Uma noite de lua cheia dessa lua dos
namorados e amantes, das entidades fantasmagóricas
que moram em nossa imaginação, dessa lua que
tantas alegrias e tragédias já presenciou ao longo
de sua existência, iluminado pelo solitário farol
de minha moto, vejo surgir duas pequenas e quase
rasteiras luzes refulgindo como diamantes ao
sol.
Parei e me apoiei em um dos pés
equilibrando meu veículo para melhor observar esse
fulgor em par.
Aos poucos minha vista se
acostumou e notei que era um lobo. Um exemplar de
um já quase extinto lobo-guará.
O cenário era
lúgubre e ao mesmo tempo fascinante, excitante e
também assustador.
Ao fundo no alto de um
pequeno morro uma construção que lembrava um
castelo medieval.
Parecia e depois eu soube que
era mesmo um mosteiro ou algo dessa natureza onde
entram em confronto a fé e a descrença, a vida e a
morte, o fim para sempre e a vida eterna.
Entre
o ser que me olhava e a imagem deslumbrante desse
espectro religioso pareceu-me ouvir lamentos e
vozes de um canto gregoriano angustiante como num
féretro talvez de um monge que toda vida se
prepara só para a morte.
Lembrei-me confesso um
tanto assustado, que lendas de procissões noturnas
que nunca chegavam a nenhum lugar, das orações e
dos lamentos das carpideiras de negro que
acompanhavam mortos de famílias nobres e ricas
porque nem na morte os pobres têm a
igualdade.
Bastante amedrontado embora ateu
confesso que mil pensamentos passaram como num
“flash back” pela minha mente.
Ali vi todos os
meus mortos me olhando, meus raros amigos e alguns
conhecidos, ex-amores e amantes que se
foram.
Trêmulo lutava para não perder meu
controle, pois se o medo nos domina não tem
retorno ele nos leva ao terror da loucura, a
insanidade do desequilíbrio emocional.
Ali
nesse momento eu vi a morte me dizendo: um dia
será você Anderson, de mim você não escapa, nem
você nem as pessoas que você odeia e nem mesmo as
que você ama. De mim, ninguém
escapa.
Flagrei-me balbuciando coisas
desconexas e confesso que em raros momentos da
minha vida senti tanto medo.
Como
pára-quedista, mergulhador e praticante de artes
marciais aprendi que o maior inimigo nosso é o
medo.
É ele que avisa que a morte está
chegando.
Não que não devamos ter medo, pois só
insanos nada temem por não terem a compreensão
dessa sombra que é o terror, mas devemos saber
conviver com eles para não perdemos a nossa
razão.
Medos, tem vários sentidos, vários
caminhos.
Há o medo da morte, o medo da
desonra, da insanidade, da senilidade da perda de
nosso amores de nossas paixões. Há ate o medo de
ter medo e esse sem duvida é o pior dos
medos
Esse sempre me acompanhou, o medo do
medo.
Às vezes vivemos toda uma vida e nada
aprendemos e em alguns segundos de nossa
existência compreendemos tudo tão rapidamente que
alguns nem percebem esse entendimento, mas eu
percebi.
Naquela noite encontrei algo que devia
me temer e até talvez me temesse, mas ele simples
irracional pequeno e solitário desencadeou em mim
todo o medo que eu fingi não sentir em toda minha
existência, que sempre ocultei até de mim
mesmo.
Nem percebi sua ida, pois quando
rapidamente desviei o olhar para o mosteiro
lúgubre, meu colega de estrada e solidão, o
pequeno lobo guará havia desaparecido na noite e
na mata.
Ainda com meu coração descompassado
porem com um alto grau de entendimento reflexão
segui viagem.
Os anos se passaram e meus medos
se concretizam cada dia mais um pouco.
Perdi
tantos amores, Luciana, meu pai, minha mãe, alguns
colegas e ate raros amigos que um dia eu tive.
Perdi paixões, desejos e sonhos de vida.
Perdi muito, perdi tanta coisa, mas mesmo
assim sigo em frente como todos, pois todos também
perdem e achamos que nossas perdas são as piores,
mas não são.
Interessante que em determinando
momento de nossas perdas entendemos mais o
sofrimento alheio do que o nosso próprio
sofrimento, pois somamos ás nossas angústias as
angústias de outros tantos.
Todas as perdas são
terríveis, mas perda é como a virgindade que
talvez seja o pior momento da relação de uma
fêmea. Depois as relações se sucedem sem tanta
dor.
Muitos andam pela noite solitários e
encontram na sua estrada, lobos guarás como o que
eu encontrei.
Alguns encontram lobos na lua
cheia a lua do medo, alguns até encontram lobos, a
lua e o convento, mas raros encontram o lobo, a
lua o convento e a estrada.
Eu encontrei tudo e
graças a um pequeno irracional tão ou mais
solitário do que eu entendi que o caminho de nossa
vida até a morte, desde que começamos nem sei
quando, a ter consciência de existir, é o
CAMINHO
DO MEDO.
EM TEMPO; SEJA POR DEUS PARA QUEM CRÊ OU
PELA CIÊNCIA, COM CERTEZA UM DIA TODOS ESTAREMOS
DE VOLTA AQUI NESSA VIDA.
NESSE DIA NUMA
GRANDE CONFRATERNIZAÇÃO RIREMOS E CHORAREMOS E
DIREMOS A QUEM RETORNOU: NOSSA, ACHEI QUE IA FICAR
LOUCO AO TE PERDER. COMO É BOM TER VOCÊ DÊ DE
VOLTA. COMO É BOM!!! COMO É BOM!!!
ISSO SERÁ O
PARAÍSO
SÓ ALGO EMPANARÁ ESSA ALEGRIA ENTRE
ALGUNS SERES É QUE SE MESMO ELE ESTANDO DE
VOLTA, NÃO O TENHAMOS DE VOLTA. ISSO SERÁ O
INFERNO. ESSE SERÁ O ETERNO CAMINHO DO MEDO.
SE
ASSIM FOR SERÁ MELHOR CONTINUAR MORTO.
É EM
VIDA SE ALGUM DIA QUISERMOS TER A FELICIDADE
NOVAMENTE E SAIRMOS DESSE TERRÍVEL E SOFRIDO
CAMINHO, QUE DEVEMOS ENTERRAR PARA SEMPRE ALGUÉM
QUE AMAMOS MAS QUE NÃO PODEMOS TER
MAIS.