Crônica de Marco Aurélio R. Dias
(
Numa crônica dedicada a Nhá Chica,
Paulo Coelho pergunta: O que é um
milagre?)
Acho que a história que vou contar é
um milagre.
Eu era ainda
criança quando ouvi falar pela primeira
vez em Nhá Chica.
Morávamos na
Praça Seca, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro.
Eu estava soltando pipa e o sol
queimava como fogo. Então fui me
esconder debaixo de uma mangueira
frondosa. Defronte tinha o Clube
Parames, em cujo campo muitos times de
futebol profissional iam jogar suas
partidas. Eis que eu dibicava meu
papagaio impinado quando vejo chegar
Pixinguinha, o grande músico dos
chorinhos. Ele chegou cansado, a passo
lento e parou na mesma sombra. Olhou pra
mim com aquele sorriso carinhoso e
passou a mão na minha cabeça. Podia ser
o ano de 1966/67.
Deixa eu
explicar logo que a irmã de Pixinguinha
morava numa vila de casas em frente ao
Clube Parames e ele volta e meia a
visitava. Provavelmente acabava de
chegar para uma visita daquelas.
Lembro bem de
ter tido uma longa conversa com uma
sobrinha de Pixinguinha. Estávamos num
bar, lado a lado, tomando uma cerveja, e
ela então começou a desabafar comigo.
Falou da morte do tio, da injustiça
pelo fato de que não ganhou dinheiro à
altura do seu gênio... Estou fazendo
esta observação para o amigo leitor se
situar naquele tempo.
Ninguém
esqueceu que eu estava debaixo de uma
mangueira soltando pipa e que
Pixinguinha chegou.
Aproximou-se
um outro homem conversador, parecendo
que conhecia bem o compositor ou a família
de sua irmã, e os dois ficaram ali ao
meu lado naquele papo. Eu de olho nas
outras pipas que queriam cruzar com a
minha, lá no céu.
O que eu
quero salientar nesta crônica é um
trecho da conversa de Pixinguinha com o
outro homem.
Eles falavam
de uma pessoa que estava doente e que
era preciso recorrer também as orações.
Então um deles citou o nome de Nhá
Chica e falou que era necessário pedir
pra ela uma cura. Conversaram mais um
pouco e depois o homem foi embora e
Pixinguinha entrou na vila.
Guardei muito bem na lembrança aquele
dia, aquela conversa, as feições de
Pixinguinha com seu instrumento na mão.
Estou
querendo dizer que a primeira vez que
ouvi falar de Nhá Chica foi na Rua
Pedro Teles, na Praça Seca, onde eu morava, e numa
conversa entre Pixinguinha e um outro
homem, e nunca mais me esqueci. Mais
tarde vim ouvir falar dela em São
Lourenço, por volta de 1980.
Acho que isso foi um milagre.
Acho que ter ouvido falar de Nhá Chica
pela primeira vez numa conversa da qual o tão
respeitado compositor de
"Carinhoso" participava,
passou para mim também uma certa
respeitabilidade pelo nome da Serva de
Deus.
Acho que
isso foi um milagre sim!
Marco Aurélio
Rodrigues Dias