O Ninho

 

 

O Quarto escuro

 Um amigo de meu filho Alexandre está com LLA conhecida como leucemia leucocitária
aguda. Essa notícia caiu sobre nós como uma bomba.
Perdera uma menina que amávamos como se filha legítima fosse, Luciana com essa mesma e terrível e pouco desconhecida doença e quase perdi um filho Alexandre com aplasia  aguda, uma doença sangüínea e sanguinária da mesma perversidade da LLA.
Eu sou ateu e faço absoluta questão de ratificar isso e acho que o religioso especialmente  o dogmático em sua maioria é um tolo, covarde, acomodado.
Bem eu sou tudo isso, mas pelo menos sou ateu, porque creio nas doenças e até na sua
cura porque eu vivi e vivo isso há muitos e muitos anos. Eu via a morte e a salvação,
eu vi meu filho quase morto, eu estive quase morto quando baleado e não foi no saco,
eu sofri grave acidente de pára-quedismo e também não caí de saco. Sofri alguns graves
acidentes de moto e num deles tive um coma de 18 dias, mas o saco continuou incólume..rs,  depois disso tudo ainda gerei mas cinco filhos e são tão burros como eu, por isso só podiam  ser meus filhos coisa que nem todos podem garantir. Esse medo eu não tenho? Ou terei?  Hummmmmm esse DNA é cruel rsss
Voltando a vida, entendi que nada está escrito, não há destino, nem deus, nem diabo,
nem bem , nem mal independente. Só existe o homem e ele é o deus, o diabo, o bem, e o mal.
Mas uma coisa também sei: somos o produto, não do meio, nem o meio é produto do homem como afirmam alguns,  somos simplesmente o produto de nossas emoções.
São elas que criam todos os deuses e todos os santos , todos os monstros e toda nossa
fantasia, todo o bem e todo o mal, mas principalmente todos os nossos sonhos sejam eles bons ou maus. Somos o produto das emoções que recebemos.
Eu por exemplo sou a coragem porque assim fui educado mas sou o medo porque ele era a única coisa que fez com que a minha coragem não superasse o meu discernimento. Todos só respeitamos uma coisa: o medo.
O medo é nosso algoz, mas é ao mesmo tempo o nosso guia. Ele nos assusta, mas nos protege.
Ele gera o amor,  mas gera a desconfiança. Ele gera a nossa certeza, mas também a incerteza.
Ele gera o conhecimento do que somos, mas gera principalmente a terrível inveja. Esse é o pior dos medos o de ser superado por outra pessoa.
Eu sou a razão e a emoção, o bem e o mal, a alegria e a tristeza a coragem e a covardia,
mas quem diz isso e quando sou o eu sou, é o meu medo.
Sabem de algo interessante, há um medo que é danado, é o medo da verdade e esse eu temo e muito.
Um pai que ama o filho de verdade não se preocupará salvo por necessidade de uma
investigação criminal de pedir um DNA porque se houve o amor mesmo nenhum resultado mudará isso.
Quando analisado sobe a probabilidade de ser doador de medula para meu filho todos da família fomos submetidos a um exame de compatibilidade e para isso o de paternidade e um monte de outros deles foram necessários.
Ao pegar o resultado eu li assustado e para minha decepção estava no exame algo terrível que me deixou louco.
Dizia Colesterol alto.
Foi só isso de ruim alem de eu não poder doar a medula para meu filho. Como vocês são
bobos. Todos são meus filhos mesmo até alguns que nem sabem.... rsss
Bem, a origem de meu titulo foi o meu grande medo da infância
Quando menino, estudei em colégios de muita disciplina inclusive o Colégio Militar.
Eu era como ainda sou um rebelde, mas o pior e o mais ofensivo e hoje entendo isso,
é que eu pensava e quem pensa contesta e era uma época que parecia anti Pestalozzi onde imperava como na igreja o castigo físico a palmatória e outras barbáries.
Uma porem era para mim a pior de todas, o meu terror e que me acompanha até hoje não sob o mesmo prisma, mas  simbolicamente falando, o quarto escuro.
No meu colégio um velho casarão tipo medieval tinha um quarto com uma porta verde e lá dentro escondia-se o terrível mistério porque lá era o quarto escuro da caveira.
Escuridão e morte, caveira é a morte.
Nada pior ela infelizmente iguala a todos e acho que por isso mesmo inconsciente tinha
tanto medo.
Dois terrores: a escuridão onde mora o desconhecido e o desconhecido que já era conhecido, a caveira, a terrível e repulsiva caveira o símbolo da desprezada igualdade.
Desde então esse terror me acompanhou.
Entendo que não é do que acontece que tememos, mas sim das suas conseqüências.
Não era do castigo que eu temia mas sim do que faria a minha mãe que era nada mais
nada menos do que o Torquemada da inquisição e eu nem podia matá-la, não porque temesse isso mas porque iria preso e também não era a prisão que me assustava mas sim o que eu deixaria de fazer estando preso.
Nada assusta pelo fato, mas sim pelas suas conseqüências.
Hoje o amor é meu quarto escuro, não por amar, mas pelo sofrimento que ele poderá me
causar e causar a quem amo.
Raramente eu amo, mas quando amo, amo muito porque não sei fazer nada pouco e ate o mal  que causo é excessivo ele sempre vai além do crime o que nem a lei permite.
Resta menos para viver do que o que vivi e como no momento matemático o produto da
intensidade de como viver multiplicado pelo tempo de vida deve ser no mínimo igual ao
tempo que vivi multiplicado pela intensidade da minha vida, só assim o sistema binário
se manterá em equilíbrio.
 Quando essa resultante for zero estarei morto porque só na morte encontramos o equilíbrio.
Entenda, hoje o meu quarto escuro é te perder, não por te perder porque não é o fato e sim  a conseqüência é que se te perder meu tempo restante será como zero e sendo assim estarei morto.
Ao terminar esse conto recebi a notícia de que o amigo de meu filho havia morrido.
Acho que deus o abandonou porque ela já estava podre em vida e deus não gosta de cheiros ruins.  

Anderson Alencar que sabe que se deus existisse nunca seria um lixeiro porque detesta cheiros desagradáveis.
 

 

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