
Dom Jeremias
FERENS
Bispo de Aspendos
Eparca Ortodoxo Ucraniano da América do
Sul

Todas as Igrejas Ortodoxas Canônicas celebram a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o Calendário Juliano, instituído por Júlio César, no ano 46 antes de Cristo.
O calendário para a Páscoa é baseado na astronomia, e por isso mesmo, muito complexo. Desde os primeiros anos do Cristianismo, este assunto foi motivo de divergências entre o Oriente e o Ocidente e de aprofundados estudos. Sua importância religiosa começou no ano 325 com a realização do Concílio Ecumênico realizado em Nicéia, convocado pelo Imperador Constantino Magno, quando os Santos Padres da Igreja resolveram, por unanimidade, que a Páscoa seria comemorada por todos os cristãos no mesmo dia. As resoluções daquele concílio para a celebração da Páscoa foram:
A Páscoa deverá ser comemorada sempre num Domingo.
Que a Páscoa seja comemorada no Domingo que segue a lua cheia do equinócio da primavera no Oriente, isto é, depois do dia 21 de março.
Assim sendo, a Páscoa cristã realizar-se-á sempre após a Páscoa judaica.
A Igreja Ortodoxa, fiel às decisões deste Concílio, continua seguindo este calendário, observando fielmente os cânones deste concílio e não aceitando reformas, nem tão pouco inovações no que diz respeito à Grande Quaresma e às festividades pascais até o dia de Pentecostes, no 50º dia após a Páscoa.
Mesmo depois do rompimento da unidade com a separação da Igreja de Roma no ano de 1054, durante os 528 anos seguintes, ambas comemoravam a Páscoa na mesma data, até o ano de 1582 quando o Papa Gregório adotou o calendário que leva seu nome e que é mais próximo do calendário Juliano do que o ano astronômico.
A Igreja Ortodoxa não aceitou o calendário gregoriano porque este contraria as resoluções do Concílio de Nicéia. Na época do Concílio, a diferença era um adiantamento de 10 dias do calendário gregoriano em relação ao calendário Juliano. Já neste século, esta diferença aumentou para 13 dias.
Por exemplo: o Natal que é comemorado no dia 25 de dezembro (Gregoriano), para os que permanecem fiéis ao calendário Juliano, esta data (25 de dezembro) só vai chegar 13 dias depois. Ou seja, 7 de janeiro no calendário Juliano e 25 de dezembro no Gregoriano.
A Igreja Ortodoxa prepara os seus fiéis para a Festa das festas, a Páscoa de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, com um período penitencial chamado "Triódion" Penitencial (período de preparação para a Grande Quaresma e a Semana da Paixão).
"Triódion Pentecostal": tempo litúrgico que se estende do dia da Páscoa até o 50º dia após a Páscoa, quando a Igreja comemora a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos ou o Pentecostes.
Triódion Penitencial: inicia-se no "Domingo do Filho Pródigo", no qual a Igreja conclama os fiéis ao arrependimento e a voltarem á Igreja, casa paterna, assim como o Filho Pródigo arrependido também retornou à casa do deu pai.Segue-se o "Domingo do Fariseu e do Publicano", em que a Igreja convida a todos os fiéis a aprenderem a humildade do Publicano.
Depois, na semana que segue, o "Domingo da Parábola do Juízo Final" no qual somos chamados ao amor e serviço ao próximo, sobretudo dos mais necessitados que manifestam a pessoa e presença do Senhor entre nós. A Igreja nos lembra ainda da necessidade do jejum e abstinência da carne e seus derivados como exercício que nos ajudam a exercer o domínio sobre as más inclinações, as concupiscências, purificando-nos e preparando-nos para o Reino vindouro .
Segue-se o "Domingo do Perdão", em que comemora o perdão. O próprio Cristo nos ensina a perdoarmo-nos uns aos outros para que sejamos dignos do perdão divino e possamos iniciar a Grande Quaresma com dignidade cristã.
A Quaresma inicia-se na segunda-feira que segue o "Domingo do Perdão" e se estende por 40 dias, até a sexta-feira que antecede a Semana da Paixão.
Neste período santo, troca-se os paramentos e toalhas ornamentais dos altares e ícones nos templos: das cores festivas para cores mais escuras, geralmente o púrpura, lilás ou preto. Os tropários, hinos, cantos e cânones, em todos os Ofícios Sagrados, são cantados com melodias mais lentas e em voz baixa, acompanhados de textos do Antigo e Novo Testamento que revela a grandeza divina, os sofrimentos de Cristo, e nos conclamam conversão, a que voltemos pela meditação e participação nos Ofícios Sagrados, os corações e as mentes para o alto, purificando a alma e fortalecendo o espírito.
Para nos ajudar e fazer esta caminhada de contrição, arrependimento e preparação parta a grande Páscoa, a Igreja determina a suspensão de todo o tipo de divertimento, festas, bailes e, até mesmo, a realização de casamentos neste tempo.
Durante a Quaresma, a Divina Liturgia e os Ofícios Sagrados são celebrados com duração mais prolongada. Nos domingos é celebrada a Divina Liturgia de São Basílio Magno, na qual são preparados e consagrados os Santos Dons para a Liturgia de São Gregório, que é feita às quartas e sextas-feiras durante a Quaresma, inclusive na segunda e quarta-feira da Semana da Paixão. Na Liturgia de São Gregório não há consagração sendo denominada por isso de "Liturgia dos Pré-Santificados". As sábados é celebrada a Liturgia de São João Crisóstomo, seguida do ofício "Akáthistos" aos Sofrimentos do Senhor. Às sextas feiras durante toda a Quaresma, o ofício Akáthistos em louvor à Mãe de Deus é cantado solenemente nas catedrais e paróquias.
A Anunciação de Nossa Senhora é comemorada no dia 7 de abril (25 de março no calendário gregoriano) e, se este dia cair no período da Quaresma, permite-se a celebração da Divina Liturgia de São João Crisóstomo , iniciando-se com o ofício de Vésperas.
Na I Semana da Quaresma, às segundas, terças, quartas e quintas-feiras, são celebrados os Cânones de Santo André de Creta durante ofício da Grande Vigília, com repedidas genuflexões profundas (prostrações). Na quarta-feira da V Semana, são cantados ou recitados na sua totalidade durante o Ofício de Matinas, compreendendo 250 tropários acompanhados de genuflexões . Nos outros dias da quaresma os ofícios das Horas, (Matinas, Vésperas, Vigílias e o ofício da Meia Noite) são feitos normalmente, com leituras sagradas e acompanhados da oração de Santo Efrém, o Sírio.
No Sábado que antecede a Semana da Paixão, a Igreja celebra a Ressurreição de Lázaro, irmão de Marta e Maria, denominando este dia de "Sábado de Lazaro".
O Domingo anterior a Páscoa, comemora-se a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém e, como de costume, é feita a bênção de ramos com os quais devemos saudar o Cristo que veio nos remir e salvar. Daí ser comumente conhecido este domingo com "de Ramos", iniciando a "Semana da Paixão".
Na Semana da Paixão, a Igreja convoca os fiéis ao jejum severo, ao recolhimento espiritual e á meditação sobre os sofrimentos e padecimento de Nosso Senhor.
Na quinta-feira da paixão, é celebrada a Divina Liturgia de São Basílio Magno. Neste dia, o bispo faz a consagração do óleo para o Crisma, bem como dos Antimênsios (antemesas, panos sagrados) para os altares das novas paróquias e para o uso missionário dos sacerdotes. São utilizados para a celebração da Divina Liturgia e levam a assinatura do respectivo bispo. À noite, celebra-se o Ofício das Matinas com 12 longas leituras dos Santos Evangelhos relacionados com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Na manhã da Sexta-feira da Paixão, celebra-se o Ofício das Portas Régias.À tarde deste mesmo dia, Ofício de Vésperas com a procissão de 3 voltas ao redor da igreja com o Santo Sudário, simbolizando a descida da Cruz e o sepultamento do Senhor. À noite, diante do Santo Sudário exposto, celebra-se a "Grande Matina de Jerusalém". O Santo Sudário permanece na igreja para ser visitado e venerado pelos fiéis, de Sexta-feira á tarde até a véspera da grande procissão pascal.
Na manhã do Sábado da Paixão, é celebrada a Liturgia de São Basílio Magno, seguida de uma segunda procissão de 3 voltas ao redor da igreja simbolizando a descida de Jesus ao Xeol (infernos) para libertar os justos. Ao anoitecer inicia-se a leitura de todo o livro dos Atos dos Apóstolos. Á meia noite, celebra-se o Ofício de recolhimento do Santo Sudário para o altar principal, onde permanecerá até a festa da Ascensão do Senhor, no 40º dia após á Páscoa. (De onde será depois transportado em cerimônia especial para o lugar em que normalmente é conservado). Em seguida, trocam-se todos os paramentos e toalhas de cores escuras para cores festivas. As portas régias do Iconostáse permanecem abertas e tem início a Grande Procissão Pascal. na procissão, são levados o Santo Evangelho, a Cruz, o Ícone da Ressurreição, os estandartes, o Arthos (pão fermentado) e o turíbulo com incenso. O sacerdote com a cruz de bênção, juntamente com os fiéis com velas acesas, dá início à procissão, enquanto as portas da igreja permanecem fechadas. Esta procissão simboliza a ida das santas mulheres, de madrugada, ao santo sepulcro para embalsamar o Corpo do Senhor. Cantam-se durante o cortejo os hinos "A Tua ressurreição, ó Cristo Salvador", "Os anjos glorificam nos Céus" e "Faze-nos dignos aqui na terra, que com coração puro possamos glorificar-te". Ao término da procissão o sacerdote para diante da porta principal da igreja e, após incensá-la, dá início às Matinas Pascais, entoando o "Anúncio da Ressurreição":
Cristo ressuscitou dos mortos
e com a morte venceu a morte
Aos que estavam no túmulo
Ele deu a vida!"Os sinos replicam e o coro repete o mesmo hino seguido dos versos anunciados pelo sacerdote. Os fiéis cumprimentam-se uns aos outros dizendo: "Cristo ressuscitou! e responde-se "Em verdade ressuscitou"!
Em seguida, segurando o crucifixo, o sacerdote abre a porta da igreja e todos entram cantando o hino da ressurreição. O ofício das Matinas Pascais continua com o uso do incenso e o coro canta em tom festivo todos os cânones pascais de autoria de São João Damasceno. Depois das Matinas, dá-se início á Liturgia Pascal e, ao final da Liturgia, inicia-se uma nova procissão de 3 voltas ao redor da igreja para a bênção das cestas pascais com os alimentos a serem bentos para o desjejum na ceia pascal dos fiéis. Esta procissão simboliza a volta dos fiéis para as suas casas e as visitas entre os familiares.
Seguindo a tradição ucraniana, a dona de casa prepara os bordados com antecedência; os membros da família pintam os ovos conhecidos como "Pêssankas" de tradição milenar.
Prepara-se ainda cestas com as "kráchankas" (ovos pintados cozidos), lingüiça, carne de porco assada, manteiga, sal, raiz forte e a tradicional "Paska" (tipo de panetone doce com passas). A cesta é ornamentada com uma toalha bordada, flores e ervas aromáticas. Ao iniciar a ceia pascal o chefe da família corta um dos ovos bentos e distribui à esposa e aos filhos, do mais velho ao mais novo, dizendo: "Cristo ressuscitou!" Ao que se lhe responde: "em verdade ressuscitou!" Em seguida, servem-se dos demais alimentos.
A semana após a Páscoa é toda festiva. O jejum acabou e os divertimentos são permitidos. As portas da Iconostase permanecem abertas simbolizando que Cristo abriu as portas do paraíso para todos os que Nele crêem.
No Domingo após a Páscoa, a Igreja comemora o Domingo de São Tomé. Para a Igreja Ortodoxa, este também é o Dia de Finados . Após a liturgia, os fiéis dirigem-se até o cemitério para visitarem os túmulos de seus entes queridos levando os alimentos abençoados na Páscoa e depositando-os sobre os túmulos, enquanto aguardam a chegada do sacerdote para realizar o Ofício da Ressurreição para os adormecidos no Senhor (Panaheda). O Ofício é realizado em cada túmulo individualmente. Os fiéis levam para seus entes queridos a alegria da Páscoa, fortalecendo a fé na ressurreição dos mortos, certos de que a morte não é senão um adormecimento no Senhor a espera da ressurreição para a vida eterna.
No II Domingo após a Páscoa, a comemora-se o "Domingo das Santas Miróforas", as santas mulheres que levaram aromas para embalsamar o Corpo de Jesus, e primeiras testemunhas e anunciadoras da Ressurreição de Jesus.
O III domingo é o "Domingo do Paralítico" e no IV Domingo celebra-se o encontro de Jesus com a Samaritana, chamado por isto de "Domingo da Samaritana". O V Domingo é dedicado ao "Cego de Nascença" e assim denominado.
No 40º dia após a Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor Jesus e, neste dia, encerram-se todos os festejos pascais.
No VI domingo, a comemora e celebra a memória dos "Santos Padres do Primeiro Concílio Ecumênico". No VII Domingo após a Páscoa comemora-se, a "Santíssima Trindade" e a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos ou "Pentecostes".
No VIII Domingo, celebra-se o "Dia de Todos os Santos", encerrando assim o "Triódion Pentecostal" seguindo-se o tempo comum após Pentecostes.
Todas as Festas litúrgicas relacionadas ao "Triódion Penitencial" e ao "Triódion Pentecostal" fazem parte do ciclo pascal e são móveis porque é móvel a festa da Páscoa.
As demais Festas da Igreja incluídas no tempo comum, como o Natal, Epifania, Natividade da Santa Mãe de Deus entre outras, são fixas e têm datas certas e pré determinas para serem comemoradas.
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Tropário da Ressurreição
Português:
"Cristo ressuscitou dos mortos,
venceu a morte com a morte.
Aos que estavam no túmulo
Cristo deu a Vida!"
Slavonic - (Transliterado):
Hristoss vosskrese iz mertvih,
smerteeyou smert po prav,
Ee suscheem vo grobeh
zhivot darovav!
Grego - (Transliterado):
Xristos anésti ek nekron,
thanato thanaton patisas,
ke tis en tis mnimasin,
zoin xarisamenos!
Inglês:
Christ is risen from the dead,
Trampling down death by death,
And upon those in the tombs
Bestowing life!