Essa história passaria despercebida não fosse uma
conversa com o responsável pelos coveiros de um
cemitério carioca, mas que ao tomar conhecimento
como aspirante a escritor não poderia deixar de
contá-la. Num desses dias de tristeza onde
acompanhamos nossos entes a sua morada final
observei no cemitério um homem com aspecto de
irritado e ao mesmo tempo triste.
Sua irritação o fazia falar algo que de longe me era
indefinível, porém sua gesticulação era clara.
Uma gesticulação de veemente protesto.
No momento estava morando na minha própria angústia
e não quis assumir a angústia de ninguém além da
minha.
O tempo escoou no bueiro da existência e novamente
me vi na contingência de acompanhar outra pessoa à
sua última casa quando observei o mesmo homem e com
a mesma roupa a gesticular e falar algo que era
impossível entender, mas que aguçou dessa vez
a minha curiosidade.
Era um homem simples trajava uma calça cinza e
uma camisa creme. Sobre a camisa um respeitoso
paletó azul marinho e completando sua indumentária
uma capa de chuva dessas que quase não se usam mais,
porém que denotam tristeza como se antevissem
sempre chuvas finas e que molham o corpo e a
alma como se fossem lágrimas de sofrimento.
Disfarçadamente aproximei-me dele como se olhasse as
lápides e suas inscrições e consegui ouvir
rapidamente o que ele dizia.
Entre uma frase e outra entendi o seguinte; ...isso
foi uma sacanagem.. ..eu confiei em você...
isso não se faz...você me pegou de surpresa...
você me disse que isso não aconteceria... Bem,
estranhei não o que ele dizia, mas sim
porque ele estava sozinho.
Observei-o durante algum tempo e dele não se
aproximava ninguém, ninguém que eu visse ou
que alguém visse, salvo esporadicamente a chegada
e saída rápida de um coveiro, inclusive o chefe
deles
que chamarei de João, só para nominar o personagem
ou um transeunte introspecto como sói acontecer
nesses locais de profunda nostalgia.
Encerrado o féretro e quando voltei, o ser estranho
não se encontrava mais por lá e deixei repousar
na minha memória o inusitado fato. O tempo cada vez
mais rápido, porque ele é tão mais rápido
quanto mais velhos somos, parecendo querer
sorver celeremente o pouco que nos resta de
existência, passou e um dia dos mortos acompanhei
uma pessoa que ia visitar um dos seus, que partiram
para o nada, quando o mesmo homem com a mesma roupa,
os mesmos gestos e as mesmas palavras diante
do mesmo túmulo me chamou a atenção e dessa vez
com tanta intensidade que nem fui visitar a
sepultura que ali me levara.
Postei-me a seu lado como em prece a um morto
qualquer, até porque todos os mortos são iguais
mesmo e captei cada palavra que ele emitia.
Ele dizia: O que você fez foi uma sacanagem,
eu confiei em você e você me traiu, jurou que não
faria isso comigo e fez. Nem digo por mim, mas pélas
crianças. Nunca esperei isso, nunca. Ninguém merece
a confiança de ninguém. Você me traiu, foi covarde,
dissimulada. Isso foi molecagem da sua parte.
Estava absorto ouvindo esse estranho monólogo quando
a mão carinhosa de alguém tocou meu ombro.
Era João o chefe dos coveiros que me cumprimentava
nesse dia de intenso movimento no cemitério o que
me ensejou mesmo sabendo estar ele super atarefado
acompanhá-lo em seus rápidos passos e
perguntar: João estava vendo aquele infeliz que a
esposa traiu ainda inconformado com a sacanagem
dela.
O que houve ele a matou?
Ele a pegou com outro?
Ela se suicidou?
O que trás aquele indivíduo sempre à mesma
sepultura.
João fez uma parada e respeitosamente olhou-me
e disse: não amigo, não é nada disso. É mais um dos
tantos inconformados com o que espera a todos nós.
Como assim perguntei já moído pela curiosidade.
O que fez de tão grave essa pessoa que morreu.
Pelo pouco que entendi, deve ser uma mulher.
Por que tanta revolta.
E novamente com seu olhar acostumado ao dia a
dia da decepção e da tristeza ele respondeu Bem, ela
cometeu com ele o maior crime que alguém pode
cometer. De certa forma ela o traiu de maneira
impossível de ser consertada; E eu: como assim o que
ela fez de tão grave para que ele tenha tanta
raiva dela?
E João prosseguindo disse: não é raiva meu caro,
não é raiva, ou melhor é raiva sim, muita raiva.
Raiva de que insisti Raiva finalizou João dela ter
morrido.
Dela ter partido. Ela tinha câncer e durante muito
tempo se tratou e sempre disse a ele que
sofria com ela e por ela que nunca iria morrer
tão jovem porque o amava tanto que não iria
deixá-lo “dandosopa” para a mulherada.
Que ela ia chorar muito, mas que ele velhinho e ela
velhinha iria levá-lo a sepultura e só então com os
filhos criados ela se encontraria com ele para
amá-lo além da vida.
Senti todo sofrimento daquele homem, afinal eu
também tivera perdas terríveis e sabia agora o que
ele sentia e para não ficar calado comentei: ...é, o
câncer é uma doença terrível, e que faz sofrer
o doente e seus entes queridos. Muitos morrem em
dores e nem a morfina alivia essa dor. Nem a dor
física e nem a dor emocional.
E para aumentar a já também minha angustia e
surpresa João encerrou.
Pois é, mas ela não morreu de câncer.
Ela ficou curada e no dia que foi fazer sua última
avaliação e que recebeu o parabéns da equipe médica
que a tratou um cara embriagado dirigindo em
alta velocidade perdeu a direção e atropelou e
matou quatro pessoas no ponto do ônibus. E já
não contendo uma lágrima que insistia em descer pelo
meu rosto pelos motivos que quem me conhece sabe,
ouvi-o completar. Ela foi uma das que morreram.
Dentro da bolsa o laudo afirmando extinto o mal que
a afligia.
Cabisbaixo voltei para a entrada do cemitério e
ainda ouvi rapidamente o sofrido homem da solitária
sepultura falar: ...você mentiu , me iludiu me fez
pensar que seriamos felizes por muito tempo.
Eu disse que ia com você ao hospital e você não
quis.
Você armou tudo..tudo, morreu porque quis, para me
sacanear e eu não te perdôo..não te perdôo.
Anderson Alencar cujo pai que foi seu amigo, irmão,
conselheiro morreu atropelado por um motorista
irresponsável na porta de casa quando me esperava
chegar.
Pai você me enganou, mentiu para mim, me sacaneou e
eu não te perdôo por isso...não te perdôo.