Não te perdôo
 
Anderson Alencar - STORM
 
 


Essa história passaria despercebida não fosse uma  conversa com o responsável pelos coveiros de um cemitério carioca, mas que ao tomar conhecimento como aspirante a escritor não poderia deixar de contá-la.  Num desses dias de tristeza onde acompanhamos nossos entes a sua morada final observei no cemitério um homem com aspecto de irritado e ao mesmo tempo triste.
Sua irritação o fazia falar algo que de longe me era indefinível, porém sua gesticulação era clara.  Uma gesticulação de veemente protesto.
No momento estava morando na minha própria angústia  e não quis assumir a angústia de ninguém além da minha.
O tempo escoou no bueiro da existência e novamente me vi na contingência de acompanhar outra pessoa à sua última casa quando observei o mesmo homem e com a mesma roupa a gesticular e falar algo que era impossível entender, mas que aguçou dessa  vez a minha curiosidade.
Era um homem simples trajava uma calça cinza e  uma camisa creme. Sobre a camisa um respeitoso paletó azul marinho e completando sua indumentária uma capa de chuva dessas que quase não se usam mais,  porém que denotam tristeza como se antevissem  sempre chuvas finas e que molham o corpo e a  alma como se fossem lágrimas de sofrimento.
Disfarçadamente aproximei-me dele como se olhasse as lápides e suas inscrições e consegui ouvir rapidamente o que ele dizia.
Entre uma frase e outra entendi o seguinte; ...isso foi uma sacanagem.. ..eu confiei em você...  isso não se faz...você me pegou de surpresa...  você me disse que isso não aconteceria... Bem, estranhei não o que ele dizia, mas sim
porque ele estava sozinho.
Observei-o durante algum tempo e dele não se aproximava ninguém, ninguém que eu visse ou  que alguém visse, salvo esporadicamente a chegada  e saída rápida de um coveiro, inclusive o chefe deles
que chamarei de João, só para nominar o personagem  ou um transeunte introspecto como sói acontecer nesses locais de profunda nostalgia.
Encerrado o féretro e quando voltei, o ser estranho não se encontrava mais por lá e deixei repousar  na minha memória o inusitado fato. O tempo cada vez mais rápido, porque ele é tão  mais rápido quanto mais velhos somos, parecendo  querer sorver celeremente o pouco que nos resta de  existência, passou e um dia dos mortos acompanhei  uma pessoa que ia visitar um dos seus, que partiram para o nada, quando o mesmo homem com a mesma roupa, os mesmos gestos e as mesmas palavras diante  do mesmo túmulo me chamou a atenção e dessa vez  com tanta intensidade que nem fui visitar a sepultura  que ali me levara.
Postei-me a seu lado como em prece a um morto qualquer, até porque todos os mortos são iguais mesmo e captei cada palavra que ele emitia.
Ele dizia: O que você fez foi uma sacanagem,  eu confiei em você e você me traiu, jurou que não faria isso comigo e fez. Nem digo por mim, mas pélas crianças. Nunca esperei isso, nunca. Ninguém merece a confiança de ninguém. Você me traiu, foi covarde, dissimulada. Isso foi molecagem da sua parte.
Estava absorto ouvindo esse estranho monólogo quando a mão carinhosa de alguém tocou meu ombro.
Era João o chefe dos coveiros que me cumprimentava  nesse dia de intenso movimento no cemitério o que  me ensejou mesmo sabendo estar ele super atarefado acompanhá-lo em seus rápidos passos  e perguntar: João estava vendo aquele infeliz que a esposa traiu ainda inconformado com a sacanagem dela.
O que houve ele a matou?
Ele a pegou com outro?
Ela se suicidou?
O que trás aquele indivíduo sempre à mesma sepultura.
João fez uma parada e respeitosamente olhou-me  e disse: não amigo, não é nada disso. É mais um dos tantos inconformados com o que espera a todos nós.  Como assim perguntei já moído pela curiosidade.
O que fez de tão grave essa pessoa que morreu.
Pelo pouco que entendi, deve ser uma mulher.
Por que tanta revolta.
E novamente com seu olhar acostumado ao  dia a dia da decepção e da tristeza ele respondeu Bem, ela cometeu com ele o maior crime que alguém pode cometer. De certa forma ela o traiu de maneira impossível de ser consertada; E eu: como assim o que ela fez de tão grave para  que ele tenha tanta raiva dela?
E João prosseguindo disse: não é raiva meu caro,  não é raiva, ou melhor é raiva sim, muita raiva.  Raiva de que insisti Raiva finalizou João dela ter morrido.
Dela ter partido. Ela tinha câncer e durante muito tempo  se tratou e sempre disse a ele que sofria com ela  e por ela que nunca iria morrer tão jovem porque  o amava tanto que não iria deixá-lo  “dandosopa” para a mulherada.
Que ela ia chorar muito, mas que ele velhinho e ela velhinha iria levá-lo a sepultura e só então com os filhos criados ela se encontraria com  ele para amá-lo além da vida.
Senti todo sofrimento daquele homem, afinal eu  também tivera perdas terríveis e sabia agora o que  ele sentia e para não ficar calado comentei: ...é, o câncer é uma doença terrível, e que faz sofrer  o doente e seus entes queridos. Muitos morrem em dores e nem a morfina alivia essa dor. Nem a dor física  e nem a dor emocional.
E para aumentar a já também minha angustia e surpresa João encerrou.
Pois é, mas ela não morreu de câncer.
Ela ficou curada e no dia que foi fazer sua última  avaliação e que recebeu o parabéns da equipe médica que a tratou um cara embriagado dirigindo  em alta velocidade perdeu a direção e atropelou e  matou quatro pessoas no ponto do ônibus.  E já não contendo uma lágrima que insistia em descer pelo meu rosto pelos motivos que quem me conhece sabe, ouvi-o completar. Ela foi uma das que morreram.
Dentro da bolsa o laudo afirmando extinto o mal que a afligia.
Cabisbaixo voltei para a entrada do cemitério e ainda ouvi rapidamente o sofrido homem da solitária  sepultura falar: ...você mentiu , me iludiu me fez pensar que seriamos felizes por muito tempo.  Eu disse que ia com você ao hospital e você não quis.
Você armou tudo..tudo, morreu porque quis, para me  sacanear e eu não te perdôo..não te perdôo.

 
Anderson Alencar cujo pai que foi seu amigo, irmão, conselheiro morreu atropelado por um motorista irresponsável na porta de casa quando me esperava chegar.
Pai você me enganou, mentiu para mim, me sacaneou e eu não te perdôo por isso...não te perdôo.
 

 
 
   

 

 
 
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