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ENCONTRO E DESENCONTRO
Ivan
Jubert Guimarães
21.07.2006
Era o ano de 1965 e o mundo
começava a mudar os costumes até então usuais.
As saias iam se encurtando, os cabelos dos
rapazes iam crescendo. A música dos Beatles
dominava as paradas rivalizando com outro astro
da época, Elvis Presley. Na Ásia começava uma
guerra que seria sangrenta e que iria perdurar
por alguns anos, a guerra do Vietnam. Americanos
e russos disputavam uma corrida espacial. No
Brasil, iniciava-se um movimento chamado Jovem
Guarda e os festivais de MPB atraiam a atenção
de todo o país. Havia ídolos para todos os
gostos e nos cinemas predominavam as comédias
açucaradas e os filmes de guerra. E era nesse
mundo todo agitado que vivia um rapaz
extremamente tímido. André não ia aos festivais,
não gostava nada do tal de rock and roll e muito
menos do twist. Nos bailes realizados nas noites
de sábado na casa de alguém da turma, ele era
daqueles que ficavam em pé encostados-se à
parede, pois ele quase não sabia dançar nenhum
tipo das músicas que tocavam nas vitrolas.
As moças, estas sabiam dançar todos os
ritmos musicais, mas também ficavam à espera de
algum rapaz que as tirasse para dançar. E o rock
corria solto pela sala, mas poucos se arriscavam
a dançar. Mas aí, alguém coloca um disco de
Ray Conniff e todos saiam correndo para pegar a
moça mais bonita do baile. E Carmem era uma
dessas moças. A turma de rapazes fazia apostas
para ver quem conseguiria namorá-la, tal sua
beleza e simpatia. De todos os apaixonados
por Carmem, André era o que mais sentia as dores
da paixão. Mas sua timidez impedia qualquer
aproximação. Ela, por sua vez, também era uma
moça muito tímida, apesar de toda sua beleza.
Carmem era uma moça de cabelos dourados, olhos
verdes e um sorriso muito bonito. Sua pele era
morena e o contraste provocado pelos cabelos e
pelos seus olhos era lindo de se ver. André, era
um rapaz comum, não tinha nada de especial,
assim como a maioria de seus amigos. Eram todos
jovens demais para trabalhar e eram estudantes
secundaristas. A única coisa que o diferenciava
dos demais era a timidez. Quando ele estava
conseguindo chegar perto de Carmem para tirá-la
para dançar, alguém chegava primeiro que ele.
Ele voltava para a parede e ficava olhando os
casais dançando, mas seus olhos estavam sempre
voltados para a moça. De vez em quando ele
parecia ver que aqueles olhos verdes estavam
olhando para ele, mas quando ele olhava, os
olhos dela se desviavam. E assim acontecia
sua história. O baile acabava e cada um ia para
suas casas e André, mais uma vez, não tinha
conseguido dançar com Carmem. Ela, sorridente,
despedia-se das amigas e ia embora com o irmão
mais velho. Nos dias de semana, quando
voltava da escola com seus amigos, ele procurava
sempre passar em frente da casa onde morava
Carmem. Era uma casa muito simples, pois os pais
dela não tinham posses como a maioria de seus
amigos. Claro que ele não se importava com isso,
mas isso dificultava seus encontros nos bailes
de sábado, pois Carmem tinha poucas amigas no
bairro e não era sempre que era convidada para
um baile até porque as outras moças invejavam
sua beleza. Todas as noites André saía com
seus amigos para conversar e dar umas voltas
pelo bairro. Nessas saídas, ele sempre procurava
um jeito de desviarem-se do caminho normal
apenas para passar em frente da casa dela. De
nada adiantava essa caminhada, a janela estava
sempre fechada. André tinha um amigo, aliás
seu melhor amigo, chamado Júnior, e era com ele,
apenas com ele, que André comentava sobre sua
paixão por Carmem. Júnior procurava incentivá-lo
a procurar a moça, mas André sentia medo. Tinha
medo de falar com ela e ela se ofender e nunca
mais olhar para a cara dele. Júnior tinha
uma irmã de nome Alice, mas todos a chamavam de
Licinha. Ela era loira também, assim como
Carmem, embora fosse bem mais jovem. Era uma
garota espevitada, muito alegre e era uma menina
acostumada a brincar mais com rapazes do que com
as outras meninas. Era completamente apaixonada
por André. Onde quer que André estivesse, ela
aparecia, apenas para ficar perto dele. E ela
sofria quando ouvia André falar para Júnior de
seu amor por Carmem. André percebia, mas fingia
não ver. Aliás, namorar irmã de amigo, naquela
época, nem pensar. O tempo ia passando, e o
amor de André por Carmem ia crescendo a ponto
dele não dormir mais só pensando nela. Ás vezes,
ele caminhando pela rua, pela mesma calçada, ele
via Carmem vindo no sentido contrário. De longe,
ainda, ele começava a olhar direto nos olhos
dela e sentia que aqueles olhos tão lindos
também olhavam para ele. Suas pernas tremiam, o
rosto pegava fogo, mas eles simplesmente
passavam um pelo outro sem trocar um olhar, mas
os rostos enrubescidos faziam seu coração
disparar. Um dia, Júnior chega todo feliz
para André e lhe conta que tinha pedido Heloísa
em namoro. Heloísa era outra garota do bairro e
era linda tanto como Carmem, mas, diferente
desta, Heloísa era uma menina rica e mimada. Mas
Júnior estava numa felicidade que não tinha
tamanho. André ficou contente pela felicidade do
amigo e logo foi pedindo para que ele contasse
como ele tinha conseguido isso. Heloísa era tão
cobiçada quanto Carmem, por todos os rapazes do
bairro. Talvez até mais. Heloísa era o tipo
de garota moderna, filha única de pais ricos,
era quase que criada solta. O pai viajava muito
e a mãe estava sempre envolvida com trabalhos
voluntários de senhoras de sociedades
beneficentes. Júnior era um rapaz muito
bonito, talvez fosse o mais bonito de toda a
turma. As garotas davam em cima dele, mas ele,
como a maioria daquela época, também tinha seus
momentos de timidez. Ele iria se encontrar com
Heloísa naquela noite; seria seu primeiro
encontro com aquela garota mais moderna do
bairro. André e Júnior estudavam em escolas
diferentes, no período da manhã. E quando André
chegou da escola no dia seguinte, encontrou com
Júnior o esperando na porta de sua casa. -
André, venha até aqui, precisamos
conversar. - O que foi? Você está com uma
cara! - To chateado cara, triste pra
caramba! - Mas o que foi que aconteceu? Você
devia estar feliz hoje; ia se encontrar com a
Helô ontem. Ela te deu o bolo? - Pior que
isso André, muito pior, ela me deu o fora. -
Mas por quê? O que aconteceu? - Olha, a gente
se encontrou como havíamos combinado, eu passei
na casa dela às 8 horas e ficamos conversando na
varanda da casa dela. Depois fomos até aquela
doceria que tem lá perto da casa dela e
compramos sorvete e voltamos para a casa dela.
Logo depois, eu nem tinha terminado o sorvete,
ela pediu para que eu fosse embora. - Mas o
que foi que você fez? - Nada, absolutamente
nada e foi por isso que ela me mandou
embora. - Como assim? - Ela disse que não
ia dar certo a gente continuar saindo junto
porque quando fomos até a doceria, eu nem peguei
na mão dela. - E porque você não pegou na mão
dela? - Pó cara! No primeiro dia de
encontro? - Mas só por causa disso? - Pois
é cara! Eu tinha vontade de agarrar a Helô de
todas as maneiras, dar um amasso nela, beijá-la
e tudo o mais, mas no primeiro dia? - Você
deve ter feito outra coisa Júnior. Acho que ela
não ia te dar o fora por causa disso. - Mas
deu, cacete! E ainda falou para eu não
procurá-la mais e nem telefonar. - Que chato,
eu sinto muito por você meu amigo. Mas, se eu
fosse você iria até a casa dela ainda hoje. -
Iria nada, você está gamado pela Carmem e nunca
falou com ela. - Mas é diferente, você já
falou com a Heloísa. - E o pior é que eu
estou parado nela! - Eu escreveria uma carta
para ela e levaria pessoalmente, explicando
porque foi que você não pegou na mão dela. Acho
que ela vai entender. E depois, se ela aceitou
sair com você é porque ela deve gostar pelo
menos um pouco de você Júnior. - Sei não, eu
pensei que ela fosse uma garota de família, mas
acho que ela é sarrinho. Banquei o trouxa e me
ferrei. - É, talvez você pudesse ter-se
aproveitado, afinal ela é uma gostosura. - E
como cara, você precisava sentir o perfume dela.
Ela estava usando um vestido tubinho e o corpo
dela é demais. Fui trouxa mesmo. - Será que a
Lucinha não pode te ajudar com ela? - Ela nem
sabe que a Lucinha é minha irmã e depois tem o
seguinte, se ela é sarrinho eu não quero ver
minha irmã conversando com ela. - Bom, tudo
bem, foi só uma idéia. Então é melhor você
partir pra outra. Por que você não volta a
namorar com a Solange? - Porque eu não gosto
dela, ela é muito pegajosa. Você tem visto a
Carmem? - Não. Ela não é da turma daqui não
é? As meninas daqui quase não a convidam para
nada e ela pouco aparece. Só vai na casa da Olga
ou da Rosana. E eu nem tenho amizade com
elas. - Nós dois somos uns trouxas! Enquanto
a gente fica aqui, deve ter um monte de caras
por aí se aproveitando delas. - Não acho não,
a Carmem não me parece esse tipo de garota.
Aliás eu nunca a vi com ninguém. Acho que além
do pai dela o irmão anda sempre de marcação.
- Olha, no próximo sábado é aniversário do
Clóvis, irmão da Olga e ele me convidou para ir
na casa dele. Por que você não vem comigo? -
Não fui convidado Júnior. Como vou aparecer na
casa dele sem ser convidado? - Mas ele é
amigo nosso e se não te convidou é porque não
deve ter te encontrado ainda. Vamos lá. A
Carmem, com certeza, vai estar lá. - É,
vontade eu tenho, mas o que não tenho é
coragem. - Olha, vamos fazer o seguinte,
vamos dar uma passada lá na casa dele mais tarde
e quem sabe a gente se falando ele te convida.
Eu tenho mesmo que falar com ele. - Então
vamos nessa! Despediram-se e André entrou em
sua casa para almoçar. Tão logo terminou de
comer, subiu para seu quarto e começou a fazer
sua lição de casa. Queria se ver livre logo de
qualquer trabalho para poder sair com o Júnior
mais tarde. Estava quase no fim de sua lição,
quando escutou a campainha e logo depois Licinha
estava parada á porta de seu quarto. - Oi
André, eu queria falar com você. Você está muito
ocupado? - Estou terminando a lição de casa e
depois vou sair com seu irmão, por quê? - Não
é nada de mais. Na verdade eu queria só
conversar e quem sabe a gente podia brincar um
pouco com seu gravador e ouvir umas
músicas. - Acho que não vai dar não Licinha.
Seu irmão vai passar aqui daqui a pouco e nós
vamos para a casa da Olga. Ele tem que falar com
o Clóvis. - Puxa, que pena! - E dizendo isso
Lucinha se ajoelhou no chão perto da
escrivaninha de André. Ela usava um short e uma
blusinha leve por cima do corpo e André ao
dirigir-se a ela pode ver aqueles peitinhos que
desabrochavam. - Lucinha. - O quê? -
Nada, é que seu irmão logo vai passar aqui e
pode não gostar de te ver aqui assim desse
jeito. - Que jeito? - Assim, oras. -
Você nunca dá atenção para mim não é? - Por
que você está falando assim? - Porque sim.
Toda vez que eu estou por perto você se
afasta. - Não é nada disso Lucinha. Eu e seu
irmão somos amigos e se eu for me meter com você
eu sei que ele não vai gostar. E depois, você é
só uma menina. - E daí, você não gosta de
meninas? - É claro que gosto, mas você é irmã
do meu melhor amigo. - E o que isso tem de
ver com a gente? - Nada, sei que não tem nada
demais. – E o olhar de André foi novamente para
dentro da blusa de Lucinha. E André
prosseguiu: - Olha Lucinha, é melhor você ir
para sua casa e assim que a gente voltar da Olga
a gente se fala ta bem assim? - É, acho que
não tem outro jeito, Você me chama: - Vou
voltar com o Júnior e vou até sua casa. - Ta
bem então, mas eu queria saber o que vocês vão
fazer lá na Olga.. - Nada de mais, É que vai
ter um bailinho lá na casa dela e o Júnior
precisa combinar alguma coisa com o Clóvis, só
isso. - Sei, ta bem. – E dizendo isso Lucinha
foi-se embora. Poucos minutos depois, Júnior
gritou da rua chamando André e rapidamente André
desceu correndo as escadas e foi-se encontrar
com o amigo. Logo depois estavam diante da
casa de Clóvis, mas ele não estava. Olga
explicava que o irmão tinha ido ver um emprego,
pois estava fazendo 18 anos e seu pai queria que
ele começasse a trabalhar. Olga era uma
menina bonita, Era muito inteligente, estudava
num dos melhores colégios da cidade, assim como
seu irmão. O pai era político de destaque do
regime militar, mas estava separado da esposa já
há algum tempo, mas ainda era o provedor da
família. Olga tinha em Carmem a sua melhor amiga
a despeito da diferença social que havia entre
ambas. Elas se conheciam de vista do bairro, mas
a amizade entre elas nasceu porque Olga gostava
muito do irmão de Carmem, com quem já havia
namorado, mas fora obrigada a desmanchar o
namoro por causa da diferença social que havia
entre eles. A conversa rolou normalmente e
Júnior prometeu que levaria o último disco dos
Beatles e Olga perguntou a André se ele tinha
algum disco legal para levar e animar a festa.
André ficou meio sem jeito, pois seus discos
eram de músicas lentas e respondeu que tinha
alguns discos de Ray Conniff e outros de músicas
italianas que faziam muito sucesso naquela
época. Olga então pediu que ele levasse os
discos que seriam bem-vindos, porque ela não era
muito chegada também em rock. E assim, André
conseguiu ser convidado para a festa. O
sábado demorou a chegar. A ansiedade de André
era enorme, pois não via a hora de poder se
encontrar com Carmem, a garota com a qual
sonhava todas as noites. As noites de
sexta-feira eram para André e sua turma a noite
que todos esperavam. Apesar de terem aulas nas
manhãs de sábado, a noite de sexta era a noite
em que ficavam até mais tarde pelas ruas. Mas
naquela sexta-feira André ficou em casa e queria
dormir o mais cedo possível para que o sábado
chegasse logo. O sábado amanheceu e o dia
prometia ser muito bonito. Assim que André
chegou da escola, foi direto à casa de Júnior
para combinarem de irem juntos ao baile da
noite. Foi recebido pela mãe do amigo que lhe
deu a má notícia. Júnior tinha quebrado o pé num
jogo de futebol no colégio e estava em sua cama.
André subiu correndo as escadas que levavam ao
quarto do amigo. - Oi Júnior, o que aconteceu
com você? - Nem te conto cara, estava jogando
futebol lá no colégio. Era aula de Educação
Física e numa bola dividida entrei com o pé
muito mole e tive uma fratura. - Cacete, que
azar meu. E o baile de hoje, você acha que vai
dar para ir? - Não vou não André, Meu pé dói
pra caramba. - Puxa! Sem você eu também não
vou, não conheço quase ninguém da turma deles.
São todos mais velhos que a gente. - Eu vou
com você – disse Licinha entrando no quarto do
irmão. - Vai nada – disse Júnior – Você ainda
é muito criança para isso. O pessoal de lá é
todo de mais idade que a gente. Nem vão deixar
você entrar. - Também acho que não é uma boa
Licinha – disse André. - Vocês dois são um
saco – e saiu do quarto resmungando. - Olha
André, eu acho que você tem que ir ao baile de
qualquer jeito. Prometemos para a Olga que
levaríamos os discos e ela está contando com a
gente. Você pode chegar mais cedo, antes da
festa começar e ir aprontando as músicas que vai
tocar, é o que eu iria fazer. Assim você poderá
tocar a música que mais gosta para tirar a
Carmem para dançar. - Você acha mesmo que vai
dar certo isso? - Claro que vai amigão. Vai
por mim e não deixa essa mina escapar de
você. - Então ta legal, eu vou fazer isso,
vou chegar mais cedo e ficar de prontidão e pode
deixar que eu explico pra Olga que você não vai
poder ir porque quebrou o pé.. - Positivo meu
amigo. Vai nessa! A tarde transcorreu calma
provocando certa ansiedade em André que passou
boa parte do tempo ensaiando o diálogo que teria
com Carmem naquela noite. A noite chegou e
prometia ser muito bonita. Um pouco frio, pois
era começo de inverno, mas a temperatura estava
bastante agradável. Quando André tocou a
campainha, Olga foi logo pedindo para que ele
entrasse e foi perguntando de Júnior e ficou
desapontada com a notícia de que ele não iria ao
baile. André disse-lhe, então, que ele cuidaria
das seleções de músicas, ao que Olga prontamente
lhe agradeceu. Por volta das 20 horas, a sala
da casa de Olga já estava cheia de gente. Os
canapés e as bebidas corriam soltos pela casa.
André estava aflito pois Carmem ainda não havia
chegado. Ele tomava conta da vitrola e colocou
uma música romântica de Paul Anka quando Carmem
chegou acompanhada do irmão. Olga logo foi
pegando no braço de Carlos, irmão de Carmem, e
foi introduzindo os dois para dentro da casa. Os
olhos de André acompanhavam cada passo de Carmem
e lhe pareceu que ela nunca estivesse tão linda
como naquela noite. Da vitrola saía a voz de
Paul Anka cantando Put your had on my shoulders
e alguns casais já se arriscavam dançando de
rosto colado. Ah como André adoraria poder
dançar daquele jeito com Carmem. Carmem
estava parada perto da mesa, se servindo de
refrigerante enquanto seus olhos percorriam a
sala até se cruzarem com os olhos de André. Ela
baixou o olhar e em seguida tornou a erguê-lo e
ficou com o rosto ruborizado, pois André, apesar
de toda a timidez, não tirava os olhos dela. Ele
ia tentar se aproximar, quando Olga pegou Carmem
pelo braço e se dirigiram para a cozinha. André,
coitado, sentia o coração sair pela boca, esta
estava seca e ele pegou um copo de cuba libre.
Na cozinha, Olga cochichou no ouvido de
Carmem: - Menina, o André não tira os olhos
de você um só instante. Desde que você chegou,
ele não para de olhar para você. - Eu nem o
conheço direito, só nos vimos uma vez num
bailinho mas ele nem me tirou para dançar. Eu
até que gostaria de conhecê-lo, mas ele não se
aproxima de mim – disse meio tristonha. - Eu
posso apresentá-la a ele se quiser. Vamos voltar
para a sala e levar esses sanduíches e vou dar
um jeito de chegarmos perto de onde ele está.
Quem sabe ele se encoraje. Quando entraram
na sala, André não estava mais perto da vitrola
que tocava um disco de Johnny Mathis. Olga deu
uma passada de olhos pela sala e foi encontrar
André dançando com uma das garotas presentes.
Carmem também viu e logo desviou seu olhar. A
música acabou e André voltou a ocupar seu posto
ao lado da vitrola. Seu olhar cruzou com o de
Carmem e ele deixou escapar um tímido sorriso
que ela pareceu não perceber. André, então,
colocou uma música mais rápida na vitrola, pois
sabia que nem todos iriam dançar e muitos dos
rapazes foram para a cozinha para pegar mais
bebidas e fumarem. Como ninguém dançava, André
parou a música e colocou um disco de Ray Conniff
e logo se ouviu os primeiros acordes de La
Mer. André andou pelo salão em direção à
Carmem e foi esticando seu braço para tirá-la
para dançar, quando Clóvis, o aniversariante
chegou primeiro. Envergonhado, meio sem saber o
que fazer, ele perguntou: - A próxima? Ela
assentiu. Mas a próxima música chegou e
Clóvis não largou de Carmem. Olga, que estava
por perto, presenciando tudo, aproximou-se do
casal e foi dizendo: - Ah não Carmem, essa
música eu faço questão de dançar com meu irmão,
e foi pegando na mão de Clóvis e levando-o para
o meia da sala. Desta vez André não perdeu
tempo e esticando os braços para Carmem, tirou-a
para dançar. Na vitrola começou a tocar The
White Cliffs of Dover e ao sentir o toque da mão
macia de Carmem, André sentiu-se nas nuvens.
Como era bom tocá-la, sentir sua pele. Ficaram
dançando ali mesmo, quase no canto da sala, um
passo para cá, outro passo para lá, lentamente,
rostos pegando fogo, A mão nas costas de Carmem
nem se movia, parecia a mão de uma estátua, tal
era o medo de que fosse repelido. Sem saber o
que dizer ele perguntou o nome dela, que ele já
sabia há mais de dois anos, desde que a vira
pela primeira vez. Ela respondeu e disse
sorrindo que quase todos a chamavam de Carminha.
Ele só conseguiu dizer: - bonito nome – Como ele
não disse mais nada, ela perguntou: - e o seu é
André não é? A Olga me falou. - É sim, eu me
chamo de André, e não tenho apelido. Deu uma
risada e logo se arrependeu da bobagem que havia
dito. Ele estava ali e ela também estava onde
ele sempre quisera que ela estivesse, em seus
braços. E no entanto, ele não sabia o que falar.
A timidez dela também fazia com que ela se
calasse e foi assim até o final da música.
Alguém mexeu na vitrola e colocou um twist. Ele
não sabia dançar twist e quis amaldiçoar o
atrevido que acabara de puxar seu tapete. Soltou
a mão de Carmem e convidou-a para tomar uma
cuba, mas ela recusou e ao ver a cara de
desapontado que ele fez, ela sugeriu que
aceitaria uma copo de coca. Foram para a
cozinha, serviram-se das bebidas e estavam
voltando para a sala quando Carlos aproximou-se
dela dizendo que precisavam ir embora pois já
eram quase 23 horas. Ela não ousava dizer ao
irmão que gostaria de ficar mais um pouco, por
respeito a ele e por saber que era difícil para
ele ficar ali sem poder ficar com Olga. Devolveu
o copo para André e despediu-se dele com um
“muito prazer.” Aos poucos as pessoas
começaram a ir embora e André também foi se
despedir de Olga e agradecer pelo convite. Olga
perguntou: - E aí André, como foi com a
Carminha? - Só dançamos uma música. - Só
uma? Eu pensei que vocês tivessem dançado a
noite toda. - Que nada, toda vez que chegava
perto dela, alguém era mais rápido e seu irmão
alugou ela durante muito tempo também. - É,
eu percebi e foi quando fui dançar com ele -
disse rindo. - Mas agora que vocês já se
conhecem ficará mais fácil. Bailes é que não
faltam. E logo vai ser o meu aniversário e vocês
poderão se encontrar de novo. - É só me
convidar que eu virei com o maior prazer. Gostei
muito de ter vindo esta noite, obrigado. -
Foi um prazer ter você aqui em casa André e eu
espero que volte mais vezes, você me ajudou
bastante ficando no lugar do Júnior. E se saiu
tão bem quanto ele. Você não vai levar os
discos? - Não, ainda tem gente lá dentro.
Amanhã ou depois eu pego com você, está
bem? - Está bem então, e mais uma vez
obrigada. André dirigiu-se para sua casa
andando pela rua lentamente. Essa era uma noite
da qual ele nunca mais iria se esquecer.
Lamentava apenas ter dançado uma única música
inteira com ela. Chegou em casa e seus pais
já estavam dormindo. Foi até a cozinha e tomou
um copo de água e subiu para dormir, mas o sono
não vinha de jeito nenhum, só lembrando de seus
dedos nas costas de Carmem e de sua mão
segurando a mão dela. Ele estava completamente
apaixonado por ela. Quando Carlos e Carmem
chegaram em casa foram direto para a cozinha,
cada um serviu-se de um copo de leite e
comentaram sobre como estava boa a festa do
Clóvis. Carlos disse que tinha sido bom
conversar com Olga, mas os pais dela não tiravam
os olhos dele. Ele amava Olga e este amor era
fortemente correspondido, mas os pais dela foram
taxativos proibindo que eles se vissem. Ele
jamais poderia fazer com que Olga fosse feliz,
pois não poderia lhe dar o mesmo padrão de vida
a que ela estava acostumada. - E você
maninha? Conheceu alguém legal, ou os mesmos
riquinhos de sempre? - Eu conheci o André,
você conhece?: - Não, mas sei quem é ele.
Mora na mesma rua do Clóvis. - É mesmo? Isso
eu não sabia. - Dançou bastante com ele? -
Só uma música, muito bonita mas não sei o nome.
Dancei muitas vezes com o Clóvis e com alguns de
seus amigos. - O Clóvis e a Olga são legais
não é? Bem diferentes dos pais que são metidos a
besta, burgueses isso sim. - A Olga é um amor
e é minha melhor amiga. É pena que vocês não
estejam namorando, ela gosta tanto de você! -
É pena sim maninha, mas de certa forma eu não
poderia dar mesmo a ela o que ela está
acostumada a ter. Veja nossa casa. Cabe inteira
na sala da casa dela. - Mas ela não liga para
essas coisas Cacá. Os pais dela são ricos, mas
ela é uma pessoa tão simples como a gente. E o
Clóvis também é como ela. Foi tão gentil comigo
e me deixou super à vontade na casa deles. -
Sabe maninha, às vezes eu acho que tenho que
tirar a Olga da minha cabeça e começar a namorar
outra garota qualquer. Quem nasce pobre, morre
pobre. - Mas nós não somos pobre Carlos –
disse ela meio raivosa. Nunca nos faltou nada.
Nós apenas não temos as coisas que eles têm. E
nem todo mundo é igual aos pais da Olga. O
André, por exemplo, não é rico, não sei como é a
casa dele, mas às vezes eu o vejo passar com o
pai dele de carro aqui em frente de casa. É um
carro grande, bonito, mas ele é super simples.
Pena que seja tão tímido. - Você está
gostando dele é? - Não sei, mas acho que sim.
Ele parece ser uma pessoa de bem. - Bem,
vamos dormir maninha. Boa noite - e beijou a
testa da irmã. - Boa noite pra você também -
respondeu ela – que não sabia que também não
conseguiria dormir aquela noite.
Os dias
seguintes foram passando sem que André
encontrasse Carmem. Ele ia à casa de Júnior
quase todos os dias para visitar o amigo com o
pé todo engessado. Nesta tarde, tão logo entrou
na casa do amigo, Licinha não deixou que ele
subisse até o quarto. - André, não sobe agora
não. Depois eu falo que você esteve aqui. Se
você for agora ele não vai gostar. - Oras,
por que ele haveria de não gostar? - Porque
você não sabe quem está lá com ele. Aquela tal
de Heloísa soube que ele tinha quebrado o pé e
veio visitá-lo. - A Heloísa está aqui? -
Está sim e eu não sei o que vocês vêem nela.
Toda empertigada. - Empertigada ela é, mas é
linda pra caramba! - Galinha, isso é o que
ela é. - Pára Licinha, isso é inveja. -
Vocês são todos iguais sabia? Não enxergam um
palmo adiante do nariz. - O que você quer
dizer com isso? - Que você é um bocó, só
isso.
André saiu da casa do amigo
imaginando o que não estaria acontecendo naquele
quarto, todos sabiam que Heloísa era uma garota
que vivia bem a frente de seu tempo. Os meses
foram passando e André nunca mais vira Carminha.
A saudade o matava. Uma dor sentida no peito.
Ele vivia se perguntando por que sentia tanto
medo diante dela. Tinha tanto amor e parecia que
ela também gostava dele. Mas ele preferia
alimentar um sonho que sofrer um pesadelo caso
ela recusasse o amor dele. Era amor que ele
sentia, não tinha a menor dúvida disso. E quanto
mais o tempo passava, mais aumentava dentro dele
aquele amor. Carmem seguia sua vida de
estudante do colegial. Era boa aluna e dedicada
aos estudos. Queria ser alguém na vida para não
ter que passar pelas humilhações que seu irmão
passava, por ter interrompido os estudos pois
precisava trabalhar. Carmem sonhava com
André, tinha vontade de revê-lo, mas tinha medo
de se aproximar dele ou de passar na rua onde
morava, agora que ela sabia onde era. Ela também
sabia que seu sentimento por André era de amor.
Um amor muito grande como nunca sentira antes na
vida. E tudo o que ela tinha para se lembrar era
uma única dança de uma música que ela nem sabia
como se chamava. A Primavera chegou e com ela
as noites quentes e agradáveis quando as pessoas
sentavam-se à beira das calçadas para conversar
com os vizinhos. E foi numa noite de Primavera
que André tornou a ver Carminha. Ele passava
pela rua com um grupo de amigos e ela estava
debruçada no muro da casa conversando com os
pais que estavam sentados na calçada. Ao
passar defronte a casa ele olhou para ela meio
que disfarçado para que os pais não percebessem
e disse apenas “boa noite”. Mesmo assim, ele viu
os olhos dela brilhando como se fossem duas
esmeraldas. Quis parar, mas as pernas não
obedeciam. Ela ruborizada, as maçãs do rosto
queimando e fazendo um calor percorrer todo seu
corpo e ao ver que André seguia seu caminho,
voltou para dentro de casa segurando a vontade
de chorar.
Chegou o mês de outubro e
com ele algumas mudanças na política que já
estava há mais de um ano sob uma ditadura
militar. O governo decretou o Ato Institucional
número 2 que restabelecia o processo de
cassações e até prisões de pessoas contrárias ao
regime. Muitas pessoas começaram a fugir,
tentando se esconder na casa de amigos, pois
começava uma corrida contra aqueles que o
governo achava serem comunistas. Andar à noite
pelas ruas em grupos, começava a se tornar
perigoso, pois a polícia prendia qualquer pessoa
que tivesse uma atitude suspeita. Este ato
institucional pegou o pai de Clóvis e de Olga e
ele teve que fugir às pressas do país para não
ser preso. Havia acusações de corrupção contra
ele. A esposa e os filhos ficaram no Brasil, mas
tiveram que se mudar do bairro, pois a mãe
sentia-se envergonhada com tudo aquilo.
Em uma tarde de sábado,
André estava chegando ao ponto de ônibus quando
avistou Carmem no mesmo ponto. Cumprimentaram-se
e começaram a conversar. Carmem ia visitar uma
amiga, para fazerem um trabalho da escola e ele
também disse que ia visitar um amigo. Pegaram o
mesmo ônibus e os dois quase não falavam. Como
era possível aquilo? Ambos sentiam que se
gostavam, mas nenhum dos dois tomava qualquer
iniciativa. Quando o ônibus já se aproximava
do ponto onde Carmem iria descer, ela perguntou
para o André se ele tinha notícias de Olga, que
havia mudado e não tinha deixado endereço. André
respondeu que não tinha a menor idéia do
paradeiro dela, mas disse que ia procurar saber.
Ela se despediu e desceu. André seguiu no ônibus
até o ponto final e voltou no mesmo ônibus para
seu bairro. Estava revoltado com ele mesmo por
não ter aproveitado a chance de convidar
Carminha para um cinema ou para tomarem um
sorvete. Mas também sentia-se feliz por ter-se
encontrado novamente com ela. Ele só não sabia
uma coisa: que essa tinha sido a última vez que
teria visto Carminha. Esta por sua vez,
chegou na casa da amiga ofegante, como se
tivesse corrido até lá desde sua casa. Estava
radiante e cheia de felicidade. E comentou com a
amiga o que estava sentindo por André. E ela
também não sabia que nunca mais o
veria. Naquela mesma tarde, ao chegar em
casa, André ficou sabendo da morte do pai. Ele
tivera um ataque fulminante do coração. André
sentiu que o chão lhe faltava sob seus pés.
Sentiu uma vontade incontrolável de chorar. Não
tinha visto o pai naquele dia. Aliás,
ultimamente, pouco conversavam, pois o pai
andava preocupado com alguma coisa relacionada
ao governo e seus negócios. André não
trabalhava e não tinha irmãos. De um momento
para outro sua vida tinha virado de cabeça para
baixo. Queria ver Carminha, contar-lhe de sua
tristeza, mas achou que não devia procurá-la,
não agora. O funeral aconteceu normalmente e
após o enterro do pai é que os problemas
começaram a aparecer. O dinheiro do pai havia
simplesmente desaparecido e ninguém sabia onde
poderia estar ou quem teria se aproveitado
disso. Não restava outra solução senão vender a
casa e irem morar em outro bairro mais simples e
numa casa menor, agora que era ele e a mãe
apenas. O tempo passou e um dia André
encontrou-se com uma das amigas de Olga e esta
lhe disse que eles estavam morando na Zona Norte
da cidade e deu o endereço para André. Ele
também havia se mudado para um bairro distante
de onde morava antes, mas tinha prometido à
Carminha que tão logo tivesse o endereço de Olga
ele lhe enviaria. Mas isso teria que ser em um
fim de semana, pois agora ele tinha arrumado um
emprego e passara a estudar à noite. No
primeiro sábado após ter-se encontrado com a
amiga de Olga, André arrumou-se todo e foi para
seu antigo bairro à procura de Carmem e quem
sabe rever seus amigos. Passou primeiro na casa
de Júnior, mas ele não estava, tinha saído com
Heloísa. Estavam namorando firme agora, ficou
sabendo. Licinha tinha virado uma moça muito
bonita e também já estava namorando. André
deixou seu endereço e um convite para Júnior ir
visitá-lo qualquer fim de semana. Andou pela
redondeza e não encontrou nenhum de seus amigos
de outrora, mas ele pode perceber que alguns
simplesmente se esconderam dele. A noite
começava a cair e ele foi então à casa de Carmem
para levar-lhe o endereço de Olga. Ao chegar viu
o pai da moça debruçado no muro. Perguntou por
Carmem e o pai quis saber o que ele queria com
ela e disse isso de forma muito ríspida. André
ficou sem jeito e disse que tinha ido visitá-la
para levar o endereço de Olga, amiga de
Carminha. O pai, que parecia meio embriagado
pediu que André entregasse o endereço para ele
mesmo que depois ele daria para a filha. André
relutou, aquele bilhete era o único pretexto que
ele tinha para procurar e falar com Carmem.
Ameaçou dizer que passaria outra hora, mas o
velho tornou a pedir o bilhete. André não teve
outro jeito senão entregar o seu maior pretexto
para aquele homem ríspido. E foi embora
dirigindo-se para o ponto de ônibus segurando as
lágrimas que teimavam em sair de seus
olhos. Tão logo André se afastou, o pai de
Carmem amassou o bilhete e ao colocar no bolso
não percebeu e deixou-o cair no chão e entrou em
casa, onde Carmem conversava com o irmão. Uma
chuva forte começou a cair. - As coisas estão
mudando não acha? As pessoas estão tão
diferentes. O que você acha que está acontecendo
Cacá? - É esse regime maninha. O governo está
pegando pesado. Você viu o que aconteceu com o
pai do Clóvis, teve que fugir do país e ninguém
sabe para onde foi e nem o paradeiro de sua
família. Dizem que o pai daquele seu amigo, o
André morreu do coração também por causa
disso. - O pai do André? Morto? Quando? Por
que você não me disse antes? Então é por isso
que ele sumiu. Meu Deus, ele deve estar sofrendo
tanto! - É pra você ver como o mundo dá
voltas maninha. Até outro dia eles posavam que
nem pavões e hoje estão vivendo como
urubus. - Não fale assim do André, por
favor. - Não estou falando dele, mas dos pais
deles, deles todos. Um monte de gente mudou do
bairro, todo dia tem alguém indo para fora do
país. O André mesmo se mudou, parece que todo o
dinheiro que o pai dele tinha foi confiscado ou
coisa assim. - Eu queria tanto vê-lo!
Precisava encontrar-me com ele. Eu sei que pode
ser bobagem, que talvez ele nem pense mais em
mim, mas eu sinto que poderia ajudá-lo a superar
esse momento difícil.
- O André não vai sumir maninha,
ele tem bastante amigos por aqui e deve vir
sempre para cá. - André, André – resmungou o
pai deles com voz pastosa. Acho que foi ele quem
passou por aqui agora pouco. - Pai – exclamou
Carminha – o André passou aqui? - Parece que
era esse o nome que ele me deu. Queria falar com
você e eu disse que você não estava e que ele
deixasse o bilhete comigo que depois eu daria
pra você. - Que bilhete pai? Me dá logo esse
bilhete! - Calma, eu coloquei aqui no bolso
da calça – e começou a vasculhar os bolsos à
procura do bilhete. - Pai, presta atenção
pai, por favor. Onde você pôs o bilhete? -
Não era um bilhete, era um endereço. Ele disse
que era de uma amiga sua. - Olga? O nome dela
é Olga pai? - É, é esse o nome. - Pai,
procura direito por favor- desta vez foi Carlos
quem falou. - Vai ver que caiu quando fui
colocar no bolso. Deve estar lá no
quintal. Carmem nem esperou o pai acabar de
falar e saiu correndo para frente da casa e
Carlos a acompanhou. Viram um pequeno pedaço de
papel amassado mas a água da chuva tinha apagado
tudo o que estava escrito lá. Carlos e Carmem
voltaram ensopados para dentro de casa e Carmem,
mesmo com as roupas molhadas, deitou-se na cama
e desatou a chorar. Carlos, por sua vez,
censurava o pai por não ter tido cuidado com o
tal bilhete. Parecia que ele também perdera
sua última chance de um dia voltar a ver
Olga. Algumas semanas se passaram e André
esperava, no serviço, por um telefonema que
nunca viria. Ele tinha sido um bobo, por medo
perdera o grande amor de sua vida.
Os
dois anos seguintes foram anos de muita
violência no país, com passeatas de estudantes e
artistas contra o regime militar. A polícia
repelia esses movimentos com violência também.
Certa noite, ao voltar do trabalho, Carlos
viu que seu ônibus estava prestes a sair do
ponto e começou a correr carregando sua pasta
onde levava alguns cadernos e a marmita. Uma
perua Veraneio, muito utilizada pelos órgãos de
repressão, e com cinco ocupantes, dirigiu-se
para aquele rapaz correndo com algo embaixo do
braço e Carlos foi logo abordado pelos
policiais. Sem perguntas de qualquer espécie foi
colocado dentro da Veraneio que saiu em
disparada. No dia seguinte, ao se levantar,
Carmem percebeu que seu irmão não dormira em
casa e sentiu uma onda de pavor percorrer seu
corpo. O que teria acontecido? Telefonou para o
trabalho de Carlos e ninguém sabia dizer sobre
seu paradeiro. Ligou para alguns amigos e
ninguém tinha visto Carlos na noite anterior.
Carmem dedicou alguns dias à procura do irmão,
indo em delegacias, hospitais, necrotérios, no
DOPS e também nos quartéis do exército, onde ela
ouvira dizer que também guardavam prisioneiros
políticos. Mas Carlos não fazia parte de nenhum
movimento, ela saberia disso. Nunca mais teve
notícias do irmão.
André era um brilhante advogado.
Já estava formado há bastante tempo e era muito
requisitado nos meios forenses. Ele tinha se
casado, tido 3 filhos, todos já casados. Sua
mulher já tinha falecido e André vivia sozinho e
dedicado ao trabalho, embora já nem precisasse
tanto dele para viver. Ele amou a esposa, mas do
grande amor de sua vida ele nunca mais tivera
notícia. Durante os últimos quarenta anos tentou
em vão encontrar-se com Carmem, mas ela já não
morava naquela casinha e ninguém sabia dizer de
seu paradeiro. Até que chegou um momento em que
desistiu de procurar por ela. Dedicou-se aos
estudos e foi ganhando confiança em si próprio e
perdeu aquela timidez que o fizera perder o amor
de sua vida. Saiu com muitas garotas até
conhecer Lúcia, com quem viria se casar tão logo
ela engravidara. Dedicou-se ao trabalho e
proporcionou à família uma vida confortável.
Duas filhas se casaram e por último o seu
primogênito que levava seu nome. Logo em
seguida, Lucia, que sempre teve uma saúde
frágil, veio a falecer. André vendeu a casa e
foi morar em um apartamento dos Jardins. Na
verdade, o apartamento era seu refúgio. Quase
ninguém tinha seu endereço, além dos
filhos.
Carmem também tinha se formado.
Era médica e trabalhava em um dos grandes
hospitais da cidade além de clinicar em seu
consultório. Como sempre fora esforçada nos
estudos fez medicina e destacou-se muito na
faculdade. E foi convidada a fazer residência
num dos melhores hospitais da cidade. Sua
especialidade era na área de cardiologia como
cirurgiã. Ela nunca se casou, embora tivesse
sido muito cortejada quando moça, mas toda sua
dedicação estava voltada para os estudos e
também à procura de seu irmão. A ditadura que
durou vinte anos no país já havia acabado e
mesmo assim ela nunca soube mais do irmão, até o
momento em que se conformou que ele havia
morrido. Às vezes, no silêncio de seu
quarto,ou na sala de estar, do pequeno mas
luxuoso apartamento onde morava, Carmem
deitava-se no sofá com uma taça de vinho e
viajava pelo tempo, quase sempre voando para o
mesmo lugar onde passara grande parte de sua
vida. Pensava nos pais, já falecidos, no irmão,
em Olga que ela nunca mais vira, mas pensava
principalmente em André. Por onde ele andaria?
Ela ainda sentia o toque dele em suas costas
quando dançaram uma única melodia que agora ela
já sabia o nome e sempre ouvia o CD de Ray
Conniff. O CD Player tocava sua música
preferida e ela pensava bastante em André, cujo
amor ela nunca esquecera embora nunca tivessem
namorado, nunca houvessem se beijado, mas ela
sabia que ele era o homem de sua vida. Nunca
soube seu sobrenome e por isso nunca pode tentar
encontrá-lo por telefone ou qualquer outro meio.
Talvez ele também tivesse desaparecido como seu
irmão, pois ela ouvira dizer que André era um
pouco rebelde em questões políticas. Preferia
não pensar assim e voltou sua atenção para a
música que tocava repetidas vezes naquela noite.
Sem querer, deixou cair algumas gotas do vinho
sobre seu corpo e elas correram em direção aos
seus seios. Carmem passou o dedo entre eles e
lambeu o vinho. Isso causou-lhe uma estranha
sensação de paz e de prazer e nessa noite ela
homenageou André sentindo seus dedos em todo seu
corpo. Adormeceu tranqüila e lânguida, numa doce
sensação de paz e de tranqüilidade.
Acordou com o telefone tocando.
Era do hospital. Parecia ser uma emergência e
ela foi a primeira pessoa a ser encontrada.
Lavou o rosto rapidamente e saiu em seu carro em
direção ao hospital.
Naquela noite André resolvera
caminhar um pouco pelas ruas do bairro apesar de
saber dos perigos de se andar à noite pela
cidade de São Paulo. Caminhava calmamente,
olhando o céu, observando as estrelas, a lua,
quando sentiu uma pontada no peito seguida de um
dor ligeira. Parou de andar e passou a mão na
testa e no peito. Sentiu-se recuperado e voltou
a caminhar, só que agora já em direção ao seu
apartamento. Outra pontada, e uma dor mais forte
agora que o obrigou a se pôr de joelhos, para em
seguida cair totalmente no chão. O guarda
noturno que passava viu quando André caiu na rua
e imediatamente foi socorrê-lo chamando a
atenção do porteiro do prédio onde André morava.
No hospital a Dra. Carmem
era aguardada pela equipe médica, mas não havia
nenhum cardiologista de plantão naquela noite.
Estavam preocupados e não sabiam muito bem o que
fazer, parecia ser um caso de
cirurgia. Carmem chegou correndo ao hospital
e foi logo pedindo informações sobre o caso.
Soube que era um homem que aparentava entre 55 e
60 anos que caíra na rua quase em frente ao
prédio onde mora no bairro dos Jardins. Ela
chegou junto do paciente e foi logo olhando para
os instrumentos ligados ao seu corpo. Perguntou
se haviam feito uma angiocardiografia. Ao ter
confirmada a realização do exame ela constatou
que o paciente necessitava ser operado pois não
suportaria outro enfarte que viesse a ocorrer.
Carmem pegou a ficha do paciente para conferir o
que já havia sido providenciado, Ao ler o nome,
sentiu um ligeiro arrepio correr por seu corpo.
Olhou para o rosto daquele homem e viu traços
familiares. Colocou a mão no rosto do homem e
ele abriu ligeiramente os olhos e imediatamente
reconheceu aqueles olhos verdes tão lindos e tão
doces. Carmem tinha os olhos já cheios de
lágrimas, mas não eram lágrimas de medo, eram
lágrimas de felicidade de reencontrar André, de
tê-lo ali, deitado, olhando para ela. André
balbuciava algo que ela não entendia e por isso
ela abaixou-se deixando seu ouvido próximo da
boca de André. E ele disse: - Carmem, é você
mesmo? - Sou sim André, sou eu sim. Você vai
ficar bom logo, nós só vamos dar um jeito nessas
suas artérias. - Carmem - tornou a balbuciar
– passei boa parte de minha vida procurando você
e não a encontrava em lugar nenhum. Eu sempre te
amei e não quero perdê-la agora, pois nunca hei
de deixar de te amar. - Eu também nunca me
esqueci de você meu amor. Agora fique tranqüilo
que teremos toda uma vida pela frente.

WebDesigner Isolda Nunes
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