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O Velho Major
Ivan Jubert Guimarães
04/03/94
Eu quase não o via embora, quando criança, fosse muito à sua casa. Aos
domingos ia com meu pai e minha mãe para almoçar. Naquele tempo, Santo
Amaro era muito longe. Era uma pequena viagem de ônibus e bonde. Ainda
me lembro de sua casa e das casas vizinhas. Não havia forro no teto, o
banheiro ficava do lado de fora, um cubículo com uma portinhola de
madeira. Havia um gramado para estender roupa que eu e meus primos
usávamos para jogar bola. Tinha uma velha figueira e um poço de onde
saía a água que bebíamos. Como era gostosa aquela água. Havia também um
ou dois pés de café, cujos frutos, quando maduros e vermelhos, eram uma
delícia. Havia um grande pé de ameixa e muitas amoras. Era muito bom
passar o dia por lá.
Lembro do galinheiro e de um monte de garrafas vazias e empoeiradas.
Lembro de seu cachorro Mickey.
Lembro de seu chapéu. Acho que tinha dois, um cinza e outro marrom.
Lembro muito de sua voz, um timbre grave, meio acaipirado, não sei
definir bem. Mas era uma voz muito característica. Lembro-me de tomar
café em xícaras de ágata ou lata, de ouvir Saudades do Matão no rádio de
sua casa. Era algo meio triste, meio nostálgico. Lembro-me das vezes em
que lá dormia que ele saía bem de madrugada para ir ao trabalho na
Companhia União. Todos os dias ele saía às quatro horas da manhã.
Lembro das discussões que tinha com meu pai sobre política, um janista,
o outro ademarista. Claro que eu torcia para o meu pai.
Lembro de uma vez em que eu estava acompanhado de minha mãe e de uma
tia. acho que a Irene, dentro de seu carro, a velha Rosalina, numa rua
qualquer da Moóca. Chovia um pouco e quando ele voltou me trouxe um
doce. Acho que era uma Maria-mole. Lembro de que nesse dia de chuva ele
passou sabonete no vidro do carro que estava com o limpador de
pára-brisa quebrado. Todos estranharam e ele explicou que com o sabonete
a água batia no vidro e escorria. Nunca me esqueci desse detalhe.
O tempo foi passando, eu crescendo, mas parecia que ele estava sempre
igual. A casa já não era a mesma. Ele havia construído outra na frente e
derrubado a antiga. Eu já estava com 18 anos e fui morar lá uns tempos.
Um de meus primos já havia casado uns tres ou quatro anos antes. Eu
tinha que ir apresentar-me para o exame médico do Serviço Militar e ele
me deu uma carona até o Cambuci. Lembro-me que saímos de casa às quatro
horas da manhã.
Às vezes eu o via sentado ao lado do motorista nas peruas da União com
uma prancheta nas mãos.
Alguns anos se passaram, eu havia me casado e meu filho já estava com um
ano de idade. Lembro do major segurando meu filho no colo enquanto este
ficava puxando seu velho bigode. O tempo continuou passando e eu já
quase não o via.
Certa vez, estava visitando um cliente próximo de sua casa e apareci por
lá perto do horário de almoço. Tomamos uns bons goles juntos e
conversamos algumas horas sobre política e futebol. Acho que foi a
última vez que estive com ele. Ele me pareceu apenas mais magro mas
conservava todo aquele seu jeito característico. Saí de lá com a
promessa de um dia qualquer voltar lá e tomar mais uns goles com ele.
Não deu tempo, ele se foi. Mas agora, quando termino de escrever estas
linhas, vou tomar uma branquinha e fazer um brinde para o velho major.
Viva !

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