Crônica
de Marco Aurélio Rodrigues Dias OFL
Numa Crônica dedicada a Nhá Chica, Paulo Coelho pergunta: O
que é um milagre?
Acho que a história que
vou contar é um milagre.
Eu era ainda criança quando ouvi falar pela primeira vez sobre Nhá Chica.
Morávamos na Praça Seca, na rua Pedro Teles, nº 600, Condomínio Vila Garcez, em
Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Pixinguinha morava na mesma rua.
Eu estava soltando pipa. O
sol queimava como fogo. Então fui esconder-me debaixo de uma mangueira frondosa. Defronte
havia o Clube Parames, em cujo campo muitos times de futebol profissional iam jogar suas
partidas. Eis que, num daqueles dias, eu dibicava meu papagaio impinado quando vejo chegar
Pixinguinha, o grande músico dos chorinhos. Ele vinha cansado, a passo lento,
preguiçoso, e parou na mesma sombra. Olhou-me com aquele sorriso carinhoso e triste.
Passou a mão na minha cabeça. Podia ser o ano de 1966.
Deixem eu explicar que Pixinguinha morava numa vila de casas em frente ao Clube
Parames. Provavelmente acabava de chegar de algum compromisso noturno..
Meu amigo Valdemar Costa, o Vadinho, que durante muitos anos
foi colunista do Jonal dos Esportes, escreveu o livro
"Vale do Marangá", contando a história antiga de Jacarepaguá, onde confirma
que Pixinguinha morava na Praça Seca.
Lembro bem de ter tido uma longa conversa com uma sobrinha de Pixinguinha, anos
mais tarde. Estávamos numa lanchonete, lado a lado, comendo alguma coisa, e ela então
começou a desabafar comigo. Falou da morte do tio (Pixinguinha), da injustiça pelo fato
de que não ganhou dinheiro à altura do seu gênio... Estou fazendo esta observação
para o amigo leitor situar-se.
Mas voltemos ao meu tempo de criança. Ninguém esqueceu que eu estava debaixo de
uma mangueira soltando pipa e que Pixinguinha chegou. Então voltemos ao nosso
assunto.
Aproximou-se um outro homem conversador, parecendo que conhecia bem o compositor ou
a família de sua irmã, e os dois ficaram ali ao meu lado naquele papo. Eu de olho nas
outras pipas que queriam cruzar com a minha, lá no céu.
O que eu quero salientar nesta crônica é um trecho da conversa de Pixinguinha com
o outro homem.
Eles falavam de uma pessoa que estava doente e que era preciso recorrer também as
orações. Então um deles citou o nome de Nhá Chica e falou que era
necessário pedir pra ela uma cura. Conversaram mais um pouco e depois o homem foi embora
e Pixinguinha entrou na vila.
Guardei muito bem na
lembrança aquele dia, aquela conversa, as feições de Pixinguinha com seu instrumento na
mão.
Estou querendo dizer que a primeira vez que ouvi falar de Nhá Chica foi na Rua Pedro Teles,
na Praça Seca, onde eu morava, e numa conversa entre Pixinguinha e um outro homem, e
nunca mais esqueci. Tempos depois (14 anos) vim ouvir falar dela em São Lourenço, por
volta de 1980.
Acho que isso foi um
milagre.
Ter ouvido falar de Nhá Chica pela primeira vez numa
conversa da qual o tão respeitado compositor de "Carinhoso" participava, passou
para mim também uma certa respeitabilidade pelo nome da Serva de Deus.
Tenho pra mim que isso foi um
milagre sim! Não um daqueles milagres onde se alcança algo impossivel, mas onde se
recebe algo bonito eternamente!
Então eu respondo: Um
milagre é isso, Paulo Coelho! |