DAS M I N A S... O EXÍLIO QUE SE FAZ CARNE ou COLÓQUIO DAS ESTÁTUAS |
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| ´C O N F I S S Õ E S D O S G E R A I S´ por Otacílio Melgaço Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lança teu claro raio ordenador. Conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença e a vida esgarça: não quero ser um móvel num imóvel, quero firme e discreto o meu amor, meu gesto seja sempre natural, mesmo brusco ou pesado, e só me punja a soprar da azulada serrania. Essa mesma, não muito. Balançando entre o real e o irreal, quero viver como é de tua essência e nos segredas, capaz de dedicar-me em corpo e alma, sem apego servil ainda o mais brando. Por vezes, emudeces. Não te sinto a soprar da azulada serrania onde galopam sombras e memórias de gente que, de humilde, era orgulhosa e fazia da crosta mineral um solo humano em seu despojamento. Outras vezes te invocam, mas negando-te, como se colhe e se espezinha a rosa. Os que zombam de ti não te conhecem na força com que, esquivo, te retrais e mais límpido quedas, como ausente, quanto mais te penetra a realidade. Desprendido de imagens que se rompem a um capricho dos deuses, tu regressas ao que, fora do tempo, é tempo infindo, no secreto semblante da verdade. Espírito mineiro, circunspecto talvez, mas encerrando uma partícula de fogo embriagador, que lavra súbito, e, se cabe, a ser doidos nos inclinas: não me fujas..., como a nuvem se afasta e a ave se alonga, mas abre um portulano ante meus olhos que a teu profundo mar conduza, Minas, Minas além do som, Minas Gerais. CANÇÕES DO BERÇO O Vôo sobre as Igrejas... Vamos até a Matriz de Antônio Dias Onde repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho. (...) Esse mulato de gênio Lavou na pedra-sabão Todos os nossos pecados, As nossas luxúrias todas, E esse tropel de desejos, Essa ânsia de ir para o céu E de pecar mais na terra; Esse mulato de gênio Subiu nas asas da fama, Teve dinheiro, mulher, Escravo, comida farta, Teve também escorbuto E morreu sem consolação. (...) Era uma vez um Aleijadinho, Não tinha dedo, não tinha mão, Raiva e cinzel, lá isso tinha, Era uma vez um Aleijadinho, Era uma vez muitas igrejas Com muitos paraísos e muitos infernos, Era uma vez São João, Ouro Preto, Mariana, Sabará, Congonhas, Era uma vez muitas cidades E o Aleijadinho era uma vez. Quem foi que apitou? Deixa dormir o Aleijadinho coitadinho. Almas antigas que nem casas. Melancolia nas legendas. As ruas cheias de mulas-sem-cabeça Correndo para o Rio das Mortes No sol Espiando a sombra dos emboabas No encantamento das alfaias. Sinos começam a dobrar. E todo me envolve Uma sensação fina e grossa. A Igreja de costas para o trem. Nuvens que são cabeças de santo. Casas torcidas e a longa voz que sobe que sobe do morro que sobe... A dois passos da cidade importante A cidadezinha está calada, entrevada. (Atrás daquele morro, com vergonha do trem.) Só as igrejas Só as torres pontudas das igrejas Não brincam de esconder. E... Os altares, humildes. Havia poucas flores. Eram flores de horta. Sob a luz fraca, na sombra esculpida (quais as imagens e quais os fiéis?) Ficávamos. Do padre cansado o murmúrio da reza Subia às tábuas do forro, Batia no púlpito seco, Entrenhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso, Perdia-se. Não, não se perdia... Desatava-se do coro a música deliciosa (que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar) E dessa música surgiam meninas – a alvura mesma – Cantando. De seu peso terrestre a nave libertada, Como do tempo atroz imunes nossas almas, Flutuávamos No canto matinal, sobre a treva do vale. A treva mais estrita já pousara Sobre a estrada de Minas, pedregosa, E a máquina do mundo, repelida, Se foi miudamente recompondo, Enquanto eu, avaliando o que perdera, Seguia vagaroso, de mãos pensas. Senhor, não mereço isto. Não creio em vós para vos amar. Trouxestes-me a São Francisco E me fazeis vosso escravo. Não entrarei, senhor, no templo, Seu frontispício me basta. Vossas flores e querubins São matéria de muito amar. Dai-me, senhor, a só beleza Destes ornatos. E não a alma. Pressente-se a dor de homem, Paralela à das cinco chagas. Mas entro e, senhor, me perco Na rósea nave triunfal. Por que tanto baixar o céu? Por que esta nova cilada? Senhor, os púlpitos mudos Entretanto me sorriem. Mais que vossa igreja, esta Sabe a voz de me embalar. Perdão, senhor, por não amar-vos. Tudo é teu, que enuncias. Toda forma Nasce uma segunda vez e torna Infinitamente a nascer. O pó das coisas Ainda é um nascer em que bailam mésons. E a palavra, um ser Esquecido de quem o criou; flutua, Reparte-se em signos – Pedro, Minas Gerais, beneditino – Para incluir-se no semblante do mundo. O nome é bem mais do que nome: o além-da-coisa, Coisa livre de coisa, circulando. E a terra, palavra espacial, tatuada de sonhos, Cálculos. As Namoradas Mineiras... Uma namorada em cada município, Os municípios mineiros são duzentos e quinze, Mas o verdadeiro amor onde se esconderá: Em Varginha, Espinosa ou Caratinga? Estradas de ferro distribuem a correspondência, A esperança é verde como os telegramas, Uma carta para cada uma das namoradas E o amor vence a divisão administrativa. Para Teófilo Otoni o beijo vai por via aérea, Os carinhos do sul pulam sobre a Mantiqueira, Mas as melhores, mais doces namoradas São as de Santo Antônio do Monte e Santa Rita. Enquanto na Capital um homem indiferente, Frio, desdobrando mapas sobre a mesa, Põe o amor escrevendo no mimeógrafo A mesma carta para todas as namoradas. Noturno Mineiro... Cabe pois num vagão Toda a nossa viagem. Mas é cinza e carvão, Amor, e sua imagem. Eis que range nos trilhos Uma forma de adeus. Os cuidados são filhos Da tristeza de um deus. Entre as rosas do carro Ouço a terra que chama. A nós, seres de barro, Mais fina é sua gama. Ó trem, fuga no espaço, Chama, canto, galera! Os mil poderes do aço, Para mim os quisera. Monstro azul e cativo, Nossa pressa nostálgica Faz de ti um ser vivo, Errante flauta mágica... A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE “Louvo o Padre, louvo o Filho, O Espírito Santo louvo. Isto feito, louvo aquele Que ora chega aos sessent’anos E no meio de seus pares Prima pela qualidade: O poeta lúcido e límpido Que é Carlos Drummond de Andrade. Prima em Alguma Poesia, Prima no Brejo das Almas. Prima na Rosa do Povo, No Sentimento do Mundo. (Lírico ou participante, Sempre é poeta de verdade Esse homem lépido e limpo Que é Carlos Drummond de Andrade.) Como é fazendeiro do ar, O obscuro enigma dos astros Intui, capta em claro enigma. Claro, alto e raro. De resto Ponteia em viola de bolso Inteiramente à vontade O poeta diverso e múltiplo Que é Carlos Drummond de Andrade. Louvo o Padre, o Filho, o Espírito Santo, e após outra Trindade Louvo: o homem, o poeta, o amigo Que é Carlos Drummond de Andrade.” MANUEL BANDEIRA “Não há guarda-chuva Contra o poema Subindo de regiões onde tudo é surpresa Como uma flor mesmo num canteiro. Não há guarda-chuva Contra o amor Que mastiga e cospe como qualquer boca, Que tritura como um desastre. Não há guarda-chuva Contra o tédio: O tédio das quatro paredes, das quatro Estações, dos quatro pontos cardeais. Não há guarda-chuva Contra o mundo Cada dia devorado pelos jornais Sob as espécies de papel e tinta. Não há guarda-chuva Contra o tempo, Rio fluindo sob a casa, correnteza Carregando os dias, os cabelos.” JOÃO CABRAL DE MELO NETO ... ´C O N F I S S Õ E S D O S G E R A I S’ ao conjuminar espectros quânticos da gauche? poeticidade drummondiana (‘Prece de Mineiro no Rio’, ‘São João Del-Rei’, ‘Caeté’, ‘Sabará’, ‘Evocação Mariana’, ‘A Máquina do Mundo’, ‘São Francisco de Assis’, ‘A Palavra e a Terra’), decanta loas à ontologia das Minas - Brejo das Almas, Claro Enigma... A meus brasílicos antepassados... (“Quando a borboleta coroou a flor amarela, os lírios, em ângulo reto com seus caules, fizeram uma profunda saudação...” JOÃO GUIMARÃES ROSA) APÊNDICE Encontro com Drummond Foi por volta do ano de 1944 que li pela primeira vez as poesias de Carlos Drummond de Andrade. Cursava então a Faculdade de Direito e estava — como quase todos os da minha geração acadêmica — meio mergulhada ainda nas doçuras romântico-parnasianas quando de repente conheci o poeta de Itabira. No início, o choque. A perplexidade. Mas que poeta era aquele? E que poesia era aquela? É certo que já tinha me iniciado na poesia moderna de um Manuel Bandeira, de uma Cecília Meireles, de um Guilherme de Almeida, de um Vinícius de Morais, de um Mário de Andrade... Mas esses eram modernos mais moderados, digamos, mais comedidos. Neles eu encontrava facilmente o lirismo, eu que ainda não dispensava o lirismo nos borbulhamentos de um Castro Alves, de um Gonçalves Dias, de um Álvares de Azevedo. E a verdade é que eu ainda conservava interiormente a mesma apaixonada face ginasiana, quando então recitava Casimiro de Abreu e sabia de cor a "Oração aos moços". Mas que poeta é este?, fiquei me perguntando. A poesia que eu amava retratava um mundo ideal, às vezes amargo, sim, dolorido mas revestido sempre de uma certa beleza. E eis que agora, com a mesma força e com o mesmo misterioso poder, aquele poeta mineiro, aquele Carlos Drummond de Andrade me arremessava a um mundo real, tão real que chegava a me assustar com o imprevisto de sua realidade antipoética e da qual eu sempre fugira a galope. Afinal, aquele mundo de cimento armado e de funcionários públicos, de dentes de ouro e de calvas, de ratos e de mortos não em esquifes dourados mas encaixotados convenientemente, como cebolas — aquele mundo de desencanto e de náusea devia mesmo ser cantado em versos? Foi esta a minha primeira dúvida: aquele mundo tão miseravelzinho devia ser motivo de poesia? E podia haver beleza nesse tipo de poesia? Lembro-me de que estava numa aula de Economia Política. E enquanto lá na cátedra o professor pedia nossa maior atenção ao acentuar que Economia Política era uma dama esquiva, eu folheava o livro do poeta de Minas e pensava que ali estava uma poesia mais esquiva ainda. Assinalei com lápis vermelho os poemas que me pareceram mais fáceis de serem entendidos: os mais líricos. E passei furtivamente o livro a um colega com um bilhete: Leia só as poesias que marquei e me diga depois o que você achou. Já no fim da aula ele devolveu-me o volume com uma frase: "Li tudo. Completamente louco. Fabuloso”. Lembro-me ainda de que entramos numa livraria para comprarmos, de sociedade, um tratado de Economia Política e acabamos comprando outro livro do poeta. Ao lado, o colega de cara incendiada e cabeleira de Carlos Gomes fumava cigarro após cigarro. E ria: "Esse cara é meio louco mas é uma maravilha. Você viu aquela história da pedra? No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho..." Apenas uma pedra no meio do caminho. "Nunca mais me esquecerei desse acontecimento", eu disse no fim do ano quando fiquei para segunda época. Apenas uma pedra. Outros acontecimentos e outras pedras viriam depois mas esse poema, justamente esse poema que eu não indicara com receio de que meu colega arrepiasse carreira e não quisesse ler os demais — justamente esse poema que eu quisera que passasse em branco me marcava como aquele lápis vermelho marcando o papel. Aos poucos, quase inconscientemente, comecei a recorrer à poesia do itabirano em face deste ou daquele acontecimento. Alguns versos trágicos, outros, divertidos mas impregnados, às vezes, de uma graça meio triste e que passei a compreender melhor: a graça dos que escorregam e ficam a esfregar no chão as solas dos sapatos, na tentativa de se livrar de uma casca que nunca existiu. A úmida graça chapliniana, com pudor da tristeza, com pudor da alegria, disfarçando o lirismo mais furtivo do que o gesto de Carlitos a esconder no bolso a flor que pretendia oferecer à bem-amada. A bem-amada que ele encontrou passeando de mãos dadas com outro. Lembro-me também — ah! as primeiras lembranças drummonianas — de que vi certa manhã um calouro rasgar enfurecido o poema inspirado nesse mesmo Charlie Chaplin. Lembro-me também de que vi um outro jovem ler esse poema com os olhos cheios de lágrimas. Comecei então a reparar que o poeta ou era aceito de modo total ou negado com a mesma veemência. Quando se falava no seu nome não havia nunca meias palavras, reticências, gestos de Conselheiro Acácio imitando um meneio de barco: "Assim, assim..." Nunca. Ou era amado ou detestado. A medíocre aceitação moderada não combinava com aquela orgulhosa poesia de olhos enxutos, sem o recurso fácil das rimas ou da ênfase. Poesia orgulhosa, sim, mas ao mesmo tempo humilde. Poesia clara, sim, e, ao mesmo tempo, tão velada! Tanto mistério, eu pensava afeiçoando-me cada vez mais aos poemas que no início afastara por considerar antipoéticos, difíceis. Eram eles que agora me fascinavam com seu grão de loucura. Uma loucura tão sábia. Tão lúcida. Tão tranqüila. Fascinava-me, sobretudo, a coragem desse poeta, uma coragem que o levava a escrever até antipoeticamente para não sacrificar a autenticidade da sua criação, para não torcer o sentido da vida que, segundo suas deduções, não tinha mesmo nenhum sentido. Desistira do lírico para não mistificar o verdadeiro, sem demonstrar o menor interesse em bajular o público, em conquistá-lo com temas do agrado das declamadoras distintas e dos namorados iludidos ou desiludidos no amor. Até Mário de Andrade chegou a sugerir que se o poeta fizesse uma poesia menos inteligente, menos cerebral, poderia ir mais longe ainda. Por que não deixava de lado o tipo de poema-piada? "Seria preferível, escreveu ele, que Carlos Drummond de Andrade não fosse tão inteligente... A reação intelectual contra a timidez já está mais do que observada: provoca amargor, provoca humor, provoca o fazer graça sem franqueza, nem alegria, nem saúde”. E qual a reação do poeta? Por acaso fez alguma concessão? Por acaso aplainou mais o tema ou estilo? Não. As discussões e controvérsias a seu respeito, se o perturbaram, ninguém o soube. A vida não era uma ordem? Então, toca a prosseguir implacável, fiel consigo mesmo numa caminhada não sobre nuvens mas na dureza do asfalto. Acariciando não a cabeleira da fantasia mas agarrado aos ásperos cabelos do cotidiano e no qual se há radiosas estrelas, há também dentaduras duplas rindo solitárias nos respectivos copos. Ele tinha a intuição de que sua poesia — a falsa engraçada — obedecia simplesmente, conforme frisou o crítico Moacir Garcia, a "um processo ao qual o leitor superficial e desatento pode chamar de trocadilho, de piadismo, de anedota. Mas jamais era uma poesia gratuita e muito menos irresponsável ou esportiva". Por essa época publiquei um livrinho de contos. Uma certa noite, véspera de exame, enquanto eu folheava as apostilas de Direito Civil, uma idéia a princípio meio obscura começou a me afligir. Deixei de lado as apostilas e pus-me a ler meu livro. Quando chegaram os dois colegas que eu convidara para estudarem comigo, eu já estava mergulhada na maior das aflições. É que de repente pressentira coisas... "Que coisas?", quiseram eles saber. Eu também não sabia ao certo. Mas sentia-me triste e confusa. Apanhei o livro de Carlos Drummond de Andrade e li para eles alguns poemas. É isto que temos que conquistar, disse-lhes, é este estilo, é esta grandeza. Tudo tão reto, tão enxuto, feroz de tão enxuto. E límpido. Ele consegue ser musgo e ao mesmo tempo é pedra. E nós, o que somos? Uns piegas sem fundo e sem forma, prossegui sacudindo o livro para ambos, estreantes como eu. Pela primeira vez tomava consciência do problema da forma. Pela primeira vez dúvidas a meu respeito me sacudiam até as raízes, a mim e aos meus companheiros até então radiantes com os próprios trabalhos. Discutimos ferozmente pela noite adentro. Pela noite adentro três jovens até então seguros, confiantes, mergulharam na mais desesperada das incertezas. Estávamos inquietos e perguntávamos, nós que tivemos sempre a resposta pronta. Indagávamos, nós que sempre estivemos tão certos. A fecunda inquietação nascera em nós. Tínhamos mordido a isca e agora nos debatíamos diante da esfinge que nos interpelava serenamente: trouxeste a chave? "Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta: trouxeste a chave?" Trouxeste a chave?, prossegui perguntando a mim mesma. Fiquei então humilde. Fiquei desconfiada. O poeta me ensinara que sob a pele das palavras havia "cifras e códigos". Era preciso, pois, paciência, eu que era a própria impaciência. Era preciso habilidade, eu que era estouvada. Paciência e habilidade não destituídas de amor para abrir esses cofres onde as palavras aguardavam o eleito que viria possuí-las. A lição maior estava nos seus versos que não tinham, contudo, a menor intenção de ensinar. Lição generosa, lição cristã, impregnada de uma ternura quase sempre irônica, é certo, mas ternura. As dores do mundo atingiam-no em cheio e ele sofria mas seu sofrimento era contido. Grave. Um sofrimento à maneira de um Machado de Assis que também não agredia nem esbravejava: constatava, apenas constatava. E com ironia e com amor procurava ajudar o próximo, abrindo-lhes uma janela para o céu infinito da criação. Os jovens têm uma capacidade incrível de sofrer e eu tinha bons motivos de sofrimento. Apenas, após a descoberta do poeta, comecei a apelar também para o humor, colhendo não só lições de forma mas também de comportamento. Era daquela inteligência, precisamente daquela inteligência que Mário de Andrade considerara excessiva que eu precisava. Inteligência nunca despida de bondade, de emoção e que fez Otto Maria Carpeaux exclamar: "Quero dizê-lo, com toda franqueza, que o encontro com a poesia de Carlos Drummond de Andrade me foi um conforto nas trevas”. Esse encontro foi também para mim um conforto, quero dizê-lo neste instante, uma maravilhosa lição da arte de escrever e da mais difícil ainda arte de viver. Não sei se consegui aprendê-la mas se não consegui, a culpa não cabe ao mestre e sim ao aprendiz. Ainda no começo deste ano, enquanto regressava de uma viagem a uma cidade do nosso interior e onde proferira uma conferência sobre o poeta, vinha justamente pensando em tudo isso. Pensando no quanto me enriqueci com sua obra. No quanto me enriqueci com sua amizade. Chovia e fazia frio no ônibus que varava a noite. Fechei os olhos e sorri para mim mesma ao me lembrar de que havia apenas uma meia dúzia de gatos pingados na sala: por uma dessas coincidências fatais, precisamente nessa noite estreava na cidade um circo famoso. E o meu provável público lá se fora todo para ver a bicharada... Mas meu coração estava aquecido por uma pequena lembrança: ao terminar a conferência, um jovem de cabeleira rebelde, e com o mesmo brilho no olhar daquele meu antigo colega, veio falar comigo. "Sou poeta", disse ele. "Confesso que não tinha lido ainda Carlos Drummond de Andrade mas vou fazê-lo agora, prometo", acrescentou apertando-me a mão como se selasse um pacto. Era gelada e escura minha longa viagem de volta. Mas eu me sentia recompensada por ser responsável pela decisão daquele jovem que ficara lá atrás. Ele ia ler o poeta. Se essa leitura lhe fizesse ao menos a metade do bem que me fez, já era muito. Eu não pedia mais nada. LYGIA FAGUNDES TELLES P.P.S. MAQUINÁLIA "E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas, assim me disse, embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém, sobre a montanha, a outro alguém, noturno e miserável, em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou, mesmo afetando dar-se ou se rendendo, e a cada instante mais se retraindo, olha, repara, ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola, essa ciência sublime e formidável, mas hermética, essa total explicação da vida, esse nexo primeiro e singular, que nem concebes mais, pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste... vê, contempla, abre teu peito para agasalhá-lo.” As mais soberbas pontes e edifícios, o que nas oficinas se elabora, o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento, os recursos da terra dominados, e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios, dá volta ao mundo e torna a se engolfar, na estranha ordem geométrica de tudo, e o absurdo original e seus enigmas, suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses, e o solene sentimento de morte, que floresce no caule da existência mais gloriosa, tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto, afinal submetido à vista humana. Mas, como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso, pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra; como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando, e como se outro ser, não mais aquele habitante de mim há tantos anos, passasse a comandar minha vontade que, já de si volúvel, se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas; como se um dom tardio já não fora apetecível, antes despiciendo, baixei os olhos, incurioso, lasso, desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas, pedregosa, e a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente recompondo, enquanto eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, de mãos pensas." “Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. (...) Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!” * E agora, Carlos? Sua doce palavra, Sua gula e jejum, Seu instante de febre, Sua biblioteca, Sua lavra de ouro, Seu terno de vidro, Sua incoerência, E agora? Com a chave na mão Quer abrir a porta, Não existe porta; Quer morrer no mar, Mas o mar secou; Quer ir para Minas, Minas não há mais. Carlos, e agora? Você não morre, Vocé é duro, Carlos! Sozinho no escuro Qual bicho-do-mato, Sem teogonia, Sem parede nua Para se encostar, Sem cavalo preto Sua gula e jejum Você marcha, Carlos! Carlos, para onde? E agora, Você? *CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, *HENRIQUETA LISBOA e *CORA CORALINA fazem parte do 'CICLO MINEIRIANO' por *O.M. ![]() |
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| Vide: | ||||||||||||||
| mpb - O.M. | ||||||||||||||
| teatro - O.M. | ||||||||||||||
| a Guimarães Rosa | ||||||||||||||
| a Henriqueta Lisboa | ||||||||||||||
| Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. Que fazer, exausto, em país bloqueado, enlace de noite, raiz e minério? | ||||||||||||||
| O Muladeiro: | Otacílio Melgaço | |||||||||||||
| gewolltt@yahoo.com | ||||||||||||||
| Onde foi Tróia: | ||||||||||||||