Duas conquistas científicas do século que está
findando, da maior significação na teoria do conhecimento,
a Teoria da Relatividade de Einstein e a Mecânica Quântica
iniciada por Bohr, revertem radicalmente as expectativas do pensamento
clássico.
A Física Relativista leva-nos aos espaços siderais,
a lugares onde sonhamos estar jamais. Em viagens fantásticas,
a altíssimas velocidades, próximas à da luz,
que só uma fértil imaginação concebe e
conduz. A velocidades que tais, o tempo se comprime enquanto o Universo
se expande mais, mostra-se ilimitado mas finito; esfuma-se o tabu,
esboroa-se o mito. O relógio eterno não existe mais,
o tempo é você quem faz. Se viajo próximo à
velocidade da luz - que fato estranho! -, o tempo não passa
e eu continuo como antes fui.
A teoria põe em evidência o caráter "relativo"
do espaço e do tempo, antes tidos como conceitos "absolutos"
- fundamentos basilares da Ciência Clássica.
A Mecânica Quântica mostra uma desconcertante realidade
entre as partículas subatômicas, em complexa ou caótica
atividade. Irrequieto, o ente eletrizante move-se a altíssimas
velocidades, ora p'ra lá, depois p'ra cá, em ritmo alucinante.
O próton tenta atraí-lo e mantê-lo preso na órbita
original, assim como a mãe tenta manter o filho peralta nos
limites do quintal. Às vezes ele foge, para realizar a mágica
- parece miragem! - de ao mesmo tempo chegar a dois lugares em sua
viagem. Quando excitado, volta a saltitar, em saltos quânticos,
o elétron, levando o átomo a irradiar energia em forma
de quantum ou fóton. É uma "performance" extraordinária
a desta partícula quase imaginária. Mas há um
personagem diferente nesse ambiente - chama-se neutrino. Um ente pequenino
que a outro não se une, viaja imune. Atravessa espessas paredes
de aço, nada o detém. Altivo, esnobe, segue sem cansaço,
em busca do além.
É a vida em permanente transformação, desde a
partícula mais ínfima do átomo, até aos
monumentais choques intergaláticos!
Diferentemente das relações lineares, de causa-efeito,
e da crença na predição mecanicista, a realidade
quântica evidencia descontinuidades, incertezas, paradoxos,
inumeráveis interações dinâmicas entre
os fatores, responsáveis por fenômenos naturais complexos,
como renovação e recriação permanentes,
cuja expressão completa define o espetáculo mágico
de encanto e beleza exibido no palco da natureza.
O que estes avanços da Ciência e as conseqüentes
reflexões filosóficas têm a ver com o homem comum?
O que muda em sua vida? É de ver que, sem referenciais absolutos
para o espaço e o tempo e sem poder confiar em determinismos
nos processos humanos e sociais, passa-se a depender muito mais de
uma confiável soma de informações a fim de bem
compreender as tendências dos processos, com vistas a planejar
as ações individuais e coletivas. Ao compreender que
não há uma trajetória única, pré-determinada,
a ser seguida inexoravelmente no evolver das sociedades e dos indivíduos,
toma-se consciência de que se é ator mas, de alguma forma,
também autor dos processos.
Então será possível pensar o presente como única
realidade. A memória psicológica é um repositório
de percepções ideológicas, contaminadas, incompletas,
frustrantes, do passado. Por isso, distantes da realidade. De outro
lado, o presente aponta tendências, mas não assegura
certezas no porvir. Logo, obriga-nos a bem administrar o "agora",
de modo a não restar "resíduos psicológicos".
Cada instante da vida é novo, é uma "singularidade".
Não obstante, para perceber a vida como nova, a mente há
de estar liberta dos condiconamentos acumulados. Mente liberta, experimenta-se
a leveza do ser; dá-se o despertar da mais fecunda faculdade
humana - a de criar.