O que é uma Teoria?


Capítulo 4 da obra "The Myth of Religious Neutrality"

Por Roy Clouser


1. Introdução



Por que nós deveríamos nos preocupar com a relação das crenças religiosas com as teorias? Certamente há muito mais na interpretação da vida do que é tratado em teorias científicas. E de qualquer modo, não são as teorias criações altamente técnicas que são compreendidas apenas por cientistas e filósofos e que contribuem muito pouco para a compreensão que a maioria das pessoas tem de si mesmas e do mundo ao redor delas?
Embora muitas teorias sejam muito técnicas e compreensíveis apenas por experts, muitas outras não o são. A idéia de que todas as teorias estão além das pessoas comuns vem da associação da palavra “teoria” com os últimos avanços da física, química, ou astronomia. Entretanto, nós devemos nos lembrar de que há também muitas teorias influentes sobre direitos políticos, felicidade humana, moralidade, a compreensão da arte, educação de filhos, tratamentos médicos e educação pública, para mencionar uns poucos. Muitas dessas teorias estão dentro do alcance das pessoas comuns; na verdade, parece improvável que exista alguém que não adote alguma teoria em pelo menos algum desses tópicos. A verdade é que o indivíduo médio é altamente influenciado por teorias.
Outra razão porque devemos nos preocupar com a relação das crenças religiosas com as teorias tem a ver com a autoridade que é reivindicada para as teorias. Uma crença amplamente sustentada é a de que, uma vez que muitas teorias são formuladas, testadas e aceitas por experts, elas se tornam o padrão mais autoritativo para julgar a verdade de qualquer coisa. Isso implica, é claro, que se os valores ou crenças religiosas se opõe a uma teoria amplamente aceita, rejeitar a teoria e manter as crenças deve ser considerado perverso. No último século e meio essa conclusão tem sido afirmada repetidamente por advogados da biologia Darwinista, da psicologia Freudiana e da política Marxista, para mencionar apenas os exemplos mais óbvios.
Podem aqueles de nós que crêem em Deus aceitar que as teorias sejam os árbitros finais da verdade? São elas realmente neutras com respeito à crença religiosa, e assim capazes de comandar a lealdade irrestrita que é comumente reivindicada para elas? E quanto à visão popular de que as teorias são autoritativas em uma área da vida, enquanto a fé é autoritativa em outra? É essa uma forma satisfatória para o crente compreender sua relação? Para responder a essas questões, nós vamos primeiramente ganhar alguma compreensão do que é uma teoria.

2. O que é uma Teoria?



A alma de uma teoria é a sua hipótese, e uma hipótese é um palpite que é proposto para explicar alguma coisa.
Obviamente o fato de que todas as hipóteses são palpites não significa que todos os palpites sejam hipóteses desde que nem todos os palpites tem a intenção de explicar alguma coisa. À vezes opinamos com o propósito de ganhar um prêmio ou fazer uma piada, etc. Aqui vamos nos preocupar apenas com os palpites que são feitos com o propósito de explicar alguma coisa e que podem ser chamados por nós de “hipóteses”.
Vamos usar os termos “hipótese” e “teoria” de forma intercambiável para indicar tanto uma única opinião explanatória ou um conjunto de opiniões explanatórias muito relacionadas. Entretanto, há outro uso informal de “teoria” que não podemos adotar. É prática agora comum entre muitos cientistas e filósofos o uso do termo “teoria” para qualquer tipo de explanação, empregando ou não a hipótese. Para eles o termo “teoria” significa simplesmente uma interpretação, um julgamento ou um auxílio à compreensão.
Isso é confuso e inaceitável porque obscurece o que é essencial às teorias em contraste com outras formas de explanação. Por exemplo, isso deixa no escuro a diferença entre uma teoria e um mito. Em um mito, as forças da natureza são personificadas de forma que suas relações são explicadas como nós explicamos relações entre pessoas. É este tipo de explanação que os antigos filósofos gregos substituíram com hipóteses que eram então debatidas por meio de argumentos e evidências. Desde que nós não mais usamos mitos como explicações pode não ser importante preservar a diferença entre eles e as teorias. Entretanto há ainda outras formas de explicar as coisas mesmo sem a criação de teorias. Por exemplo, os caminhos para chegar no escritório ou instruções sobre como operar um helicóptero são explicações que não propõe nenhuma hipótese, não devendo ser chamadas de teorias. Daqui em diante usaremos o termo “teoria” para indicar apenas as explanações que oferecem hipóteses e então tentam justificá-las com argumentos e evidências.
Dada a definição de “teoria” como uma opinião explanatória, deve ser óbvio que o negócio de construir teorias não é exclusividade de cientistas e filósofos. Uma detetive pode fazer uma teoria sobre o caso em que ela está trabalhando; um motorista pode informar alguém sobre um estranho ruído vindo do motor de seu carro; e um auxiliar de escritório pode propor uma hipótese sobre a razão de seu chefe estar tão mal-humorado hoje. Desde que todas essas opiniões são feitas com o propósito de explicar alguma coisa, elas são teorias tanto quanto aquelas propostas de teoria atômica ou psicologia freudiana. Além disso, ambos os tipos de teorias – as opiniões do senso comum bem como as científicas e filosóficas – são motivadas pela mesma frustração: elas são feitas quando nós não podemos descobrir diretamente a resposta a alguma questão. Quando isso ocorre, nós damos um palpite.
Entretanto, há importantes diferenças entre a forma em que as teorias são feitas por cientistas e filósofos e a forma em que as teorias do senso comum são feitas em casa ou no escritório. Duas diferenças que tem recebido reconhecimento universal são: 1) teorias na ciência e filosofia são mais abstratas que as do senso comum, e 2) os métodos de avaliação das teorias científicas e filosofia são muito mais complexos e sofisticados. (1) Essa grande sofisticação é parcialmente um resultado da natureza abstrata dessas teorias, mas é também motivada pelo fato de que tais teorias muitas vezes discordam umas das outras. Os métodos de teste são assim construídos não apenas para avaliar a teoria em si, mas também para compará-la com suas competidoras.
No restante desse capítulo vamos dar uma olhada em algumas diferenças entre teorias altamente abstratas e teorias do senso comum. Isso é necessário porque a despeito do amplo reconhecimento dessas diferenças, raramente elas são consideradas em sua plena importância. (2) Elas não apenas tem lugar proeminente na avaliação das teorias, mas também na aquisição de uma visão adequada de como as teorias se relacionam à crença religiosa. Assim nós precisamos inicialmente ter uma idéia a respeito da “abstração”, após o que vamos dar uma olhada em algumas diferenças entre teorias científicas e filosóficas e distinguir entre os tipos de hipóteses que ocorrem tanto na ciência como na filosofia. Nós vamos então concluir com uma rápida consideração das linhas mestras para avaliação de cada tipo de teoria.

3. Abstração



Todo mundo parece concordar que teorias científicas e filosóficas são altamente abstratas, assim há apenas duas coisas que precisamos considerar: o que se diz por “abstração”, e “altamente”. Um ponto de partida óbvio é considerar o sentido literal do termo “abstração”. Abstrair significa extrair, ou remover alguma coisa (mentalmente) de algum contexto mais amplo. Essa atividade é virtualmente a mesma de focalizar nossa atenção, uma coisa que fazemos freqüentemente a cada dia. Por exemplo, se nós estamos tentando encontra um livro que tem uma capa verde, nós podemos dar uma busca na prateleira identificando todos os livros com capas verdes. Para fazer isso, nós devemos ter primeiro isolado mentalmente a cor verde de todas as outras cores e de todas as outras qualidades ou propriedades que um livro pode ter. Esse nível de abstração é tão comum que nós ordinariamente damos pouca atenção a isso. Nós regularmente desempenhamos ações como evitar alguma coisa porque ela cheira mal, julgando alguma coisa muito grande para um container, ou preferindo um curso de ação porque é mais fácil. Comuns que sejam tais ações, todas elas requerem que nós tenhamos primeiro isolado o odor, tamanho ou facilidade de todas as outras propriedades exibidas por aquilo que cheira mal, é grande ou é fácil. Em tais casos a “extração” de uma propriedade em nosso pensamento não é feita tão fortemente ao ponto de isolá-la totalmente da coisa ou evento que a apresenta. Em outras palavras, este nível de abstração não focaliza o cheiro ou o tamanho de uma coisa ao ponto de romper a continuidade dessas propriedades de todas as outras características das coisas. Assim a propriedade focalizada é ainda experimentada como uma característica da coisa que a exibe. Eu vou chamar isso de baixa abstração.
Em contraste, nós somos capazes de intensificar o foco de nossa atenção ao ponto de realmente isolar uma propriedade de alguma coisa, e focalizar nossa atenção na propriedade em si mesma. Este tipo de abstração eu vou chamar “alta abstração”. Desde que todos concordam que isso distingue teorias científicas e filosóficas num ponto importante, vou ilustrar de forma detalhada. Vamos considerar o caso de alguém que acabou de comprar um carro novo e o está mostrando a um grupo de amigos. Uma amiga diz que ama a cor do carro, outra comenta que o carro é bonito, enquanto outros perguntam sobre seu peso e preço. Todas essas observações mostram que os amigos abstraíram num nível baixo diferentes propriedades do carro: cor, beleza, custo e peso. Mas nenhuma destas propriedades foi isolada; elas são ainda consideradas como propriedades do carro.
Se, entretanto, alguém vem a focalizar a propriedade do peso em si, à parte do carro (ou qualquer outro objeto particular), ele pode conceber o peso de uma forma altamente abstrata. Outras propriedades como velocidade, massa e densidade podem também ser isoladas. Dessa forma o pensamento altamente abstrato pode nos suprir com toda uma nova gama de conceitos sobre e acima daqueles disponíveis sem ele. Isso adiciona uma nova dimensão à teorização por tornar possível às hipóteses serem palpites sobre propriedades altamente abstraídas, funções, relações, etc, em adição às coisas e eventos que tem essas propriedades, funções, etc. Desse modo, a alta abstração pode ser usada para explicar tanto outras abstrações como as coisas e eventos que nós continuamos a experimentar na conexão inquebrável de todas as suas propriedades.
Considere um simples exemplo de como isso pode acontecer. Isolando propriedades no foco da nossa atenção, nós criamos a possibilidade de perguntar sobre suas relações, e padrões de conexão entre relações, todos concebidos em isolamento das coisas nas quais eles ocorrem. (3) Para teorias, a mais importante das relações que podem ser descobertas são as leis. No caso das propriedades do nosso exemplo, essas podem incluir

Momento = massa x velocidade

Ou

Densidade = massa/volume

Outros exemplos podem ser as leis de movimento ou termodinâmica, ou a famosa equação E=MC2 de Einstein. Assim a alta abstração torna possível para nós fazer perguntas a respeito de propriedades isoladas e a responder a essas questões isolando as relações entre essas propriedades, especialmente as leis. Nem as questões nem as respostas podem ser concebidas sem alta abstração. Posteriormente, a produção argumentos e evidência para (ou contra) a veracidade de tais teorias também envolve alta abstração; de fato, esses argumentos são às vezes mais sofisticados e engenhosos que as próprias hipóteses.
As teorias da ciência e filosofia diferem ainda das teorias do senso comum por empregar alta abstração em um (ou uma combinação) de três meios: 1) em levantar a questão que a teoria pretende responder, 2) em inventar as hipóteses propostas como respostas às questões, ou 3) em avaliar a veracidade das hipóteses propostas. (4) Desse ponto em diante em vou lidar apenas com teorias que empregam alta abstração, assim eu não usarei mais distinção. O termo teorias se referirá sempre ao tipo altamente abstrato, e o termo “abstração” vai sempre se referir à alta abstração antes que à mera focalização de um elemento da experiência sem isolá-lo.

4. Aspectos da Experiência


Em adição a essas três formas listadas acima, a alta abstração desempenha um outro papel na construção teórica. Nós não apenas abstraímos propriedades individuais e padrões, nós também abstraímos tipos de propriedades e padrões. Tome as propriedades que estamos considerando: peso, massa, momento e densidade. Nós podemos ver que eles todos caem dentro do tipo físico. Distinguir esse tipo abrangente e de larga escala é já uma abstração das coisas e eventos que nós experimentamos, do mesmo modo que no caso das propriedades e leis que pertencem esse tipo. Uma vez distinguido, o tipo forma um domínio distinto ou campo de inquirição e pesquisa que inclui numerosas subdivisões correspondendo aos vários ramos da física.
O mesmo é verdade para muitos outros tipos de propriedades que tem sido abstraídas e transformadas em áreas de estudo. Por exemplo, propriedades biológicas são o campo de estudo da biologia, propriedades e leis espaciais o campo de estudo da geometria. Semelhantemente, teorias em economia ou ética são o resultado do isolamento daqueles tipos de propriedades e leis e da construção de teorias nesses campos. Nos últimos vinte e seis séculos, muitos outros tipos tem sido isolados e se tornaram campos distintos de investigação e construção teórica. Uma aproximação informal dos tipos de propriedades que tem sido isoladas para estudo incluem ao menos aquelas na lista seguinte (os membros e sua ordem serão discutidos com maiores detalhes posteriormente):

Fiduciário
Ético
Jurídico
Estético
Econômico
Social
Linguístico
Histórico
Lógico
Sensório
Biológico
Físico
Cinemático
Espacial
Quantitativo

Eu chamarei esses tipos de propriedades e leis “aspectos” (ou esferas, nt. trad.) da nossa experiência, e me referirei às disciplinas devotadas ao seu estudo como “ciências”. O termo “aspecto” servirá para enfatizar que os tipos são exibidos por e extraídos dos objetos de nossa experiência pré-abstrata. O termo “ciência” é realmente usado para qualquer disciplina específica na qual as teorias são construídas.
Essa lista não deve ser compreendida como um pronunciamento dogmático sobre todos os aspectos genuínos – muitos pensadores podem oferecer uma lista diferente. Antes tem a intenção de ser como uma descrição, não uma teoria sobre a experiência das pessoas. Como tal, ela vai nos ajudar a compreender as teorias como uma lista de trabalho de vários tipos de propriedades e leis que tem se tornado campos distintos de estudo para a teorização, e para este propósito não é necessário que a consideremos a única lista verdadeira. Posteriormente, quando eu usar expressões como “aspectos das coisas” ou “aspectos do mundo”, ou “aspectos da nossa experiência”, essas expressões devem ser compreendidas com referência aos aspectos da lista acima. Elas se referem ao que parecem ser os aspectos do ponto de vista da descrição do que nós experimentamos à parte de qualquer teorização. Elas não implicam que nossa experiência ordinária não possa ser enganosa, ou que uma teoria não possa mostrar que as coisas são diferentes do que parecem ser.
Embora muitas ciências sejam devotadas a um aspecto inteiro ou a uma subdivisão dele, e mesmo recebam seus nomes a partir desse aspecto particular, há outras que delimitam seu campo e tomam seus nomes de uma classe particular de coisas que elas buscam investigar. Entomologia, paleontologia e botânica são alguns exemplos. (5) Mas essas ciências não constituem objeção ao papel dos “aspectos” na teorização, pois mesmo quando uma ciência nomeia seu campo a partir de um tipo particular de coisas ela continua não podendo estudar cada aspecto dessas coisas. É sempre algum aspecto específico dos insetos, ou fósseis, ou plantas que ela investiga. Esses objetos de estudo não precisam ser confinados a apenas um aspecto. A antropologia cultural, por exemplo, lida com diversos aspectos de culturas antigas e inclui teorias sobre como certos dados funcionam ao longo de vários aspectos. Mas se ou não uma ciência enxerga seu campo como um aspecto particular ou como uma classe de coisas, em cada caso as delimitações aspectuais permanecem o fator crucial: em cada ponto uma teoria deve tornar claro o tipo de propriedades com que está lidando e o tipo de leis que está usando para explicar seus dados.
Tendo enfatizado o papel da abstração no isolamento dos aspectos, eu agora posso admitir livremente que muitas pessoas que trabalham como cientistas podem afirmar, se inquiridas, que elas são inconscientes dessa abstração de aspectos inteiros. Eu acredito que isso seja verdade, mas não considero um argumento contra a necessidade e a importância dessa abstração. A razão porque alguém não tem consciência da abstração de um aspecto é que esse ato é usualmente feito tão automaticamente que ele não é notado pelo pensador que o pratica – algo semelhante à nossa inconsciência da ação de mover os olhos enquanto lemos um texto. Em ambos os casos há um sub-evento tomando lugar dentro de uma ação mais ampla a serviço dessa ação mais ampla. Nós movemos nossos olhos com o propósito de ler, e nossa atenção é fixada sobre nosso propósito específico, não sobre o movimento do olho que é feito para cumprir aquele propósito. Da mesma forma, e pela mesma razão, a atividade de alta abstração pode ser realizada inconscientemente porque é feita tendo em vista a investigação e teorização sobre as propriedades e leis que caem em seu foco. Assim, não é surpreendente que alguém engajado em uma ciência possa notar o papel que a abstração desempenha na conceptualização de propriedades ou relações específicas, mas não percebe seu papel no isolamento dos aspectos inteiros. Esse papel é tão básico que pode passar despercebido.
Eu vou agora oferecer alguns exemplos para ilustrar como a abstração dos aspectos está implicada na prática científica. Para apreciar o ponto principal desses exemplos, devemos ter em mente que a abstração de um aspecto não resulta num “desligamento” ou numa “subtração” da experiência ou do pensamento em relação a tudo mais. O que esses exemplos vão mostrar é que isolando um aspecto inteiro algo é adicionado à nossa experiência, e essa adição é indispensável para o empreendimento teórico científico.
Como primeira ilustração, considere o caso de uma bióloga observando micróbios em um microscópio. Conforme sua experiência, os micróbios parecem ocupar espaço, ter forma, cores perceptíveis, massa física, etc. Pode também ser significante qual a quantidade deles em uma certa área. Mas essas propriedades são todas compreendidas do ponto de vista de seu foco abstrato no aspecto biológico dos micróbios. É esse foco que guia e dirige seu pensamento. Mesmo pensando que o tamanho, massa, cor e número dos micróbios não são em si mesmos propriedades biológicas, eles são todos importantes na medida em que contribuem para sua compreensão dos processos da vida biológica. É o foco no aspecto biológico que guia os questionamentos que a cientista coloca e os palpites explanatórios que ela apresenta.
Para ver como este ponto se aplica igualmente a outras ciências, considere o caso em que o foco de um pensador é guiado pelo isolamento do aspecto econômico. O economista pode mesmo estar preocupado com o mesmo conjunto de micróbios que o biólogo estava examinando. Mas ao invés de ocupar-se com os dados para chegar a uma explanação biológica, ele estará oferecendo uma explanação econômica dos mesmos dados – uma explanação cujos princípios incluem a lei da oferta e da procura e a lei dos retornos decrescentes. Os micróbios serão tratados pela explanação do economista por causa de suas propriedades e leis econômicas, mesmo que essas propriedades possam mudar caso os micróbios estejam mortos ao invés de vivos.
Essas são ilustrações de um papel desempenhado pela abstração na construção de teorias que muitas vezes não é suficientemente reconhecido. Sem a abstração plena dos aspectos não seria possível especificar o tipo de propriedades investigadas ou o tipo de leis usadas para explicar determinada teoria. Por essas razões – e outras que logo descobriremos – a abstração dos aspectos é essencial para a teorização. Não importa qual seja a lista exata de aspectos que um pensador usa para começar a teorizar, sua teorização necessariamente pressupõe uma lista ou outra.

5. Tipos de Teorias


Vamos primeiro considerar a diferença entre teorias científicas e filosóficas. Ambas são altamente abstratas, é claro, mas enquanto os cientistas se limitam a um ou mais aspectos específicos como seu domínio, filósofos parecem não ter um “lar”. De fato, examinando a lista de aspectos apresentada anteriormente alguém pode ser tentado a pensar que, desde que há ciências devotadas a cada um dos aspectos, não sobrou nada para a filosofia focalizar. Essa suspeita pode ser fortalecida pelos assuntos de que os filósofos tratam. Por exemplo, há obras devotadas à filosofia da matemática, à filosofia da história, à filosofia da lei, e assim por diante. Isso dá a impressão de que a filosofia não tem seu próprio domínio, e assim se intromete nos domínios dos outros. Entretanto, eu estou feliz em noticiar que a filosofia tem sim seu próprio território, e uma vez que esse território seja corretamente compreendido a diferença entre uma teoria científica num aspecto específico e uma teoria filosófica sobre ele se tornará clara.
Anteriormente nós percebemos que algumas ciências teorizam tanto ao longo de vários aspectos como dentro de algum deles. Essa observação nos ajuda a ver a possibilidade de desenvolver uma teoria geral; uma teoria que não seja restrita a aspectos específicos, mas dê uma idéia de como todos os aspectos se interconectam. Isso é justamente o que distingue a filosofia das ciências devotadas a um ou mais aspectos específicos. Filosofia busca uma visão do todo; ela oferece teorias que procuram explicar as conexões gerais de todos os aspectos e então de todas das ciências. Enquanto filósofos tem ocasionalmente discordado dessa definição e tentado argumentar que a filosofia deve ter um propósito menos ambicioso, esses argumentos são por si mesmos testemunhos do fato de que desde o princípio as teorias filosóficas tem tentado desenvolver esse tipo de visão do todo. O filósofo do século XX Gilbert Ryle expressou esse ponto:
“O tipo de pensamento que faz a biologia avançar não é o tipo de pensamento que soluciona as reivindicações e contra-reivindicações entre a biologia e a física. Essas questões inter-teóricas não são internas às teorias. Elas não são questões biológicas e físicas. Elas são questões filosóficas.”(6)
O famoso psicólogo Jean Piaget também reconheceu essa característica distintiva da filosofia quando disse que
“ir além dos limites da própria disciplina implica em síntese, e a disciplina especializada em síntese ... não é outra senão a própria filosofia.” (7)
Os dois tipos de teorias inventadas por filósofos para “sintetizar” ou conectar todos os aspectos da realidade em uma visão do todo são uma teoria geral da realidade e uma teoria geral do conhecimento. Os termos técnicos para essas teorias são, respectivamente, “ontologia” (também chamada por alguns de “metafísica”) e “epistemologia”. É o desenvolvimento de ontologias e epistemologias que distingue a teorização filosófica e lhe dá o seu “lar” distintivo. Quando um filósofo teoriza sobre matemática, física, lógica ou ética, não se trata simplesmente de uma intrusão no domínio das ciências porque isso é feito por meio da aplicação de uma teoria geral da realidade ou do conhecimento ao estudo daqueles aspectos específicos. Por essa mesma razão, sempre que cientistas se envolvem com temas que requerem uma visão de como seu aspecto específico se relaciona com todos os outros, eles realmente estão transpondo os limites da ciência em direção à filosofia. Essa observação não deve ser entendida como rebaixadora; não há nada de errado com teorias de um certo aspecto se relacionarem com uma perspectiva mais ampla. De fato, eu vou argumentar posteriormente que que é impossível fazer teorias dentro de um aspecto particular que não assumam (mesmo que inconscientemente) alguma resposta à questão de como esses aspectos se relacionam uns aos outros. A diferença é então apenas de ênfase: enquanto teorias científicas devem pressupor alguma resposta à questão da visão do todo, essa visão pode permanecer uma pressuposição de fundo que nunca é levantada conscientemente, questionada, ou defendida. Mas enquanto o cientista pode meramente assumir uma visão do todo, o filósofo é especializado nisso; filósofos consideram o assunto mais importante a justificação da visão do todo que eles inventam ou adotam, e todas as outras teorias são desenvolvidas de acordo com o que é requerido por essas teorias da realidade e do conhecimento.
Mas o que exatamente se quer dizer com “uma teoria geral da realidade”? Trata-se de uma teoria que busca descobrir a natureza essencial da realidade. Esse propósito pode ser descrito como a tentativa de descobrir que tipos de coisas existem. Isso não deve ser confundido com a questão sobre os objetos que existem. Uma lista dos objetos seria enorme, incluindo por exemplo sapatos, montanhas, animais, nuvens, pessoas, etc. Assim a questão não é sobre quais as coisas que existem, mas qual a sua natureza básica. Tradicionalmente, as teorias tem tentado responder a essa questão propondo um ou mais aspectos aceitos pelo pensador como sendo a natureza básica de tudo. Por exemplo, algumas teorias tem proposto que todas as coisas são basicamente físicas, outras que todas as coisas tem uma natureza que combina propriedades físicas com propriedades lógicas e leis, e ainda outras que tudo é essencialmente matemático ou sensório, etc.
O mesmo é verdadeiro quanto a uma teoria geral do conhecimento. Essa é uma teoria que tenta definir o que é a natureza essencial a todo conhecimento; não propriamente a natureza de um tipo de conhecimento, como o matemático, o estético ou o ético. Ao invés disso ela tenta responder a questões como “o que é o conhecimento em si?” “Como nós adquirimos conhecimento?” Para responder a essas questões, uma teoria tem de se posicionar quanto à conexão geral de todos os diferentes tipos de aspectuais de conhecimento. E como é no caso das teorias tradicionais da realidade, teorias tradicionais sobre o conhecimento tem também usado a abordagem de propor um ou dois tipos aspectuais de conhecimento como a chave para todo o resto. Algumas teorias tem sustentado que o conhecimento é essencialmente matemático, por exemplo, enquanto outros tem dito que ele é sensório, ou lógico, ou histórico.
Deve estar claro, no entanto, que o assunto da filosofia envolve a explicação das conexões gerais dos domínios de todas as ciências de uma forma similar ao que as ciências usam para explicar a relação dos dados dentro de um certo aspecto.
A segunda distinção que nós podemos fazer concernente às teorias é entre dois tipos de hipóteses, cada um ocorrendo tanto na ciência como na filosofia. Eu vou chamar o primeiro destes de “hipótese de entidade”. O termo “entidade” é usado aqui porque é o mais amplo e mais indefinido que temos para nos referir a qualquer sorte de realidade: coisas, eventos, estados, relações, propriedades, leis, e qualquer coisa mais que alguém queira expressar. Uma hipótese de entidade, então, é uma que propõe a existência de uma nova entidade como solução para uma questão ou enigma. Esse tipo de hipótese assume que a explicação é uma realidade subjacente, oculta. Ela então propõe diferentes tipos de entidades – coisas, leis, propriedades, funções, etc – que representem essa realidade subjacente. Por esse método as falhas em nosso conhecimento do que nós experimentamos são preenchidas por palpites educados a respeito de entidades que nós não experimentamos. Como ilustração, é como se recebêssemos um quebra-cabeças para montar mas não conseguíssemos descobrir como juntar as peças e formar a imagem correta. Para resolver a dificuldade nós opinamos que há uma peça desaparecida, que teria um formato tal, e que deveria ser colocada numa posição tal, e assim capacitaria todas as peças a se ajustarem de forma a nos dar a configuração correta. Muitas das teorias hoje bem conhecidas do público são teorias de entidade. A teoria atômica e a teoria do Big Bang em física, a teoria da evolução biológica, e a teoria psicológica de Freud sobre o id, ego e superego são todas exemplos de teorias propondo entidades que nós não experimentamos com o propósito de explicar características de coisas que nós experimentamos.
Sempre que alguma nova entidade é proposta, pensadores naquele campo são levados a avaliar a teoria; isto é, eles buscam descobrir se a entidade é real. Mas desde que as entidades propostas pelas teorias usualmente não podem ser experimentadas diretamente, elas só podem ser checadas indiretamente. (8) A forma mais breve de sumarizar essas avaliações indiretas é dizer que uma teoria é avaliada por sua eficácia em explicar o que ela foi inventada para explicar, e se ela explica melhor que seus competidores. A lista padrão de critérios de avaliação inclui itens como a consistência lógica da teoria, quão cuidadosamente ela explica seus dados, e também quão amplamente a hipótese pode ser aplicada. Este último passo é muitas vezes o mais persuasivo. Quando uma hipótese que é oferecida para explicar um enigma e inesperadamente se descobre que ela resolve um número de outros problemas, é difícil não crer que as entidades propostas não sejam reais.
Muitas hipóteses de entidades são também avaliadas por experimentação. Mas há muitas falhas de compreensão comuns a respeito do papel dos experimentos, e eu vou agora ocupar algum tempo dispersando duas das mais comuns. A primeira é a noção de que a não ser que haja um experimento para testar uma teoria, essa teoria não pode realmente ser considerada científica. A verdade, no entanto, é que os experimentos, embora desejáveis, muitas vezes não são possíveis e muitas teorias não são descartadas somente pela impossibilidade da construção de um experimento. A segunda falha é a crença de que se um experimento tem sucesso, então a teoria foi provada além da dúvida e deve daí em diante ser considerada uma verdade absoluta. Esse mal-entendido é às vezes combinado com outro: a idéia de que a prova experimental distingue teorias científicas daquelas da filosofia. De acordo com esse erro composto, teorias científicas podem ser provadas por experimentos mas teorias filosóficas não são passíveis de prova.
Enquanto seja verdade que há teorias filosóficas que tem se oposto uma a outra por milhares de anos, e que muitas teorias científicas tem uma vida muito curta, isso não ocorre porque as primeiras são inverificáveis e as segundas o são. O fato é que experimentos não podem jamais provar a verdade de qualquer teoria além de toda dúvida. Eles desempenham um serviço diferente.
Para compreender porque experimentos não podem provar a veracidade de uma teoria, nós devemos primeiro compreender duas regras lógicas simples. A primeira diz que se é verdade que “A implica em B”, sendo A verdadeiro, B então deve ser verdadeiro. Por exemplo, A pode singificar “Está chovendo” e B pode significar “o passeio está ficando molhado”. Nesse caso, “A implica em B” significa: “Desde que está chovendo, o passeio está ficando molhado”. Agora, a regra diz que se ela é verdadeira, e de fato está chovendo, então o passeio está ficando molhado. Escrita como uma fórmula a regra fica assim:

1. Se A implica em B
2. A
3. Portanto, B.

O ponto crucial a respeito dessa regra é que embora ela funcione da esquerda para a direita, ela não funciona da direita para a esquerda. Nós não temos justificativa para dizer:

4. Se A implica em B,
5. B
6. Portanto A.

Pois mesmo que o passeio esteja ficando molhado, isso não nos garante que está chovendo. Outras coisas podem molhar o passeio além da chuva. Mas reivindicar que um experimento bem sucedido prova uma teoria é cair no engano representado em 4, 5 e 6, acima. O argumento então fica assim:

7. Se a teoria é correta então o experimento terá sucesso;
8. o experimento teve sucesso,
9. portanto a teoria é correta.

Assim a noção de que um experimento bem sucedido pode provar que uma teoria é verdadeira se baseia num erro lógico. Há, entretanto, outra regra lógica que funciona da direita para a esquerda:

10. Se A implica em B,
11. não B,
12. Portanto não A.

Aplicada ao nosso argumento ilustrativo, isso significa que, sendo verdade que a chuva molha o passeio, e se é verdade que o passeio está seco, então também é verdade que não está chovendo. Quando o valor de um experimento é compreendido dessa forma, nós podemos obter um argumento logicamente válido com a seguinte aparência:

13. Se a teoria é correta então o experimento terá sucesso;
14. o experimento não teve sucesso,
15. portanto a teoria é falsa (ao menos parcialmente).

Aqui nós temos o verdadeiro valor dos experimentos para as teorias. Eles não podem provar a veracidade de uma teoria, mas eles podem provar que ela é falsa. É lógico, mesmo esse valor é sujeito a limitações: mostrar que uma teoria é parcialmente falsa não possibilita por si só indicar exatamente qual parte da teoria está errada. E é sempre possível que o experimento não tenha sido corretamente conduzido ou que não tenha sido propriamente concebido desde o início. O verdadeiro papel dos experimentos na construção de uma teoria, então, é: quando uma teoria sobrevive a um número de (bem planejadas e bem executadas) tentativas de provar sua falsidade, teoristas naquele campo começam a sentir mais e mais confiantes quanto a ela. A teoria é assim declarada “confirmada”. Mas nenhum conjunto de experimentos bem-sucedidos poderá jamais estender a confirmação de uma teoria ao ponto em que ela é declarada provada além de toda dúvida.
Por que, então, essa refutação por experimentação parece ocorrer sempre nas ciências, mas não na filosofia? A resposta é que ná outro tipo de teoria além das teorias de entidades, um tipo que usualmente não pode ser checado por experimentos. E embora as teorias de entidades e teorias desse outro tipo ocorram tanto na ciência como na filosofia, as mais famosas teorias da ciência são teorias de entidades, enquanto as mais famosas teorias filosóficas são desse outro tipo. Esse tipo não começa por propor a existência de alguma realidade não experimentada, mas explica seus dados de uma outra forma. Pense de novo em nossa analogia do quebra-cabeças. Se os dados a serem explicados são representados pelas peças do quebra-cabeças, então esse segundo tipo de teoria busca explicar esses dados vendo-os de uma certa perspectiva quanto à sua justaposição mútua e relações, antes que propondo a existência de uma peça perdida. Em outras palavras, essa abordagem considera as peças presentes como suficientes para resolver o enigma desde que elas sejam arranjadas da forma correta. Esse tipo de teoria eu vou denominar “hipótese perspectival”.
Um exemplo de hipótese perspectival é a interpretação marxista da história. De acordo com essa teoria, o fator chave na compreensão da história é sempre o econômico. Isso significa que o fator econômico é visto como decisivo na explicação do curso da história e outros possíveis fatores explanatórios como as crenças religiosas, o ódio racial, a rivalidade política, ou a influência pessoal de indivíduos poderosos são sempre controladas pela economia da situação.
É importante distinguir teorias perspectivais de teorias de entidades por diversas razões. Primeiro isso nos ajuda a reconhecer que as teorias que são centrais para a filosofia – as teorias da realidade e do conhecimento – são claramente perspectivais. Nós já notamos que isso se relaciona a uma certa pressuposição prevalecente na filosofia Ocidental sobre como tais teorias são construídas. A pressuposição é a de que o caminho para chegar à natureza essencial da realidade ou do conhecimento é selecionar um ou dois aspectos (conforme a lista de aspectos da qual o pensador parte) como identificando essa natureza essencial. Em outras palavras, a pressuposição é de que a natureza básica da realidade ou do conhecimento deve ser encontrada por conferir a prioridade a um ou dois aspectos sobre os restantes. E obviamente nenhuma concessão de prioridade pode ser defendida sem uma idéia a respeito das relações mútuas de todos os aspectos.
Segundo, é fácil para nós notar que o programa de estabelecimento de uma perspectiva por realizar uma concessão de prioridade aspectual pode ser conduzido de duas maneiras. A versão mais popular admite que a realidade tem muitos aspectos genuínos, mas argumenta que um ou dois, selecionados pela teoria são os que tornam possível a existência de todos os outros. Em outras palavras, ela argumenta que o aspecto selecionado – vamos chamá-lo de “X” – pode existir à parte dos outros aspectos, mas os outros não podem existir à parte de X. Consequentemente, teorias empregando esta abordagem podem ser vistas como argumentando que seu(s) aspecto (s) selecionado (s) caracteriza a natureza básica da realidade. Na segunda versão uma teoria argumenta que o aspecto que ela selecionou é o único aspecto genuíno; todos os outros alegados aspectos podem ser colapsados naquele que foi selecionado. Essa segunda versão, assim, é aquela na qual a teoria reivindica ter encontrado a natureza exclusiva da realidade e do conhecimento. No capítulo 10, nós vamos examinar com mais detalhes ambas as versões da prevalecente pressuposição Ocidental sobre como construir teorias sobre a realidade. Então estaremos examinando por que elas inevitavelmente pressupõe alguma crença religiosa.
Finalmente, reconhecer a distintividade das teorias perspectivais é importante porque nos ajuda a perceber como teorias da realidade pervadem os conceitos e teorias das ciências devotadas a um aspecto particular não ficando confinadas apenas à filosofia. De fato, o argumento que vamos elaborar mais tarde é de que justamente através das teorias da realidade é que a influência da crença religiosa é transportada às teorias científicas: teorias científicas necessariamente pressupõe uma visão da realidade como um todo, enquanto visões da realidade necessariamente pressupõe alguma crença religiosa. Crenças religiosas, como nós veremos, regulam visões da realidade diretamente, e através da mediação dessas visões do todo regulam também as teorias científicas, indiretamente.
Em minhas aulas eu tenho encontrado resistência à idéia de que teorias científicas não podem evitar pressupor uma visão da naureza essencial da realidade. Pessoas que se sentem confortáveis com a idéia de que teorias da realidade inevitavelmente pressupõe uma crença religiosa muitas vezes tem dúvidas quanto a estender o ponto até às ciências. Assim, embora uma defesa mais detalhada dessa reivindicação tenha de esperar até os capítulos do “Casebook” (nos quais isso será ilustrado para teorias em matemática, física e psicologia), algumas explanações preliminares parecem ser necessárias. Por que uma certa visão perspectival da natureza essencial da realidade é inevitavelmente pressuposta na construção e interpretação de teorias de entidades construídas dentro de um aspecto específico?
Há, eu creio, diversas maneiras em que pressuposições sobre a natureza da realidade penetram na ciência, mas talvez a mais fácil de ver seja a seguinte: sejam quais forem os aspectos assumidos como a natureza básica (ou exclusiva) da realidade, a assumpção se reflete na natureza atribuída às entidades propostas pela teoria científica. Uma entidade proposta não pode meramente ser nomeada. Não é suficiente para uma teoria dizer, por exemplo, “existem átomos”. Nós precisamos saber que tipo de coisa um átomo é. Como a sua natureza é concebida irá figurar proeminentemente nas opções propostas para explicar o que quer que tenha sido proposto para explicar. (9)
Mas a atribuição de uma natureza básica (ou exclusiva) a um átomo ou a qualquer outra entidade proposta não pode evitar refletir a visão do pensador a respeito da natureza básica ou exclusiva de toda a realidade. Seria sem sentido para uma teoria propor a existência de entidades cujas naturezas não correspondem à realidade que ela pretende explicar. Por exemplo: suponha que os átomos sejam vistos como tendo uma natureza basicamente física; isto é, suas propriedades físicas e leis é que tornam possíveis todas as outras propriedades e leis que possam ser verdadeiras a respeito deles. Mas o que é verdade para os átomos por si mesmos deve ser considerado verdadeiro para qualquer coisa que eles sejam usados para explicar. Isso é, o que quer que eles expliquem deve também ser considerado como sendo possível pelas propriedades e leis físicas dos átomos. Assim, se átomos são tomados para explicar qualquer dado que não seja físico, aqueles dados não físicos devem ser considerados como sendo possíveis pelas propriedades físicas e leis dos átomos. Negar isso e ainda insistir que os átomos de algum modo explicam os dados não fará sentido algum. Como nós veremos no capítulo 8, este exemplo não é meramente hipotético. Tem havido amplas discordâncias a respeito da natureza dos átomos na história da física, e essas discordâncias tem levado a variadas concepções de como fazer física e sobre o que ela pode explicar. (10)
Isso não significa que um cientista propondo, defendendo, ou adotando uma hipótese de entidade tenha de ser influenciado por qualquer filósofo particular. Não é que visões totais da natureza da realidade como elaboradas em teorias filosóficas necessariamente exercem uma influência regulatória sobre as teorias científicas. É o assunto em si da natureza da realidade que não pode ser evitado, não importando se o que o cientista pressupõe quanto a isso foi elaborado como uma teoria na história da filosofia ou se o cientista tem consciência do assunto. Como nós veremos no “Casebook”, são as diferentes visões que os cientistas tem sobre este ponto as maiores responsáveis pelas grandes divergências que existem entre as ciências a despeito dos passos cuidadosos que elas usam para avaliar suas hipóteses de entidades.

5. Critérios para Julgar Teorias



Os métodos para confirmação de teorias de entidades tendem a ser mais precisos e definidos que aqueles de teorias perspectivais. O poder de explanação de teorias de entidades pode ser checado porque há meios matemáticos e lógicos para conferir se outros fatos conhecidos são implicados quando uma proposta de entidade é adicionada aos dados iniciais com os quais a teoria está lidando. Isso muitas vezes leva a predições que podem ser verificadas com experimentos. A extensão da aplicação de certa teoria de entidade é fácil de determinar. Isso pode ser óbvio se uma entidade proposta, quando incluída numa lacuna (gap) de outra teoria, traz resultados confirmáveis. Muitos teoristas também avaliam uma teoria de entidade de acordo com quantas novas entidades ele precisa propôr. A regra é de que se duas teorias rivais explicam as coisas igualmente bem, aquela com menos hipóteses é a preferida. Por esses meios, hipóteses de entidades podem ser avaliadas, endossadas ou contestadas.
Em contraste, esses procedimentos padronizados para julgar hipóteses de entidades não parecem funcionar para hipóteses perspectivais. Desde que propor uma visão perspectival sobre dados interpretados não se trata de adicionar entidades a condições iniciais e observar se elas produzem certos resultados específicos, teorias perspectivais não assumem o formato lógico (dedutivo) que as teorias de entidades tem. E quando perspectivas rivais são comparadas por completo, aquela que alguém considera verdadeira – ou mais próximo da verdade – para esta pessoa vai naturalmente parecer explicar as coisas melhor. (11) O fato de que uma perspectiva alternativa pode dar uma explanação mais detalhada não a torna mais provavelmente verdadeira, mas apenas a faz falsa com grandes detalhes. De qualquer modo, a extensão de uma perspectiva é (ao menos potencialmente) universal; toda a realidade pode ser observada do ponto de vista de sua quantidade, espacialidade, fisicalidade, qualidades sensórias, etc. Por conseguinte, desde que uma perspectiva não é uma proposta de uma entidade adicional para preencher uma lacuna nos dados a serem explicados, quase nunca é possível mostrar que ela logicamente ou matematicamente implica em certas predições que podem ser testadas por um experimento. Finalmente, não faz sentido checar duas perspectivas para ver qual propõe menos entidades, desde que ambas não propõe nenhuma.
Ao invés de seguir o critério de teorias de entidades, o julgamento de uma perspectiva parece tomar a forma de uma busca por saber se certos dados podem ter qualquer interpretação plausível daquele ponto de partida. Por exemplo, parece claro que formas antigas de materialismo não podem dar qualquer explicação plausível dos “conceitos”. Mas materialistas modernos podem apontar para as capacidades dos computadores e reivindicar que a formação de conceitos no homem é essencialmente o mesmo processo. Se isso pode ser defendido com sucesso ou não, é claro que o materialismo agora tem algum tipo de explicação do pensamento conceptual que anteriormente não possuía. Similarmente, muitos dos argumentos entre perspectivas tem sido desafios à capacidade de uma perspectiva X para produzir uma explicação de certos dados, e então um debate quanto à plausibilidade das explicações dadas por aquela perspectiva. Este método é claramente mais livre que os meios pelos quais teorias de entidades são julgadas, e alcança poucos resultados definidos. Eles são pouco definidos porque mesmo se puder ser mostrado que as explicações de certa perspectiva para certos dados não funcionam, isso nunca elimina a possibilidade de se construir uma explicação plausível dentro daquela perspectiva. Assim o debate continua, século após século.
É possível, no entanto, oferecer linhas mestras adicionais que podem ser úteis na avaliação de hipóteses perspectivais. Cada uma delas será a afirmação de um tipo de incoerência a ser evitada por uma teoria, perspectival ou não. Mas embora essas linhas mestras ou critérios se apliquem também às teorias de entidades, juntamente com os outros já mencionados, eles serão apresentados aqui principalmente tendo sua aplicação a teorias perspectivais em mente.
O primeiro destes é o teste da consistência lógica. Este teste se aplica, é óbvio, a toda a nossa fala e pensamento diários e bem como a teorias, e simplesmente significa que nós não podemos estar certos se nós afirmamos (ou assumimos) a veracidade de duas crenças que são logicamente contraditórias ou contrárias. Por exemplo, nós não podemos estar certos em acreditar que nossas meias perdidas estão no guarda-roupas e que elas não estão no guarda-roupas, ou que todos os humanos são mortais e que nenhum humano é mortal. Obviamente, uma teoria não pode estar correta se uma parte dela diz que existe X e outra parte nega a existência de X.
Inconsistência lógica evidente entre declarações de uma teoria é apenas um tipo de incoerência, no entanto. Uma teoria pode também incluir reivindicações que, embora não sejam inconsistentes com outra afirmação da teoria, sejam de alguma forma incompatíveis com sua própria veracidade. Assim nossa segunda regra é de que uma teoria não deve fazer uma reivindicação que possa: 1) cancelar a possibilidades da sua própria veracidade, ou 2) cancelar a possibilidade de nosso conhecimento de sua veracidade. Se uma reivindicação faz uma dessas duas coisas, ela se torna incoerente quando aplicada a si mesma. Seguindo Alvin Plantinga, eu vou chamar essa reivindicação “auto-referencialmente incoerente”.
Como um exemplo da primeira das duas variedades dessa incoerência, consideremos a reivindicação algumas vezes feitas pelos Taoistas de que nada pode ser dito a respeito do Tao. Tomada sem qualificações (o que provavelmente não é a forma para que foi intencionada), ela é auto-referencialmente incoerente desde que dizer “nada pode ser dito a respeito do Tao” é dizer alguma coisa sobre o Tao. Assim a afirmação, quando aplicada a si mesma cancela sua própria veracidade. Como exemplo da segunda variedade de incoerência auto-referencial, considere a reivindicação feita por Freud de que cada crença é um produto das necessidades emocionais inconscientes do indivíduo. Se essa afirmação for verdadeira, deve ser verdadeira por si mesma antes de se tornar uma crença de Freud. Isso no entanto requer que a afirmação seja um produto das necessidades emocionais inconscientes de Freud. Isso não irá necessariamente tornar a afirmação falsa, como o faz a incoerência 1, mas certamente impedirá Freud de reivindicar o conhecimento de sua veracidade – a incoerência 2. O máximo que alguém poderia fazer nessa situação é admitir-se incapaz de manter uma crença diferente. E desde que a veracidade dessa afirmação requer que todas as pessoas sustentem as mesmas crenças exatamente pelas mesmas razões, não há modo de Freud ou de qualquer outra pessoa descobrir se qualquer crença é verdadeira – incluindo a crença de que todas as crenças são produtos de necessidades emocionais.
Esses dois critérios – a consistência lógica e a coerência auto-referencial – são também úteis como regras para a preservação da coerência entre crenças que ocorrem dentro de uma teoria. Quanto a isso eles diferem dos próximos dois critérios que dizem respeito à compatibilidade entre crenças que ocorrem dentro de uma teoria e fatores que permanecem fora do escopo da teoria propriamente dita. O primeiro destes afirma que uma teoria não deve ser incompatível com nenhuma crença que nós temos que assumir como condição para que: 1) a teoria seja verdadeira, ou 2) nós conheçamos que ela é verdadeira. Eu vou chamar uma teoria que viola esta regra de “auto-pressuposicionalmente incoerente”.
Como um exemplo de 1) considere a afirmação feita por alguns filósofos de que todas as coisas são exclusivamente físicas. Isso tem sido explicado por seus advogados como significando que nada tem qualquer propriedade ou é governado por nenhuma lei que não seja uma propriedade física ou uma lei física. Mas a própria sentença expressando essa afirmação, a sentença “todas as coisas são exclusivamente físicas”, deve ser assumida como tendo uma sonoridade perceptível ou aparência, e como possuindo um significado linguístico. Essas propriedades não são físicas, mas a menos que a sentença tenha tais propriedades, não poderá ser uma verdadeira sentença; nesse caso ela não passa de sons físicos ou marcas que não podem ter sentido linguístico e, consequentemente, não podem expressar qualquer afirmação – assim como uma rocha ou uma nuvem ou um oceano não são capazes de ter algum significado ou expressar alguma afirmação. Além disso, afirmar tal materialismo exclusivista é o mesmo que afirmar sua veracidade, que é uma outra propriedade não física, e assumir que para qualquer asserção ser verdadeira sua negação deve ser falsa – raciocínio este garantido pelas leis da lógica (de fato, qualquer teoria que negue a existência das leis lógicas é instantaneamente e irremediavelmente auto-pressuposicionalmente incoerente desde que a própria negação das leis é proposta como verdadeira de modo a excluir logicamente o seu oposto, considerado falso). O que isso mostra é que a afirmação “todas as coisas são exclusivamente físicas” deve por si mesma pressupor propriedades não físicas e ser governada por leis não físicas, do contrário nem pode ser compreensível, nem pode ser verdadeira. Assim, não importa quão engenhosos os argumentos para essa afirmação possam ser, a afirmação em si é incompatível com as pressuposições requeridas para sua veracidade. Ela é portanto incoerente. (12)
Como um exemplo de 2), vamos tomar a proposta de Friederich Nietzsche de que talvez não existam coisas com propriedades afinal. Talvez, disse ele, nós apenas experimentemos o mundo dessa forma por causa da forma em que nosso cérebro evoluiu. Mas esta proposta se baseia em uma inferência da teoria da evolução, que não pode ser verdadeira se não há coisas com propriedades. A evolução biológica é precisamente uma teoria a respeito dos processos pelos quais seres vivos se desenvolveram em direção a uma crescente complexidade de propriedades biológicas. Assim a proposta de Nietzsche é incompatível com a pressuposição de que a teoria evolucionária é verdadeira, quando simultaneamente essa pressuposição é a razão que ele dá para a veracidade de sua proposta.
O fato de que os exemplos prévios de incoerência auto-pressuposicional tem tudo a ver com teorias que negam uma genuína pluralidade de aspectos não é acidental. Embora tais teorias não sejam as únicas a violar este critério, muitas das violações são feitas por teorias deste tipo. O critério exposto é assim nossa primeira defesa pela aceitação de uma pluralidade de aspectos como genuína: qualquer tentativa de negar que existam aspectos ou de reduzí-los a um único aspecto genuíno será sempre auto-pressuposicionalmente incoerente.
A segunda linha mestra que permanece exterior ao conteúdo explícito das teorias é ainda mais externa que a primeira. A primeira é externa apenas no sentido de que ela se ocupa de pressuposições requeridas por uma teoria mas que podem não estar afirmadas explicitamente ou ser reconhecidas na própria teoria. Mas nosso critério final permanece completamente fora das teorias e concerne às condições que tornam possível o próprio processo de construção teórica. Como se segue: uma teoria deve ser compatível com qualquer estado ou atividade do pensador sem os quais ela não poderia ser produzida. (13) Como no caso do critério anterior, essa orientação podem também ser violada num sentido forte e também num fraco. O sentido forte, novamente, é quando uma teoria não pode ser verdadeira por causa da sua violação do critério, enquanto no sentido fraco, é quando não se pode saber se a teoria é verdadeira por causa dessa violação. Eu chamarei qualquer teoria que viole este critério “auto-performativamente incoerente”.
Para começar com uma ilustração o mais simples possível dessa regra, tomemos o caso trivial de alguém dizendo que ninguém pode falar, ou que não existem coisas tais como a linguagem. Desde que alguém tem de falar com o propósito de dizer que isso não pode ser feito, e desde que alguém tem de falar em uma linguagem com o propósito de dizer que não há linguagem, essas afirmações violam o critério no sentido forte, e não podem ser verdadeiras. Para ilustrar a versão fraca do mesmo critério, tomemos o caso em que alguém me pede para determinar a temperatura da água em um vidro com um termômetro. O fato é que, uma vez que em coloque o termômetro dentro da água em não poderei coerentemente afirmar saber qual era a temperatura da água antes de desempenhar aquele ato. O ato por si mesmo mudou – ou pode ter mudado – a temperatura da água. Assim a própria atividade necessária para descobrir o que eu desejo saber bloqueia minha capacidade de saber. Portanto afirmar de que “a água no vidro tinha vinte graus centígrados” é ignorar o fato de que a ação pela qual a informação foi obtida nos proíbe de saber se a afirmação é verdadeira.
Um exemplo mais sério desse tipo de incoerência é aquela notada por Descartes. O refletir sobre o que pode e o que não pode ser razoavelmente posto em dúvida, Descartes viu que não poderia razoavelmente por em dúvida a sua própria existência. Isto porque ele tinha de existir para duvidar. Ele tinha de existir para pensar ou dizer “eu não existo”. Assim seu estado de existência e seus atos de pensamento e fala eram todos incompatíveis com a reivindicação “eu não existo”. Ele assim concluiu que a afirmação “eu não existo” deveria ser falsa, e ele não poderia razoavelmente duvidar da veracidade da afirmação “eu existo” não importando o que mais ele pensasse sobre o assunto.
Este exemplo é importante porque ilumina de que modo o critério pode obter resultados significantes comparando reivindicações de teorias com as condições que permanecem exteriores à própria teoria, e que não são nem mesmo crenças. Como o critério prévio, a demanda por coerência auto-performativa não coloca de lado as leis e distinções lógicas. Antes, ela nos dá uma forma de testar teorias que vai além de meras consistências lógicas. Isso nos lembra de que uma teoria pode evitar violar todas as regras lógicas e até mesmo permanecer compatível com suas próprias pressuposições, mas ainda ser seriamente defeituosa. Note que não há nada de logicamente auto-contraditório quanto à sentença “eu não existo”, nem é a veracidade de “eu existo” requerida pelas leis lógicas por si mesmas. Além de tudo isso, Descartes viu que a primeira não poderia ser verdadeira e a segunda não poderia ser falsa em algum sentido mais-que-lógico. Este sentido é o que nós temos identificado aqui.
O teste para saber se uma teoria é auto-performativamente coerente é aquele que nós vamos considerar particularmente iluminador quando examinarmos as teorias da realidade com maiores detalhes no capítulo 10. Então nós vamos examinar as estratégias tradicionais para defesa de teorias perspectivais e verificar que elas tem sempre tentado justificar seu “candidato” a natureza básica da realidade por meio da demonstração de sua auto-existência. A aplicação de nosso teste irá mostrar, no entanto, que todo esforço teórico por justificar uma reivindicação de auto-existência é incompatível com a atividade de alta abstração como descrita anteriormente. Nós vamos verificar ainda que todas as tentativas semelhantes são inevitavelmente auto-performativamente incoerentes no sentido fraco .Nós vamos então concluir que nenhuma justificação teórica para qualquer reivindicação a respeito do que é auto-existente é possível, desde que todas as tentativas de fazê-lo contradizem a própria atividade de abstração que é necessária para a conceptualização dessas reivindicações. Nessa base nós vamos sustentar que todas as crenças sobre o que é auto-existente são igualmente crenças injustificadas.
Mas antes que essa posição possa ser defendida é necessário clarificá-la. Essa é a tarefa dos dois próximos capítulos. No capítulo 5 vamos contrastar nossa posição com seus maiores competidores quanto à relação da fé com as teorias. Então no capítulo 6 vamos dar uma explicação mais detalhada do sentido de se dizer que alguma crença religiosa sempre “controla” qualquer teoria da realidade. Com essas clarificações diante de nós, estaremos preparados para os capítulos do “Casebook”.

NOTAS


1. Por exemplo: E. Nagel, The Structure of Science (New York: Harcourt, Brace &World, 1961), 1-28; K. Popper, Conjectures and Refutations (New York: Harper & Row, 1965), 216; J. Kemeny, A Philosopher Looks at Science (New York: Van Nostrand Rienhold, 1959), 156 ss; R. Giere, Understanding Scientific Reasoning (New York: Holt, Reinhart & Watson, 1979), 61, 80, 163; M. Martin, Concepts of Science in Education (New York: Scott, Foresman, 1972), 8-24; J.J.Smart, Between Philosophy and Science (New York: Random House, 1968), 53-88; M. Wartofski, Conceptual Foundations of Scientific Thought (London: Macmillan, 1968), 35, 240; G. Gale, Theory of Science (New York: McGraw Hill, 1979), 193-235.
2. Os pontos principais aqui apresentados são um sumário da proposta que Dooyeweerd oferece em sua New Critique (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1955). Veja especialmente vol 1, p. 38ss.
Dooyeweerd usa essa idéia de abstração como a base de sua “crítica transcendental” das teorias, porque a abstração é (em parte) a resposta à questão transcendental: “O que torna as teorias possíveis?” Enquanto nós reconhecemos que esta abordagem tem um débito para com Kant, seu próprio desenvolvimento dela (e suas subsequentes teorias) são substancialmente não Kantianos. Dooyeweerd enfatiza que enquanto Kant levantou a questão transcendental a respeito da experiência, ele nunca perguntou a respeito das teorias e, como resultado, falhou em manter uma atitude genuinamente crítico-transcendental. Assim a tentativa de Kant falha exatamente da mesma forma que os argumentos transcendentais falharam no passado, segundo acusou Chisholm no capítulo oito de sua obra Foundations of Knowing (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1982), 95-99.
Em contraste, Dooyeweerd mantém a perspectiva transcendental respondendo à questão da possibilidade das teorias com uma descrição (antes que uma hipótese a respeito) da atividade da alta abstração, descrição essa sujeita à confirmação na própria auto-reflexão do indivíduo. Assim seu tratamento preenche os requisitos para um argumento transcendental bem sucedido como Chisholm propôs. Em conexão com isso é importante notar que o tratamento de Dooyeweerd à alta abstração é empregado para derivar critérios para teorias antes que criar qualquer hipótese específica.
Esses critérios são sumarizados mais à frente neste capítulo, e sua aplicação à teoria de Kant é sumarizada na nota 13.
3. Nagel, Structure of Science, 4, 11.
4. Alguns exemplos das três formas nas quais a alta abstração pode estar presente nas teorias se seguem: 1) alta abstração não seria investigar se a água sempre apaga o fogo, mas perguntar como o fogo é transferido de um objeto a outro. 2) alta abstração não seria propor a hipótese de que a água não pode apagar todo tipo de fogo, mas sustentar a teoria de que o calor é transferido pela colisão de moléculas que vibram mais rapidamente com moléculas que vibram mais lentamente. 3) alta abstração não seria aplicar o teste de derramar água sobre diversas chamas até encontrar uma que não fosse apagada pela água, mas conceber argumentos e testes para a teoria molecular da transferência de calor.
5. A sociologia é um exemplo mais complexo. Algumas de suas teorias lidam com os aspectos sociais da vida, isto é, com propriedades e relações tendo ligação com prestígio e status, costumes e tradições, estilos de vestuário, etc. Outras teorias tomam uma classe de coisas (comunidades sociais) como seu campo e lidam com um ou mais aspectos delas.
6. G. Ryle, Dilemmas (Cambridge: Cambridge University Press, 1956), 13.
7. J. Piaget, Main Trends in Interdisciplinary Thought (New York: Harper &Row, 1970), 12-13.
8. Se uma teoria propõe a existência de uma entidade que pode possivelmente ser experienciada diretamente embora não tenha sido encontrada, então encontrar a entidade pode de fato provar que a teoria é verdadeira. Por exemplo, os astrônomos que teorizaram que haveria um nono planeta em nosso sistema solar tiveram sua teoria provada quando Plutão foi encontrado em 1930. A teoria dos germes causadores de doenças é outro exemplo. Sempre que o que foi proposto por uma teoria é realmente encontrado, a teoria cessa de ser um palpite, e assim deixa de ser uma teoria. É desnecessário dizer que a vasta maioria de teorias na filosofia e nas ciências não propõe a existência de entidades que sejam diretamente verificáveis.
9. Michel Polanyi colocou esse ponto muito bem em Personal Knowledge (New York: Harper &Row, 1962): “Todas as regras formais para o procedimento científico devem se provar ambíguas, pois “elas serão interpretadas diferentemente conforme as concepções particulares a respeito da natureza das coisas pela qual o cientista é guiado” (p. 167, ênfase adicionada).
10. “[Em casos de disputas entre teorias] parece que os dois lados não aceitam os mesmos ‘fatos’ como fatos, e ainda mesmos a mesma ‘evidência’ como evidência... Pois dentro de dois sistemas conceptuais diferentes o mesmo feixe de experiências toma a forma de diferentes fatos e diferentes evidências.” (ibid, 167).
11. New Critique, vol 1, 34-52, 82-85, 545-566; vol 2, 366-380, 429-434, 466-471; vol 3, 1-53, 145.
12. Este critério difere da crítica usual do materialismo eliminativo, que é o que nega a existência de crenças e outras atitudes proposicionais. Churchland tem argumentado que este criticismo perde o ponto principal (A Neuro-Computational Perspective: The Nature of Mind and the Structure of Science [Cambridge, Mass.: MIT-Bradford, 1989], 111-127). Antes que assumindo uma “psicologia popular” que sustenta que crenças devem ser não físicas, meu critério mostra porque eliminativistas devem assumir sua própria reivindicação como tendo propriedades não físicas e ser governados por leis não físicas se quiserem lhe dar um significado que seja verdadeiro ao invés de falso.
13. Este é o critério que Dooyeweerd considera plenamente transcendental, e que ele acusa Kant de ter perdido. De fato ele argumenta que quando é aplicado às próprias teorias de Kant, elas são desqualificadas. Dooyeweerd diz:
Desde o princípio Kant derivou o conhecimento humano de apenas duas origens: sensitividade e pensamento lógico ... seguindo os passos do empirismo Inglês, ele começa da suposição dogmática de que o ‘datum’ na experiência é de um caráter puramente sensório...
Nessa ... atitude a epistemologia simplesmente toma como certo que o problema principal de qualquer crítica do conhecimento deve ser a abstração das funções lógicas e sensórias da consciência a partir da plena systasis ... dos ... aspectos da experiência humana ... Esta abstração é apenas feita no pensamento teorético por um processo de disjunção e oposição ...
O ‘datum’ real da experiência humana precede qualquer abstração teórica.
A pressuposição de que certas funções da consciência, teoricamente isoladas no ... ato de cognição são os data, é nada menos que o pecado cosmológico capital. (New Critique, vol 2, 431-432).
A questão primordial deve ser: o que nós abstraímos do datum real da experiência? ... E apenas em uma inquebrável coerência com esta questão primordial pode o segundo problema ser levantado: como pode a antítese entre eles (os aspectos abstraídos) ser reconciliada por uma síntese ... inter-aspectual? (ibid, 434).

É óbvio, essa violação do critério da coerência auto-performativa não é verdadeira apenas para Kant mas é típica da filosofia Ocidental (Cf. New Critique, vol 1, 27-162, 297-405; vol 2, 430 ss, mas esp. 493-575). Nós vamos retornar a este ponto de novo no capítulo 8 (esp. na nota 1), onde veremos que o tema de como caracterizar o datum da experiência é crucial nas interpretações da física que competem entre si.

Este texto é uma tradução do capítulo 4 de CLOUSER, Roy, "The Myth of Religious Neutrality: An Essay on the Hidden Role of Religious Belief in Theories. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1991, 330 pp. Copyright (c) University of Notre Dame Press.
Traduzido por Guilherme Vilela Carvalho, 12 de Março de 2003.
Comentários, perguntas e e-mails são bem-vindos, para nucleodeestudoscristãos@yahoo.com.br.
Versão em português: 12 de Março de 2003.

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