1. INTRODUÇÃO:


Origem, Contexto e Estrutura Fundamental da Teologia de Paulo


i. A Origem e o Contexto da Teologia de Paulo



O estudo de Paulo começa com o reconhecimento de que ele “... era um homem de três mundos: judaico, grego e cristão.”

Backgound


(1) Paulo e o Helenismo. A familiaridade com o mundo grego é indicada pela sua origem (Tarso, centro do epicurismo) e pelo estilo e vocabulário helênico. Ele foi capaz de “... interpretar o evangelho numa forma que fosse compatível com a cultura helênica.” Mas não há fusão de idéias gregas com a teologia judaico-cristã.
(2) Paulo e o judaísmo. Na base da mentalidade e formação de Paulo está o ambiente judaico, do qual ele próprio dá testemunho (Fp 3.5,6; 2Co 11.22; Gl 1.14; At 22.3). Como Paulo nunca recebeu uma “teologia pronta”, suas idéias devem ser entendidas a partir de seu embasamento original. Em princípio, há pouca dúvida de que os alicerces do pensamento Paulino estavam no AT e no judaísmo de seu tempo. “... Paulo estava preparado, como teólogo judeu, a pensar, sob orientação do Espírito Santo, nas implicações do fato de que o Jesus de Nazaré crucificado era de fato o Messias e o Filho de Deus ressurreto e elevado ao céu.” O problema é que o judaísmo não era uniforme; era composto de várias correntes, especialmente a rabínica (farisaísmo), a apocalíptica, a helenista (diáspora) e a qumrânica. Essas correntes interagiam e não eram puras. Assim, propôs-se que Paulo fosse basicamente rabínico (W. D. Davies), apocalipsista radical (Schweizter), sincretista que fundiu o cristianismo judaico primitivo com as religiões de mistério ou um helenista com características protognósticas. Provavelmente o embasamento teológico de Paulo é judaico, farisaico (rabínico) e apocalíptico, mas aberto a certa influência das outras correntes judaicas e do helenismo.
(3) A religião de Paulo reflete sua origem judaica, no monoteísmo, culto, ética, fé nas escrituras hebraicas e até na hermenêutica. Como judeu, afirmava a centralidade da Lei, que incluía as tradições (Gl 1.14). Como os outros fariseus, Paulo “... tinha perdido o sentido da revelação de Deus e a sua fala através da voz viva da profecia.”, agarrando-se ao Torah. Participava da esperança escatológica básica do judaísmo, que remonta aos profetas do AT, na estrutura apocalíptica de duas eras (olam hazzeh e olam habbah), esperando a salvação futura de Deus. Era um perseguidor dos cristãos na medida em que reconhecia em Jesus a negação do judaísmo farisaico, que para ele era a fé bíblica. Jesus não poderia ser o Messias, nem seus discípulos o povo messiânico; portanto o movimento representado por Estêvão tinha de estar errado (At 7.35ss, 58; Gl 1.13; 1Co 15.9; Fp 3.6), e “... a própria existência da igreja, com sua afirmação de ser o povo do Messias, era uma ameaça ao judaísmo.”
(4) Paulo conheceu o cristianismo helenista de Jerusalém. Como judeu helenista originário de Tarso, Paulo frequentava a sinagoga dos “libertos”, onde ouviu a pregação irresistível do helenista Estêvão (At 6.8-10). As acusações de que este ensinava contra o Templo e contra a Lei (6.13,14) tem seu fundo de verdade claro no sermão que ele proferiu, especialmente no final, onde afirma que Deus não habita em templos humanos e que os próprios judeus jamais cumpriram a Lei (7.48-53). O desafio reformatório de Estêvão ao judaísmo abalou o equilíbrio alcançado entre a igreja e o judaísmo com Gamaliel (5.33-42) levando a uma grande perseguição da qual Paulo foi um importante personagem (7.54-8.1-3; 9.1ss). Esse mesmo desafio reformatório é encontrado posteriormente no ministério de Paulo.

A Experiência Revelatória


(5) A experiência no caminho de Damasco está na origem da religião de Paulo. Diversas tentativas foram feitas para explicar a experiência; ela certamente não foi fruto de reflexão, pois todos os testemunhos indicam que a mudança foi quase instantânea; alguns propuseram que teria sido uma crise psicológica, mas não há indícios de que ele estivesse psicologicamente predisposto a tal crise (cf. Fp 3.4,7; Rm 2.13,23). A história não consegue encontrar uma explicação natural e limita-se ao silêncio; a interpretação existencial vê uma mudança radical no autoentendimento, mas como bem coloca Ladd, essa mudança não é o conteúdo, e sim o resultado da experiência de Damasco. Paulo nunca diz que sua insatisfação com o judaísmo o levou à fé e à experiência com Cristo; pelo contrário, afirma que o encontro com Cristo produziu sua insatisfação com o judaísmo. A melhor opção é sem dúvida ouvir o que o próprio Paulo disse. Para ele o que aconteceu foi “... uma aparição a ele do Jesus ressurreto, glorificado ...” (cf. Gl 1.12; 1Co 9.1; 15.8; At 9.1-9; 22.6-16; 26.12-18). Essa é a única alternativa viável para explicar a transformação de Paulo.
(6) A experiência de Paulo está na origem de sua teologia. Através da visão do ressurreto Paulo pôde compreender que: 1) Paulo viu que Jesus é o Messias e o Filho de Deus (At 9.20). Ele percebeu naquele momento a presença da glória de Deus na face de Jesus, com a implicação de que Cristo era o revelador de Deus e a sua imagem (2Co 4.4-6). Isso também, necessariamente, levou a uma reavaliação a respeito da função da Cruz; ela não poderia significar a condenação pelo pecado devendo ser antes compreendida como um ato redentivo de Deus. 2) Paulo viu o Cristo ressuscitado, e isso trazia consequências dramáticas. Ele estava consciente de que a presente era é má (Gl 1.4; Rm 8.35; Fp 2.26; Rm 8.21; 1Co 11.32), mas se viu diante de um fato novo: a ressurreição e glorificação de Jesus. Paulo entendeu que na ressurreição de Jesus, a ressurreição escatológica, e portanto, a era vindoura já tinha começado (1Co 15.21-23,52). Isso exigiu uma modificação na estrutura de duas eras, com a introdução da idéia de que estamos num tempo intermediário, que pertence às duas eras (um entre tempos; cf. 1Co 10.11). Ainda há, no futuro, o dia do Senhor, que é o dia de Cristo, a parousia (1Ts 5.2; 2Ts 2.2; 1Co 1.8; 2Co 1.14; Fp 1.6; 1Ts 2.19; 2Ts 2.1; 1.12), mas o crente já participa de uma nova ordem de existência, de novidade plena, por meio de Cristo ou “em Cristo” (2Co 5.16,17; cf. Is 65.17; Ap 21.5). O Novo Homem foi gerado! 3) Paulo viu a graça de Deus. Naquele momento, tanto o sistema sacrifical do culto do Templo, como o complicado sistema da religião legalística farisaica entraram em colapso na mente de Paulo, pois com tudo isso ele era inimigo de Deus, e sem nada disso, os cristãos eram o povo de Deus! Com isso Paulo foi levado a reinterpretar o papel da lei e o próprio Templo. Mas o fator fundamental foi a sua própria experiência da graça. Paulo estava no meio de uma experiência de ira e revolta quando foi alcançado pela graça. Em 1Tm 1.12-17 ele conta essa experiência como sendo o “transbordamento da graça” (vs 14). Nesse momento Paulo foi obrigado a reconhecer a suficiência e a invencibilidade da graça, bem como a sua localização histórico-redentiva: a pessoa de Jesus. 4) Paulo viu na Igreja o novo povo de Deus. A conexão íntima entre Deus e os cristãos ficou evidente no questionamento: “porque me persegues”? É possível que essa pergunta tenha dado origem à sua percepção da igreja como o “corpo de Cristo”. 5) Paulo teve uma experiência “pneumática”. Ele entendia o Dom do Espírito como o conhecimento pessoal do amor de Deus (Rm 5.5; 8.15), conhecimento que ele obteve a partir da conversão. Em 2Co 4.6 ele dá testemunho de que a conversão envolve um conhecimento subjetivo da presença da glória de Deus em Cristo, um “brilhar de Deus” no coração . Mas um pouco antes, em 2Co 3.12-18, a visão da glória de Deus em Cristo foi identificada com a liberdade do Espírito Santo. Assim a visão de Cristo por si mesma gerou tanto sua compreensão sobre a natureza objetiva de Cristo como a sua compreensão da experiência subjetiva do “Cristo-espírito”. Assim, mais tarde, Paulo pôde elaborar a sua conclusão de que o Espírito Santo prometido no AT para o tempo da salvação foi finalmente derramado.
Reunindo estes elementos, temos a base da compreensão de Paulo a respeito do evangelho; Cristo como o revelador da glória-imagem de Deus, e o ponto de inflexão da história da redenção; o início da vitória de Deus e a irrupção do eschaton por meio da cruz-ressurreição; a graça de Deus como o conteúdo essencial da ação de Deus em Jesus; e a criação de um novo povo de Deus que experimenta já os benefícios da salvação.

A Tradição Cristã Primitiva


(7) Paulo recebeu a tradição da igreja primitiva. Embora ele afirme que recebeu o evangelho por revelação (Gl 1), também ensina abertamente que o recebeu por tradição (1Co 15.1ss). Não há qualquer contradição aqui pois o evangelho constitui-se de fato e interpretação: 1) Paulo pode ter conhecido a notícia sobre Jesus (a tradição) antes mesmo da conversão, mas a interpretação dessa notícia não lhe veio enquanto não teve a experiência revelatória. Só então Paulo conheceu o evangelho, pois “O Evangelho é, ao mesmo tempo, tradição histórica e querigma pneumático por natureza.” Toda a interpretação teológica que Paulo fez do kerigma tradicional é parte o evangelho, mas não veio senão por revelação; 2) Por outro lado, o evangelho não pode ser outra coisa que não tradição do fato, pois é o relato de uma situação histórica definida – o evento de Cristo. Assim, mesmo para Paulo, o evangelho é recebido por tradição.
(8) Fórmulas doutrinárias e de confissão podem ser encontradas em Paulo. São de caráter cristológico e soteriológico, tendo origem na igreja da palestina (1Co 15.3-5; Rm 1.3ss; 1Ts 1.9,10; Tt 3.4-7) ou talvez na igreja helenista (1Co12.3; 10.9 ?) . Há também fórmulas sobre Deus (1Ts 1.9; 1Co 8.6) e talvez alguns hinos (Fp 2.6-11; Cl 1.15-20; 1Tm 3.16; 2Tm 2.11-13).
(9) A tradição parenética da igreja é aproveitada por Paulo em diversos lugares. Isso explica a semelhança entre exortações paulinas e as presentes em outros textos do NT, especialmente 1 Pedro (cf. Rm 12//1Pe 2.11-3.22; Rm 12.17//1Pe 3.9; Rm 13.1-7//1Pe 2.13-17).
(10) Os ditos do Jesus terreno são citados diretamente em algumas ocasiões (1Co 7.10; 9.14; 11.23-26; 1Ts 4.15; 1Tm 5.18) ou aludidos (Rm 12.14-17; 13.7-10; 14.14; 1Co 4.17; 6.1-7). Não são porém comentados extensivamente.

As Escrituras


(11) Paulo considera as Escrituras do Antigo Testamento inspiradas. Para ele elas são “sagradas” (Rm 1.2; 2Tm 3.15), contém os “oráculos de Deus” (3.1,2), suas palavras são citadas como tendo autoridade (Rm 4.3,17; 10.11; Gl 4.30), elas são identificadas com a fala de Deus (Rm 9.17), elas são inspiradas por Deus (2Tm 3.16). O texto de 2Tm diz que 1) “toda” (pasa) a Escritura é inspirada; isso indica que tudo o que é reconhecido como Escritura, ou, tudo o que é canônico, é inspirado ; 2) usa a palavra Theopneustos ,“divinamente inspirada” para destacar a origem divina da Escritura. Exatamente por ter um conceito tão alto das Escrituras, Paulo busca relacionar seu evangelho com elas, fundamentando-o e ilustrando-o com citações e alusões.
(12) Paulo interpreta a Escritura como Promessa e Lei. Ele distingue claramente entre Lei e Promessa, ambas presentes na Escritura (Rm 9.4; 4.13,14; Gl 3.17,18,21). A Lei foi dada com uma função limitada na economia da salvação (Gl3.24,25), mas a Promessa é anterior à Lei e a excede. A Promessa inclui as promessas do AT (Rm 9.4; 15.8; 2Co 1.20; 7.1), a vida (Gl 3.21; Rm 4.17), a justiça (Gl 3.21), o Espírito (Gl 3.14, Ef 1.13), a filiação (Rm 9.8; Gl 4.22), “... em suma, a salvação escatológica.” A Promessa é uma aliança (Gl 3.17;Ef 2.12).
(13) Paulo interpreta a Escritura Cristocentricamente. Cristo cumpre a Escritura, pois nele se dá o sim de Deus para todas as promessas do AT (2Co 1.20). Ele confirmou as promessas (Rm 15.8) e as consolidou (Rm 4.3). Além disso a Lei encontra Nele seu “fim” (Rm 10.4). Ela própria testemunha da justiça de Deus (Rm 3.21). Dessa forma, “Todo o núcleo substancial do evangelho está contido em promessa na Escritura.” a Escritura como um todo testemunha de Cristo e o evangelho de Cristo está em continuidade direta com a revelação do AT (Rm 1.17; 4.3-8,17,18; 3.21; 16.25,25; 1Co 15.1-4).
(14) Paulo interpreta a Escritura Pneumaticamente. Cristo é o centro da Escritura, a chave para o seu entendimento. Mas ela só pode ser entendida dessa forma pela iluminação do Espírito, a partir do evento de Cristo (2Co 3.11-18). Os incrédulos tem seus sentidos “embotados” quando lêem o AT (3.14), e o entendimento “cegado” (4.3,4). O reconhecimento da centralidade de Cristo depende de uma iluminação divina (4.6), por meio da conversão (3.16). Assim, o entendimento da Escritura coincide com a fé em Jesus.
(15) Paulo interpreta a Escritura Escatologicamente. O sentido final da Escritura só seria desvelado no escathon, quando suas promessas se realizariam. A comunidade escatológica é a comunidade que vê diante de si o cumprimento das promessas de Deus, e da própria Escritura (2Co 3.6,14), sendo portanto o destino final da Escritura (1Co 10.11; Rm 15.4). Ela é assim o “Antigo Testamento” (2Co 3.14).
(16) Paulo interpreta a Escritura Tipologicamente. Em 1Co 10.11 Paulo diz que o que aconteceu no AT é “exemplo” (typikos; synenbanein). “... nos eventos narrados na Escritura, devem ser vistos representados ‘tipicamente’ os eventos da vida do leitor.” É o caso de Abraão, cujo relato de sua justificação se dirige a nós (Rm 4.23-25), bem como o relato de sua eleição (Gl 3.6-18) ou dos Israelitas que caíram na idolatria (1Co 10.1-11), ou de Adão (Rm 5.12-21).
(17) Paulo utiliza as técnicas da exegese rabínica. Temos assim elaborados “midrashim” em Gl 3-4, Rm 9-11 e Ef 2. Em Gálatas por exemplo Paulo usa regra midráshica segundo a qual quando dois textos estão em contradição, um terceiro texto pode resolvê-la (3.10-14), ou a técnica de ler um substantivo coletivo como um singular, referindo-se a um indivíduo (3.16-18). . Em Rm 5.15-17 usa a “conclusão a minore ad maius”, em Rm 4.3-8 a conclusão por analogia . Usa também a alegoria própria do judaísmo helenista (1Co 9.9ss; 10.4; Gl 4.21-31).

A Autoridade Apostólica


(18) A tarefa apostólica e as igrejas. O apostolado foi a função mais importante já desempenhada desde o nascimento da igreja. As qualificações para o apostolado eram o ser testemunha ocular da ressurreição (At 1.22; 1Co 9.1), a vocação do Senhor e os sinais e prodígios (2Co 12.12; Rm 15.19; Gl 3.5). O apóstolo tinha de ser considerado como o próprio Senhor , e era incumbido de pregar o evangelho e fundar igrejas (Rm 1.1; 1Tm 2.7; 2Co 2.17-3.3). A autoridade apostólica não significava infabilidade (cf. Gl 2.11ss; At 15.7ss). Também não significava domínio dos crentes. “... a autoridade dos apóstolos parece ter sido exercida mais a nível moral e espiritual, e não haver sido incorporada nas estruturas legais e institucionais.” (2Co 1.24; 4.2,5; 11.20; 1Co 7.23). O verdadeiro apóstolo serve de maneira desinteressada (2Co 11.12).
(19) Paulo Magister: a autoridade divina do apostolado. Como apóstolo, Paulo tinha consciência de ser o agente da revelação, ou do “mistério” agora manifesto (Rm 16.25,26), considerando-se o portador da revelação (Rm 15.19; 1Co 4.1; Cl 4.3; Ef 3.3,5). Por isso a atitude de Paulo para com sua própria mensagem era de que esta tinha autoridade divina; “... suas cartas refletem um senso de autoridade, à luz da qual tem-se que ler todo o pensamento de Paulo.” (cf. 1Co 7.10,12,40; 14.37; 2Co 10.8; 11.6; Gl 1.6ss; 2Ts 3.14; 2Co 2.9; 8.8; Fp 3.15). Paulo reivindica autoridade a partir de sua vocação apostólica (At 9.15,16; 22.15; 26.17,18; Gl 1.15ss; 1Co 9.16ss; 2Co 10.8; 13.10; Gl 2.7-9), e divide a autoridade com os outros apóstolos (1Co 12.18; Ef 4.11).
(20) O conteúdo da pregação apostólica. O conteúdo da pregação apostólica é o evangelho, o mysterion tou euangelion que foi revelado aos apóstolos (Rm 16.25,26; Gl 1.11,12; Ef 6.19), e esse conteúdo inclui tanto a proclamação do fato histórico da morte e ressurreição de Jesus como do seu significado redentor. Esse fato fica bem claro por exemplo em 1 Coríntios. Ao combater uma distorção do evangelho, feita por mestres de tendências helenizantes em Corinto, Paulo os acusou de não estarem realmente entendendo o significado da cruz. Nessa discussão, que transparece ao longo da carta, ele deixou claro que o mistério revelado de Deus envolve não só o próprio fato histórico da morte e ressurreição de Jesus, como também o sentido da cruz, como Deus usou “... a profundidade da humilhação e da degradação como meio de salvação.” (1Co 1.17,23; 2.7). Devemos entender portanto que tanto a totalidade do evento histórico de Jesus, como a interpretação apostólica, que faz parte deste evento, são a revelação.
(21) A autoridade da tradição apostólica. A revelação não é somente o evento histórico passado; tampouco é a confrontação com Deus que ocorre na palavra pregada, como quer Bultmann . Para Paulo, a revelação acontece, não só no evento histórico, mas num sentido, quando o evangelho é proclamado (Rm 1.16; 16.25,26; Ef 6.19; 1Co 1.21). Assim, há uma unidade dinâmica entre o evento e a proclamação do evento, e a proclamação é a atualização do evento. O conceito de tradição em Paulo corrobora com essa idéia. Ele usa um vocabulário técnico das tradições judaicas orais (paradosis;, paradidomi, paralambano) para se referir ao evangelho e aos ensinos transmitidos aos crentes (1Co 11.2,23; 15.1-5; Gl 1.9; 1Ts 2.13; 2Ts 2.15; 3.6). Mas seu conceito de tradição distingui-se do conceito judaico porque a recepção da verdade evangélica significava receber o próprio Cristo como Senhor (1Ts 2.13; 1Co 15.1; Cl 2.16; Rm 10.8,9), possiblilitada pelo Espírito (1Co 12.3). Assim, a tradição tem um caráter histórico mas também um caráter kerigmático-pneumático; e a palavra pregada é ao mesmo tempo palavra de homem e palavra de Deus (1Ts 2.13; Ef 1.13; Cl 1.5,25; 1Co 1.18,21; 2Co 5.19; Fp 1.14; 2.16; 2Tm 2.9,19), e o próprio Deus se encontra com os homens na palavra da cruz. A tradição é tanto fixa (Gl 1.8,9), não podendo ser modificada, como dinâmica, podendo ser aumentada, por meio do ensino dos apóstolos, que revelam as implicações do evento de Cristo. A tradição apostólica faz, portanto, parte da revelação. Em Gálatas, Paulo não nega que a revelação venha por meio da tradição; apenas afirma que, como apóstolo, ele recebeu a revelação do glorificado independentemente da tradição. Mas ainda assim ele reconhecia a tradição, como veremos (cf 1Co 11 e 15).
(22) A natureza e autoridade divina das epístolas. Com toda certeza “somos afortunados em ter uma substancial coleção de fontes primárias do próprio punho de Paulo” As epístolas são produtos do exercício da autoridade apostólica de Paulo, na disciplina, pregação e instrução doutrinária. Elas participam, portanto, da mesma autoridade divina de Paulo como extensões permanentes de sua função apostólica, constituindo o nosso acesso privilegiado ao evangelho de Paulo. Por outro lado, a natureza aliterária e prática das epístolas de Paulo cria dificuldades especiais para seu entendimento. Isso significa que Paulo não era um teólogo sistemático. Johann Christiaan Beker propôs como chave para a teologia de Paulo lermos as cartas como “... interação entre o centro coerente e interpretação contingente” Ou seja, a mensagem única de Paulo é o ponto de partida para suas reflexões e aplicações práticas. Assim, “... podemos reconhecer uma teologia paulina como uma interpretação do significado da pessoa e da obra de Cristo em sua importância prática para a vida cristã, tanto individual como coletiva.” Outra dificuldade na leitura de Paulo é que não temos o seu pensamento completo. O que temos são discussões de sua teologia aplicada às necessidades práticas das igrejas. Assim, o que temos, devemos aos acidentes da história . Por essa razão é um grande erro trabalhar com a suposição de que o que não está nas epístolas necessariamente era desconhecido de Paulo (especialmente a questão da vida terrena de Jesus), pois como bem colocou o autor, “... o silêncio não significa ignorância.” Quanto à falta de enquadramento histórico para certos ensinos de Paulo, devemos evitar juízos absolutos.

ii. A Estrutura Fundamental da Teologia de Paulo:



As Estruturas Teológicas Básicas


(23) A teologia de Paulo opera sobre o motivo-base criação-queda-redenção. Esse motivo base é a estrutura narrativa base da própria Bíblia, estando presente no relato de Gn 1-3, e na estrutura como um todo desse livro. Nessa estrutura fundamental, o cosmos como um todo é tratado como criação, tendo princípio e propósito além de si mesmo. A queda aliena esse cosmos de Deus e a redenção o recupera.
(24) A teologia de Paulo opera dentro de uma estrutura apocalíptica. Paulo vê a história e o tempo de forma linear progredindo para um Telos no qual a redenção prometida se realiza. Esse “telos” é a realização escatológica do plano oculto de Deus de destruir o mal e executar sua vitória.
(25) A teologia de Paulo opera dentro de uma estrutura promessa-cumprimento. Isso porquê, como vimos, Paulo compreende Cristo dentro de sua perspectiva judaica. Assim ele relaciona Jesus ao Deus do AT e à própria narrativa do AT, considerando-a como uma grande promessa.
(26) A teologia de Paulo opera numa estrutura trinitária. Toda a obra redentiva se desenvolve num arcabouço trinitário, no qual o Pai sempre é figurado como a origem, o Filho como o realizador histórico e o Espírito como o aplicador ou implementador da redenção.
(27) A teologia de Paulo é cristocêntrica. É claro que o pivô de toda a redenção é Cristo. Assim a revelação do mistério de Deus é o próprio Cristo; a obra do Espírito é atualizar o próprio Cristo; ele é o centro da vida cristã, da pregação apostólica e da vida da igreja; nele a reconciliação cósmica e a criação do Novo Homem se tornam realidade.

O Centro da Teologia de Paulo


(28)A teologia de Paulo é coerente. A questão do centro da teologia de Paulo está relacionada à coerência e organicidade de seu pensamento. É verdade que Paulo não era um pensador sistemático; suas idéias surgem “espalhadas”, aplicadas às diversas situações que ele enfrentou em seu ministério. Há estudiosos como Heikki Raïsanen que negam que o pensamento de Paulo fosse coerente; seus ensinos seriam declarações “ad hoc”, sem conexão interna, havendo inclusive contradições. No entanto, a profundidade de suas aplicações não seria possível se ele fizesse apenas declarações “ad hoc”. Além disso o próprio Paulo nos indica essa coerência quando revela a origem divina de seu evangelho e se mostra consistente em relacionar as situações práticas do seu ministério a esse evangelho. Negar a coerência de Paulo é negar a autoridade divina de seus ensinos, pois um ensino cheio de contradições não pode ter autoridade.
(29) A teologia de Paulo tem um centro. Se aceitamos a coerência do pensamento de Paulo, podemos aceitar que ele tem um centro. Por centro, nos referimos àquela idéia, ou àquele conjunto de idéias centrais que funcionam como ponto de partida orgânico do seu sistema teológico. Esse centro pode ser ilustrado como uma semente: a semente contém a árvore inteira potencialmente; e mesmo que árvore se desenvolva absorvendo elementos de seu ambiente, esses elementos não se tornam parte da árvore sem serem processados e absorvidos dentro de uma estrutura orgânica. De modo semelhante, o pensamento de Paulo é uma grande árvore, cheia de ramificações, mas derivou de uma semente única.
(30) O que é o centro da teologia de Paulo? Essa pergunta foi feita muitas vezes. A posição Luterana clássica é de que o centro é a justificação pela fé; outras propostas são o Senhorio de Cristo, a apocalíptica, o próprio Cristo, a vinda do Espírito, o Filho de Deus, a Salvação. Todas estas propostas tem uma parcela de acerto. Mas há propostas melhores que outras. Por exemplo, a proposta de James Dunn (o Senhorio de Cristo) é tão geral que “dificilmente toca a complexidade” da mente de Paulo. Já as propostas que tomam um único ponto da doutrina de Paulo (a justificação ou a Filiação Divina) são muito estreitas para dar conta de todo o seu pensamento. As mais promissoras são as que relacionam o centro à salvação ou à escatologia, pois esses temas estão presentes dentro de todos os temas paulinos.
(31) Definindo os critérios. Podemos definir alguns critérios para testar as propostas a respeito do centro : 1) O centro deve respeitar a extensão total das cartas canônicas. Um centro definido a partir de um cânon reduzido é insuficiente; 2) O centro deve ser uma idéia com função seminal. Ou, colocando de outra forma, “... qualquer coisa que é derivada de alguma outra coisa na teologia Paulina não é o centro.” 3) O centro deve considerar quando Paulo expressa consciência de centralidade a respeito de certas idéias. Ou seja, quando ele dá a entender que algo é central, isso deve ser central. 4) O centro da teologia de Paulo deve corresponder ao centro dos planos divinos. Assim, o que Paulo diz ser o eixo das ações divinas deve ser necessariamente o eixo de seu evangelho. 5) O centro deve ser identificável na experiência revelatória de Paulo, uma vez que ele relaciona a origem de seu evangelho à essa experiência.
(32) O centro da teologia de Paulo é a reconciliação. O tema da reconciliação é um tema capaz de preencher os 5 critérios acima, e contém em si as outras propostas de centro que já foram apresentadas. 1) O tema da reconciliação pode ser desenvolvido em todas as cartas. Não se trata no caso de o grupo de palavras relacionado ao lexema “reconciliação” ser proeminente, mas da idéia de reconciliação em si. 2) O tema da reconciliação não é subproduto de alguma idéia cristológica, escatológica ou mesmo soteriológica anterior; ao contrário, está presente dentro de conceitos como justificação, redenção, graça. 3) Paulo claramente resume sua mensagem e seu ministério em torno desse tema em 2Co 5.18-21, Cl 1.15-29 e Ef 3.3-11. 4) Nesses trechos e também em outros a reconciliação em Cristo é localizada no centro dos propósitos de Deus. 5) A reconciliação em Cristo está também no centro da experiência revelatória de Paulo (2Co 5.18; 1Tm 1.12-17).
(33) O Centro e as Estruturas Básicas. Quando dizemos que o centro é a reconciliação estamos conectando as subestruturas e temas de Paulo a esse assunto. Do ponto de vista estrutural, a reconciliação supõe a criação e a queda; ocorre em Paulo dentro de uma estrutura apocalíptica de compreensão; supõe o AT e as suas promessas; e se realiza num arcabouço trinitário-econômico e cristocêntrico.
(34) O Centro e o Novo Homem. Ao longo de nosso estudo será possível ver que um tema se torna tão importante que deve ser colocado juntamente com a reconciliação no centro da teologia de Paulo: a irrupção do novo aeon por meio da criacão em Cristo do Novo Homem escatológico. O tema do novo está presente em definições Cristológicas, soteriológicas, éticas e até mesmo eclesiológicas do pensamento de Paulo. Isso não significa que este tema esteja em competição com a reconciliação; antes, a própria reconciliação, em Paulo, se realiza por meio da irrupção da nova criação e do nascimento do Novo Homem.

A Apokatállasis Trinitária


(35) Reconciliação e Trindade. Paulo usa o verbo apokatallasso em Ef 2.16 e Cl 1.20,22 para falar do ato redentivo de Deus em Cristo, a “reconciliação” de todas as coisas. A reconciliação ocorre num desdobramento trinitário-econômico no qual a redenção se processo e Deus simultâneamente se torna conhecido. Nesse desdobramento as relações trinitárias se tornam a estrutura fundamental do próprio processo redentivo. Obviamente isso implica na presença de um trinitarismo relativamente desenvolvido em Paulo, algo que nem todos estariam dispostos a aceitar, mas eu defendo. O texto-chave, locus central de nossa concepção se encontra na longa ação de graças de Paulo, em Ef 1.3-14. Este texto está estruturado em três seções, cada uma delas ressaltando o papel de uma das pessoas da Trindade na “heilsgeschiche”. Além disso, a celebração da salvação divina utiliza uma linguagem trinitária, Isso fica claro logo no vs 3, onde Paulo fala sobre o “Deus e Pai”, que nos abençoou, de “nosso Senhor Jesus Cristo”, no qual participamos das bênçãos nas regiões celestes, e qualifica as bênçãos como “Espirituais”, apontando claramente para a ação do Espírito Santo . O fim de cada uma das três seções é delimitado pela decaração do fim supremo de todas as coisas, a glória de Deus (Ef 1.6,12,14).
(36) O Pai, Origem. Em Ef 1.3-6 o personagem central da ação de graças é claramente o Pai. Ele abençoa, elege com propósitos definidos, predestina conforme seu beneplácito, e faz tudo para o louvor da sua glória. Sua função é assim ser a causa, a origem, a mente que traz à existência a redenção; e nesses atos decretativos, o motor de tudo é o seu amor e a sua graça, que será louvada.
(37) O Filho, o Ponto Fulcral. A partir do vs 7 o pronome relativo (“no qual”) denota a mudança no personagem central; agora Paulo fala do “Amado”, “no qual temos a redenção pelo seu sangue.” Está claro que aqui já não focalizamos a dimensão eterna do plano redentivo, mas a sua realização histórica na pessoa de Jesus, e na sua morte. Nele aconteceu o “desvendamento” do desígnio eterno e o derramamento da sabedoria divina (vs 8,9). Aqui Paulo já apresenta a estratégia divina para reconciliar todas as coisas, falando da “anakephalesis” (convergência, encabeçamento) de todo o cosmos na pessoa de Jesus. Esse é, como veremos, a meta da história da redenção. Paulo ainda inclui a salvação dos crentes nessa moldura cósmica, dizendo que nós também nos tornamos herança por meio de Jesus (vs 11,12). Tudo isso é, novamente, a manifestação das riquezas da graça (vs7) para o louvor da Sua glória (vs12).
(38) O Espírito, o Penhor. Finalmente, Paulo desce ao nível da experiência cristã, quando fala do ouvir e crer no evangelho; nesse ponto acontece a recepção do selo do Espírito, que é o “penhor” da herança. O “penhor” era um pagamento que tanto antecipava parte da dívida como garantia o pagamento final; era algo como o “sinal” de hoje. O ponto é que no Espírito os crentes experimentam desde já as realidades escatológicas que ainda aguardam a consumação (vs 14). Tudo para a glória de Deus (vs 14).
(39) Outros Textos. Essa estrutura aparece “espalhada” nas cartas. Em 2Tm 1.9,10 por exemplo, a graça é apresentada como algo dado pelo Pai “antes dos tempos eternos”; essa graça se tornou “manifesta agora” (fanepwqei~san nu~n) pelo aparecimento histórico de Jesus (vs10). Depois, em Tt 2.4-7 Paulo diz que a manifestação do amor de Deus se consumou na nossa regeneração por meio do derramamento do Espírito. Essa estrutura trinitária no desdobramento da ação salvadora de Deus é belamente resumido por Paulo em 2Co 13.13: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós.” Vamos usar esse verso como ponto de partida para estruturar nossa exposição.

Teologia e Ética


(40) Uma pergunta muito importante é sobre a relação entre a teologia de Paulo e suas orientações éticas. Existe uma tendência de ler as exortações éticas de Paulo separadamente de sua teologia. Isso é um erro. O programa ético e mesmo eclesiológico de Paulo está fundado em seu evangelho. O ponto chave é a consciência da manifestação histórica do amor de Deus na criação de um Novo Homem em Jesus. Essa consciência da irrupção de uma nova realidade é o eixo do sistema ético de Paulo. Como veremos, suas exortações podem variar bastante devido aos diferentes contextos no qual o evangelho precisa se tornar relevante, mas elas sempre partem desse eixo. J. Christiaan Beker de Princeton foi quem formulou a teologia de Paulo como uma tensão entre um “centro coerente” e as “interpretações contingentes”. O “centro coerente” seria a percepção da vitória apocalíptica de Deus como algo que já se iniciou, e as interpretações contingentes, as discussões teológicas e práticas que levaram ao amadurecimento do pensamento de Paulo e a produção de suas epístolas. Esse modelo pode ser aplicado ao entendimento de como a teologia de Paulo se transformou em um projeto ético concreto.

Referências

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