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PSICANÁLISE E NEUROCIÊNCIA: CONDIÇÕES PARA O DEBATE
Monah Winograd
trabalho apresentado no IV CONPSI, Salvador/ 2005
“É certo que cada um de nós se envaidece por ser capaz de pensar, e muitos até gostariam de saber como é possível que pensem como de fato pensam. Ao que tudo indica, entretanto, essa questão já deixou, manifestamente, de ser puramente teórica, pois parece-nos que um número cada vez maior de poderes estão se interessando pela nossa faculdade de pensar. E se, portanto, procuramos saber como é que nós pensamos do modo como o fazemos, é para nos defender contra a incitação, sorrateira ou declarada, a pensar como querem que pensemos.” (Georges Canguilhem) A proximidade entre a psicanálise e as neurociências não é novidade. A psicanálise é filha da neurologia, a parte da medicina preocupada com o cérebro. Freud graduou-se em Medicina, tendo apresentado muito gosto pela pesquisa científica em neuroanatomia e tendo trabalhado sob a supervisão primeiro de Brücke, depois de Meynert. No laboratório de Brücke, durante a sua graduação, aprendeu a fazer pesquisa científica com os sistemas nervosos dos peixes. Sua produção sobre as células nervosas da lampreia e do camarão-de-água-doce já se tornaram famosas No laboratório de Meynert, já formado e trabalhando com Neurologia Clínica, o jovem Freud voltou-se para os sistemas nervosos dos humanos, embrenhando-se nas discussões em torno da localização cerebral dos processos psíquicos envolvidos na linguagem. Seu livro sobre as afasias é o resultado destes e dos próximos anos de trabalho, não só no laboratório de Meynert, mas também nas alas do Hospital Geral de Viena, onde exercitou sua capacidade como observador clínico e como neurologista. O célebre encontro com Charcot em Paris e com Bernheim em Nancy ocorreu logo em seguida, deixando marcas importantes em Freud. Na volta, o jovem médico abriu o seu consultório de Neurologia e trabalhou no Instituto de Doenças Infantis, onde era o diretor de uma clínica neurológica. Neurologia clínica e pesquisa científica eram as atividades de Freud ao construir um campo novo de saber, a psicanálise (ver Stengers). A novidade não está, portanto, na vizinhança entre os saberes, mas, sim, nas formulações inéditas que vem aumentando nosso poder de intervenção sobre nossa faculdade de pensar (idéias e afetos) — vale sublinhar que o problema das intervenções é um problema ético. Os esforços atualmente renovados de composição entre o campo das neurociências e o campo da psicanálise suscitam uma primeira pergunta fundamental: há compatibilidade epistemológica? O termo ‘epistemologia’ refere-se à natureza, às etapas e aos limites do conhecimento humano. Refere-se também ao estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos de saber científico ou das teorias e práticas em geral, avaliados em sua validade cognitiva ou descritos em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou ainda suas relações com a sociedade e com a história. Há compatibilidade entre psicanálise e neurociência? Seus postulados, métodos e conclusões permitem uma composição? Como vimos, a trajetória evolutiva destes dois saberes revela seu parentesco. Mas, se o parentesco expressa uma compatibilidade histórica, a validade cognitiva e os paradigmas estruturais dos postulados, conclusões e métodos de ambas não necessariamente convergem. Não faltou quem afirmasse que, em breve, apenas alguns ingênuos fanáticos, movidos por respeito religioso pelo fundador e por interesses materiais continuariam a enganar a si mesmos, aos seus pacientes e ao público em geral com a falácia do inconsciente (Mezan, 1994). De outro lado, também começou a aparecer quem acreditasse que, com os avanços da neurociência, enfim a psicanálise encontraria um substituto eficaz, uma vez que os resultados por ela prometidos poderiam ser obtidos de modo mais rápido e eficaz por vias “científicas”. Classicamente, a psicanálise é definida como simultaneamente um método de investigação do sentido das ações e produções mentais do ser humano, uma teoria geral da mente humana baseada nos resultados destas investigações e uma forma de tratamento de algumas afecções mentais derivada de um método e de uma teoria próprios. Estes três aspectos tem sido alvo de ataques renovados: como método, a psicanálise seria pouco sólida e sem legitimidade; como teoria, seria mal construída e especulativa demais; enfim, como tratamento, seria inútil ou longa e custosa demais. Sigmund Freud, o inventor deste método, desta teoria e desta forma de tratamento acreditava em seu caráter científico e tinha nas ciências da natureza o seu modelo. Mas, o que era “científico” para ele? De saída, significava uma observação cuidadosa, em condições favoráveis, do que se pretendia explicar. Em segundo lugar, descoberta e verificação de leis universais que governam os fenômenos descritos pela observação cuidadosa. Em terceiro lugar, possibilidade de comprovação dos resultados por observadores independentes, possibilidade de correção dos conceitos e hipóteses formulados anteriormente, possibilidade de ampliar o campo das observações através da utilização de instrumentos mais aperfeiçoados. Freud julgava que seus procedimentos e suas teorias obedeciam a esses critérios. Sua exigência era fundar uma ciência. Tal exigência, como ensina Stengers, longe de remeter para um cientificismo — marca da dimensão irremediavelmente datada de sua obra — constitui uma chave essencial para sua invenção: a “cena analítica”. Segundo Stengers, é vã a tentativa de procurar uma definição geral, não contextual, da diferença entre ciência e não-ciência. Um dos traços mais marcantes da atividade científica é o fato dela levar os humanos a trabalharem em conjunto, noutras palavras, o seu caráter social. Porém, isto não deriva do fato de que a ciência destacaria enunciados objetivos, suscetíveis de por de acordo todos os que se preocupam com isso. A passagem do cientista isolado para o conjunto de cientistas não resulta de uma simples adição de indivíduos que devem verificar se cada um está conforme à sua disciplina comum. Os critérios de cientificidade ou de objetividade não preexistem as controvérsias da ciência mas, ao contrário, são tema importante de discussão entre os científicos. Então, o que liga os científicos afinal? Este problema complexo foi resolvido de modo trivial pelos que definiam a ciência por sua objetividade: o objeto, impondo-se a todos, seria a liga. Mas, como os científicos evitariam se dispersar, construindo cada um a sua própria definição? Porque aceitam o veredicto dos colegas se este não traduz nenhuma definição preexistente? O que liga os científicos é o “interesse”. Interessar no sentido de concernir alguém. Nenhuma proposição — dispositivo, raciocínio, hipótese — pode ser dita verdadeira se nenhum científico ocupou-se dela, incorporou-a em seus trabalhos permitindo que ela interviesse em sua vida, transformando-a eventualmente. Um científico interessado se perguntaria: posso incorporar esta ‘coisa’ em minhas pesquisas? Posso me referir aos resultados deste tipo de medida, devo levá-los em conta, posso aceitar este raciocínio e suas conseqüências para meu objeto? Noutras palavras, posso me deixar situar por esta proposição? Uma proposição que interessou e que foi aceita, articulando o trabalho de muitos, não é, evidentemente, verdadeira em sentido absoluto. Ela o é relativamente aos meios através do qual foi provada, mas também relativamente às relações de força que prevalecem num momento dado. Dito de outro modo, uma proposição interessante estabelece uma relação de forças. Uma proposição aceita não é necessariamente objeto do consenso de uma comunidade que lhe preexiste. Ela cria este consenso e a comunidade que lhe corresponde. A questão se torna saber porque, diferentemente de outras atividades que reúnem os homens, como por exemplo a política, a atividade dos científicos lhes dá os meios de se porem relativamente de acordo e fazerem convergir interesses disparatados? A singularidade das argumentações científicas é que elas fazem intervir um “terceiro”: o “fenômenos estudado” entra em cena. Trata-se, para os científicos, de constituir os fenômenos em atores da discussão, ou seja, de faze-los falar de uma maneira que todos os outros científicos interessados sejam levados a reconhecer como confiável. Trata-se, com efeito, de inventar, produzir testemunhos confiáveis. Para o cientista, trata-se de ensinar os fenômenos a falar numa língua que seja entendida pelos colegas, produzindo testemunhos que não possam ser desqualificados, remetidos a sua própria “subjetividade”. Às vezes, acontece de um testemunho ser reconhecido como definitivo, sendo, por exemplo integrado num dispositivo de medida que os científicos aceitam utilizar sem maiores interrogações sobre as teorias que o pressupõe. Neste caso, como disse Bruno Latour (vida de lab e a ciência em ação), uma ciência terá conseguido constituir uma “caixa preta”. Uma caixa preta estabelece uma relação entre o que entra e o que sai de maneira que praticamente ninguém tem os meios para contestar — são tomadas pela comunidade científica como evidências, como dados. O prestígio de uma ciência está ligado ao numero de caixas que ela conseguiu fechar ou, noutros termos, à solidez da tradição que une seus membros, ao numero de “fatos” que eles aceitam ativamente ao canalizarem suas pesquisas. Certamente, este prestígio é legítimo. Mas é preciso prestar atenção, desconfiar do caráter convincente desta descrição. Indo adiante, o passo seguinte seria ratificar como normal a hierarquia atual das ciências, a diferença entre as que conseguem fechar caixas pretas — as ditas ciências duras — e as que são chamadas de ciências moles porque nenhum de seus enunciados escapa a contestação, porque não conseguem inventar testemunhos confiáveis dos quais elas seriam reconhecidas como os representantes autorizados. As ciências duras procedem separando retrospectivamente, ao final de uma controvérsia, aquilo que todos reconhecem como testemunho objetivo e aquilo que será lido e interpretado como derivada subjetiva, desqualificando de direito desde o início os que foram, na verdade, vencidos. Elas criam o direito em nome do qual o vencido deveria ser vencido. E os epistemólogos ratificam este procedimento introduzindo, por exemplo, o tema da “ruptura epistemológica” para desqualificar um pouco mais aqueles cujas proposições não interessam mais. Um dos argumentos preferidos para isso é relativo ao método. As ciências duras fazem do método, que deriva do acontecimento, o responsável por ele e, assim, ocultam o essencial: não há garantias de que em todos os campos de saber o mesmo tipo de acontecimento se reproduzirá. Eles matam o que a noção de método dissimula: o fato de que todas as medidas não se equivalem, não criam sentido, de que toda interrogação metódica não engaja quem a conduz. Em que medida o prestígio do estatuto de ciência dura não paralisa as ciências as quais não foi dado inventar os meios de atingir a este estatuto? Como conseguir trabalhar em conjunto lá onde o acontecimento não se produz, onde os fenômenos continuam a falar com muitas vozes, recusando-se a serem reinventados enquanto testemunhos unívocos, enquanto objetos no sentido kantiano, quer dizer, no sentido que constitui entre o sujeito cognoscente e seu objeto uma relação de julgamento? Como aprender a decifrar as pretensões de quem, em nome do método científico, proclama que seu campo reduzirá de direito os outros e rir e fazer rir das estratégias reducionistas? Um pouco em todos os lugares, os científicos já estão aprendendo a recontar histórias sem vencidos. Perguntar pela cientificidade da psicanálise é perguntar pela sua pretensão ao privilégio de não ter que prestar contas. Seguramente, tais argumentos remetem ao modelo das ciências duras. Neste sentido, são boas as razões para afirmar que a psicanálise não é ciência: a mais comum diz respeito ao método. Afirma-se que o método psicanalítico não é válido porque distancia-se do método experimental. Nas “Regras para a direção do espírito”, Descartes escreve: “Por método, entendo um conjunto de regras certas e fáceis, graças às quais todos aqueles que as seguirem jamais tomarão por verdadeiro aquilo que é falso e, sem sobrecarregarem a mente inutilmente, mas aumentando progressivamente o saber, obterão o conhecimento verdadeiro de todas as coisas que forem capazes”. Esta definição de método evidencia as seguintes características do método: 1) um método consiste em seguir regras; 2) o método procura a economia de forças; 3) o método preserva-nos do erro ou dos passos em falso; 4) a ação metódica é exaustiva e cumulativa. Leibniz, por sua vez, entende o método a partir da insistência em seu aspecto de “arte de inventar”, estendendo-o a todos os processos de raciocínio quase mecânicos que conduzem à descoberta de novos conceitos a partir dos elementos dados tal como uma combinatória. Efetivamente, podemos distinguir dois pólos irredutíveis da idéia de método. Um corresponde às noções de ‘receita’, ‘procedimento’, ‘algoritmo’, que descrevem detalhadamente a concatenação do que deve ser feito. O outro corresponde ao conceito de estratégia, que não fornece necessariamente uma indicação particularizada dos atos a cumprir, mas somente do espírito dentro do qual a decisão deve ser tomada e do esquema global no qual as ações devem ocorrer. É a metáfora militar, cujos aspectos são os seguintes: 1) uma apreensão global das situações: a decisão deve ser concebida como inserida numa cadeia e associada às conseqüências prováveis; 2) a capacidade de discernir ‘pontos singulares’ no tecido da ação e no seu contexto; 3) uma repartição das ‘forças’ mobilizadas e, mais freqüentemente, uma concentração móvel destas forças mais do que uma distribuição uniforme; 4) finalmente, a determinação de uma ordem de ações. O método psicanalítico aproximaria-se deste segundo sentido, sendo a metáfora militar recorrente em psicanálise, por exemplo, em conceitos como investimento/ocupação, deslocamento, entre outros. Outra razão para se afirmar que a psicanálise não é ciência é não ser seu objeto uma coisa material, um fato do mundo físico do qual existem inúmeros exemplares que permitem reiterar observações e procedimentos sobre o mesmo elemento. O objeto de investigação da psicanálise é um ‘sujeito’ único e singular, irreprodutível e, portanto, impossível de ser submetido a um novo ‘experimento’ em condições idênticas ao primeiro. Ainda que se afirme ser o objeto da psicanálise o inconsciente e ser o inconsciente existente em toda parte como co-determinação de qualquer ato, sentimento, pensamento ou obra do humano, esta afirmação não resolve o problema. As condições favoráveis de observação do inconsciente ocorrem na situação analítica, o que envolve dois sujeitos únicos e singulares. O procedimento consiste na fala de um e na escuta de outro, posições que não são rígidas, uma vez que podem ser invertidas ocasionalmente. Só isso já impossibilita a reprodução do experimento. Trata-se de uma singularidade absoluta que implica no fracasso do desejo de verificação. Contudo, se a experiência de cada sessão é única, a reiteração delas permite a produção de certos elementos constantes ou, se preferirmos, padrões característicos de cada indivíduo, traços de caráter, modos de conduzir relações, angústias predominantes. A singularidade é mantida, não mais no plano de cada fala ou fenômenos observado, mas no plano do indivíduo. Mas também, deixando de lado os conteúdos específicos de cada história singular, pode-se observar os traços de um universal imanente, ou seja, daquilo que esse indivíduo compartilha com os outros. Eis o paradoxo da psicanálise: como teoria, ela visa o não-individual, mas como prática, não pode deduzir das correlações estabelecidas pela teoria, qual é o caso agora. A teoria define classe infinitas de possíveis, estabelece esquemas de correlação de dados, mas não pode prever a interpretação adequada. O sentido dela depende do contexto no qual se inscreve. Tal contexto não está dado, precisa ser inferido a cada vez. A única hipótese segura é que o que ocorre deve fazer sentido. De modo que chegamos aqui ao coração da psicanálise. Ela se interessa sobretudo pela significação inconsciente que precisa ser, necessariamente, construída a cada vez. Vê-se como o centramento da interlocução sobre a questão da cientificidade da psicanálise e da fragilidade de seus métodos e procedimentos não leva muito longe. Certamente, a questão é de suma importância, mas ela deve ser desdobrada internamente ao campo da psicanálise sem ser alvo de julgamentos de valor. Nenhuma ciência pode servir de modelo para outra. A neurociência não pode posicionar-se como um juiz que, para dar uma sentença favorável, faz exigências de comportamento e impõe as suas regras e seus modelos. Exigir e impor seja lá o que for promove uma relação de domínio, jamais de composição. Cabe à psicanálise avaliar a pertinência da questão e aprofunda-la como lhe for possível, chegando às suas conclusões singulares. A primeira condição para um encontro frutífero entre psicanálise e neurociências refere-se, assim, ao respeito mútuo necessário entre os saberes. Qualquer dessimetria resultante de imposições de um dos saberes em jogo implode a interlocução e impossibilita a composição. Nenhum campo de saber pode se autorizar ‘polícia’ ou ‘juiz’ de nenhum outro. Mas,
se a noção de ciência aparece como a primeira questão que retorna para a
psicanálise em seu reencontro com as NC, a recíproca é verdadeira. Ou
seja, a psicanálise também propõe questões para as neurociências que
dizem respeito sobretudo aos sujeitos e às significações que o constituem
e que ele produz. Uma de suas formulações poderia ser: que transformações
nos processos de subjetivação as NC produzem ou contribuem para a produção?
Noutras palavras, qual a imagem de pensamento que está sendo proposta e
quais as suas implicações éticas? Trata-se de questões sobre a experiência
subjetiva de ser um “sujeito cerebral” — aqui novamente a questão ética
vem à superfície. Uma boa ilustração destas questões envolvendo a subjetividade é a discussão protagonizada por alguns nomes ilustres. Em 1949, o professor Daniel Lagache anunciava seu projeto e publicava sua conferência intitulada ‘A unidade da Psicologia’. Sua proposta era unificar a psicologia dita naturalista (que abrangia o behaviorismo, as teorias da aprendizagem e fazia uso da estatística e da experimentação) e a psicologia humanista (incluindo aí a psicologia clínica). Tal unificação seria assegurada pela psicologia experimental e comparativa, sendo a clínica destinada à aplicação dos resultados obtidos pela pesquisa. Em 1956, outro professor igualmente ilustre, respondeu a Lagache formulando uma pergunta da máxima importância: ‘O que é a psicologia?’. Tratava-se de um texto escrito por G. Canguilhem no qual, opondo-se ao projeto de Lagache e prevendo as conseqüências que dele derivariam, o historiador das idéias e das ciências questionava qual o objeto da psicologia, seu modelo e seu método. Canguilhem pretendia fazer ver que a multiplicidade de objetos das psicologias, os modelos que ela utiliza e seus métodos tornam problemática qualquer tentativa de unificação, de construção de uma concepção hegemônica do psicológico. O pensador francês zelava pela diversidade de imagens do pensamento e pela importância do debate, ao invés do estabelecimento de uma imagem dominante reguladora de todas as outras. Ele pretendia fazer ver que as psicologias estão inscritas em linhagens de pensamento que elas devem explicitar. Qual o seu projeto instaurador? Eis a pergunta essencial. Em 1980, Canguilhem reatualizou sua hostilidade a uma psicologia unificada e unificadora no texto ‘O cérebro e o pensamento’. Desta vez, o ponto de ataque era o apoio da psicologia sobre a biologia para afirmar que o pensamento é uma “secreção cerebral’, um produto — assim como o fígado secreta a bile, o cérebro secretaria pensamento. Para ele, o problema não era ter-se identificado o cérebro como o suporte do pensamento mas, sim, ter-se determinado ser o cérebro o único suporte — daí para o inatismo das qualidades mentais e dos poderes intelectuais o passo é um só e curto. A questão ética costura o texto do mestre francês do começo ao fim. E esta questão ética aparece mais profundamente sob a forma da pergunta o que é pensar?. Quando a metáfora em jogo era a da máquina de calcular, a maquina lógica, a impossibilidade era dar conta da capacidade humana de inventar, de desejar. Quando, mais adiante, o ponto de vista já não era somente o lógico, mas sobretudo o químico, a impossibilidade de se explicar a motivação, a emoção e a própria consciência permanecia. A questão proposta por Canguillhem era: o que é pensar, quando pensar é inventar, desejar, produzir significações? A linguagem é ainda outro problema, na medida em que atualiza a relação entre cérebro-pensamento, situando-os no mundo, ou melhor, introduzindo o mundo na própria relação e estabelecendo esta relação como de ação recíproca. Ao invés de pensar somente a relação cérebro-pensamento, Canguilhem propõe que o problema central seja o da relação dinâmica entre cérebro-pensamento-corpo-mundo. Só assim, nestes termos, o próprio cérebro pode e deve ser investigado.
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