Comparada com as outras divindades do panteão africano, o orixá feminino iorubá. Yemanjá é uma figura extremamente simples. Se formos verificar o número de amantes que teve Iansã, os problemas que a precipitação e a passionalidade de Ogum lhe trouxeram , os conflitos de Oxóssi desrespeitando tabus, o afastamento social de Ossâim, a rejeição que sempre sofreu Omulu-Obaluaiê, a perda traumática do poder pela qual passou Nanã e a vida variada e prazerosa que busca Oxun, a figura de Yemanjá pode parecer até parte de outra comunidade. Ela é próxima da paz e da ausência de conflitos, em oposição ao mundo colorido, rico e até mesmo selvagem dos outros, pois representa uma figura em muitos termos passiva: é a mulher que assume sua condição de dona-de-casa, de administradora do lar, de mãe e mulher em período integral.
 
Yemanjá não é a mãe que oferece o peito para o bebê mamar; ao contrário, é a mãe do jovem e do adulto, a figura materna que acompanha um ser humano por toda a sua vida. É a responsável pela socialização, pelo aprendizado das regras de comportamento, do encaminhamento do processo de assimilação do próprio destino, do arquétipo que tem para cumprir, etc.
 
É a mãe dos homens crescidos, sendo freqüente o fato, nas lendas, de a envolverem com incesto, tendo sido inclusive violentada por um de seus filhos. É, portanto, a mãe do complexo de Édipo, do potencial sexual reprimido socialmente que, de forma inconsciente, existe em toda a mãe em relação a seus filhos homens.
 
Segundo Monique Augras, é a mãe-amante, figura ambivalente e, por conseguinte, muito poderosa. Nos templos tradicionais, é cultuada como esposa de Oxalá, mãe de todo os deuses. Reina sobre "todas as águas do mundo", doces e salgadas (...) Seu nome significa MÃE DOS FILHOS PEIXES.
 
Inúmeros são os descendentes da rainha do mar. Enquanto as demais Grandes-Mães são simbolizadas pelos pássaros, como é o caso de Oxum, os peixes de Yemanjá parecem relacionados (...) com o embrião, o germe, as potencialidades infinitas da água geratriz. Ela usa o ABEBÉ, leque redondo como cabaça, que representa a fecundidade, e a espada, que, recortando na matéria das origens, separa e multiplica o seres, permitindo  o nascimento de indivíduos únicos. Propiciar a passagem entre potencialidade e realização, e vice-versa, parece constituir uma das funções essenciais de Yemanjá. Sua dança, imitando o movimento das ondas, fala de fluidez, de distribuição, de germinação, constantemente renovada.
 
Neste caso, sua localização como força dos princípios e dos finais parece ser mais uma das qualidades originais de Nanã na cultura DAOMEANA que lhe foi roubada, para não entrar em choque com uma divindade IORUBÁ  já estabelecida. Nanã deixou de ser a grande matriarca para Yemanjá poder continuar simbolizando a grande força geradora feminina em oposição a Oxalá, a grande força geradora masculina. Mas a cultura DAOMEANA era tão forte e tão bem estruturada que Oxalá teve de ser dividido por Yemanjá com Nanã, assumindo ele a paternidade dos filhos-orixás já existente no DAOMÉ.
 
Esse poder gerador deve ser entendido como algo metafórico, pois Yemanjá não é a mãe que põe os filhos no mundo. Ela nunca surge lidando com crianças e sim com adultos, com as quais não hesita em usar os típicos truques associados às mães possessivas para manter os filhos com ela. Nesse contexto, ela é profundamente astuta e gostaria de manter controle absoluto sobre seus descendentes: é a figura matriarcal que não contesta  a autoridade masculina, mas que também não se limita ao contexto da doce e pacata mãe que sua imagem possui para diversos iniciados. Ela luta pelos filhos, engana-os para não os perder - seria, sem dúvida, condenada por muita psicóloga moderna.

Iemanjá, são todas as águas salgadas e areias do mar. É considerada o princípio de tudo, juntamente com a terra, Oduduwa. Iemanjá é o mar que alimenta, que umidifica as terras, que energiza a terra, e também o maior cemitério do mundo. Representa ainda as profundezas do inconsciente, o movimento rítmico, todas as coisas cíclicas, tudo que pode se repetir infinitamente. A força contida, o equilíbrio.

Iemanjá uniu-se a Oxalá, a criação, e com ele teve os filhos Ogum, Exu e Oxóssi e Xangô.
Como seus filhos se afastaram dela, Iemanjá foi aos poucos se sentindo mais e mais sozinha e resolveu correr o mundo, até chegar a Okerê, onde foi adorada por sua beleza, inteligência e meiguice. Lá, o rei se apaixonou por ela, desejando que se tornasse sua mulher. Iemanjá então fugiu, mas o Alafin colocou seus exércitos para persegui-la. Durante sua fuga, foi encurralada por Oke (as montanhas) e caiu, cortando seus enormes seios, de onde nasceram os rios. Assim, ela é também a mãe de Oxum, Obá e Iansã (em alguns mitos).

Conta-se que a beleza de Iemanjá é tamanha que seu filho Xangô não resistiu a ela e passou a persegui-la, com o desejo incestuoso de possuí-la. Na fuga, Iemanjá cai e corta os seios, dando origem às águas do mundo e aos Ibejis, filhos de Xangô com Iemanjá. Outro mito ainda, narra a sedução em sentido contrário. É Iemanjá quem persegue seu filho Aganju (a terra firme) e este é quem foge.

Representando o inconsciente, Iemanjá é considerada também a "dona das cabeças", no sentido de ser ela quem dá o equilíbrio necessário aos indivíduos para lidar com suas emoções e desejos inconscientes.

 
Cor: azul claro e verde, nos tons do mar.
Símbolo: Abebê (espelho, símbolo das águas em geral)
Dia da Semana: Sábado
Numero: 10
Comida: arroz com mel
Saudação: Odô Iyá!
 
LENDA  YEMANJÁ
 
 
Quando Obatalá e Odudua se casaram, tiveram dois filhos: Iemanjá ( o mar ) e Aganju ( a terra ). Os irmãos se casaram e tiveram um filho, Orungã ( o ar ). Quando cresceu, Orungã se apaixonou pela mãe. Um dia, aproveitando a ausência do pai, tentou violentá-la. Iemanjá conseguiu escapar e fugiu pelos campos. Quando Orungã já a alcançava, ela caiu ao chão e morreu. Então seu corpo começou a crescer até que seus seios se romperam e deles saíram dois grandes rios, que formaram os mares; e do ventre saíram os Orixás que governam as 16 direções do mundo: Exu, Ogum, Xangô, Iansã, Ossâim, Oxóssi, Obá, Oxum, Dadá, Olocum, Oloxá, Okô, Okê, Ajê Xalugá, Orum e Oxu.

Iemanjá teve muitos problemas com os filhos. Ossâim, o mago, saiu de casa muito jovem e foi viver na mata virgem estudando as plantas. Contra os conselhos da mãe, Oxóssi bebeu uma poção dada por Ossâim e, enfeitiçado, foi viver com ele no mato. Passado o efeito da poção, ele voltou para casa mas Iemanjá, irritada, expulsou-o. Então Ogum a censurou por tratar mal o irmão. Desesperada por estar em conflito com os três filhos, Iemanjá chorou tanto que se derreteu e formou um rio que correu para o mar.

Iemanjá foi casada com Okere. Como o marido a maltratava, ela resolveu fugir para a casa do pai Olokum. Okere mandou um exército atrás dela mas, quando estava sendo alcançada, Iemanjá se transformou num rio para correr mais depressa. Mais adiante, Okere a alcançou e pediu que voltasse; como Iemanjá não atendeu, ele se transformou numa montanha, barrando sua passagem. Então Iemanjá pediu ajuda a Xangô; o Orixá do fogo juntou muitas nuvens e, com um raio, provocou uma grande chuva, que encheu o rio; com outro raio, partiu a montanha em duas e Iemanjá pôde correr para o mar.
 
 
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