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Em pleno horário nobre da televisão, demônios e almas de má índole estrelam uma estranha atração, com ares de reality show. O programa Coisas da Vida, apresentado diariamente às 20 horas pela Rede Gazeta para São Paulo, Recife, Florianópolis e Belo Horizonte, exibe cenas super-realistas captadas em cultos da Igreja Universal do Reino de Deus. Elas mostram fiéis pretensamente possuídos, submetidos a humilhantes rituais de exorcismo. O show é entremeado por histórias de ficção, protagonizadas por atores amadores, em que os personagens têm a vida infernizada por pragas rogadas por sogras, ex-namoradas e falsos amigos. Dramas de toda sorte, martela o programa, são causados por 'encostos', almas penadas que, segundo os ditames das religiões afro-brasileiras, têm o dom de entravar a vida das pessoas. Provocam de tudo: de dores de cabeça e crises de depressão a ataques de formigas na cozinha. Às vezes, a retórica fica ainda mais macabra. Em vez de encostos, exibe-se o que seria a manifestação do próprio demônio. Num desses programas, o bispo da Igreja Universal
Romualdo Panceiro interroga, no púlpito, uma fiel que se debate, como
se estivesse possuída. Com voz rouca e enrolada, ela se identifica como
um 'mau espírito' - a serviço de inimigos da pobre mulher. O bispo,
então, a agarra, puxa seus cabelos, torce-lhe o braço e verga seus
joelhos. No ponto alto da cena humilhante, Panceiro pergunta quais
desgraças o anjo caído causa na vida daquela cristã. A voz gutural
retruca: O bispo assegura-se de que a platéia extasiada da Catedral da Fé, maior templo da Universal em São Paulo, acompanhou o depoimento. Depois, encena a expulsão do espírito. Profere uma oração invocando o poder de Jesus e ordena que ele deixe o corpo sofredor. A fiel acorda do transe. Encerrado o espetáculo, o mesmo bispo exorcista completa a pregação. Diz que dificuldades da vida de todo tipo são causadas por olho gordo ou feitiçaria materializados nos 'encostos'. E a única coisa a fazer é correr para um templo da Universal e submeter-se a um ritual de exorcismo - as 'sessões de descarrego'. Na sexta-feira 18, o programa se superou ao exibir o exorcismo de um jovem em conflito com sua sexualidade. Ao expulsar o 'encosto', o bispo explicou que as inclinações gays do rapaz eram resultado de um 'feitiço' encomendado por um homem que se apaixonara por ele. 'Agora você pode engrossar sua voz. O encosto foi embora', disse. Esses rituais são corriqueiros em cultos da Universal e de outras igrejas neopentecostais - aquelas que acreditam em manifestações sobrenaturais e ä curas milagrosas. Mas, para não assustar, os líderes neopentecostais evitavam mostrar essas imagens na televisão. Quando muito, aventuravam-se nos horários da madrugada. A novidade é que, pela primeira vez, os exorcismos se transformam em instrumento de proselitismo eletrônico. Essa ofensiva no horário nobre é uma resposta da Igreja Universal ao crescimento de uma organização rival, a Igreja Internacional da Graça de Deus - cujo líder, o missionário R.R. Soares, tornou-se o homem que mais tempo se expõe na televisão brasileira. Os cultos televisivos de R.R. Soares são transmitidos em quatro redes de televisão e ocupam cerca de 100 horas semanais de programação da TV aberta. Até o início do ano, quem estava no horário do Coisas da Vida na Rede Gazeta era Soares - mas ele alugou o mesmo horário numa rede de alcance maior - a Bandeirantes -, onde apresenta hoje seu Show da Fé. Estima-se que pague R$ 2 milhões por mês à emissora. A igreja de Edir Macedo revidou. Comprou o horário da Rede Gazeta e passou a competir com ele. Os cultos das duas denominações evangélicas são muito parecidos. Têm, aliás, a mesma origem. No fim dos anos 70, Macedo e Soares, que são cunhados, fundaram a Igreja Universal. Depois de uma briga, houve um cisma e o missionário criou uma igreja concorrente. Onipresente na televisão, Soares conquista espaço e audiência. Se a Igreja Universal, que comprou a Rede Record em 1991, tem 2,5 milhões de fiéis, calcula-se que a Igreja Internacional da Graça de Deus já reúna 500 mil deles. R.R. Soares também promove sessões de exorcismo em seus templos, mas se abstém de exibi-las no vídeo. 'Se eu pudesse, mostraria. Mas isso assusta o espectador', justifica. Entre as denominações evangélicas do país, a Universal, a Graça de Deus e a Igreja Deus É Amor são as que mais exploram a prática do exorcismo nos cultos para captar fiéis. 'Como a Deus É Amor não usa o espaço da TV e a Graça de Deus evita exibir tais cenas no vídeo, a Universal aposta sozinha na estratégia de caçar encostos', diz Ricardo Mariano, sociólogo da PUC do Rio Grande do Sul e especialista em religiões neopentecostais. A audiência auferida pelo Ibope mostra que a estratégia de R.R. Soares atrai mais audiência. O Show da Fé, visto por 72 mil domicílios na Grande São Paulo, alcançou 1,6 ponto no Ibope no mês passado, três vezes mais que o Coisas da Vida, da Universal, com seus rituais explícitos de exorcismo. Igrejas de massa precisam dominar a televisão para sobreviver. Programas de rádio e televisão religiosos não atraem receita publicitária, mas não há modo melhor de chamar fiéis para os templos - o verdadeiro celeiro de ofertas. Oito em cada dez fiéis que chegam a um templo de Edir Macedo foram cativados pela pregação no vídeo. A cada minuto, o programa da Universal exibe o telefone do SOS Espiritual, que fornece o endereço da igreja mais próxima do espectador. 'A TV é vital para garantir que o crente vá a um templo e lá entregue dízimos e ofertas', diz Regina Novaes, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).
Ainda que impressionem à primeira vista, os transes testemunhados nos templos e nas TVs da Igreja Universal recorrem a truques conhecidos. A começar por uma mensagem sedutora: o pastor diz que o fiel é uma boa pessoa e todo o mal que ele faz ou sofre é causado por um espírito maligno. Quem vive dramas insuperáveis se entrega facilmente à fantasia. 'As pessoas são sugestionadas pela voz autoritária do pastor até atingirem uma espécie de estado hipnótico', diz a psicóloga paulista Denise Ramos. A repetição das orações em voz alta, de olhos fechados, conhecida pela medicina como respiração holotrópica, produz um fenômeno de superoxigenação no cérebro. O resultado é um rebaixamento dos níveis de consciência. Quem está no meio de um agrupamento tomado pela euforia tende a se deixar contaminar pela emoção. Há um mecanismo do sistema límbico do cérebro, o mais básico da área nervosa, que induz a pessoa a se comportar segundo as atitudes da multidão que a cerca. 'É por isso que choramos em comícios ao ouvir o Hino Nacional', compara Denise Ramos. A gritaria dos milhares de fiéis que participam das sessões de descarrego contagia quem está lá carregando conflitos psicológicos. 'O povão não tem acesso à psicanálise. As pessoas procuram esses cultos populares para aplacar seu inferno interior', diz o pastor Mozart Noronha, da Igreja Luterana do Brasil. Pastores e seus auxiliares, chamados de obreiros, aprendem a induzir o transe. 'Quando a pessoa está tonta, fica mais aberta para manifestar os demônios', diz a obreira Aparecida Santos, ex-fiel da Igreja Universal, atualmente na Igreja Internacional da Graça de Deus. Ela ä costuma pôr a mão na cabeça dos fiéis e fazê-la rodar. Outro recurso que funciona é tocar músicas altas no teclado, com acordes bem tenebrosos. 'Porque o demônio não gosta de silêncio', explica a obreira. Aparecida aprendeu as técnicas do exorcismo na Universal, onde passou cinco anos como auxiliar de pastores. Está convencida de que as cenas na igreja são manifestações reais de entidades do mal. 'O diabo está lá mesmo', afirma. Só discorda dos métodos de sua ex-igreja. 'A Universal expõe muito a privacidade da pessoa.' Nos cultos dos quais participa hoje, Aparecida identifica quem está possesso e o encaminha a um canto da igreja. A Igreja Católica vê as aparições de diabos e semelhantes nos cultos neopentecostais como fraude grosseira. 'É como se fosse um show em que os pastores exibem o diabo subjugado como se fosse um animal na jaula', diz o padre Cleodon de Lima, de 36 anos. 'Se a intenção fosse curar a pessoa, não precisaria mantê-la tanto tempo diante da platéia, sendo ridicularizada.' Até o século XIX, crises histéricas ou casos de dupla personalidade eram interpretados por padres católicos como possessões demoníacas. Com o avanço da ciência, varreu-se o obscurantismo. Na década de 60, o Concílio Vaticano II decretou que apenas alguns sacerdotes, nomeados pela Igreja, poderiam expulsar demônios. Para regulamentar os rituais quase clandestinos, o papa lançou em 2000 um manual oficial de exorcismo. Fez questão de destacar que casos suspeitos devem ser encaminhados primeiro a um psiquiatra. As igrejas evangélicas tradicionais se constrangem com o espetáculo das neopentecostais. 'A mesma cultura do medo que enche os filmes de terror no cinema também funciona para lotar as igrejas', compara o pastor luterano Mozart. Os religiosos criticam a obsessão da Universal pelos atos do demônio e a acusam de deixar Deus em segundo plano. 'A Bíblia diz que Jesus até expulsou alguns demônios, mas nunca fez disso seu ministério', afirma o pastor Israel Belo de Azevedo, reitor do Seminário Teológico Batista. Muitos evangélicos tampouco acreditam que a presença satânica seja corriqueira como prega a Universal. 'O diabo não fica roubando o marido de umas pessoas ou o emprego de outras', ironiza o pastor Ariovaldo Ramos, da Associação Evangélica Brasileira. Boa parte dos freqüentadores da Universal já recorreu a tendas de umbanda ou centros espíritas, onde conheceu o mundo dos transes e das incorporações. Curiosamente, a Universal buscou inspiração nas religiões afro-brasileiras para apimentar seus cultos. Edir Macedo, que foi umbandista, adaptou os rituais do terreiro. Os gestos no descarrego copiam a coreografia dos incorporados em tendas. Os demônios que os pastores combatem e exorcizam confundem-se com as entidades da umbanda, como Zé Pelintra, Pomba-Gira ou Tranca-Ruas. Os objetos mágicos oferecidos também foram retirados dos terreiros (leia o quadro na pág. 74). Arruda com sal grosso são usados para espantar mau-olhado. Alguns pastores adotam o branco, reproduzindo a vestimenta dos pais-de-santo. 'São elementos estranhos ao cristianismo', diz o pesquisador Leonildo Campos, da Universidade Metodista de São Paulo. 'A Universal se aproximou tanto da umbanda que precisa mover uma cruzada contra as religiões afro-brasileiras para se diferenciar', afirma. Mesmo para quem freqüenta os terreiros, a apropriação é esdrúxula. 'Em vez de afastar os demônios, a encenação acaba atraindo-os', acredita a terapeuta holística Joelma Rodrigues, de 33 anos, que até os 12 era fiel da Assembléia de Deus e hoje é umbandista. O teatro da possessão demoníaca é eficiente também porque é divertido. O paulistano Eduardo Oliveira, de 28 anos, tornou-se figura conhecida no palco da Catedral da Fé, megatemplo da Igreja Universal. Incorpora encostos e demônios quase toda semana. 'Não tenho culpa, sou mais sensível que os outros e me entrego com mais facilidade', explica. Oliveira foi batizado na Igreja Católica. Há pouco mais de um ano, abalado pela perda do emprego e pelo fim de um antigo namoro, foi atraído por um programa de TV da Igreja Universal. 'Já experimentei outras ä igrejas, mas, em matéria de libertação, não existe melhor que a Universal: a reza é forte e específica.' Oliveira fecha os olhos, une e aperta as mãos contra o peito. Começa a rezar em voz alta. Um obreiro atento aos fiéis mais exaltados se aproxima. 'Eu ordeno, se manifeste', diz o obreiro, fazendo movimentos circulares com a cabeça do fiel. Oliveira se joga no chão e começa a se debater. 'Minha perna fica bamba, meus braços amolecem, quando dou por mim estou no altar', diz. Na guerra aos encostos, os pastores da Universal pegam carona no trabalho catequizador da própria Igreja Católica brasileira, que durante séculos trabalhou para associar as religiões africanas trazidas pelos escravos a práticas abomináveis de magia negra. Agora isso está enraizado no imaginário popular nacional, que tem uma relação ambígua com essas tradições africanas. Ao apelar para essa velha briga, Edir Macedo retoma a retórica dos anos 70, quando fundou sua igreja. É um reposicionamento do líder neopentecostal desde a malsucedida empreitada contra os católicos, na década de 90. Quando o bispo Sérgio Von Helde, da Universal, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em 1995, as críticas vieram dos próprios fiéis de Macedo. Afinal, 70% deles convivem bem com o catolicismo, segundo uma pesquisa do Iser. O mesmo estudo mostra que 90% dos pentecostais associam as religiões afro-brasileiras ao demônio. 'Vemos um exército evangélico atacando de forma sistemática comunidades afro-brasileiras, que nem têm como se defender', aponta a pesquisadora Mariza Soares, da Universidade Federal Fluminense. O apelo do demônio é forte porque atende a uma grande camada da população que vive imersa em superstições. O neopentecostalismo se desenvolve nos extratos mais pobres da população. Pesquisas revelam que um terço dos fiéis sobrevive com menos de dois salários mínimos, 68% não passaram do ensino fundamental e um em cada dez é analfabeto. Em geral, acreditam em magia negra e forças ocultas. 'O povo acha que o demônio está por aí, agindo através dos incautos', diz a antropóloga Regina Novaes, do Iser. Jogar a culpa por tudo que há de errado no demônio é uma solução confortável para quem busca alívio nos cultos. As conseqüências podem ser perigosas. 'A pessoa sai da igreja acreditando que não tem responsabilidade moral pelos erros que comete', diz o pastor evangélico Ariovaldo Ramos. O crente também fica convencido de que possui uma personalidade frágil e influenciável. 'Ele está pronto para ser manipulado por qualquer líder espiritual que se apresente como solução. Escapa dos vícios para virar escravo desses pregadores', acusa.
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Extraído da Revista "Época" No 258 de 28/04/2003