M a d r i n h a L u a ou O S e r A b s u r d o |
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| Minas... um Nome pode dizer Tudo Ao clarão do crepúsculo. De maremoto e terra sáfara De vérgeis e de pétalas De antigalha e antigozo De princípios e fins. Um nome pode dizer tudo De derrocadas e auréolas De fruições e renúncias. Um nome no ar no azul na areia A respirar deserto e oásis. Em auras de ira e de ternura Um nome com sabor de tâmara Em quentes lágrimas turvas Suspenso inscrito lacerado Entre as nuvens e o caos. Um nome pode dizer tudo Se teus lábios o calam. Gerais... É a montanha dos porfiosos granitos, É a montanha das vigílias e do sono propiciatório, A montanha viva. O coração humano desconhece repouso. Cada dia é mister renascer para a luta. Sem trégua as picaretas golpeiam a rocha à procura de linfa, Os olhos queimam de sol a sol decifrando enigmas. E quando à noite o fatigado corpo se abriga No semitorpor cerrando a franja das pálpebras, Eis que os ouvidos temerosos se enleiam: O uivo de soltas alimárias atravessa paredes, Friamente penetra o sagrado refúgio do homem. Porém a lâmpada que arde na sombra pendurada a correntes É seiva de tronco alimentando o rubor de entreabertas orquídeas, É gota a gota o sangue azul a consumir-se em oblata. Perde-se então aos poucos nas quebradas da serra O uivo longínquo das alimárias. O coração humano desconhece repouso. O homem se inscreve cada dia na eternidade Com uma nova presa debaixo dos pés. Caminhei entre os homens Num silêncio consciente, Harmonioso e tenaz. Palavras que eu sonhara Na cidade do asfalto Pareceriam esquivas Borboletas do campo. Desse baixar de pálpebras Anônimo e sutil, Teci eu própria a minha Túnica de martírios. À hora em que me aproximo Deste outeiro escalvado Onde já não há musgos Enredando sandálias, Bem me parece que ouço Um princípio de música. Mas não é para mim. Talvez seja o prenúncio De que uma flor azul Nascerá dos meus passos. MADRINHA LUA ou O SER ABSURDO por O t a c í l i o M e l g a ç o a HENRIQUETA LISBOA, Rosa Plena, Poetisa que se fez Carne... Miradouro, Estrelitzia,Transmutação, Jogo de Reflexos, O Mito e O Dom, O Tempo que é um Fio, Anjo da Paz, Ariel, Azul Profundo, Alvo Humano, Meridiano, A Luta com o Anjo, Pensamor. HENRIQUETA LISBOA, Além da imagem: Trama do inefável para mudar Contorno definido. Ou não bem definido. Além da Imagem Treme de ser lembrança O que era olvido. Tão plácida na sua intimidade. É o círculo em que se encontram Os corações? É o elo do entendimento recíproco? São as asas do anjo cerradas pela paz? É a pomba que em palma oferecida pousa? O nó macio e branco da amizade? O ninho que se fecha sobre si mesmo – completo? A lua que se esqueceu das nuvens e Queda em singelo convívio? Eu vi a lua (madrinha) Flutuando no aquário escuro, Nenhuma lua vi maior Nem mais líquida em longitude Nem mais redonda em corola. Era um jorrar de lua a flux Em águas vidros azulejos Mármores espaço à frente Relvas gramíneas BURITIS. ...das Grandes Veredas... VIDA, PAIXÃO E MORTE DO TIRADENTES Entre rios e cascalhos Nasceu. No berço das águas Cinco estrelas claras. Ó infante, depressa, As margaridas te esperam para a ciranda, Madrinha lua te espera para as vigílias. Pejavam-se as nuvens, as nuvens fugiam, Cruzavam as tardes borboletas lentas. Na sombra, setas oblíquas. Antônia da Encarnação Xavier, Não deixes teu menino crescer. Ele não terá pouso certo, Será chamado o corta-vento, Exalará o hálito da revolta, Perecerá de morte infamante. Talos e vergônteas ríspidas cresciam Seivosas touceiras com frutos cresciam. Mãe morta. Pai morto. Campo limpo. O caminho do louco está livre. A terra pertence ao louco, A terra é um punhado de poeira na palma da mão do louco, Por entre abismos levita o louco, As serras são trabalhadas pelo louco, Os rios são dirigidos pelo louco, A imagem da Santíssima Trindade acena ao louco, A brasa de Isaías queima os lábios do louco, Vai pelo mundo o louco apregoando a verdade! As verdades como pedras Chovem pelo monte abaixo. Cravejada de sementes Ergue-se a planície grávida. Veio a tempestade, o incêndio, A derrubada dos troncos. Vai-se consumando aos poucos O holocausto do cordeiro: - Agora sei. Nenhum pouso Me prometia sossego. As paredes da masmorra Não me poderão conter. Nos socavões e nas grotas Dorme o ouro da madrugada. Minhas algemas são de ouro Para servirem de aldrava. Sinos de cristal ardente Acordarão a distância ‘com os fios desse enredo para daqui a cem anos’. Céu azul, vejo-te ainda Nas orvalhadas da noite Através da pura gota Que meus olhos chorariam. Do roxo de minhas pálpebras Não tarda a nascer a rosa Em cujo pequeno cálix Mal cabe o meu sangue todo. Aurora da cor do sangue, Quantas rosas eu não dera Para que raiasses antes Que meu suspiro morresse. ROMANCE DO ALEIJADINHO Antônio Francisco Lisboa No catre de paralítico. Antônio Francisco Lisboa Está nos últimos dias. – Sobre meu corpo, ó Senhor, Põe teus divinos pés. Ao penitente perdoa Ira, luxúria e soberba. Os grossos lábios murmuram Secos, gretados de terra. Tateiam os olhos cegos As moedas falsas da luz. Estende os braços, estende-os, Não tem mãos para sentir A carnadura de estrelas De sua pedra vencida. E anseia substâncias plásticas Sob dedos renascidos. - Mais que volutas, rosáceas, Mais do que as flamas e as curvas Flexuosas dos meus delírios, Em segredo amei as virgens De leves túnicas brancas, Formas essenciais do sonho Que fez de meu corpo uma alma. E mais do que os rijos músculos Desses guerreiros que atroam Nuvens e ares com trombetas, Amei a graça e a doçura Dos anjos, dos ruflos de asas, A delicadeza em flor Das crianças que não me amaram. Queda um momento perplexo: De um lado o mar infinito De vagas que se desdobram Verdes, verdes, sempre verdes, E seus passos firmes de homem Caminhando, caminhando Sobre as ondas caminhando. À esquerda a floresta, o abismo: Fulvas serpentes se enroscam Nos troncos dóceis dos cedros Atravancando a passagem. E recorda as vezes tantas Que em seus pés se enredaram. - Filtros, filtros de cardina, Filtros, prodigiosos filtros! Do catre imundo e revolto Joana Lopes se aproxima: - Que queres tu, Pai Antônio? - Para onde foi teu marido, Filho ingrato que gerei? - O mundo levou teu filho Mas uma filha te deu. - Januário, onde está Januário? É meu escravo ou não é? - Januário de tantas mágoas Descansa no cemitério. - Ganhei dinheiro às carradas E minha arca está vazia. - Eras amigo dos pobres, São pobres os teus amigos. - Quero a Bíblia, a minha Bíblia! Mãos compassivas depõem No peito coberto de úlceras Restos do sagrado livro. - Sobre meu corpo, ó Senhor, Põe teus divinos pés. O moribundo sem força Move os lábios num sussurro. E da distância dos séculos Anjos e virgens o escutam. OS PROFETAS Os profetas estavam juntos No adro da igreja. E confabulam. A tarde, perturbada a fundo, Cobria de nuvens a face. Traçavam rudes desenhos Na fímbria do esquivo horizonte Com seus emaranhados ramos, A selva e o Velho Testamento. O rio, com suas líquidas Camândulas em soluço, fluía Por entre os desvãos da colina Pálida como um corpo virgem. As raras palmeiras em tôrno Como guerreiros, erguendo Com donaire os finos torsos, Amparavam o firmamento. Urgia misericórdia Como se confusos augúrios Redundassem daquele encontro De homens egressos do túmulo. O mesmo pavor causavam Outrora nas estradas bíblicas Suas palavras que eram outras Tantas espadas de fogo, Seus gestos de que pendiam Vulcões acesos pelos ares, Seus carros que deixavam sulcos De maldição e os campos áridos. Porém não lhes servia a língua Para o açoite – com que volúpia Dantes! – nem fremiam ao vento Suas túnicas inconsúteis. Orla de pérola a envolvê-los Naquela estranheza de Lázaro, Dos pedestais soerguiam-se Límpidos luares nostálgicos. Por entre os matizes de Deus Nos lavores da pedra tinham A serenidade perfeita Dos acontecidos destinos. Tal como barcos que através De largos mares bravios Ao ancoradouro regressam Carregados de especiarias, Estavam plácidos os Profetas E havia um mundo de sombras Ao derredor de suas frontes Sob a poeira de ouro dos séculos. POESIA DE OURO PRETO ‘Oh ciudad de los gitanos!’ F.G.L. Ó cidade de Ouro Preto Boa da gente morar! Numa casa com mirantes Entre malvas e gerânios, Ter os olhos de Marília Para cismar e cismar. Numa casa com mirantes Pintada de azul anil Sobre a rua de escadinhas Que é um leque em poeira, de sândalo, Passar na janela o dia Vendo a vida que não anda. E de noite vendo a lua Como uma camélia opaca, Flor sem perfume, de jaspe, Abrir o baú de folha Que é lembrança de família, Baú onde criam mofo Cartas velhas e retrato De um ingrato namorado. Numa casa com mirantes Lá da alcova, atento ao ouvido, Escutando as serenatas De clarineta e violão, Evocar tempos perdidos Quando a Ponte dos Suspiros - Hoje povoada de sapos - Era a ponte dos encontros Dos noivos que não casaram. Também ouvir a desoras (risca fogo, bate casco nas calçadas, a galope, sem destino, sem descanso) aquele cavalo bravo que deu martírio e deu morte crua a Felipe dos Santos. Depois, de manhã bem cedo, Ir à igreja das Mercês, Das Mercês e dos Perdões, Ficar ajoelhada no adro No contemplação feliz Das volutas e dos frisos E, embora sem ter rezado, Voltar para casa leve, Coração de passarinho Navegando com delícia Os rios de ar da montanha. Com o lusco-fusco e o sereno Pôr agasalho de lã, Voltar o mesmo caminho Para assistir à novena. Ver de novo hoje como ontem A escura Casa dos Contos Onde mora a alma penada De Cláudio Manuel, coitado. Pisar com carinho as ruas Que o Aleijadinho pisou Marcando-as com sua força, Como se essas ruas fossem Lotes de pedra sabão. E quando houver procissão Chegar perto de São Jorge Para ver a carantonha Do alferes que se presume. E enquanto das casas nobres Vem almíscar de alfazema Por entre colchas de seda E franjas pelas sacadas, Seguir de cabeça baixa Na mão uma vela acesa. Ó poesia de Ouro Preto Cofre forte com segredo! Poder olhar de soslaio, Meio escondida no mato Com verdes nódoas de musgo, A casa em que se reuniam Em volta da mesa grande Os homens da capa preta. Numa parede – há quem diga – Existe uma cruz de sangue Com que jurou Tiradentes, Uma cruz que se ilumina No dia vinte e um de abril. Ó poesia de Ouro Preto! Em cada beco ver sombras Que já desapareceram. Em cada sino ouvir sons, Badaladas de outros tempos. Em cada arranco do solo, Batida de pedra e cal, Ver a eternidade em paz. Ó cidade de Ouro Preto Boa da gente morar! E esperar a hora da morte Sem nenhum medo nem pena - quando nada mais espera. ... SAUDAÇÃO A DRUMMOND Eu te saúdo Irmão Maior Pelo que tens sido e serás Dentro do tempo espaço afora E além da vida: luminar Homem simples da terra Aprisionado no íntimo Para libertador de pássaros E agenciador de símbolos. Pela pedra no caminho Que foi ato de bravura E foi cabo de tormentas. Pelo brejo das almas Em verde com margaridas. Pelo sentimento do mundo Com que orvalhas o linho Da comunhão geral. Pelas fazendas do ar Em que brindas cultivos De transcendentes dimensões. Pelos claros enigmas Que decifras e que armas Em desdobrados ciclos. Pela vida passada a limpo Em lâminas de cristal. Pela rosa do povo Com que humanizas o asfalto. Pela lição de coisas Que nos ensinas a aprender. Pelo boi tempo este sabor De renascimento da infância. Em nome de Mário de Andrade – até as amendoeiras falam – Em nome de Manuel Bandeira Em nome de Emílio Moura Presentes embora silentes No alto da Casa em outros Mais cômodos aposentos De onde nos contemplam líricos A nós abaixo no vestíbulo. Saúdo-te mineiro Carlos De olhos azuis como os da criança Guardada sempre mais a fundo Em cadidez e malícia Ao largo de lavouras híspidas Ao longo de setenta outubros Vincados de diamante e ferro Sem nostalgia de crepúsculo. Saúdo-te com sete rosas Em botão as mais puras Colhidas de madrugada Antes do sol em suas pétalas Por teu sétimo aniversário Outrora De menino poeta. TERCETO NOSTALGERALISTA ...do Ser Mineiro... Estar não estando No riso e no pranto. Possuir sem domínio Dentro do possível. Ser de si o oposto Sem deixar de ser. Imóvel movente Que só por angústia De tempo resvala Para achar o fluxo Do plectro em refluxo. Pendente da sorte Do ímã da força Dos próprios recuos, O pêndulo pende Mediante a tangência De eflúvios Que estuam Adversos À inércia. ...da Mineiridade... Paredes grossas paredes Levantadas de orgulho. Ouro velho Madeira rosa Pedra cálida. O casario grávido De tesouros Ainda e sempre À espera. E no profundo estofo Ao abrigo ao tempo A flama virgem. O passado não conta: está presente Em dóceis curvas de voluta Em dobras de panejamento Em ecos de colunata Na radiosa nudez De corpos sobre pedestais. Os sussurros do Tibre Para as sete colinas Falam de guardiães invisíveis. Áugures e vestais caminham No antigo passo rítmico Pelas ruas. O vento De outros séculos se ouve As ruinas aflorando. No alto Pairam as águias da vigília. Na água em estilhas sobre as salvas Perpassa o frêmito da origem. Canta de bronze a voz do sangue. Cármina rústica. Eterno agora. Tudo previsto e tanto impacto Nesta noite igual a si mesma: Um rapto rútilo de beijos. Peso e transcendência de mármore Na própria carne transitória. ...d'outros Sertões... “Eh boi!...Eh boi!... É gado magro, É gado bravo, Que vem do sertão. E os cascos pesados, Atropelados, Vão martelando o chão Na soltura sem fim... (...) - ‘Então, João Nanico, Por que canta assim?!...’ - ‘Ai, Patrão, que a vida é uma boiada, e a gente canta pra ir tocando os bois...’ ” João Guimarães Rosa BOIZINHO VELHO Boizinho de olhos cansados Boizinho de olhos compridos Sentado nas quatro patas Numa curva de caminho. Os carros subindo o morro (boizinho agora se lembra) cantavam – ou era um choro? Mas isso foi no outro tempo. ... Porque o louco levita... porque o louco tem lábia... porque o louco é sagrado..., este sítio eletrônico à tácita cordialidade de Sílvio Lisboa. Aleluia! E para que (mais) palavras Se a música interna envolve A canção anterior ao nascimento E ao ritmo das águas vindo Imemorial para o tempo? *HENRIQUETA LISBOA, *CORA CORALINA, e *CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE fazem parte do 'CICLO MINEIRIANO' por *O.M. ![]() |
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