Lembrei de minha juventude e nela as
pessoas que a fizeram.
Morava num subúrbio pobre do Rio de Janeiro,
numa rua típica da época.
Cadeiras na calçada, sempre um violão,
refrescos e em junho bombas, balões, fogueiras, traques, busca-pés,
diabinhos malucos, etc. etc. etc tantas coisas que pintavam a existência
nessa época.
Uma figura dessa pintura era a Dona Orcília.
Dona
Orcília seria hoje uma jovem senhora sem as vaidades que as revestem.
Era simples, humana, boa, simpática e divertida. Para melhor descrevê-la
só dizendo que ela era a Dona Orcília.
E o que fez Dona Orcília ser
merecedora de minhas lembranças e dessa crônica?
Ora ela merece isso
porque era a Dona Orcília pessoa que durante muitos anos foi usada como
parâmetro por mim de alguém especial.
Ela era casada com seu Almeida
35 anos mais velho do que ela. Ele era mais pai que marido, quase avô.
Não falava com ninguém nem com ela.
Quando a conheci ela tinha 35
anos e ele 70.
Tinham uma filha. Era a Jurema que aos treze anos já
era uma mulher, não moralmente ou sexualmente, mas fisiologicamente e na
aparência. E que mulher.
Nela dei meu primeiro beijo de língua e
tremíamos muito, eu e ela.
Parecia que estávamos com a doença de São
Guido, a que dá tremedeira era assim que chamávamos essa doença.
Eu a
beijava e corria, pois nessa época beijo era pecado.
Mas não é esse o
fato que me lembra essa época.
Dona Orcília era uma pessoa especial.
Fazia balões juninos, fogueiras e vendia fogos. Não foguetões, mas fogos
pequenos. Estrelinhas, riscadores que iluminavam a noite, tira sorte que
estourava e tinha uma mensagem sempre igual, mas que nos enchia de
esperanças. Sempre falava que íamos ser bem sucedidos, muito amado e
outras coisas que adoramos ler.
Sua barraca vendia mais que fogos,
vendia carinho, boas historias, risos francos, alegrias, sonhos e que
sonhos e nem cobrava por eles.
Ali estava a menina de trança, sardas
e boquinha de batom. Ali estava o amor o desejo puro, não o meramente
sexual.
Mas Dona Orcília com seu riso franco, não podia rir muito.
Ela ria e tossia e tossia muito, tanto tossia que sangrava. Sangrava
pela boca, hoje sei ser hemoptise.
O que tinha de ruim no pulmão
tinha de bom no coração.
Minha mãe dizia: olha meu filho não beba
água na casa da Dona Orcília, mas nunca me disse o porquê e eu não podia
entender se beijava a filha dela na boca porque não beber água na casa
dela.
Uma noite quando cheguei encontrei meu pai me esperando na
esquina e estranhei, mas depois entendi. Ele me disse: meu filho Dona
Orcília morreu.
Seu corpo jazia entre velas na sala onde tantas
piadas e historias ela contou e eu curti.
Ela apenas dormia um sono
que eu e não ela jamais despertei.
Tenho vergonha de nem ter chorado,
tenho vergonha de não ter amparado a Jurema. Seu Almeida já tinha
morrido há mais de um ano e só ficou a menina e o Tupi seu cão tão velho
como seu Almeida e tão chato como ele também.
A morte dela nem abalou
a minha alegria pelas festas juninas o que de certa forma foi uma
injustiça, pois, ela era depois de Santo Antonio, São João e São Pedro o
mais importante e valoroso nestas festas, mais mesmo que os balões e os
fogos.
Já se passaram mais de 45 anos e até hoje não encontrei
ninguém como Dona Orcília.
Foi que eu me lembre, a primeira
mudança de dimensão da minha vida.
Não foi o mundo que mudou e sim eu
que fui para outro lugar no tempo no espaço e nesse lugar Dona Orcília
não foi.
Hoje já se foram meu pai, minha mãe e ate quem nem deveria
ter ido pela juventude e juntamente com a saudade deles eu sinto saudade
da Dona Orcília muito mais do que antes.
Nunca mais soube da Jurema
cuja boca estreei e cuja minha boca ela estreou também. Não solto mais
fogos, nem balões e as barraquinhas juninas nem existem mais como nem
mesmo as festas juninas em família.
Hoje existem festas meramente
comerciais, a maioria com fins lucrativos sem que entendam que a alegria
e a felicidade são o maior lucro da vida e não tem preço.
Toda vida
procurei alguém, que me restabelecesse nessas novas dimensões a alegria,
a felicidade e a pureza que sem saber á época enterrei no caixão da Dona
Orcília.
Quando ela morreu como boa umbandista ela disse: vou com
OXALÀ.
Hoje eu digo OXALÁ ela não tivesse ido, pois nunca mais eu
soube ONDE ESTÁ DONA ORCÍLIA.