ESSES CARROS
Anderson Alencar



Lendo um interessante conto da escritora Camille Claudel não poderia deixar de lembrar de algo engraçado e constrangedor que me ocorreu e que de certa forma muito se identifica com o conto da simpática colega.
Esses carros, esses saudosos e charmosos carros velhos que hoje nos trazem gostosas recordações, algumas delas são realmente deliciosas, mas á época nos causavam ímpetos de raiva, de ira incontida e eu vivi um desses ímpetos.
Foi o meu primeiro veículo motor porque eu conduzia uma carroça puxada a burro que me trazia tanto sofrimento e trabalho que ás vezes eu achava que o burro era eu e diversas vezes percebi um cínico sorriso no focinho desse inteligente animal que só trabalhava quando queria.
Sempre foi ele que me conduziu.
Bem o burro se recusava a me transportar e depois de ter uma séria discussão com o quadrúpede resolvi vendê-lo
Com o dinheiro da venda, comprei um carro.
Era um Pontiac 1954 tão feio e velho como eu sou hoje. Talvez um pouquinho melhor. Diria melhor. Para ser honesto era bem melhor, mas mesmo assim deixava a desejar.
Esqueci de dizer que ele era conversível.
Eu o comprei financiado e devido à crise resolvi após compra-lo de surpresa estreá-lo buscando meu pai na cidade e trazer suas compras, pois o pai morreu trabalhando.
Ele vendia desinfetantes para completar o salário da sua aposentadoria não porque precisasse desse dinheiro para sustentar a minha velha mãe e sim para sustentar suas amantes.
Coitado do pai adorava uma fêmea, mas como nessa época não existiam computadores e os telefones eram difíceis de comunicação, restava ao pobre transar ao vivo e não era barato, mas que felizmente nossa geração ficou livre.
Como eu dizia para agradar o velho e tentar sua “colaboração” para ajudar a cumprir o compromisso de pagar o carro que nessa ocasião eu chamava de carrão, cheguei de surpresa onde ele naquele horário comprava a mercadoria para fabricar o produto que comercializava.
O tempo bonito, 17 horas em horário de verão no sensual Rio de Janeiro de belas mulheres, pessoas simpáticas, alegres cantantes e sorridentes e muito gozadoras, fato que pouco depois constatei.
O meu sorriso superava todos os demais.
-Benção pai.
-Deus te abençoe filho, mas o que é isso.
-Meu carro pai; e eu vim aqui buscá-lo, sei que o senhor deve estar cansado e vim lhe ajudar.
-Ora, ora muito bem, mas estou com um amigo o Cerqueira e ele vai para onde vamos posso oferecer uma carona?
-Claro pai o carro é do Sr. Também
Sem saber onde se metia meu bom velho voltando-se para o amigo falou: Cerqueira você conhece meu filho, esse maluco comprou um carro e você vem conosco, convite logo aceito pelo colega do velho.
Aboletaram-se no banco de trás e eu acompanhado de um amigo, nessa época acreditava em amigos, sentei-me elegantemente ao volante e comecei o caminho de casa.
Mas, quis deus o sempre gozador em conluio com São Pedro outro cara hilário me sacanear e virando-se para o barbudo e nem havia o PT, falou: Pedro esse cara um dia vai desacreditar de mim, será um maldito ateu e portanto vamos logo preparar a cama dele, olha só o que vamos fazer.
E como num filme onde o plano vai dar certo cochichou algo para Pedro que sorrindo cinicamente apertou um botão e despejou inesperadamente um típico temporal de verão carioca.
Eu com uma cara de quem sabe muito, essa cara eu nunca perdi, acionei a capota automática que com um barulho de assustar o bicho papão nem se mexia.
Insisti, mas ela era mais teimosa do que eu.
A imagem do meu burro surgiu em minha mente.
Tentei e tentei e tentei e o temporal desabou, desses de assustar, terrível, devastador.
Meu pai aguardava enquanto um esgar de raiva começava a surgir em seus lábios e o velho sabia assustar.
Como um homem prevenido sempre carregou a tiracolo um guarda-chuva, hoje devido aos constantes assaltos esses objetos foram abolidos, não pelo seu valor , mas porque ninguém sabe a verdadeira intenção de um assaltante.
Cena de pastelão. Carro conversível, chuva torrencial, trânsito caótico, meu pai e o amigo abraçados um ao outro para aproveitar o único objeto que poderia amenizar o terrível dilúvio sobre eles, e o pior, o terrível, as galhofas de quem do lado de fora ou dos ônibus observava a estranha cena.
- Ô babaca esta pegando um sol? Falavam uns.
- Aí hein! Isso é que é amor até debaixo d´água, falavam outros
- Nossa parecem dois pombinhos, pombinhos não, dois peixinhos.
Não me lembro em toda vida de um mutismo tão angustiante como o meu e uma cara tão terrificante como a do meu velho e isso para não falar na cara de arrependimento do amigo dele.
A Chuva parou ao chegarmos em casa.
Silêncio.
Meu pai permanecia sentado sem nada dizer e seu colega idem.
Quebrei o silencio cortante e disse: não entendo o que aconteceu, eu testei diversas vezes essa capota.
Novamente apertei o botão e então a surpresa: a capota preta brilhosa ascendeu vagarosamente e para coroar a tarde despejou toda água acumulada nela, quando fechada se enchia d´água pois formava um bolsão, sobre meu pai e o amigo arrependido pela carona.
Naquele momento chorei copiosamente de saudade de meu burro.
Ah! Esses carros.
 

 

 

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