A cor do medo

Anderson Alencar - Storm - Amor bandido

 

Noite. Escuridão, assombração, medo, tremores e terrores.
Nada vejo que me acalme.
Encolhido no meu canto, assustado, mais que isso apavorado.
A única luz que corta o cenário é o relâmpago que aumenta esta sensação de fragilidade, de ser pequeno, de ser quase nada ou ser nada mesmo.
Parece que o parkinsonismo toma conta de mim, e eu nem sou parkinsônico.
Lembrei-me de meu filho, de sua doença, do seu sofrimento do meu sofrimento.
Lembrei-me da morte rondando seu leito.
Lembrei-me dos seus olhos distantes e incrédulos sem susto, mas tristes, muito tristes.
Lembrei-me dos olhos que olhavam para o nada. Os olhos de meu pai quando se foi nem sei para onde, sei que se foi de mim.
Tudo no universo tem cor, mesmo não tendo cor nenhuma.
Flagro-me rezando.
Como rezando se sou ateu. Rezo nem sei para quem, mas sei por quem. Rezo por mim.
Prometo ir a igreja.
Que igreja? Pouco importa.
Igrejas são todas iguais quando vazias
Se deus existisse só entraria na igreja quando ela não tivesse ninguém ou uma pessoa apenas ou umas poucas, porque só nos encontramos espiritualmente, a sós ou quase a sós.
Ribombar, nossa que nome é de assustar, dos trovões levam meu cão á loucura. Dizem que os cães vêem coisas, mas se ele visse o que imagino morreria de medo.
Camille viu a beleza das cores, Dante viu a vida nos horrores, Vitor Hugo a miséria, Steve Wonder nem as cores consegue ver, mas eu, eu vejo o apocalipse.
Cada lampejo de luz é um novo terror.
Não pelo que eu vislumbro, mas pela escuridão que me oprime, me escraviza, me ameaça e que virá a seguir com suas lembranças apavorantes.
Dormi anestesiado pelo terror, mas dormi.
O sol ilumina o palco que ontem era de angústia.
Desperto e sorrio aliviado.
Ontem á noite, compreendi tanta coisa, lembrei de Shakespeare quando disse que: ...há mais mistérios entre o céu e a terra do que consegue conceber nossa vã filosofia...
Hoje sou forte, guerreiro, corajoso e belicoso sei que meu pai não volta, mas, meu filho ficou e ficou bem.
Mas, algo mudou.
Mudou para sempre se é que existe o para sempre.
Só o que nos muda é o medo ou a falta dele, a insanidade
Descobri de uma maneira terrível exatamente o contrário do que Camille descobriu.
Ela vê a beleza, a luz e deslumbrou as cores da vida.
Eu ao contrário, só vi sofrimentos, angústia e tristeza mas, também descobri algo.
Ontem á noite, na escuridão e com minhas lembranças, eu descobri a cor do medo.

 

 

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