetivos
mais antigos: tornar-se um Privatdozent (uma espécie de conferencista a quem não é permitido
freqüentar as reuniões de faculdade, não recebe salário, mas pode manter um
certo número de classes, geralmente, sobre temas extracurriculares). Sua indicação
fora para a área de neuropatologia, embora ele tivesse manifestado sua preferência
por anatomia e fisiologia do sistema nervoso, bem como suas patologias. De
qualquer modo, esta nova posição garantia-lhe
prestígio acadêmico e junto ao público, podendo ser útil, tanto em
sua carreira médica, quanto como pesquisador.[15]
A convivência com Meynert fora bastante proveitosa, não somente em
termos de ascensão profissional, como sobretudo por partilharem diversos pontos
de vista. O interesse de Meynert sempre fora relacionar a estrutura do sistema
nervoso com o funcionamento mental normal e anormal, tanto que, nos anos em que
Freud esteve em contato com ele, suas pesquisas estavam dirigidas para este
tema, em detrimento da pesquisa em anatomia.
Meynert concordava com Brücke sobre a exclusividade de
apenas um tipo de energia ou de excitação operando no sistema nervoso e
atestava explicitamente que toda esta excitação tinha origem nas terminações
periféricas dos nervos aferentes. Os termos por ele utilizados para denominar
esta energia eram: “sensibilidade”,
“energia”, “força”,
“impulso”, “estímulo” e, como não poderia deixar de ser, “excitação”. Contudo, ao contrário de Brücke, Meynert
acreditava que a excitação poderia variar quantitativamente e que a variação
negativa marcava a passagem da excitação pelo nervo, embora fosse somente um
fenômeno concomitante aos acontecimentos químicos sintéticos correspondentes.[16]
Assim como Brücke, Meynert supunha ser a maioria das
respostas reflexas mediadas por vias subcorticais e determinadas no nascimento,
ou seja, as trilhas nervosas, nas
quais a transferência da excitação
tinha lugar, eram inatamente determinadas, embora pudesse haver algumas modificações
no modelo dos reflexos subcorticais ao longo da vida do indivíduo,
insignificantes do ponto de vista do funcionamento normal.[17]
De modo mais geral, Meynert partilhava da opinião comum segundo a qual o
cérebro seria o órgão da inteligência, por ele entendida como associação
de percepções atuais ou passadas. O concomitante físico de uma percepção
sensorial presente seria a excitação fluindo desde os nervos sensórios até o
córtex cerebral. Por outro lado, a memória
dependeria das “imagens” deixadas no córtex por estes influxos de excitação
e a associação das percepções, por sua vez, dependeria de um mecanismo, cuja
estrutura anatômica seriam os nervos que ligam uma parte do córtex à outra.
Para Meynert, cada hemisfério cerebral consistia em: sistemas projetivos (responsáveis pela ligação do córtex às
superfícies sensíveis e aos órgãos motores) e sistemas de associação (responsáveis pela ligação das partes do
córtex, próximas ou distantes, entre si). O que faria com que o córtex fosse
diferente do resto do sistema seriam os feixes
associativos — transformados
em trilhas de transferência de excitação quando conectavam partes do córtex
que receberam influxos de excitação simultaneamente. Uma vez estabelecidos
estes feixes ou trilhas, a excitação percorreria preferencialmente este
caminho.[18]
A abertura destes feixes associativos, permitindo a transferência de
excitação, era descrita por Meynert também em termos psicológicos, como uma
função lógica fundamental — a indução. Se duas imagens são registradas
simultaneamente, o reavivamento de uma delas induziria necessariamente à
reprodução da outra. As imagens estariam, portanto, associadas, de modo que a
re-excitação de uma delas se estenderia pelas fibras associativas até as células
nas quais a outra imagem fora registrada. Os feixes associativos seriam como uma
linha de conexão que permitiria que uma imagem evocasse outra, sob o limiar da
consciência. Assim, a associação poderia se dar, não apenas entre duas
percepções simultâneas, como também
entre duas percepções contíguas.[19]
Percebe-se claramente as influências da psicologia da
associação nas concepções de Meynert. Empenhado em descrever
fisiologicamente o modo como os processos mentais seriam constituídos pela
associação de percepções presentes e passadas, ele supunha ser a associação
entre estas percepções um processo seguinte à estimulação dos órgãos
sensoriais e sua natureza seria determinada pelas relações temporais entre as
estimulações.[20]
Mas, na verdade, Meynert não se deteve na descrição dos concomitantes
nervosos dos processos apontados pelos psicólogos associacionistas. Sua concepção
do funcionamento do sistema nervoso apresentava uma variação do conceito de
reflexo, expressa pela idéia de transferência de excitação de uma parte à
outra do sistema nervoso — noção sem equivalente na psicologia
associacionista.
Os movimentos musculares, originalmente resultantes de
reflexos, eram explicados pela postulação da existência de sensações da
inervação, resultantes da passagem da excitação pelos centros subcorticais.
Assim como quaisquer outras, também as sensações da inervação produziam uma
imagem física nas células do córtex cerebral (Meynert utilizava o termo
‘imagem’ para designar tanto entidades físicas quanto psicológicas). Esta
imagem da inervação mediava, assim, a passagem da excitação para os chamados
atos voluntários.[21]
O estabelecimento das associações entre imagens era,
para Meynert, o próprio processo de desenvolvimento do que ele chamava de
‘individualidade’, na qual o instinto não tinha lugar. Ainda que o primeiro
instinto fosse o instinto por comida, nada, na sensação de fome, poderia ser
apontado como indicador do modo de remediar esta dor — somente o conceito de
dor poderia ser obtido pela criança. Se, ao invés de ser deixada só, algum
bico fosse colocado na boca do bebê faminto, a sensação assim excitada
desencadearia o mecanismo reflexo do sugar. A criança, então, adquiriria o
conceito de que a sensação de saciamento conecta-se com o ato de sugar e, por
sua vez, estas duas memórias sensoriais ligam-se com a sensação de inervação
implicada no ato de sugar e, provavelmente, com a visão do seio materno. O ato
de sugar produziria, assim, imagens que teriam sido registradas no córtex, de
modo que, para Meynert, o movimento de virar a cabeça na direção do seio
materno não seria um movimento reflexo ou instintivo, mas sim, consciente e
baseado na associação de sensações dolorosas e sensações de inervação. Não
haveria lacuna alguma entre o movimento reflexo e a consciência a ser
preenchida pelo instinto.[22]
Esta seqüência de eventos fisiológicos era
considerada como o processo típico pelo qual o córtex plástico desenvolvia-se
em resposta ao meio: 1.
a excitação que impactava o córtex produziria a sensação de dor; 2.
a descarga desta excitação por via
reflexa (presumidamente subcortical) faria cessar, mesmo que provisoriamente, o
impacto, levando o sistema ao repouso
geral; 3.
a imagem cortical do agente
externo que tornou possível o fim do impacto da excitação, a sensação
da inervação cortical dos movimentos mediados inicialmente por vias
reflexas subcorticais e a representação
cortical do final da excitação associariam-se
psicologicamente e fisiologicamente por fibras associativas; 4.
a repetição de uma excitação idêntica causaria a ligação das duas partes
do córtex, estabelecendo definitivamente a associação.
Tais experiências formariam o que Meynert chamava de
“ego” [Ich] primário, pensado como o núcleo da individualidade: as vias
formadas no córtex, neste momento inicial, seriam fundamentais e determinantes
para o comportamento posterior do indivíduo. E mais: o objetivo básico e
determinante de toda e qualquer ação humana seria evitar a dor. De modo geral,
todas as transmissões de excitação nervosa e todas as trilhas corticais
postas em funcionamento para esta transmissão eram pensadas como servindo para
descarregar todas as excitações impactantes. Assim, a excitação recebida
causava o funcionamento do sistema e, simultaneamente, providenciava a força
para que funcionasse no sentido de fazer cessar a geração da excitação. Como
vimos, a transferência da excitação poderia ter lugar tanto nas trilhas
determinadas inatamente ou por influxos prévios de excitação, quanto em novas
trilhas postas em funcionamento se as já estabelecidas não servissem para
cessar o impacto da excitação.[23]
De modo geral, a atividade nervosa era subdividida em
duas classes: inatas ou congênitas e mediadas subcorticalmente, ou determinadas
pela experiência e mediadas corticalmente. Na explicação de Meynert, nenhum
instinto era determinante do comportamento: antes do estabelecimento da
individualidade pela repetição de excitações idênticas, haveria um estado
cortical por ele chamado de “confusão”.
Na criança, haveria uma condição
desordenada originária e as conexões estabelecer-se-iam por acaso. Ou
seja, não apenas as imagens corticais da fome, do seio materno etc. seriam
conectadas por trilhas associativas, como também
as imagens corticais de tudo o que acontecia ao mesmo tempo no ambiente somático
e externo ao cérebro entrariam em conexões funcionais com as partes essenciais
de nervos paralelos ao ato de aprender. Quaisquer outras imagens corticais
fortuitas com relação ao processo de aprendizagem eram chamadas de “associações
adjacentes”.[24]
Nota-se que Meynert, assim como Brücke, deslizava de um lado a outro do
paralelismo psicofísico em suas descrições do funcionamento e da constituição
do sistema nervoso e da atividade mental. Mas, como um crente fiel do
positivismo científico que inundava a academia vienense do final do século,
ele era unilateral: em última instância, os processos físicos determinavam os
psíquicos. Freud, em sua concepção particular destes processos, retomará, não
apenas a noção de paralelismo, como também as seguintes idéias básicas: 1.
a exclusividade de apenas um
tipo de energia ou de excitação operando no sistema nervoso.
Também partilhada por Brücke, esta idéia sustenta e justifica a descrição
dos processos nervosos em termos de quantidades
de excitação. Freud, por sua vez, a utilizará também em suas descrições
dos processos psíquicos; 2.
o funcionamento do sistema na direção
da descarga de energia, levando a um
estado mínimo de tensão ou de repouso geral.
Correlatas do modelo reflexo, as noções de descarga e de estado mínimo de
tensão terão um lugar central na construção de vários dos modelos de
aparato psíquico freudianos; 3.
a existência de trilhas
nervosas no sistema nervoso, nas quais a transferência
da excitação tem lugar preferencialmente.
Correspondentes aos trilhamentos ou às facilitações [Bahnungen]
do Projeto, de 1895, a suposição da existência de trilhas
preferenciais de passagem das excitações (somáticas ou ‘psíquicas’)
sustentará toda a elaboração posterior de Freud acerca do estabelecimento e
do movimento da cadeia associativa, com suas séries de representações; 4.
o estabelecimento destas trilhas pela contiguidade
ou simultaneidade do impacto da excitação
em diferentes partes do sistema nervoso.
Especificamente no Projeto, esta noção
será correspondente ao investimento colateral. De modo global, o efeito da
contiguidade ou da simultaneidade será transposto para o registro psíquico e,
devido a notoriedade desta noção, dispensa maiores comentários; 5.
o corresponde psicológico de 2 e 3: estas
trilhas associativas nervosas correspondem às associações de percepções registradas como imagens, constituindo
a memória. Também para Freud, os trilhamentos correspondem à associação
de percepções, registradas como traços mnêmicos, dando lugar às representações,
à memória e, sobretudo, ao próprio aparato psíquico; 6.
a suposição de um estado
inicial de desordem, a ser ordenado pelas associações estabelecidas a
partir do contato com a exterioridade, dando lugar a um ego
primário.
Ao longo de toda a obra freudiana, o
Eu será pensado como uma instância produzida a partir de uma desordem original
e pelo contato com a exterioridade; 7.
o abandono da noção de instinto como determinante do funcionamento
nervoso e mental. De certo modo, toda a elaboração
freudiana sobre o funcionamento psíquico desdobrará este ponto, desde a
elaboração do conceito de pulsão, até as formulações sobre as escolhas de
objeto; 8.
a descrição da experiência
primária da fome e das associações estabelecidas a partir do saciamento
deste estímulo, para o qual é necessário a intervenção de um agente
externo.
A ilustre experiência ou vivência primária de satisfação, descrita por
Freud de modo bastante semelhante a Meynert (embora as conseqüências, para um
e outro, sejam diferentes), será o ponto de partida para a construção do
conceito central de desejo, com todos
os seus desdobramentos.
Como se vê, algumas idéias de Meynert serão retomadas por Freud a
partir de inquietações absolutamente particulares, nascidas de seu contato com
os chamados “doentes mentais” que não apresentavam lesões orgânicas ou
alterações somáticas no funcionamento de seu sistema nervoso. Na tentativa de
fornecer uma explicação plausível deste tipo de afecções, bem como do
funcionamento “normal” da mente humana, Freud seqüestrará, numa
perspectiva bastante singular, o que aprendera com Brücke e Meynert.
Obviamente, estas idéias serão reajustadas e transformadas, dando lugar a um
plano de pensabilidade novo, a partir do qual o pensamento e a ação humanos
serão concebidos diferentemente. Sigmund
Freud e o órgão anímico
Sobretudo no início de sua obra, Freud preocupava-se em descrever o modo
de funcionamento “normal e patológico” do sistema nervoso e da atividade psíquica.
Seu contato com pacientes que apresentavam alterações no funcionamento psicofísico,
sem lesões aparentes, colocara-o frente a um problema insolúvel para a
medicina e a neurologia de sua época. No final do século XIX, a especificação
das variações somáticas ligadas a este tipo de afecções fundava-se em
especulações e, mesmo sem verificação empírica, a premissa era sempre a da
determinação do psíquico pelo somático. Ainda que as variações físicas
correspondentes à uma afecção qualquer fossem desconhecidas, sua existência
não só era suposta, como era necessariamente determinante. Neste contexto,
Freud lança mão do que aprendera com seus professores na tentativa de
contribuir para o conhecimento “científico” da mente humana. Mas, pouco à
pouco, distancia-se deles para apresentar seu ponto de vista singular.
A juventude de Freud contribuía para sua simpatia por
métodos de tratamento inaceitáveis para a tradição positivista. Ao contrário
de seus mestres, Freud via no hipnotismo uma alternativa possível para os
“doentes” que não encontravam alívio através dos tratamentos clássicos.
Mais especificamente, o hipnotismo permitia eliminar sintomas cujas causas não
eram visíveis, mas apenas especuladas. Contudo, a simpatia de Freud por este
novo método de tratamento justificava-se, mais profundamente, por uma posição
própria e diferenciada relativamente
às relações entre o sistema nervoso e a atividade psíquica. Embora assumisse
como válidas as descrições fisiológicas empreendidas por Brücke e Meynert,
partilhando e apropriando-se delas, Freud levava às últimas conseqüências o
que aprendera sobre o paralelismo psicofísico.
No ano de 1888, publica um artigo entitulado
‘Histeria’, num Dicionário de Medicina Geral, no qual é possível entrever
algumas de suas concepções sobre as relações entre sistema nervoso e
psiquismo.[25]
Já na parte I, pode-se encontrar uma passagem na qual, surpreendentemente,
Freud declara que a histeria baseia-se
inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso, ainda que não
esteja relacionada a nenhuma alteração anatômica. Adiante afirma,
aparentemente contradizendo-se, que as afecções físicas próprias da histeria
(paralisias, ataques, etc.) não refletem uma possível perturbação orgânica,
pois não correspondem ao que usualmente acontece nestes casos. Trata-se, em
verdade, de alterações no decurso e na
associação das representações. Em resumo, a histeria revela modificações
(por causas não-orgânicas) na distribuição normal das magnitudes
estáveis de excitação sobre o sistema nervoso. Mais ainda, nestes casos,
o influxo dos processos psíquicos sobre os processos físicos do organismo
estaria aumentado, devido a um excedente de excitação (o famoso fator traumático),
exteriorizado através de inibições e estimulações, e deslocando-se
livremente no sistema nervoso.[26]
Ora, nestas poucas páginas é possível perceber —
além das referências que denunciam sua tênue e polêmica filiação aos
mestres (como, por exemplo, a noção de associação
de representações e a suposição da passagem de magnitudes
estáveis de excitação pelo sistema nervoso) — o modo como Freud pensava
as relações entre as séries psíquica e somática. A cada configuração somática
das forças em ação no sistema nervoso, ou segundo o punho de Freud, a cada
‘estado encefálico’ corresponderia um ‘estado de alma’, sem que a relação
seja causal: as relações são recíprocas e as séries estão enlaçadas.[27]
É isto que permite o deslizamento e a indecisão, embaraçosos para o leitor,
entre a utilização de termos psicológicos e fisiológicos: são dois modos de
descrever um mesmo processo.
Se era realmente este o seu ponto de vista, nada mais
coerente do que considerar o método hipnótico como uma possibilidade
interessante no tratamento de algumas afecções. Em seu ‘Prólogo a tradução
de H. Bernheim, De la suggestion’, também de 1888, Freud apresenta o problema de
como o hipnotismo deveria ser considerado, se como um fenômeno psíquico
(desencadeado a partir da ‘sugestão’) ou como um fenômeno físico e fisiológico.
Como era de se esperar, ele não assume nenhuma das duas posições. Ao contrário,
empenha-se em descrever, tanto os processos fisiológicos, quanto os processos
psicológicos envolvidos e justifica seus argumentos concordando com Bernheim
sobre o equívoco em classificar os fenômenos hipnóticos como puramente fisiológicos
ou puramente psíquicos.[28]
Trata-se, na verdade, de um processo de dupla face que implica, simultaneamente,
variações psíquicas e fisiológicas. A especificação, de acordo com sua
natureza, dos mecanismos em ação na hipnose deve, portanto, ser considerada um
falso problema: “Creio, então, que é
preciso desautorizar a pergunta sobre
se a hipnose mostra fenômenos psíquicos ou fisiológicos, e submeter a decisão
a uma indagação especial para cada fenômeno singular.”.[29]
Ou seja, de acordo com o registro de incidência da investigação, um
determinado fenômeno (no caso, especificamente o hipnotismo) será psíquico ou
fisiológico, mental ou corporal — o que faz da decisão por um determinante
último uma questão irrelevante.
Finalmente, as relações entre o anímico e o corporal
são o mote principal de ainda outro texto, escrito em 1890 para um manual de
medicina (Die Gesundheit).[30]
Versando novamente sobre o polêmico tratamento hipnótico, Freud revela
explicitamente seu ponto de vista sobre o próprio hipnotismo, a medicina de seu
tempo e, sobretudo, o paralelismo psicofísico. A passagem é bastante clara e
revela a atitude singular de Freud frente ao modo como seus colegas médicos
pensavam a vida anímica:
“É
verdade que a medicina moderna teve ocasião suficiente de estudar os nexos
entre o corporal e o anímico, nexos cuja existência é inegável; mas, em
nenhum caso, deixou de apresentar o anímico como comandado pelo corporal e
dependente dele. Destacou, assim, que as operações mentais supõem um cérebro
bem nutrido e de desenvolvimento normal, de sorte que resultam perturbadas toda
vez que esse órgão se enferma; (...). A relação entre o corporal e o anímico
(no animal, tanto como no homem) é de ação
recíproca; mas, no passado, o outro flanco desta relação, a ação do anímico
sobre o corpo, encontrou pouca honra aos olhos dos médicos. Pareciam temer que,
se concedessem certa autonomia à
vida anímica, deixariam de pisar o terreno seguro da ciência.”.[31]
Adiante,
vemos a neurose ser surpreendentemente definida como uma afecção do sistema nervoso em seu conjunto, embora não tenha sido
possível comprovar alterações cerebrais visíveis — em resumo, são alterações
funcionais do sistema nervoso.[32]
Ora, se as relações entre o anímico e o corporal são supostas como recíprocas,
a neurose (entendida como um modo diferenciado de atividade psíquica) implica
necessariamente uma variação na configuração material dinâmica do sistema
nervoso, mesmo que não possa ser verificada empiricamente. Mais uma vez, o
problema da verificação empírica deve ser descartado na medida em que, como
vimos, a premissa é a de que trata-se de dois modos possíveis e legítimos de
descrição de um mesmo acontecimento.
Contudo, a argumentação de Freud pretende demonstrar
que se, de um lado, estas alterações do sistema nervoso em seu conjunto podem
ser causadas por variações fisiológicas, por outro lado, elas também podem
ter como causa imediata variações nos processos anímicos — este seria
especificamente o caso da histeria.[33] A premissa desta formulação é a suposição de que
o pensamento provoca variações e exteriorizações corporais (além de alterações
no sistema nervoso) de acordo com o conteúdo das representações. Por si só,
isto já justificaria a retomada do pólo deixado de lado pela ‘medicina
moderna’ do final do século XIX, trazendo para o primeiro plano a questão da
ação recíproca entre o corporal e o anímico.
Neste ponto, devemos perguntar: de que modo a articulação
entre o físico (no caso, especificamente o sistema nervoso) e o psiquismo será
pensada por Freud? Como se dá, segundo sua perspectiva, a passagem de um
registro ao outro? A resposta a esta interrogação manifestará os pontos de
convergência e divergência entre as idéias do jovem Freud e as de Brücke e
Meynert.[34]
Em 11 de janeiro de 1893, Freud faz uma conferência,
no Clube Médico de Viena, sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos,
na qual se sublinha, classicamente, a preponderância dada ao fator traumático
na etiologia da histeria, o que revelaria a forte influência de Charcot nas
formulações freudianas.[35] Porém, mais do que na simples
especificação do fator traumático, a importância deste texto está na
apresentação de algumas idéias básicas (sustentáculos da própria postulação
de um fator traumático na etiologia da histeria) das quais derivará o
delineamento de um modelo de funcionamento ou de aparato psíquico. A primeira
destas idéias a ser expressa na argumentação do texto é a correlação
entre uma impressão psíquica e o acréscimo, por vias sensoriais, de uma
‘soma de excitação’ no sistema nervoso. Noutras palavras, a cada
impressão psíquica corresponderia uma variação neurofisiológica. Uma vez
que, em todo indivíduo, existiria o afã de tornar a diminuir esta soma de
excitação, o sistema nervoso reagiria, por vias motores, no sentido da
descarga da quantidade recebida. Desta reação depende “o quanto restará da
impressão psíquica inicial”, ou, em termos fisiológicos, o quanto restará
da soma de excitação recebida anteriormente pelo sistema.[36]
A reação adequada seria aquela que
descarrega a mesma soma recebida. Até aqui, tudo parece ter sido importado de
Brücke e Meynert: o sistema é impactado desde fora por uma soma de excitação,
correspondente a uma impressão psíquica, e trabalha no sentido da descarga
desta excitação por vias motoras — modelo reflexo.
Porém, para Freud, a reação
adequada é sempre da ordem da ação,
mesmo que esta ação seja a enunciação de palavras.
Se o acréscimo de excitação no sistema for pequeno, a reação será somente
alterações leves no próprio corpo, como chorar, insultar em resposta, etc.
Por outro lado, quanto mais intensa for a impressão psíquica recebida (o termo
utilizado por Freud é “trauma psíquico”, mesmo quando ele se refere à
soma de excitação adequadamente descarregada[37]),
maior será a reação. Ainda, quando o processamento motriz ou por palavras
estiver impedido, o mecanismo psíquico pode reagir fazendo tramitar a excitação
pela cadeia associativa. Ou seja, de certo modo, o pensamento e a fala, não só
são formas de descarga, como são disparados por somas de excitação, não
necessariamente provenientes do mundo externo, que impactam o sistema nervoso e
nele tramitam. Novamente os processos fisiológico e psíquico são paralelos e
interdependentes: cada evento psíquico corresponde a um evento fisiológico, e
vice-versa, o que permite que o processamento associativo seja considerado como
uma forma possível de descarga.
Ao se referir aos mecanismos psíquicos de descarga,
Freud utiliza o termo “afeto” para designar a quantidade em tramitação e a
que é descarregada.[38]
Isto leva a supor ser o afeto um modo de expressão psíquica das excitações
recebidas e em trânsito no sistema nervoso. Tanto que, um ano depois, Freud
afirma, adiantando um dos pilares de toda a sua construção conceitual
posterior, que, nas funções psíquicas, deve-se distinguir um monte
de afeto ou uma soma de excitação que possui todas as propriedades de
uma quantidade — embora não seja mensurável, pelo menos naquela época —,
capaz de aumento, diminuição, deslocamento e difusão pelas vias mnêmicas, “(..)
como o faria uma carga elétrica pela superfície dos corpos.”.[39]
A imagem não parece ser ingênua ou casual. Com efeito, neste momento da obra
de Freud, a correlação ostensiva dos processos psíquicos com os processos
fisiológicos permite a conclusão de que o monte de afeto seria, de fato, a
expressão psíquica de uma carga elétrica (a soma de excitação),
difundindo-se pelo sistema e, correlativamente, pelas vias associativas. Se é
assim, parece impossível separar os acontecimentos psíquicos de seus
correspondentes (neuro)fisiológicos e vice-versa — o cérebro torna-se a fábrica
da alma.
Mas, se o paralelismo e as conseqüentes relações recíprocas
entre as séries física e psíquica destacam-se quase espontaneamente do texto
freudiano, o problema de como esta relação ocorre permanece em aberto: como se
chega de uma série à outra, segundo a perspectiva freudiana? Embora,
aparentemente, este problema perca terreno ao longo da elaboração da psicanálise,
neste momento, ele é minimamente resolvido com a noção chave de limiar.
Em resumo, até aqui, as hipóteses básicas de Freud
sobre o funcionamento do sistema nervoso e do psiquismo são as seguintes: 1.
no sistema nervoso há uma quantidade de
excitação em circulação, sendo que, a cada impressão psíquica recebida, corresponde um acréscimo nesta
quantidade; 2.
a fonte desta excitação é, tanto externa,
quanto interna ao próprio organismo do qual o sistema nervoso é parte: 3.
o sistema funciona no sentido da descarga
das excitações recebidas, o que pode ser feito
por vias motrizes, por processamento por palavras ou associativo — no
caso das excitações de fonte exógena, basta qualquer reação que diminua em
igual quantidade a excitação “psíquica” correspondente. No caso das
excitações de fonte endógena, só valem reações
específicas, ou seja, reações que impeçam que a excitação nos órgãos
terminais correspondentes permaneçam sendo produzidas, não importando o gasto
de energia exigido para este fim;[40] 4.
a soma de excitação pode ter expressão
psíquica como afeto e é capaz de
aumento, diminuição, deslocamento e difusão nas vias mnêmicas;
Uma apresentação sobre o mecanismo normal de tramitação
da excitação recebida pelo sistema e das condições de sua transposição
para o registro psíquico decorre da investigação sobre a angústia, em 1894.[41]
Neste momento, porém, as formulações de Freud referem-se exclusivamente às excitações
sexuais, seja no plano somático, seja no plano psíquico. Diferenciando a
angústia histérica, diretamente relacionada aos processos anímicos, da recém-definida
neurose de angústia, Freud conclui que, nesta última, a angústia tem sua
fonte em fatores físicos da vida
sexual. A impossibilidade de transpor a tensão sexual física para o plano psíquico
acarretaria um acúmulo exacerbado desta tensão e a conseqüente descarga
motora através de taquicardias, hiperventilação, tremores, etc.,
caracterizando o estado de angústia.
Sua hipótese é a de que, para que uma excitação endógena
se faça notar psiquicamente, ela deve atingir certo limiar,
a partir do qual será valorizada, entrando em relação com certos grupos de
representações que põem em cena a solução específica. Dito de outro modo,
no caso da tensão física sexual, ela deve atingir um certo valor, uma certa quantidade
acumulada, para que desperte a libido psíquica.[42]
Uma vez transposto este limiar, o grupo de representações sexuais presente no
psiquismo seria dotado de “energia”, ou seja, o estado psíquico de tensão
libidinosa seria gerado e levaria ao esforço de cancelar esta tensão.
Nota-se que não se trata aqui de ‘transformação’
de energia física em psíquica, mas de valorização psíquica de uma excitação
recebida pelo sistema, isto é, a expressão psíquica de uma excitação física
depende do grau de intensidade por ela atingido.[43] Portanto, a noção de limiar parece ser bastante
coerente com o paralelismo freudiano, resolvendo, ao menos provisoriamente, o
problema da relação entre as séries.
Bibliografia AMACHER,
P., “Brücke and Reflex Function” in
.............. ____________
, “Theodor Meynert and the Anatomy of Mind” in
............... COMTE-SPONVILLE,
A ., verbete: Materialisme in Encyclopedie
Philosophique Universelle,
Paris: P.U.F., 1990 FREUD,
S., Interpretação das Afasias,
Lisboa: Edições 70, 1979 _________.,
‘Histeria’ (1888) in Sigmund
Freud - Obras Completas, vol. 1, Buenos Aires:
Amorrortu Editores, 1994 (Os textos listados abaixo referem-se a esta edição,
de modo
que indicaremos apenas o ano de sua primeira publicação e o volume no qual se
encontram) _________.,
‘Prólogo a la traducción de H. Bernheim, De
la suggestion’ (1888 [1888-9]), vol. 1 _________.,‘Reseña
de August Forel, Der Hypnotismus’
(1889), vol. 1 _________.,‘Tratamiento
psíquico (tratamiento del alma)’ (1890), vol. 1 _________.,‘Algunas
consideraciones com miras a un estudio comparativo de las paralisias
motrices orgánicas e histéricas’ (1893 [1888-93]), vol. 1 _________.,’Manuscrito
E. ¿Cómo
se genera la angustia?’ (sem data. 1894?), vol. 1 _________.,‘Sobre
la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en
calidad de “neurosis de angustia”’ (1895 [1894]), vol. 3 _________.,‘Sobre
el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’ (1893), vol. 3 _________.,‘Las
neuropsicosis de defensa’ (1894), vol. 3 GAY,
P. Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo,
São Paulo: Cia das Letras, 1991 JACOB,
F. A Lógica da Vida - uma história da
hereditariedade, Rio de Janeiro: Graal,1983 JONES,
E., Vida e Obra de Sigmund Freud, Rio
de Janeiro: Zahar, 1979 NADAL,
J., verbete: Empirisme in Encyclopedie Philosophique Universelle, Paris: P.U.F., 1990 [1]
De suma importância para o problema tratado aqui, tanto o texto sobre as
afasias (1891), quanto o Projeto
exigiriam ensaios exclusivos. Acreditamos, contudo, ser interessante
averiguar as idéias presentes noutros textos menos célebres, como uma
primeira aproximação ao tema desenvolvido aqui. Deixaremos as análises do
Projeto e do Interpretação
das Afasias para uma próxima oportunidade. Todos os textos utilizados
encontram-se na edição argentina das obras completas de Freud. Citaremos,
portanto, o ano de sua primeira publicação e os respectivos volumes. Cf. Sigmund Freud — Obras Completas, Buenos Aires: Amorrortu Editores,
1994. [2]
Por materialismo entendemos qualquer doutrina ou atitude que privilegie,
de um modo ou de outro, a matéria. No sentido filosófico, o adjetivo materialista
aparece no final do séc. XIX, designando aqueles que afirmam o primado ou a
existência exclusiva da matéria, ou seja, a matéria é a realidade
fundamental a partir da qual se explica a vida espiritual. Cf.
COMTE-SPONVILLE, A ., verbete: Materialisme in
Encyclopedie Philosophique Universelle, Paris: P.U.F., 1990. O
termo empirismo, por sua vez,
refere-se à atitude que explica a produção de conhecimentos a partir da
experiência sensível interna e externa, somente com a intervenção dos
signos. Cf. NADAL, J., verbete: Empirisme in
idem. [3]
“Verossimilmente, a cadeia dos
processos fisiológicos no sistema nervoso não está em relação de
causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não
cessam mal se iniciam os psíquicos, pelo contrário, a cadeia fisiológica
prossegue, só que, a partir de um certo momento, a cada seu elemento (...)
corresponde um fenômeno psíquico. O
psíquico é assim um processo paralelo ao fisiológico (‘a dependent
concomitant’)”. FREUD, S., Interpretação
das Afasias, Lisboa: Edições 70, 1979, pág. 56.(o grifo é nosso) [4]
Cf. JONES, E., Vida e Obra de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Zahar, 1979, pág. 73
e GAY, P. Freud - Uma Vida para o
Nosso Tempo, São Paulo: Cia das Letras, 1991, págs. 48-9. [5]
Cf. JONES, E., op. cit., págs. 87-8. [6]
Cf. idem, págs. 78-9. [7]
Cf. JACOB, F. A Lógica da Vida - uma história da hereditariedade, Rio de
Janeiro: Graal, 1983, págs. 178
e ss. [8]
Cf. AMACHER, P. “Brücke and Reflex Function” in
............, págs. 13-4. [9] Esta argumentação não se aplicaria aos movimentos voluntários, pois implicam a participação da consciência, das idéias e da vontade — tema não aprofundado por Brücke. [10]
Cf. idem, pág. 15. [11]
Cf. idem, pág. 16-7. [12]
Cf., dentre outros, ‘Sobre la justificación de separar de la neurastenia
un determinado síndrome en calidad de “neurosis de angustia”’ (1895
[94]), vol. 3, pág. 108-9. [13]
Cf. op. cit., pág. 55. [14]
Cf. JONES, E., op. cit., págs. 92
e ss. [15]
Cf. idem, pág. 96 [16]
Cf. AMACHER, P. “Meynert and the Anatomy of Mind”
in .............., pág. 24-5. [17]
Cf. idem. [18]
Cf. idem, pág. 26. [19]
Cf. ibidem, pág.27. [20]
Cf. ibidem, pág. 29. [21]
Cf. ibidem, págs. 31 e ss. [22]
Embora, neste caso, a excitação causasse dor, para Meynert, influxos
prazeirosos também eram considerados dentro do único tipo de excitação
transmitida pelo sistema nervoso. A característica de dor ou prazer
dependeria de sua conexão com representações nervosas de idéias
dolorosas ou prazeirosas. Cf. idem, pág.34. [23]
Cf. idem, págs.35-6. [24]
Cf. ibidem, págs.38-9. [25]
Em duas cartas a Fliess (28 de maio e 29 de agosto de 1888), Freud faz referência
às suas contribuições para a enciclopédia de medicina de Villaret. Como,
nesta enciclopédia, os artigos não estão assinados, não é possível ter
certeza absoluta sobre sua autoria, de modo que, apenas supostamente, o
artigo citado foi escrito por Freud. Cf. STRACHEY, J. Nota introdutória in
FREUD, S., ‘Histeria’ (1888), vol. 1. [26]
Cf. FREUD, S. ‘Histeria’ (1888), vol. 1, págs. 53-4. [27]
“O feito principal do hipnotismo
consiste em que se pode pôr um ser humano num estado
de alma (respectivamente, um estado
encefálico) semelhante ao dormir.”. ‘Reseña de August Forel, Der
Hypnotismus’ (1889), vol. 1, pág. 104 (o grifo é nosso). [28]
Cf. idem, pág. 87-91. [29]
Ibidem, pág. 91 (o grifo é nosso). [30]
‘Tratamiento psíquico (tratamiento del alma)’ (1890), vol. 1. [31]
Idem, pág. 116 (o grifo é nosso). [32]
Cf. ibidem, pág. 117. [33]
Cf. ibidem, pág. 118. [34]
Cf. a sistematização apresentada nas págs. 6 e 7 infra,
sobre Brücke e 11 e 12 infra,
sobre Meynert. [35]
Cf. nota introdutória de James Strachey em ‘Sobre el mecanismo psíquico
de fenómenos histéricos’(1893), vol. 3, págs. 27-8. [36]
Cf. ‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’(1893), vol.
3, pág. 37. [37]
O trauma psíquico seria, segundo
o sentido que Freud lhe atribui em 1893, o efeito de um excedente de excitação
que não foi adequadamente tramitado, fazendo com que a lembrança da
impressão permaneça com grande valor afetivo e se exteriorize sob a forma
de sintomas. Cf. ‘Algunas consideraciones com miras a un estudio
comparativo de las paralisias motrices orgánicas e histéricas’ (1893
[1888-93]), vol. 1, pág. 209. [38]
Cf. ‘Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos’(1893), vol.
3, págs. 37-8, ou ainda: “Cada evento, cada impressão psíquica estão providos de certo valor
afetivo [Affektbetrag {monte de afeto}), do qual o eu se livra pela via de
uma reação motriz ou por um trabalho psíquico associativo.”,
‘Algunas consideraciones com miras a un estudio comparativo de las
paralisias motrices orgánicas e histéricas’ (1893 [1888-93]), vol. 1, pág.
209. [39]
‘Las neuropsicosis de defensa’ (1894), vol. 3, pág. 61. [40]
Cf. ‘Manuscrito E. ¿Cómo
se genera la angustia?’ (sem
data. 1894?), vol. 1, págs. 231-2. [41]
Cf. idem, pág. 229. [42]
Cf. ibidem, pág. 231-2. [43]
“Se, para fixar melhor nossas
representações sobre isto, supormos que a excitação sexual somática se
exterioriza como uma pressão sobre a parede, provida de terminações
nervosas, as vesículas seminais, então, esta excitação visceral aumentará
de modo contínuo, mas apenas a partir de certa altura será capaz de vencer
a resistência [Widerstand] da condução interpolada até o córtex
cerebral e exteriorizar-se como
estímulo psíquico”. ‘Sobre
la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en
calidad de “neurosis de angustia”’ (1895 [1894]), vol. 3, pág. 108 (o
grifo é nosso). |
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