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Francisco Saiz "Tudo o que sei é que nada sei" - Sócrates A palavra ceticismo vem do grego "skêpsis", que significa indagação, exame. O desejo de aprender está relacionado com o ato de fazer indagações, com a curiosidade. Informar-se, examinar, analisar, ponderar sobre alguma coisa é uma forma de saciar essa curiosidade. Então o ceticismo, na raiz de sua palavra, implica no procurar saber, no não se contentar com a ignorância sobre os fatos. Buscar explicações faz parte da natureza humana. A curiosidade impulsiona a humanidade. A ciência e toda a tecnologia existe porque pessoas movidas pelo não conformismo de não saber indagam, examinam – enfim, praticam o ceticismo. Pirro fundou, no século IV a.C., a primeira escola cética. Não deixou nada escrito, mas o pirronismo é citado por Diógenes Laércio da seguinte forma: "Chamam-se céticos, porque sempre examinam e nunca encontram". Os seguidores dessa escola de pensamento não visam descobrir, entender, examinar, mas apenas e tão somente fixar-se na indagação. A indagação é um fim por si só. Outro tipo de ceticismo é o dogmático. No ceticismo dogmático o objetivo não é investigar e obter conhecimento, mas unicamente desacreditar alguma idéia que contrarie um conjunto de crenças pré-estabelecidas. Na vigência do ceticismo dogmático, nenhuma nova idéia pode florescer. É o ceticismo conduzido às fronteiras do cinismo, da hipocrisia, da ignorância. É o "não querer saber" levado ao exagero insano (por isso ignorante), disfarçado de "indagação e exame" (por isso cínico e hipócrita). É o ceticismo adotado pela Igreja nos tribunais de Inquisição. Lembremos do exemplo de Galileu Galilei, que foi obrigado a negar a sua descoberta de que a Terra é que gira ao redor do Sol. Quando solicitou aos Inquisitores que olhassem pela luneta, estes simplesmente se negaram, alegando que ela estaria adulterada ou que satanás estivesse a produzir ilusões de ótica para desvirtuar o homem do caminho da verdade. Esse mesmo ceticismo dogmático é utilizado pelos que combatem a Teoria da Evolução e que defendem o Mito da Criação segundo o Gênesis. Simplesmente se negam a "olhar na luneta", ou seja, nunca leram A Origem das Espécies, de Darwin – mas se apressam em criticar o darwinismo; "não querem saber" das descobertas arqueológicas e geológicas, dos registros fósseis, dos estudos de genética e taxinomia (ciência da classificação) dos animais. São céticos dogmáticos quanto a tudo isso, pois não buscam esclarercer nada. Preferem se manter à distância, criticando, atirando pedras. Usam argumentos colhidos credulamente de panfletos criacionistas de banco de igreja. Fazem de tudo para proteger a fé, pois já assumiram previamente que esta é verdadeira e nada vai tirar isso deles. Uma outra corrente de ceticismo é
a utilizada por muitos filósofos e cientistas. Nas palavras de Carl
Sagan: "Nós encontramos (o ceticismo) todos os dias. Quando compramos
um carro usado, se formos minimamente inteligentes nós exercitaremos
pelo menos um mínimo de atitudes céticas - se nossa formação
escolar tiver deixado alguma coisa. Você pode dizer 'este sujeito
parece honesto. Eu vou acreditar em tudo que ele disser'. Ou você
pode dizer 'bem, eu ouvi dizer que às vezes acontecem pequenas fraudes
na venda de um carro usado, talvez sem o conhecimento do vendedor' e aí
você faz algum coisa. Você chuta os pneus, abre as portas,
olha sob o capô (você pôde fazer tudo isso mesmo se não
souber o que deveria estar sob o capô, ou pode trazer um amigo com
queda para mecânica). Você sabe que algum ceticismo é
necessário, e você entende por quê. É desagradável
que você talvez tenha que discordar do vendedor ou lhe fazer perguntas
que ele não queira responder. Há ao menos um pequeno grau
de confrontação interpessoal envolvido na compra de um carro
usado e ninguém diz que isso seja especialmente agradável.
Mas há uma razão boa para ela - porque quem não usar
um mínimo de ceticismo, quem tem uma credulidade absolutamente irrestrita,
provavelmente depois pagará algum preço por isso. Aí
irá se arrepender por não ter feito um pequeno investimento
em ceticismo.
Esse ceticismo que utilizamos todo os dias, em situações cotidianas, é um tipo bastante diferente da prática interrogatória sistemática dos que desejam estar eternamente instalados na dúvida, como também nada tem a ver com o ceticismo dogmático. O objetivo desse ceticismo é nos previnir de engodos e falácias (argumentos falsos). É importante para nossa sobrevivência. E é o mesmo tipo que é útil para a ciência. O ceticismo, quando utilizado de forma inteligente e livre de dogmas, permite que não nos contentemos com respostas mal dadas. Nos impele para o sincero questionamento e nos direciona para as descobertas. A minha posição cética diante do ceticismo dogmático é bem clara: tudo o que sei é que não gosto de não saber. Francisco
Saiz é professor de lógica e programação
da Fundação Paula Souza,
formado em Ciência da Computação pela Universidade
Mackenzie, e aluno de mestrado em Inteligência Artificial no
Instituto
de Pesquisas Energéticas Nucleares da USP - Universidade
de São Paulo
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