Uma Visão Sociológica do Brasil feita por Marco Auréllio Rodrigues Dias

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A Miscigenação Cultural

Arquétipo cultural do Mestiço Brasileiro

Critica da Educação Antiga 

Raízes da Literatura Brasileira 

Novamente Raízes Culturais 

Euclídes da Cunha

 

Guimarães Rosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUILOMBOS E FAVELAS

Capítulo 1

A Miscigenação Cultural

          Procuro estudar os fenômenos sociais brasileiros, ou pelo menos compreender a sociedade brasileira, partindo da premissa de que o mestiço é o tipo étnico brasileiro e coloco o Saci, esse ente folclórico das roças, como o arquétipo cultural maior desse mestiço, bem como um quase símbolo oficial do período escravocrata no Brasil. Razão pela qual um dos objetivos da minha investigação sociológica é debruçar sobre esse símbolo e sobre a sua representatividade ao longo da história e também codificar e identificar as suas possíveis transformações ou variações no imaginário coletivo e nas grandes criações dos intelectuais, como no personagem Macunaíma, do escritor modernista Mário de Andrade, realizando uma análise crítica da história e das raízes culturais do povo brasileiro. Dessa forma, o primeiro passo que vou tomar é decodificar o Saci como símbolo e analisar de que maneira ocorreu a sua formação e vamos identificar todos os elementos que contribuíram para a mesma e para a sua expansão. Assim sendo,  definiremos  alguns pontos essenciais para podermos continuar esta investigação.

          1 - O Saci é um ente mitológico da cultura indígena brasileira. Provavelmente era, entre os índios, o mais universalizado.

          2 -  Foram as negras babás, conhecidas como aias, que  eram grandes contadoras de estórias, as principais responsáveis pela criação desse modelo do  Saci atual, e  Monteiro Lobato o conheceu  pronto.

          3 - O Saci como arquétipo do mestiço surgiu já no fim do período escravocrata e  aparece como um elemento de contribuição cultural dos grandes quilombos.             

          4 - O Saci é a primeira grande personificação cultural do mestiço, é a primeira grande simbiose cultural das três principais raças que povoaram o Brasil e a primeira grande criação folclórica desse novo imaginário coletivo. Com ele teve início o inconsciente coletivo dos mestiço brasileiro.

       Evidentemente que o inconsciente coletivo está sempre em transformação, o que significa dizer que nunca está pronto, e que não pode ser identificado como um modelo perene, nem mesmo os seus símbolos. Dessa forma, a sociedade trabalha com cópias mais ou menos adaptadas às diferentes épocas, mas evidentemente que a fonte é a mesma. Quero dar como exemplo a figura do Saci que, entre os índios, durante principalmente o período pré-cabraliano, cumpriu uma função ecológica, pois era uma espécie de guarda florestal cuja função era defender as árvores, os arbustos, as vegetações, e armava ciladas nas florestas para os índios que infringissem a regra de não quebrar nenhum galho sem a condição da imprescindibilidade. Ou seja, a necessidade de quebrar um galho, de cortar uma árvore dava legalidade ao ato e a pessoa ficava livre do castigo do Saci. Quero entender que se tratava de um postulado ecológico, de uma filosofia ecológica rudimentar, representada por figuras (que sempre foi uma linguagem primitiva), mas que funcionava e realmente funcionou até a época da invasão portuguesa no Brasil. Todas as figuras folclóricas ou mitológicas dos índios tinham uma função ecológica, educavam para a preservação do meio ambiente e, por assim dizer, paralelamente, tinham também uma função punitiva. Isto é, elas eram ao mesmo tempo um mandamento ecológico e uma ameaça de punição. Assim sendo, no caso do Saci, ele pode ser decodificado culturalmente reduzindo-se a um mandamento indígena: não destruirás as árvores, adicionando-se a isso o complemento punitivo ( no caso as ameaças das armadilhas do Saci dentro da floresta) que também pode ser reduzido a uma última compreensão que é a impossibilidade de se viver sem as árvores e sem o mundo vegetal, uma vez que ali é produzido o oxigênio, etc.  Este tipo de discurso estava implícito no inconsciente coletivo dos indígenas. Então, no imaginário deles, que é a linguagem do inconsciente coletivo, a figura do Saci cumpria uma missão de guarda florestal, defendia o meio ambiente, era um mandamento ecológico. Mas ele não era representado por um menino negro. Originalmente o Saci  era um índio que tinha uma perna só, portanto tinha as características de um tipo étnico da raça amarela. Por causa da sua força cultural passou para o imaginário coletivo dos mestiço ou do povo brasileiro mas não sem antes sofrer as seguintes transformações:

           1 - Perdeu a sua função ecológica.

           2 - Deixou de ser um tabu. 

          3 - Ganhou os traços culturais e étnicos do elemento português e do elemento negro.

          São os fundamentos expostos aqui que pretendemos desenvolver nos próximos capítulos a fim de aprofundarmos este tema cuja extensão acho ilimitada, e foi a razão pela qual dei a ele o tratamento de um estudo específico e procurei identificá-lo como sociologia.


      

 

 

Marco Aurélio R. Dias

  

   Biografia do Autor

 

 

 

 

 
 
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