Meus tristes
testemunhos da Fogueira Santa de Israel
A maior vergonha de minha
vida, não é ter sido deliberadamente enganado, ter permitido que me usassem em
prol de interesses mesquinhos na I.U.R.D., disso eu não me arrependo, já que eu
o permiti, e além do mais, nada posso fazer para mudar o que foi vivido. O que
me envergonha, o motivo de todo o arrependimento, raiva, remorso, são as pessoas
que eu enganei, são as vidas que eu vi serem destruídas, e nada fiz para mudar.
Pessoas que muitas vezes dependiam de uma palavra minha para ajudá-las, e eu
omitia esta palavra, vou contar alguns casos de fogueira santa, que me fazem
chorar, não vou citar nomes, em parte por que não me lembro de todos, e também
para não expor ninguém.
Em meu primeiro contato com
a Fogueira Santa, ainda como obreiro, eu morava na I.U.R.D Fergel, uma igreja há
muito desativada em Porto Velho. Um senhor acabara de tornar-se membro de nossa
igreja. Era micro-empresário, sempre aparecendo nas minhas reuniões das três da
tarde. Apesar de ser um membro ativo, sempre ofertando, ele era um ex-viciado em
drogas. O pastor Henrique forçou-o a participar das reuniões principais. Veio
então a Fogueira Santa. Então, Henrique tomou como base tudo que eu havia
contado-lhe sobre a vida desse homem como palavra para a reunião. Mas não parou
por aí. Fez também inúmeros apelos para que o micro-empresário pegasse o
envelope, e nada. Este, não agüentando a pressão do pastor, saiu da igreja e
volta para o mundo das drogas. Desde então, nunca mais tive notícias dele.
I.U.R.D. Liberdade, também na capital, o atual vereador eleito pela igreja,
Flávio Lemos tinha com muita chantagem passado a freqüentar a igreja do pr.
Gomes, onde eu auxiliava, o Gomes babou tanto o cara, o citando verbalmente nas
reuniões, que metade dos membros da igreja se afastou, o Flávio não cumpriu o
voto no Liberdade.
Cito também meu primeiro núcleo, uma espécie de igreja
que me foi entregue pelo pastor Reginaldo. Situava-se Pombal, um bairro no
subúrbio de Porto Velho. Enquanto eu o auxiliava, na regional da Nova Porto
Velho. Convenci dois membros da Catedral da Fé a cumprirem a Fogueira Santa no
meu núcleo. Eles moravam logo em frente. Foi a primeira vez que menti na igreja.
Falei para eles que Deus tinha falado ao meu coração, e que seriam muito
abençoados se ofertassem ali. Porém, o que de fato aconteceu é que o pastor
Reginaldo falou ao meu coração. Disse que se eu conseguisse seus votos seria
abençoado com uma igreja. Eles cumpriram seus votos comigo, R$ 5.000,00, o
casal. Depois disso viajei para Ariquemes, onde assumi minha primeira e única
igreja. Não houve Fogueira Santa em Ariquemes III, a igreja da qual eu tomava
conta. Ela era menor que um núcleo e foi fechada por não conseguir um mês de R$
2.500,00, a qual era minha meta. Levantei lá dois obreiros, um jovem que havia
afastado-se da igreja e uma senhora recém-chegada da Bahia. Depois do
fechamento, o jovem saiu da igreja. Não sei de seu paradeiro.
O pior de todos
os casos, I.U.R.D. pedrinhas, Capital, eu auxiliava um pastor Cearense, do qual
eu não me lembro o nome, era recém chegado, foi a primeira igreja que ele
assumiu na vida, pegou logo de cara uma fogueira santa, de todos os membros
fixos da igreja só uma senhora não pegou o envelope. Uma aposentada, de idade
avançada, o filho vivia na cadeia, ela sobrevivia basicamente da aposentadoria e
do churrasquinho que vendia, o desgraçado do pastor ia todos os dias comer o
churrasco dela de graça, ela era uma fiel dizimista, e ofertava o que
podia.
Num Domingo, o pastor chamou
todos os membros que estavam participando da campanha para frente do altar, ela
ficou quase que sozinha nos bancos, o que já é uma humilhação. Foi mais ou menos
assim que o pastor orou naquele dia:
—Estenda agora suas mãos em
direção a igreja, diga meu deus! Meu deus! Em o nome de Jesus, amarra todo o
espirito da enganação, queima o diabo que não deixa as pessoas terem fé, diga:
—Diabo, você tá amarrado,
amarrado, sai desta vida em nome de jesus!
Claro que o diabo se resumia
naquela pobre mulher, coitada, bem, o pastor me deu o microfone, já tinha
terminado a oração, e foi orar na cabeça da senhora, ela estava chorando, não
sei se de medo ou de vergonha.
Pela primeira vez eu não
soube o que fazer na igreja, me limitei a cantar um corinho, que diz mais ou
menos : "fogo no diabo da cabeça aos pés", o povo com as mãos estendidas agora
unicamente para a mulher, o pastor a rodopiando, eu ficando desesperado, mas
tendo que manter as aparencias, ela não estava possuída, não dava qualquer sinal
disso, mas ele insistia.
Ela deitou no chão, o pastor
afastou os bancos, a empurrou até a frente do altar, foi o primeiro caso de
violência fisica, de simulação de exorcismo que eu vi, estava chocado, parei de
cantar, dei o microfone pra ele, ela não respondia a suas perguntas, estava em
estado de choque.
Ela confiava em nós, e nós a
havíamos traído, o pastor deu vários "Sai", ela levantou, ele praticamente a
obrigou a pegar o envelope, depois da reunião, ela chorou desesperadamente num
banco, e eu ouvindo seus lamentos, não pude dizer nada, só fiz suprimir minha
vontade de chorar, ou de quebrar a cara do desgraçado do pastor, passei boa
parte daquele Domingo chorando trancado no banheiro.
Aquela senhora passou fome
pra cumprir o voto, faz um ano que a vi pela ultima vez, nada de novo na vida
dela.
Na primeira oportunidade
levei o assunto ao bispo, sabe o que ele disse?
—Ela não pegou o
envelope?
—Então qual o
problema?
Só isso foi o que o bispo
disse, meu coração arde quando lembro disso, nunca fiz algo parecido, mas me
torno cúmplice de um caso desses, pelo fato de eu estar lá.
Eu poderia passar dias lhes
narrando os casos de derrota financeira, fracasso familiar, depressão, todos
causados diretamente pela pressão exercida pela campanha de Israel, posso citar
os obreiros da sede regional de Ariquemes, que deviam muito, e com as campanhas
só faziam aumentar suas dividas, a obreira do núcleo de Campo Novo de Rondônia,
que cumpria todas as suas obrigações, e como benção de deus só recebia
espancamento do seu marido, eu disse e não me canso de repetir, não existe
vitoria financeira dentro da igreja universal, só dor, magoa, extorsão,
Observação
(Há uma regra na I.U.R.D.,
quando tudo falhar, ainda há o exorcismo, ou como dizem por lá: "Oração Forte".
Como eu considerei a reunião que eu estava escrevendo muito fraca, resolvi usar
essa arma especial. O Bispo André Luiz usou uma vez na Catedral da Fé de Porto
Velho, eu me lembrei em boa hora. Os demônios sempre respondem o que os pastores
querem. Não sei se você já percebeu isso, mas se presta atenção nas reuniões
isso é um fato. O que quase ninguém percebe é que os pastores e bispos vivem de
"conversas de pé de ouvido" com as pessoas ditas manifestadas.
Durante esses diálogos, as
ordens são proferidas, como já disse, essas manifestações não passam de transe
hipnótico, e as falas, em sua maioria seguem a orientação dada nesse "pé de
ouvido", os pastores dizem, por exemplo: "—Vou colocar esse envelope e, em nome
de Jesus você vai sentir fogo", "—Eu quero o chefe, Lucifer, é o chefe, eu quero
ele", "—Eu quero o galinha que você ganhou", tudo isso bem baixinho, só as
pessoas em transe ouvem, eu sei por que isso me foi ensinado, e claro, já o fiz.
Sobre os problemas, já dizem nos cultos que certos demônios são responsáveis
pelo desejo de suicídio, pelo homossexualismo, pela bebida, as pessoas só
exteriorizam essas premissas.
O mais alarmante
nisso tudo, é que, depois de passar por uma situação dessas é quase impossível
para a pessoa não pegar o envelope. No caso de meu personagem aqui, o sr.
Flávio, ele acaba de ser informado, das causas dos seus problemas, e da
respectiva solução, ele está confuso, assustado, é difícil usar a razão quando
você acaba de se levantar, todo sujo, suado, e sem lembranças do que
aconteceu).