Retorno a outras reflexões sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, depois de ter procurado identificá-la em artigo anterior, na pessoa de Edir Macedo, seu fundador, nas grandes linhas de sua atuação no Brasil e além fronteiras. Empenhada em uma teologia conhecida como da prosperidade, a Universal do Reino, mais uma empresa que uma comunidade de fé, expande-se a olhos vistos por "franquias", como o Mc Donald's. Não lhe faltam recursos para altos investimentos na construção das "catedrais da fé", rádios e televisões. O texto citado por mim, do livro "Confissões do Pastor", de 1997, do presbiteriano Caio Fábio, embora forte, vai bem além nas negativas impressões que teve de Edir Macedo após diversos encontros.
Perguntam-nos alguns leitores se, além da repetitiva acentuação da
Universal do Reino, no "dar generosamente para receber mais de Deus"
e dos princípios comuns a todos os protestantes - somente a Sagrada Escritura
e seu livre exame pelo fiel, justificação pela fé, não pelas obras etc. -
se a Universal do Reino em questões de fé e de moral, se afasta da Igreja
Católica em outros pontos. É certo que sim, no que proclama, principalmente
em certos princípios morais. A leitura da "Folha Universal", semanário
difundido à farta, deixa claro que o auto-entitulado bispo Edir Macedo, sua
Igreja e dirigentes não admitem a autoridade do magistério e primado do
Papa, a instituição do sacerdócio e de vários Sacramentos, além do
batismo, do episcopado e do que chamam de "ceia eucarística".
É em questões éticas que a Universal do Reino mais se distancia da Igreja Católica: nos campos da moral dos negócios, da moral sexual e familiar. Para ela os fins justificam os meios, o casamento é descartável e, na intimidade da vida conjugal, cada qual procede como quer. A leitura de seu semanário, dos livros de Edir Macedo e outros líderes da Universal do Reino, deixa evidente serem permissivos quanto ao divórcio seguido de segundas núpcias, à conduta sexual pré-matrimonial e aos contraceptivos, em especial os preservativos. Na prática, os interesses financeiros sobrepõem-se aos de uma séria comunhão com Deus, ao decálogo e às bem-aventuranças. Leia-se o livro do sociólogo Ricardo Mariano, "Igreja Universal do Reino - Os conquistadores da fé" (Paulinas, SP): "A tônica da vida financeira foi tema do discurso da Igreja Universal desde sempre". Não me lembro de ter lido ou ouvido em programas radiofônicos e televisivos da Universal, algo sobre o julgamento final, no qual Cristo separará para sempre os "bons dos maus" (Mt 25, 31-46).
Os posicionamentos da Universal do Reino, proclamando-se superior a todas as
Igrejas, os seus freqüentes ataques à Igreja católica e aos grupos
afro-brasileiros, acabaram marginalizando-a até mesmo dos Conselhos de
Pastores. Nem pensar em uma possível colaboração ecumênica na oração,
reflexão e ação comum. Edir Macedo e seus seguidores são reconhecidamente
sectários: fora da Universal do Reino não há salvação! O maniqueísmo
leva-a a classificar todos os demais como infiéis sem salvação. Nem os
protestantes "históricos" ou "pentecostais" suportam a
Universal do Reino, considerando-a responsável pelo desprestígio das demais
Igrejas evangélicas.
Tão preocupante como o que viemos lembrando é o messianismo que Edir Macedo acabou se dando. Não é Cristo que salva: é a Universal do Reino. Mais ou menos como prega o Reverendo Moon da Igreja Messiânica, vinda da distante Ásia. Esse messianismo que relativiza tudo mais, acabou levando a Universal do Reino ao empenho não negado, de uma luta pela conquista do poder político. É notório o esforço da Universal do Reino na eleição dos seus candidatos, geralmente bispos, para as Câmaras Municipais, as Assembléias Estaduais e o Congresso Nacional. Em Portugal transformou-se em Partido político, lançou candidato próprio à presidência e perdeu feio. O poder político é buscado não para a promoção do povo, mas como meio que beneficie a própria Igreja. A autoridade não é tida como um serviço mas como um domínio. É o que explica a estratégia da Universal nas eleições que se sucedem e nos compromissos dos seus eleitos, como procede o deputado federal bispo Carlos Rodrigues, oficialmente "coordenador político" da Universal.
Qualquer leitor inteligente e que tenha senso crítico, acabará preocupado
com os posicionamentos, diretrizes, rumos da Universal do Reino e com o
seu sectarismo presente. O futuro permite antever conflitos religiosos, à
medida que essa Igreja se expanda, como vem acontecendo dados os recursos de
que dispõe e o agressivo marketing que a distingue. Nos artigos que venho
escrevendo sobre a Igreja Católica e as Protestantes, deixei claro o nosso
bom relacionamento com as Igrejas ortodoxas e evangélicas, nascidas nos séculos
XI, XVI e XVII. É, também, relativamente tranqüila a convivência da nossa
Igreja com os grupos congregacionais como a Assembléia de Deus, a Cristã do
Brasil, a do Evangelho Quadrangular e outros menores. O problema vai se
agudizando dia a dia na difícil convivência com a Universal do Reino. Queira
Deus que o futuro venha a provar que esteja equivocado...