

Muitas vezes diante
de lendas e mitos, homens considerados temidos tornam-se
covardes e se perdem em seus temores.
Tenho constantemente observado isso na net o que de certa
forma não deixa de ser um dos arquétipos cujo tema
“Arquétipos netianos” tratei em uma das minhas loucas
crônicas.
Pensando nisso lembrei-me de um famoso caso ocorrido aqui no
Rio de Janeiro abrangendo exatamente essa questão e que
passo a narrar.
No início dos anos 80 algumas organizações policias reunidas
com autoridades, advogados, jornalistas e até empresários,
diante do aumento da violência (embora muito abaixo dos
índices de agora) e acobertadas por autoridades militares
que ainda mandavam na política de segurança do país,
resolveram agir como justiceiros tomando para si fora da
representação do estado o combate a essa criminalidade.
Diversos grupos surgiram desencadeando uma orgia de
violência que como sempre muitas vezes atingia a própria
sociedade ordeira.
Algumas mantiveram inicialmente seus objetivos mas a maioria
se perdeu tornando suas ações piores que a dos criminosos.
Surge nesse período de execuções, um personagem chamado O
MÃO BRANCA.
Tudo começou quando um desses executores, provavelmente um
militar ou para militar deixa cair uma luva branca usada em
seus uniformes de gala que recebem nas paradas e desfiles
aplausos mais pela roupa do que pelos marchantes, num dos
executados.
Um jornalista cujo nome vou omitir do extinto jornal “ULTIMA
HORA” do RJ aproveitando o fato afirma que o novo terror da
bandidagem era “O MÃO BRANCA” cor da luva esquecida ou
jogada fora no local da execução.
Diante da veracidade da ação de outros grupos de execução a
noticia se alastrou como fogo morro acima em dia de ventania
aumentando em muito a vendagem de jornais.
E a maioria das execuções antes atribuída a outra
organização, passou a ser creditada ao “MÃO BRANCA”, o que
foi ótimo para as entidades “profiláticas”, perdão,
“filantrópicas” ( essa fala tem autor, cujo nome não cito
para não ficar numa sinuca e de bico) existentes que agiam
da mesma forma, desviando assim de si o foco das autoridades
como promotores que adoram aparecer ainda que condenando
inocentes, pois lhes falta discernimento e lhes sobram a
vaidade do cargo e juizes incompetentes cujo desconhecimento
da lei os levam a absurdos judiciais.
Assim da noite para o dia “MÃO BRANCA” tornou-se o maior
terror do RJ especialmente da baixada fluminense.
Todo terror tem sua simbologia, uma caveira, uma luva
branca, um automóvel ou algo assim.
O representante dos carros aterrorizantes era o OPALA 4
portas preto.
O aparecimento desse carro em um lugar de bandidos gerava um
verdadeiro “STORM” uma tempestade temida por toda
marginalidade e até quem muitas vezes nem era marginal mas
vivia nessa localidades.
Há na baixada fluminense uma pequena cidade denominada
SEROPÉDICA, cujos habitantes são até pobres, começou a se
desenvolver pois passava na região como até hoje passa um
rio denominado Rio Guandu centro de abastecimento de água de
todo Rio de Janeiro cidade e parte da baixada.
Abastecimento de água e desabastecimento de marginais pois
era o rio da desova dos infelizes que caiam nas garras dos
“justiceiros “ cariocas.
Uma vez um delegado de polícia cujo nome esqueci falou que o
ideal para a marginalidade irrecuperável não era BANGU I,
nem BANGU II, nem BANGU III era GUANDU I, GUANDU II e GUANDU
III
Muitos policiais passaram a se intitular de “MÃO BRANCA” e
para mostrar isso começaram a usar ridiculamente luvas
brancas em seus pertences (Esses mesmos vagabundos quando
foram presos juraram que as luvas brancas serviam para
completar seus trajes de acompanhantes da Cinderela e eles
não passavam dos ratinhos da carruagem).
O fato é que virou moda. Eram Mão Branca, lírio branco, rosa
branca, rosa vermelha e uma outra entidade cujo nome me
falha no momento (felizmente).
Bem como eu já disse em Seropédica haviam diversos areais e
o dono de um deles era um negro de 1,90 metros praticante de
capoeira e luta livre, uma fera, temido ate pelo pai e pela
mãe.
Solteiro pois não havia uma mulher que tivesse coragem de
casar com ele.
Sua mão parecia uma raquete de tênis. Uma porrada sua
desmanchava qualquer pessoa. Sua imagem era a imagem do
terror, era considerado o homem mais valente e corajoso da
região. Sua fama se estendia por toda baixada. Seu apelido
era NEGÃO TERROR.
Um determinado empresário do ramo da construção civil,
comprador de areia em quantidade para suas obras, realizando
num bairro próximo conhecido como Campo Grande um condomínio
de casas, foi informado que havia um “cara” conhecido como
Negão Terror que negociava areia pois tinha areais e ainda
comprava toda areia dos areais concorrentes.
Por ter sofrido dias antes um acidente e quebrado o braço e
estando engessado, pediu a um amigo que o levasse a
Seropédica pois ia falar com o Negão terror pois precisava
de muita areia para a execução dessas obras de condomínio e
certamente comprando diretamente do produtor compraria bem
mais em conta.
Assim combinado assim procedeu.
Seu carro como adoravam os empresários era um Opala, 4
portas, preto.
Era horário de verão e 19 horas era claro ainda sendo essa a
hora que o empresário e seu amigo chegaram a Seropédica.
De pergunta em pergunta souberam que Negão Terror fazia
ponto numa birosca perto de um areial e para lá se
dirigiram.
Pelo seu imenso tamanho negão foi avistado de longe e sendo
uma rua esburacada e enlameada o veículo trafegava devagar e
ao se aproximar do Negão, parou.
Negão vendo o Opala Preto 4 portas tremeu dos pés á cabeça
quando ouviu uma voz para ele saída do inferno: você é o
negão terror ?
Negão estava paralisado e aí o pior aconteceu, o empresário
com o braço fraturado envolto num gesso branco levantou a
mão e disse: Negão estou te procurando faz tempo e quero
falar com você.
Já se passaram mais de 25 anos e até hoje nunca mais se
ouviu falar do NEGÃO TERROR que depois de recobrar os
sentidos e se lavar das fezes que desceram pelas suas calças
desapareceu para sempre sem nem ao menos vender seus areais,
especialmente após receber o recado de que o empresário não
poderia esperar que ele se recuperasse do seu mal estar ,
mas que voltaria no dia seguinte para acertar com ele
urgentemente.
A lenda do MÃO BRANCA acabou mas até hoje em Seropédica
comenta-se o dia que o NEGÃO TERROR, doravante neguinho
pavor se borrou e desmaiou só por ver um homem com um braço
entalado com gesso branco querer falar com ele.


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