O missionário da Universal
Adaptado
da Revista Época
No
primeiro mandato como deputado federal, bispo Rodrigues usa métodos agressivos
para defender os interesses de Edir Macedo
O deputado bispo Rodrigues (PL-RJ) não anda sozinho no Congresso. Está
sempre escoltado por seguidores que o reverenciam, carregam pastas e se
esforçam para acompanhá-lo nos passos curtos e rápidos. Entre uma ordem
e outra, recebe e faz chamadas por dois telefones celulares. As conversas
entrecortadas e o andar firme são a marca do mais poderoso integrante
da bancada federal de 51 evangélicos. Em 1998, foi o mais votado dos 17
deputados eleitos, com 75.611 votos, com a ajuda da Igreja Universal do
Reino de Deus. Espalhados por diferentes partidos, todos obedecem com
disciplina religiosa ao homem que procura concretizar o projeto político
da igreja do bispo Edir Macedo. Eleito pelo PFL, Rodrigues mudou de legenda
ao tomar posse. "Queria espaço e independência para meus planos", diz.
Entrou no PL. Conseguiu o comando de diretórios estaduais ao levar deputados
da Universal para o partido. Outros se inscreveram no PST. A voracidade
por cargos precipitou o confronto entre Rodrigues e o presidente do PST,
Marcílio Duarte. Em setembro, numa festa em Brasília, trocaram sopapos.
"Ele está mais acostumado a mandar, como fazia na Universal, do que a
negociar", critica o deputado Salatiel Carvalho (PMDB-PE), ligado à Igreja
Evangélica Assembléia de Deus.
No início da legislatura, Rodrigues e seus 16 comandados visitaram o ministro
das Comunicações, Pimenta da Veiga. Cumprimentaram-no com a mesma saudação:
"Estamos às suas ordens e a serviço do bispo Edir Macedo". Uma das prioridades
de Rodrigues é contestar as sucessivas multas aplicadas às empresas da
Universal.
Além dos embates com a Receita Federal, ele se dedica à obtenção de verbas
publicitárias que melhorem o caixa do complexo de comunicações da Igreja,
88 emissoras de rádio AM e FM e a TV Record. Com freqüência, o deputado
bispo Rodrigues, como prefere ser chamado, envia requerimentos ao secretário
de Comunicação do governo federal, Andrea Matarazzo. Mantém sob estreita
vigilância o dinheiro gasto em propaganda pelas repartições de Brasília
- R$ 490 milhões em 1999. "Ele atua como um corretor celestial", ironiza
o líder do PTB, o carioca Roberto Jefferson.
O patrimônio representado pelas 150 empresas sob controle da Igreja Universal
soma R$ 3 bilhões. A mais recente aquisição incorporou ao conglomerado,
por R$ 18 milhões, mais uma emissora de TV, a Rede Mulher. "Precisamos
dos meios de comunicação para informar e formar nossos seguidores", diz
Rodrigues. Na Câmara, ele concentra os comandados na Comissão de Ciência
e Tecnologia, onde tramita a legislação ligada ao setor. Está na comissão,
por exemplo, o pedido de renovação da concessão do Sistema Brasileiro
de Televisão, o SBT, de Silvio Santos.
Braço direito de Rodrigues, o deputado bispo Wanderwal (PL-SP) pediu uma
audiência pública para discutir a questão. A iniciativa foi transformada
em instrumento de pressão contra o SBT, acusado por Wanderval de retardar
por 18 anos o pagamento de uma pendência trabalhista (parte da dívida
já foi paga, mediante um acordo entre o SBT e ex-funcionários).
No meio da disputa, a Record conseguiu negociar a rescisão do contrato
do apresentador Ratinho, que em setembro trocou a emissora pelo SBT. Ratinho
não havia pago uma multa de R$ 30 milhões. Depois do pedido da audiência
contra o SBT, aceitou entregar R$ 15 milhões à Record. Em 20 de agosto,
mesmo os devotos de Rodrigues ficaram intrigados com a viagem relâmpago
feita pelo chefe à Ilha de Comandatuba, no sul da Bahia. A comitiva de
38 parlamentares voara para a inauguração do aeroporto do Hotel Transamérica.
Rodrigues aterrissou, conferiu as instalações e retornou à pista de pouso,
onde um jatinho da Igreja Universal o esperava.
Por um celular, explicou a razão do passeio. "Irmão, você sabe como é
importante eu ter essa fotografia ao lado do senador Antonio Carlos",
disse. Referia-se ao presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães
(PFL-BA). Para pavimentar a carreira política, em 1988 bispo Rodrigues
tratou de fundar a própria legenda, o Partido da Ação Social (PAS). Depois,
mudou de estratégia: achou mais prático usar partidos já existentes. Além
do PL e do PST, a Universal tem representantes no PFL, no PMDB e no PPB.
Valdemar Costa Neto, líder do PL na Câmara, reconhece que o colega age
assim por vontade própria. "Se quiser", diz Costa Neto, "ele tem poder
e estrutura para organizar um partido nacional da noite para o dia."
TEMPLO
DO VOTO
Instituto de Estudos da Religião mostra perfil dos evangélicos
Eleitorado
De 1.300 entrevistados na região metropolitana do Rio, 74% não se identificam
com partidos.
Ranking
A maior igreja é a Assembléiade Deus, com 31% dos fiéis.A Universal
vem em quarto lugar.
Universal
81% são mulheres, 63% ganham até dois salários mínimos e 50% têm no
máximo quatro anos de escolaridade.