Desembargador nega habeas-corpus a Edir Macedo

São Paulo, 25 (AE) - O vice-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Dagoberto Salles Cunha Camargo, negou hoje liminar que pediu habeas-corpus para o "bispo" Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

medida, pleiteada por dois advogados, visava à revogação da prisão preventiva decretada contra o "bispo". O juiz da 21ª Vara Criminal, Carlos Henrique Abrão, decretou a prisão em processo que acusa o "bispo" de estelionato e formação de quadrilha.

Edir Macedo continuará preso no 91º Distrito Policial por pelo menos mais duas semanas, prazo mínimo para o julgamento de mérito do habeas-corpus por uma das Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça. O "bispo" está trancafiado naquele distrito desde a tarde de domingo (24).

O habeas-corpus foi pedido pelos advogados Adalberto de Camargo Aranha, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça, e Antônio Carlos Campos Machado, deputado estadual pelo PTB. Eles alegam que o juiz Henrique Abraão decretou a prisão preventiva de ofício (por iniciativa própria), sem que a medida tivesse sido requerida pelo Ministério Público.

Para eles, trata-se de medida violenta e inconstitucional, sem nenhuma justificativa, mesmo porque, se ao final vier a ser condenado naquele processo, o "bispo" terá direito ao sursis ou prisão albergue domiciliar, pois é primário e tem bons antecedentes.

O juiz Henrique Abraão salientou que a prisão preventiva do "bispo" foi necessária para garantir a ordem pública, a normalidade da instrução criminal e para a defesa dos interesses da sociedade. O juiz destaca em seu despacho: "convenço-me sobre os nefastos e malsinados efeitos que redundam na eventual liberdade do agente, propagando-se a doutrina e contando com a colaboração de massas enfileiradas de pessoas incautas e incultas, com o propósito notadamente mercantilista".

Os advogados argumentam que se a ação de Edir Macedo é "nefasta e malsinada, é pura questão opinitiva pois assim não pensam milhares de fiéis que correm aos templos e aos estádios para ouvir sua pregação".

Os defensores dizem ainda que o "bispo" não pretende deixar o País, pois "fosse seu desejo coagir as testemunhas, burlar a colheita das provas, já o teria feito no decorrer do inquérito policial e não como previsão de futuro".

Para os advogados, Edir Macedo foi atingido em sua liberdade e dignidade, contrariando ainda dispositivo constitucional que prevê a inocência do réu até o seu julgamento.

O desembargador Dagoberto Salles negou a liminar com pedido de habeas-corpus em favor do "bispo" de Edir Macedo em despacho assim redigido: "O sistema legal vigente, em relação ao habeas-corpus, não prevê medida liminar, salvo situação teratológica, excepcional, e assim mesmo por construção pretoriana. O caso dos autos - sem embargo de louvável esforço do ilustre advogado impetrante - não comporta a concessão da pretendida liminar, competindo à Egrégia Câmara Criminal, a que for distribuído o feito, o exame abrangente e aprofundado da questão. Indefiro, pois, a liminar. Processe-se o pedido, requisitando-se as informações, colhendo-se a seguir o parecer da inclita Procuradoria-Geral da Justiça. Intime-se. "

O "bispo" Edir Macedo será levado à presença do juiz Carlos Henrique Abraão, na próxima sexta-feira (29), às 13 horas, a fim de ser interrogado. Foi Abraão quem decretou a prisão do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, na sexta-feira passada (22). Edir será levado ao Fórum algemado e escoltado. O juiz mandou ofício à Receita Federal, requisitando cópias das declarações de Imposto de Renda feitas por Edir Macedo nos últimos cinco anos. 

©Agência Estado.Aedata
Fonte: AE, 25-05-1992

Comentário:

Vejam que naquela época, em 92, a mídia em geral ainda tratava o "bispo" de "bispo", sempre entre aspas, retratando o caráter charlatanesco deste homem.  Hoje, o "bispo" não está mais atrás das grades.  Uma pena.  Não é mais chamado de "bispo", mas de Bispo.  E a Igreja do "Bispo" já tem até um vice-presidente da República.  Como se vê, quem alimenta uma fera, coopera para a própria ruína da sociedade.

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