Meus tristes testemunhos da Fogueira Santa de Israel
 
Autor: Emerson Silva
eeras@hotmail.com
 
A maior vergonha de minha vida, não é ter sido deliberadamente enganado, ter permitido que me usassem em prol de interesses mesquinhos na I.U.R.D., disso eu não me arrependo, já que eu o permiti, e além do mais, nada posso fazer para mudar o que foi vivido. O que me envergonha, o motivo de todo o arrependimento, raiva, remorso, são as pessoas que eu enganei, são as vidas que eu vi serem destruídas, e nada fiz para mudar. Pessoas que muitas vezes dependiam de uma palavra minha para ajudá-las, e eu omitia esta palavra, vou contar alguns casos de fogueira santa, que me fazem chorar, não vou citar nomes, em parte por que não me lembro de todos, e também para não expor ninguém.
 
Em meu primeiro contato com a Fogueira Santa, ainda como obreiro, eu morava na I.U.R.D Fergel, uma igreja há muito desativada em Porto Velho. Um senhor acabara de tornar-se membro de nossa igreja. Era micro-empresário, sempre aparecendo nas minhas reuniões das três da tarde. Apesar de ser um membro ativo, sempre ofertando, ele era um ex-viciado em drogas. O pastor Henrique forçou-o a participar das reuniões principais. Veio então a Fogueira Santa. Então, Henrique tomou como base tudo que eu havia contado-lhe sobre a vida desse homem como palavra para a reunião. Mas não parou por aí. Fez também inúmeros apelos para que o micro-empresário pegasse o envelope, e nada. Este, não agüentando a pressão do pastor, saiu da igreja e volta para o mundo das drogas. Desde então, nunca mais tive notícias dele.

I.U.R.D. Liberdade, também na capital, o atual vereador eleito pela igreja, Flávio Lemos tinha com muita chantagem passado a freqüentar a igreja do pr. Gomes, onde eu auxiliava, o Gomes babou tanto o cara, o citando verbalmente nas reuniões, que metade dos membros da igreja se afastou, o Flávio não cumpriu o voto no Liberdade.

Cito também meu primeiro núcleo, uma espécie de igreja que me foi entregue pelo pastor Reginaldo. Situava-se Pombal, um bairro no subúrbio de Porto Velho. Enquanto eu o auxiliava, na regional da Nova Porto Velho. Convenci dois membros da Catedral da Fé a cumprirem a Fogueira Santa no meu núcleo. Eles moravam logo em frente. Foi a primeira vez que menti na igreja. Falei para eles que Deus tinha falado ao meu coração, e que seriam muito abençoados se ofertassem ali. Porém, o que de fato aconteceu é que o pastor Reginaldo falou ao meu coração. Disse que se eu conseguisse seus votos seria abençoado com uma igreja. Eles cumpriram seus votos comigo, R$ 5.000,00, o casal. Depois disso viajei para Ariquemes, onde assumi minha primeira e única igreja. Não houve Fogueira Santa em Ariquemes III, a igreja da qual eu tomava conta. Ela era menor que um núcleo e foi fechada por não conseguir um mês de R$ 2.500,00, a qual era minha meta. Levantei lá dois obreiros, um jovem que havia afastado-se da igreja e uma senhora recém-chegada da Bahia. Depois do fechamento, o jovem saiu da igreja. Não sei de seu paradeiro.

O pior de todos os casos, I.U.R.D. pedrinhas, Capital, eu auxiliava um pastor Cearense, do qual eu não me lembro o nome, era recém chegado, foi a primeira igreja que ele assumiu na vida, pegou logo de cara uma fogueira santa, de todos os membros fixos da igreja só uma senhora não pegou o envelope. Uma aposentada, de idade avançada, o filho vivia na cadeia, ela sobrevivia basicamente da aposentadoria e do churrasquinho que vendia, o desgraçado do pastor ia todos os dias comer o churrasco dela de graça, ela era uma fiel dizimista, e ofertava o que podia.

 
Num Domingo, o pastor chamou todos os membros que estavam participando da campanha para frente do altar, ela ficou quase que sozinha nos bancos, o que já é uma humilhação. Foi mais ou menos assim que o pastor orou naquele dia:
 
—Estenda agora suas mãos em direção a igreja, diga meu deus! Meu deus! Em o nome de Jesus, amarra todo o espirito da enganação, queima o diabo que não deixa as pessoas terem fé, diga:
 
—Diabo, você tá amarrado, amarrado, sai desta vida em nome de jesus!
 
Claro que o diabo se resumia naquela pobre mulher, coitada, bem, o pastor me deu o microfone, já tinha terminado a oração, e foi orar na cabeça da senhora, ela estava chorando, não sei se de medo ou de vergonha.
 
Pela primeira vez eu não soube o que fazer na igreja, me limitei a cantar um corinho, que diz mais ou menos : "fogo no diabo da cabeça aos pés", o povo com as mãos estendidas agora unicamente para a mulher, o pastor a rodopiando, eu ficando desesperado, mas tendo que manter as aparencias, ela não estava possuída, não dava qualquer sinal disso, mas ele insistia.
 
Ela deitou no chão, o pastor afastou os bancos, a empurrou até a frente do altar, foi o primeiro caso de violência fisica, de simulação de exorcismo que eu vi, estava chocado, parei de cantar, dei o microfone pra ele, ela não respondia a suas perguntas, estava em estado de choque.
 
Ela confiava em nós, e nós a havíamos traído, o pastor deu vários "Sai", ela levantou, ele praticamente a obrigou a pegar o envelope, depois da reunião, ela chorou desesperadamente num banco, e eu ouvindo seus lamentos, não pude dizer nada, só fiz suprimir minha vontade de chorar, ou de quebrar a cara do desgraçado do pastor, passei boa parte daquele Domingo chorando trancado no banheiro.
 
Aquela senhora passou fome pra cumprir o voto, faz um ano que a vi pela ultima vez, nada de novo na vida dela.
 
Na primeira oportunidade levei o assunto ao bispo, sabe o que ele disse?
 
—Ela não pegou o envelope?
 
—Então qual o problema?
 
Só isso foi o que o bispo disse, meu coração arde quando lembro disso, nunca fiz algo parecido, mas me torno cúmplice de um caso desses, pelo fato de eu estar lá.
 
Eu poderia passar dias lhes narrando os casos de derrota financeira, fracasso familiar, depressão, todos causados diretamente pela pressão exercida pela campanha de Israel, posso citar os obreiros da sede regional de Ariquemes, que deviam muito, e com as campanhas só faziam aumentar suas dividas, a obreira do núcleo de Campo Novo de Rondônia, que cumpria todas as suas obrigações, e como benção de deus só recebia espancamento do seu marido, eu disse e não me canso de repetir, não existe vitoria financeira dentro da igreja universal, só dor, magoa, extorsão,
 

Observação
 
(Há uma regra na I.U.R.D., quando tudo falhar, ainda há o exorcismo, ou como dizem por lá: "Oração Forte". Como eu considerei a reunião que eu estava escrevendo muito fraca, resolvi usar essa arma especial. O Bispo André Luiz usou uma vez na Catedral da Fé de Porto Velho, eu me lembrei em boa hora. Os demônios sempre respondem o que os pastores querem. Não sei se você já percebeu isso, mas se presta atenção nas reuniões isso é um fato. O que quase ninguém percebe é que os pastores e bispos vivem de "conversas de pé de ouvido" com as pessoas ditas manifestadas.
 
Durante esses diálogos, as ordens são proferidas, como já disse, essas manifestações não passam de transe hipnótico, e as falas, em sua maioria seguem a orientação dada nesse "pé de ouvido", os pastores dizem, por exemplo: "—Vou colocar esse envelope e, em nome de Jesus você vai sentir fogo", "—Eu quero o chefe, Lucifer, é o chefe, eu quero ele", "—Eu quero o galinha que você ganhou", tudo isso bem baixinho, só as pessoas em transe ouvem, eu sei por que isso me foi ensinado, e claro, já o fiz. Sobre os problemas, já dizem nos cultos que certos demônios são responsáveis pelo desejo de suicídio, pelo homossexualismo, pela bebida, as pessoas só exteriorizam essas premissas.
 
O mais alarmante nisso tudo, é que, depois de passar por uma situação dessas é quase impossível para a pessoa não pegar o envelope. No caso de meu personagem aqui, o sr. Flávio, ele acaba de ser informado, das causas dos seus problemas, e da respectiva solução, ele está confuso, assustado, é difícil usar a razão quando você acaba de se levantar, todo sujo, suado, e sem lembranças do que aconteceu).
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