ALMA ERRANTE

Autoria: Professor Edward Leão

 

        Editado em  agosto de 1932. O autor, em seu prefácio, dedicou este livro a Mario Mendes Campos, J. Cunha Lages e Theodosio de Aquino, seus mestres e amigos.

ALMA ERRANTE

Curvas longínquas... mentes al'aneiros

- Rodovias do Sonho e da Ilusão -

Abismos negros... baratos traiçoeiros

Em que se engolfa incauto o coração.

Soberbos alcantis... despenhadeiros

Fortes, cheios de ameaça e de atração.

Espaço imenso... trilhos condoreiros

- Caminho aéreo da imaginação - 

 

Ninhos de águia na excelsa majestade

Dos mais augustos solos da realeza

- Vizinhos naturais da tempestade

- Altos arranha-céus da Natureza.

Vozes de aves, que em doce alacridade

Gorjeiam carmes lindos na devesa...

Pios tristonhos... nênias de saudade

Na música dolente da tristeza...

 

Serpentes líquidas, reptis coleantes

- Artérias d'água abertas sobre a terra -

Mares e oceanos, quérulos gigantes,

Plangendo a mágoa que seu bojo encerra.

Pepitas de ouro... minas de diamantes

- Astros que a picareta desenterra -

Rubis sanguíneos... gotas borbulhantes

Das veias inorgânicas da terra.

 

Edênicas miragens polícromas

Formam quadros de efeitos deslumbrantes,

Miscelânea de cores e de aromas

Num cenário de múltiplos cambiantes.

Troncos enormes, majestosas comas,

Ao sabor de galernos sussurrantes...

Feras ligeiras, sacudindo as pomas

Chamam os filhos prófugos, distantes.

 

Esplêndidas manhãs... Deslumbramentos

De cor na luz mirífica do dia...

Penumbras vesperais... recolhimentos...

Horas de amor e de melancolia.

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Eu vejo tudo e sinto a imensidade

Desse Infinito que me envolve a Vida

- Teia de fios fortes da Verdade

Pelas mãos da quimera entretecida -

E sinto em mim indômita vontade

De subir, voar, levando de vencida

A força etérea, a lei da gravidade

E toda a ciência velha, encanecida.

 

Oh! Quem me dera erguer-me deste solo,

Desta galé fatal que me agrilhoa,

Subir no carro esplêndido de Apollo,

E pelo mundo jornadear à toa.

E tenho a sensação de que me evolo

numa quimera eternamente boa,

Alado, a transitar de pólo a pólo

Na delícia suprema de quem voa.

 

Fora do mundo real a que pertenço

Desagregado da matéria ingrata 

Eu sinto o meu espírito suspenso,

Ruflando as azas rútilas de prata.

Ascendo às grimpas desse espaço imenso,

Onde minh'alma louca de arrebata

E abrange o mundo num olhar intenso

Nesse delírio de nefelibata.

 

Minh'alma, cumpre o teu destino:

Galga e supera os cumes de granito!

Singra o azul como um facho peregrino

- Asa de luz brilhando no Infinito - 

 

Beijos

Eu vejo sempre o céu fitando a Terra,

Vejo a Terra também fitando o céu,

Mas não desvendo o misterioso véu

Que esse amor infeliz, há tanto, encerra.

 

Tenho mesmo a ilusão de que esse incréu

Disputa a amada à sorte em plena guerra

E vejo por detrás daquela serra

O beijo que eles dão como um troféu.

 

E vendo no horizonte aquele beijo

De corpos tão distantes também vejo,

No horizonte visual das ilusões,

 

Lábios humanos sempre se encontrando

Em beijos longos muitas vezes quando

Bem longe um do outro estão os corações.

 

A Rosa e a Estrela

No nobre e velho parque abandonado,

Entre ruínas de heráldico passado

Uma rosa vermelha,

Fúlgida, se assemelha

À rainha orgulhosa,

Esplêndida, formosa,

A dominar à força de beleza

A estesia imortal da Natureza

 

Em meio de raquíticos vassalos,

Magnífica e sublime a domina-los,

Primeira entre os primeiros

Tesouros dos canteiros,

Soberana se ostenta

E às vezes aparenta

Lábios sanguíneos que o desdém descerra

Ante a inveja floral de toda a Terra.

 

No vasto firmamento alto e profundo

- Clâmide azul aberta sobre o mundo -

Uma estrela fulgura

- Claro riso da altura,

Álacre e cristalino - 

Como um farol divino

Ou um cálice de bênçãos luminosas

A gotejar no cálice das rosas.

 

Ela empana o fulgor das companheiras,

Pois é também primeira entre as primeiras

No lúcido cenário.

Seu brilho extraordinário

Que trêmulo palpita

É uma aza que se agita

Pulverizando pelo espaço em fora

Claridades balsâmicas de aurora.

 

Chegando a estrela a rosa se entristece

E diz-lhe baixo como numa prece:

- Formosa estrela, o teu fulgor radiante

Põe ancenúbios de oiro e de diamante

Na minha tez de seda e de veludo.

Mas, sinto, que me invade um tédio mudo,

Um desejo esquisito de brilhar,

De ter cintilações, de fulgurar

E de resplandecer como uma gema,

Ser dos jardins um lúcido diadema,

Ó - falena de luz  - desce no espaço,

Vem pousar no meu cálido regaço!

Serás o espírito - a alma de uma flor.

Serei a carne - o corpo de um fulgor.

 

Por muito tempo a estrela estremeceu

E, por fim, tristemente, respondeu:

- Ó flor, eu vi num rápido momento

Como é universal o sofrimento.

Quantas vezes eu quis descer à terra,

Pesquisar o misterioso que se encerra

Na corola das flores olorosas,

Ter vida e ter perfume como as rosas,

Ter os beijos do sol, quente e fecundo,

E andar de colo em colo pelo mundo.

Mas, ai, querida irmã, como é infinita

A Dor universal. Em mim palpita

uma ânsia igual a que te faz sofrer.

Sou alma e nunca poderei descer -

És corpo e nunca poderás subir.

 

O astro parou instantes a luzir.

Depois voltou pálido, apagado,

Com um rosto depois de ter chorado,

Olhou e viu em pétalas no chão

Desfeita a linda flor. A estrela então

Sentindo ainda maior a sua dor,

Exclama, em voz tremente, para a flor:

- Bem mais feliz tu foste, ó rosa amiga,

O meu destino exige que eu prossiga

Na rota do infinito. O corpo morre...

E tu morreste. O espírito percorre

Todas as direções da Eternidade.

Só me resta de ti grande saudade,

Pobre amiga gentil. Eu fico ainda.

A minha sorte é triste e eterna, infinda:

Serei por sempre lúcida, imortal,

Como o fantasma da Ânsia Universal.

O Bêbado

Era um rapaz de modos elegantes,

Feições bonitas e fidalgos traços,

Que andava às tontas, ensaiando os passos

Trocando as pernas bambas, hesitantes...

 

E quantas vezes, de olhos chamejantes,

Falando a sós e sacudindo os braços,

Vi-o na rua à moda dos palhaços,

Fazendo esgares para os circunstantes.

 

Soube-o mais tarde: ele era um desgraçado

Que tinha uma tragédia no passado

E queria esquecer o mal sem cura.

 

Mas trazia um demônio na memória

Que vivia apregoando a sua história,

Reproduzindo a sua desventura.

Felicidade

Num êxtase, minh'alma se liberta

Do corpo que a detém. Caminha incerta

E vacilante pela treva densa.

Sente-se só dentro da noite imensa.

Ouve vozes confusas. Vê lampejos

Esquisitos que fulgem como beijos

De gênios invisíveis. As estrelas,

Já perdendo o fulgor, quase amarelas

- Topázios, engastados em turquesa - 

Lançam clarões dormentes de tristeza

No torpor cataléptico do mundo.

Num grande sono mórbido, profundo,

A Natureza dorme. Minh'alma forte,

Ante esse quadro apático de morte,

Exulta e vibra de alegria franca.

É como a asa de uma pomba branca,

Sozinha a palpitar na escuridão.

Na paz nirvânica da solidão,

Dentro da sombra e dentro do mistério,

Recorda Hamlet em pleno cemitério,

Louco, a filosofar entre caveiras,

Analisando as vidas passageiras

Consumidas ali. Assim minh'alma,

Perambulando a sós na noite calma

Nos intermúndios do Desconhecido,

Segue um desejo louco indefinido,

De buscar através das negras sombras,

Como se busca um fruto nas alfombras,

Em vez dos ossos lívidos de um crânio

Que se arrancam de um fosso subterrâneo,

A forma viva, nítida, real,

Dessa incógnita eterna, universal,

Miragem de mil modos concebida,

Razão de ser, estímulo da vida,

Que a gente pensa sempre ter deixado

Nunca curva longínqua do Passado,

Mas que se espera ver a cada instante,

Como a sombra que vemos sempre adiante,

inatingível, lépida, ligeira,

Fugindo na vertigem da carreira -

Ou a falena de oiro refulgente

Atrás da qual se corre eternamente

Sem nunca se alcançar... Felicidade!

- Visão antiga envolta na saudade,

Incorpórea, invisível, abstrata,

Sem forma certa e sem figura exata -

Ou borboleta esquiva, fugidia

- Bizarra concepção da fantasia -

Voejando de ilusão em ilusão

No espaço imenso da imaginação.

 

O desvario do êxtase domino:

Eis que já lentamente raciocínio

E verifico que a Felicidade

Não é uma conquista da Vontade,

Mas é o fenômeno íntimo, inconsciente,

Que não se pode achar no meio ambiente

Nem se produz no mundo exterior.

Mesmo no encanto mágico do amor

Ou no apogeu mirifico da glória

Ela é sempre falaz e transitória.

não promana de externas influências

Nem se nutre de vãs reminiscências.

Vive conosco, ignota, ocultamente,

Dentro de nós, incógnita, latente,

Como um bacilo dentro do organismo.

Ela se ri do nosso cepticismo.

 

Como no oceano a pérola se esconde,

Ela se oculta não sabemos onde

Dentro do nosso ser. No entanto, inquieta,

Pobre hermeneuta, humílima exegeta,

A nossa conturbada inteligência

Quer decifrar ao enigma da existência,

Mas vai sem bússola à mercê da sorte,

Indo esbarrar, exânime, na morte.

O homem assiste às lutas sucessivas

De suas próprias forças subjetivas

E não pode intervir. Quer ser feliz.

Creia e refina os gozos mais sutis,

Engolfa o espírito na ciência e na arte,

Busca a Felicidade em toda a parte.

Ai! deixasse ele de indagar a esmo

E procurasse-a dentro de si mesmo!

Pois a Felicidade é em nós que existe

E sei que simplesmente ela consiste

No equilíbrio de nossas faculdades,

Na harmonia e na paz das entidades

Várias e múltiplas de nosso ser.

Nem sempre achamos íntimo prazer

Onde o alheio prazer se manifesta.

Pois, o homem chora num salão de festa

E, dominado por estranho império,

Tem vontade de rir num cemitério.

Eurico

(Para a minha cunhada Hermengarda)

 

É grande a confusão no campo wisigodo.

As hostes de Pelágio em face do perigo,

Voltam para impedir o avanço do inimigo,

No afan de combatê-lo e rechaçá-lo todo.

 

E o homem que combateu com singular denodo

Fica ali, desta vez, das lutas ao abrigo,

Guardando uma mulher formosa, a sós consigo

Para evitar-lhe a dor de um derradeiro apodo.

 

Reconhecendo Eurico a virgem se levanta,

No cavaleiro fita os seus olhos de santa,

Buscando-o num amplexo apaixonado e forte.

 

O cavaleiro audaz recua apavorado

- Presbítero infeliz ao voto acorrentado -

Foge à sua Hermengarda e parte para a morte.

Meu Mistério

Este sorriso alegre que me enflora,

Os lábios a contar que sou feliz

É como o riso falso de uma atriz,

Dissimulando o tédio que a devora.

 

E a frase que me ouvis

Deitar sorrindo pela boca a fora

É o fingimento de quem sofre, embora

Não revele no que o lábio diz.

 

E num contraste acerbo, enquanto o rosto

Tenta ocultar as sombras do desgosto,

Este destrói-lhe a primitiva cor...

 

Este sorriso alegre que aparento

É a ironia falaz do sofrimento,

É contratura histérica da Dor.

Altivez

(A meu pai)

Sinto da hostilidade a fera sanha

Tolher-me o passo em meio do caminho.

Em vão o róseo ideal que me acompanha

Tenta da estrada desfazer o espinho.

 

Da humanidade irônica, tamanha,

Um riso mau, sarcástico, mesquinho:

Eis o meu companheiro na campanha

Rude da vida que travei sozinho.

 

Mas seguirei impávido, solene,

Calcando a inveja cancerosa, infrene,

Que em baixo de meus pés formou seu leito.

 

E deste mundo o estúpido barulho

Jamais há de abater o meu orgulho

- Única flama que me escalda o peito -

Lágrimas

Lágrimas? Verto-as... verto-as e, no entanto,

Sou homem - pobre filho da desgraça -

E quem no mundo existirá que passa

Sem ver correr a linfa do seu pranto?

 

Ninguém. Por isso eu choro. A negra massa

Que forma a nuvem não extingue enquanto

Não descarrega do enfunado manto

A água que cai em flocos de fumaça.

 

Choro e sou homem. Quem dirá que um homem,

Sejam quaisquer as mágoas que o consomem,

Volte aos papéis ingênuos de criança!

 

Mas, a lágrima às vezes me consola.

E em cada gota que na face rola

Vejo outra vez brilhar uma esperança.

Credo

Creio no Bem e creio na Virtude.

Creio que existe um Deus, um Soberano,

Que empresta sempre um sonho à juventude

E uma esperança em flor ao desengano.

 

Creio que o Bem existe e, embora estude

Do Mal, da Hipocrisia o eterno arcano,

Jamais descrente conservar-me pude

Ante a grandeza de um afeto humano.

 

Creio no Amor... no amor das almas puras,

No grande amor que empolga as criaturas

E torna o mundo sempre mais risonho.

 

Creio que o mundo é bom e, na verdade,

Quem faz o Bem acreditar não há de

Que o Bem na terra seja sempre um sonho!

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