VOLTAR A VER PARIS

 

Foi numa noite de final de Outubro, 1998. 

Mais uma noite de solidão.

Eu estava navegando no micro, como vinha fazendo há meses,procurando mitigar essa dor em espiral  da solidão a dois, esperando um marido que já não casava mais. Alguém que compartilhava comigo o espaço, apenas.  Dificilmente comíamos à mesma mesa, ele não tinha tempo, nunca tinha tempo para mim ou para os filhos.

Por mera “curiosidade” (era como eu pensei, no início), entrei numa sala de chat entre mulheres homossexuais. Eu vivera um breve romance com uma mulher, há algum tempo, que, embora não tivesse sido satisfatório,  mostrou-me  a possibilidade de uma nova forma de amor, jamais antes cogitada.  Meu problema, com as salas de chat em geral, eram as conversas vazias, a pornografia vulgar, a falta de assunto, as palavras chãs e vãs. Enfim, arrisquei uma espécie de “anúncio”...

PROCURO UMA MULHER MADURA, COM CURSO SUPERIOR, DE PREFERÊNCIA QUE FALE OUTRA LÍNGUA E MORE NA REGIÃO DE CAMPINAS.  

Reli. Achei antipático, pedante, mas enviei. Não esperei muito pela resposta:

EU ME ENQUADRO EM QUASE TODAS AS SUAS EXIGÊNCIAS. TENHO CURSO SUPERIOR, MOREI NA FRANÇA, SOU MADURA.. APENAS, MORO UM POUCO MAIS LONGE QUE A REGIÃO CITADA....

Não era um pouco mais longe. Estávamos, na verdade, a  2000 km de distância...eu, no interior do estado de São Paulo, e ela, em Cuiabá, Mt. Enfim, para um papo inteligente, em fim de noite solitária, eu não tinha nada a perder.

Foi assim que tudo começou. 

Conheci Fulvia nessa noite de Outubro, ou melhor, começamos a nos conhecer, e fazemos isto até hoje. 

Nas primeiras semanas, nosso contato era esporádico... ela sabia tudo sobre computadores, era uma mulher polivalente...me ensinou a gargalhar no icq, contou-me sua vida na França, em longos emails que ela chamava de “Ma Vie”. Disse de sua visita à Torre Eiffel, numa tarde chuvosa, quando chorou ao ver Paris do alto... nesse dia, ela se prometera voltar à Torre, mas com alguém que com ela partilhasse a vida, completamente.  

Eu contei sobre meus casamentos... minha viuvez, do primeiro marido , o casamento que estava moribundo, o filho adolescente, a neta que eu criava...

Depois, vieram as fotos. Posso dizer que me apaixonei, realmente, quando vi a primeira foto que ela mandou... ela ainda servia como terceiro sargento da Polícia Militar Feminina, no Rio de Janeiro, e enviou uma foto em que, fardada, acariciava um cãozinho. 

Ah.... as mãos de Fulvia.... difícil descrever o que senti, diante daqueles dedos longos, como se cada um deles contivesse uma promessa. Mãos nodosas, de artista, de mulher, que sabiam sacar uma arma tão bem quanto acariciar um filhote de cão. O contraste entre a rudeza daquela farda com a ternura daquelas mãos.... foi meu primeiro sinal de que estava já, ardendo em brasas por aquela mulher grande e terna.

Do micro, partimos para os telefonemas. 

Em Novembro, ela me contou algo que estava entalado em sua garganta: estava também num relacionamento homossexual de mais de 10 anos, morava ainda com essa mulher, na casa da família dela.... com sua mãe, sobrinhos, irmãs, etc. Contou que, há tempo, seu casamento também estava ruim, cheio de cobranças, ela estava infeliz. Embora eu fosse ainda (mal) casada, doeu, doeu muito. Meu ciúme taurino se manifestou, e  estivemos distantes vários dias. Coincidentemente, tive problemas sérios com uma das filhas, que tive que acudir, ao mesmo tempo em que cuidava dos papéis para a separação, proposta por mim e aceita por meu ex- marido. 

Os dias passavam, e voltamos a teclar... dessa vez todas as noites, até a madrugada, e todas as tardes, depois do almoço. Olhando, agora, para esses dias e noites insones, ficamos admiradas de como conseguíamos conciliar tudo... o trabalho nosso de cada dia, o cuidado meu com as crianças e a casa, os compromissos profissionais, e a pressa de abrir o micro, plugar e ver o nome amado aparecendo, brilhando, on line...

Dezembro chegou, e com ele a perspectiva das festas natalinas. Eu a convidei para vir passar o Reveillon em minha casa. 

Foram dias muito difíceis, para ela, porque vir implicava em romper definitivamente com sua ex-companheira, que descobrira tudo, e o clima ficou de tal forma que Fulvia foi literalmente “despejada” do quarto de sua ex, e foi se alojar num quartinho de despejo, até se mudar definitivamente para a casa do irmão.... enfim, seria preciso um livro inteiro, para relatar tudo o que passamos, 2000 km distantes, por causa desse amor. 

Enfim, ela se decidiu, deixou seu sólido emprego e veio. 

O dinheiro era pouco, só dava para pagar a passagem de ônibus...

Foi no dia 29 de Dezembro de 1998 que Fulvia desceu do ônibus, na beira da Anhanguera, num lugar que até hoje chamamos de “nossa ribanceira”. 

Eu a aguardava, toda de branco, ao lado do meu carro. O primeiro contato foi um abraço, longo, demorado, comovido. Depois, já acomodada no carro, com o sobrinho atrás, só foi possível o roçar dos braços.... no entanto, foi uma das sensações mais prazerosas que tive, até hoje, em toda a minha vida!  

Nessa noite, nada aconteceu, apenas conversamos, nos conhecemos, nos tocamos, trocamos carinhos. No dia seguinte, fui com ela ao meu local de trabalho, e, pela vez primeira,fizemos amor...um amor urgente, com pressa, sôfrego, como se fosse o último momento de nossas vidas. 

Era o último dia do ano. À noite, no momento da virada, foi para ela meu primeiro abraço... e sentimos, ambas, que realmente nossa vida estava dando uma virada. 

Nos dias seguintes, multiplicamos as oportunidades de ficarmos a sós, conhecermos cada detalhe de nossos corpos, explorarmos nossas sensações... dividimos com as crianças os dias de férias, os passeios, os momentos que passavam muito mais depressa do que desejávamos. 

Chegou, finalmente, o dia em que ela deveria partir, novamente. Levei-a, com o sobrinho, para embarcar de volta a Cuiabá. Lágrimas, abraços, promessas... nem nos importavam as pessoas que nos olhavam, curiosas, dentro e fora do ônibus. Víamos apenas nossa saudade, a vontade de ficar juntas, e o ônibus que já se preparava para partir, imperioso, levando minha amada, deixando-me ali, de pé, braços vazios... 

O tempo continuou sua trajetória. Janeiro findou.... fevereiro, carnaval, março.... Todos os dias, depois do almoço, e todas as noites, tínhamos nosso encontro marcado na net. 

Eram planos, confidências, cartas de amor, cartões telefonemas... 

Abril chegou, e com ele nosso aniversário. No dia do seu aniversário minha amada acordou com uma cesta de café, que comprei pela net, e mandei entregar em sua casa... foi como se eu estivesse lá, abraçando-a, matando a saudade que já nos matava. 

Planejamos a minha viagem para lá, no final do mês, para o meu aniversário. Juntei as economias que ainda tinha guardadas, e no dia 28 de Abril pousei em Cuiabá. Jamais me esquecerei das luzes da cidade, enquanto o avião taxiava, e eu pensava que, entre aquelas luzes, minha amada era a mais brilhante, e me esperava, na madrugada quente. 

Desci do avião para seus braços, e não fomos para sua casa. Terminamos a noite num motel, afogando em lágrimas e suspiros toda a emoção do reencontro. 

Os dias seguintes foram rápidos e maravilhosos. Tínhamos o feriado de Primeiro de Maio, e alguns dias de folga... decidimos passa-los na casa de campo da família de Fulvia, na Chapada dos Guimarães. E foi exatamente nesse paraíso, na Cachoeira da Salgadeira, que nos casamos. 

Era uma segunda feira, e não havia ninguém, naquele lugar paradisíaco. Entramos na Cachoeira, e pedimos, emocionadas, a proteção divina para nosso amor. Novamente teríamos que nos despedir, mas dessa vez seria por pouco tempo. Tudo estava pronto para que Fulvia viesse morar em minha vida, e assim aconteceu. No final de Maio/99, exatamente no dia 28, o velho Chevette parou, de madrugada, à minha porta. Minha amada desceu, exausta, e o porta malas, arriado, trazia seus poucos pertences... roupas, livros, fotos, caixas, o seu micro, instrumento de trabalho. Começamos, então, nossa vida de casadas.

Muita coisa mudou, de lá para cá, em nossas vidas. O Chevette foi vendido para que saldássemos dívidas. 

Conseguimos, com o trabalho conjunto e árduo, economizar o suficiente para reformar a casa... financiamos outro carro, e temos conseguido juntar algumas economias para, se Deus quiser, irmos a França, visitar os castelos que ela viu, quando lá morou, e cumprir a promessa que ela se fez, quando visitou a Torre Eiffel sozinha: voltar a ver Paris do alto, mas desta vez  com a pessoa de sua vida.

 Maria Rita  

 

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