A NAMORADA
DA MAMÃE

Maria Rita
Quando me propus a escrever sobre este tema, eu sabia que a tarefa não seria fácil.
Afinal, estaria
abordando dois problemas, ambos igualmente profundos, embora diversos:
1) O
relacionamento dos filhos de casais separados com um novo(a) companheiro(a) da mãe,
ou do pai;
2) Esse
mesmo relacionamento, com suas novas implicações, quando a mãe (ou pai)
assumem uma nova parceria, dessa vez homossexual.
Pesquisei, quase em vão, bibliografia a respeito. As pesquisas são quase
inexistentes, e as poucas que há, são de outros países, totalmente diversos
de nossa realidade, inclusive regidos por outras legislações.
Há, realmente, na net, algumas páginas que abordam o problema, muito
superficialmente, nas seções de “fórum”.
Para minha surpresa, porém, a maioria absoluta dos casais que buscavam
esclarecimentos a respeito era de gays, que reconstruíram a vida pós casamento
hetero, com parceiro homossexuais, muitos deles sem deter a guarda dos filhos.
Decidi, então, basear-me em minha experiência pessoal, e a de algumas mulheres
que estão vivendo esta situação.
Tenho 4 filhos, sendo 2 adultas, casadas, e dois menores: Gustavo (16) e Paloma (11)
Assim que me separei, conheci aquela que é o amor de minha vida, e tem sido a companheira em todos esses anos.
No início, a perplexidade, pois eu sempre me conhecera como hetero, e agora
sentia toda a plenitude do amor por uma mulher... foi preciso todo um processo
de psicoterapia para que eu entendesse que estava, finalmente, me descobrindo, e
tinha dois caminhos: ou renunciava a esse amor, que me completava em todos os
sentidos, ou seguia em frente, corajosamente, lutando pela minha felicidade,
embora já tivesse meio século de vida.
Senti que era impossível retroceder, e fui em frente.
Nos primeiros tempos de namoro, minha amada morou sozinha (ela se mudou para
minha cidade), então não foi tão difícil, para as crianças, aceitar a
“nova amiga de mamãe”.
No entanto, o amor foi ficando cada vez mais exigente, e a necessidade de estar
juntas, de partilhar o dia a dia, foi se tornando cada vez mais forte.
Por ocasião do Natal de 99, resolvemos que minha
amada viria morar em minha casa.
Ela já havia me socorrido inclusive financeiramente, dispondo de alguns bens
que tinha, para me ajudar a sair do buraco em que me encontrei, logo após a
separação.
A primeira pessoa com quem conversei, a respeito de meu novo relacionamento, e
da decisão que tomáramos, foi com meu ex-marido. Eu temia que ele pudesse
pedir a guarda judicial das crianças, e essa era uma dor que eu não estava
preparada para suportar. No entanto, ele se mostrou
solidário, queria minha felicidade.
Aliviada, chamei à minha casa as filhas adultas, a abri o jogo com elas.
A princípio, ficaram também atônitas... afastaram-se, por alguns dias... mas,
felizmente, minha amada já lhes havia conquistado o coração, e elas sentiram
que teriam, nela, uma grande amiga.
Restava conversar com meu filho adolescente... era a tarefa mais difícil, eu
creio. Não somente pela fase de vida em que ele estava, cheio de dúvidas e
espinhas, mas porque havia sofrido calado com a separação, e nutria muito
afeto pelo pai.
Ele ignorava, como até hoje ignora, as verdadeiras razões desse rompimento. Só
sabia que estávamos financeiramente em situação difícil, e que “minha
amiga” iria morar conosco. Claro que tudo foi muito gradual.
Ele já havia passado uma temporada de férias na
cidade dela, quando ainda namorávamos pela Internet, e adorava pescar e
conversar com aquela “tia”, que lhe dava atenção e tratava-o como um
homenzinho.
Uma noite, logo após minha amada estar em nossa casa e partilhar comigo o
leito, eu chamei meu filho ao quarto para conversar. Ele passara o dia numa
pescaria animada, com minha amada e um amigo dele, e estava receptivo para o diálogo.
Comecei perguntando a ele se podia contar com sua amizade, e com seu amor,
houvesse o que houvesse.
Diante de sua afirmativa, perguntei o que ele pensava de meu novo
relacionamento, se achava que éramos amigas, mesmo... ele disse que não, que
havia alguma coisa a mais.
Percebera isso pelos inúmeros telefonemas, pelo celular, quando ele estava em férias,
com ela... e, agora, pelos laços estreitos que tínhamos, pelas gentilezas dela
para comigo, pela forma como cuidara de mim quando fui operada... percebi que
ele estava me dando o gancho que queria, e então comecei a falar.
Lembrei a ele do respeito que sempre tivemos, em nossa família, pelas minorias,
inclusive homossexuais... pela forma como eu nunca permiti que fossem feitas
referências pejorativas a essas pessoas que nutriam amor pelos seus pares.
Ele, inclusive, comentou sobre um amigo nosso, padrinho de minha filha, que é
gay, e há anos freqüenta nossa casa, aliás por quem meus filhos nutrem um
afeto especial.
Conversamos longamente... sobre minha solidão, sobre a obrigação que cada um
de nós tem de ser feliz, e sobre nossa crença num Deus que é Amor, e que abençoa
toda e qualquer manifestação de Amor, por ser Sua própria essência... claro
que todo esse diálogo ocorreu em palavras e expressões que os quatorze anos ( na época) de
meu filho pudessem entender e acompanhar. No final da conversa, mais de uma
hora depois, ele me abraçou, e disse:
-
“Mamãe, eu só quero que você seja feliz...”
Com
Paloma, nem foi preciso conversar, pelo menos não abertamente. Talvez, devido
à sua própria intuição feminina, ela considera tudo normalmente.
De lá para este momento, tudo ocorre normalmente, quase da mesma forma como se
eu tivesse tendo um novo relacionamento hetero, como a maioria.
Às vezes, minha amada repreende um ou outro, com a mesma autoridade com que eu
o faço... no entanto, a última palavra, em qualquer decisão, é sempre tomada
em conjunto, para o castigo merecido ou para o aumento da mesada...
Sabemos que nem todo mundo pensa igual a nós, e respeitamos a forma de cada um
pensar e agir, como queremos ser respeitadas.
Por isso, nossas expressões de afeto mais calorosas acontecem em nosso quarto,
nosso “mar da serenidade” como chamamos. Embora, como qualquer casal,
tenhamos sempre um colchãozinho disponível, sob a cama, para as noites de insônia
por medo, doença ou solidão de uma de nossas crianças, que eventualmente
precise estar mais próximo de nós.
Para
finalizar, quero lembrar as palavras de meu filho, no final de nossa conversa.
Quando se ama, o que mais se pode desejar, senão a felicidade do ser amado?
Da
mesma forma que desejamos que nossos filhos sejam felizes, eles também aprendem
a respeitar e facilitar nossa felicidade. Principalmente, quando, desde
pequeninos, tenham sido orientados para o Amor.
Artigo
publicado na revista Um Outro Olhar, edição de Julho/2001)
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