PORTO AMÉLIA «» PEMBA  - estrada do tempo 1

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espaço aberto a todos que quiserem contar histórias de porto amélia-pemba

Roteiro de Viagem a Pemba:
Imagens 1 Gente da Gente
Imagens 2-Sobre Moçambique... Glória de Sant'Anna
Imagens 3 História em Imagens e Textos
Imagens 4-Cabo Delgado Histórias Perdidas
Imagens 5 informações Úteis de Pemba
Imagens 6 Jaime Ferraz R. Gabão
Imagens 7 Língua Pátria
A arte Makonde Luis Alvarinho
A Arte de Inez A. Paes Mapas de Moçambique
Andrea A. Paes - Designer  A Minha Viagem a Pemba
Estrada do Tempo Os Jovens de 1974
Família Carrilho Os Pássaros - Inez A. Paes
Flagrantes Quirimbas - O Paraíso
ForEver PEMBA Vídeos de Pemba-M. de Campos

Pequeno "retalho" que o companheiro dos bancos escolares, ANTÓNIO COELHO, retirou do arquivo de sua privilegiada memória:

O Cais de Porto Amélia foi inaugurado, se não me falha a memória de uma placa comemorativa que lá havia, a 7 de Outubro de 1956, pelo presidente Craveiro Lopes, que viajou a bordo do navio Angola ou Pátria. Mas creio que foi no primeiro. Eu era para ter ido  nessa viagem. Mas houve mudanças de reservas e fui no Moçambique.  Cheguei à Ilha em 3/10/56, dia do aniversário do meu pai.
Nessa época desembarcavamos na ilha e íamos de lancha ou de rebocador até ao Lumbo.
Das lanchas até à praia eramos transportados às costas de carregadores. 
Em Porto Amélia tambem era assim  antes da ponte existir, segundo me contaram.  Desembarcava-se na praia da Sagal. Contaram-me tambem que alguns "malandrecos" davam dinheiro aos carregadores para ("sem querer") darem banho a alguns "eleitos"...
Outros davam-se ao trabalho de previamente espalharem picos no local de desembarque para fazer cair o pessoal e poderem assim gozar o prato...
Enfim, recordações que o tempo ainda não  apagou... Teremos mais se, como dizes, a preguiça deixar passar à escrita.
Um abraço,

António Coelho (Luxemburgo)-16/10/2001

APONTAMENTO - DIA DA CIDADE DE PEMBA

esclarecendo o  porquê de  18 de Outubro ser o dia oficial de Pemba: 

"... ...antigamente a comemoração era a 8 de Dezembro, hoje em dia é a 18 de Outubro, e tem um certo sentido como poderão verificar em seguida. Vou-vos transcrever 2 parágrafos de uma publicação intitulada "PEMBA, SUA GENTE, MITOS E A HISTÓRIA -1850 a 1960", feita pelo Luis Alvarinho, que também se baseou em documentação e dados do Arquivo Histórico de Moçambique, Boletim Oficial e Boletim da Companhia do Niassa, entre outros. "O embrião que veio dar origem à actual cidade de Pemba, data de 1857, como parcela da `Colónia 8 de Dezembro´, fundada por Jerónimo Romero e dissolvida 5 anos depois por diversos problemas de organização e adaptação dos colonos". "Porto Amélia ascende a vila por portaria de 19 de Dezembro de 1934 e é elevada à categoria de cidade em 1958 pelo decreto-lei de 18 de Outubro do Governo-Geral da Província".... ..."

Informação postada em 10.12.2001, no Bar da Tininha por Jorge Marabuto Bronze

Um jogo sobre Porto Amélia-Pemba
Teste seus conhecimentos sobre Pemba.
(Jogue clicando na imagem):

 

sobre luis alvarinho 

""20/06/2002 - Estando em preparação um livro de crónicas em que esta será incluída, envio-a como homenagem ao Luís Alvarinho - Glória de Sant'Anna

Moçambique – Cabo Delgado

A Escuna Angra é um marco histórico navegando o mar no reinado de D. Pedro V, para as terras de Cabo Delgado ao norte de Moçambique.


Comandada por Jerónimo Romero, 1º tenente da Armada, leva consigo sessenta colonos que irão fundar
a colónia agrícola de Pemba, em 1857.


Mãos amigas fizeram chegar até mim um livro sóbrio que relata o facto.


Baseia-se ele essencialmente na adenda à memória descritiva de Jerónimo Romero, e na recolha da
tradição oral de toda a região que abraça a baía de Pemba.


É seu autor Luís Alvarinho nascido em Pemba em 1959. (1)


Este jovem que na sua meninice por certo correu pela orla das ondas, colheu búzios na praia do Wimbe,
bebeu sumo dos cajus, trincou maçanicas e jambalão: e na sua juventude se sentou frente aos microfones do Emissor Regional de Cabo Delgado, cativado pela magia e o poder da Rádio: este jovem, também ele elemento de mudanças políticas, inicia com o livro "PEMBA, SUA GENTE, MITOS E A HISTÒRIA – 1850 / 1960", datado de 1991, um caminho de pesquisa etnográfica e política das terras de Cabo Delgado – Pemba – nos séculos XIX e XX.


Da recolha oral conta o autor uma terna história que transcrevo:


" em anos muito recuados da nossa história a baía de Pemba era frequentada apenas por alguns
pescadores malgaches e swailis que em suas pequenas lanchas e pangaios arrecadavam o alimento sem nunca ali se fixarem.


Conta então uma antiga lenda que por essa altura uma de tais embarcações apanhada por um temporal
naufragou tendo como sobrevivente uma mulher que se viu obrigada a procurar algum refúgio nas proximidades da baía.


A mulher importante ( NUNO em língua local ) conseguiu sobreviver e montar aí a sua guarita.


Naturalmente conotada a NUNO pelos pescadores como "mensageira divina" demonstrando que a zona
poderia ser perfeitamente habitada, ela fê-los seguir o seu exemplo."


Esta obra com a qual me congratulo, não apenas pelo valor que tem, é uma pedra angular no espaço das
letras moçambicanas.


Como o próprio autor diz em nota introdutória, "este trabalho não tem pretenções de um rigor histórico,
como talvez se possa interpretar. A pesquisa histórica com certa sistematização poderá, isso sim, permitir identificar as raízes do local e da sua gente...


A principal motivação para este empreendimento, foi precisamente a de preservar a tradição oral de
Pemba, já bastante perdida."


""""""""""""""""


(1) – Foi meu aluno no ensino secundário e faleceu alguns anos depois de ter escrito este livro histórico a que se refere esta crónica. - Glória de Sant'Anna


pelo interesse que existe em documentar o passado, presente e futuro da cidade de pemba além de
divulgar e salientar todos os ilustres filhos desse belo recanto ao norte de moçambique, é feita esta transcrição do "bar da tininha", com a devida autorização da nossa eterna poetisa GLÓRIA DE SANT'ANNA.

Naquele tempo - 1...Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques, lá pelos idos de 1960

Nos dias 21 e 22 do corrente, tiveram lugar nesta cidade as provas orais dos exames para admissão ao Liceu, tendo sido aprovados os alunos Adriano Manuel Vidal Lima Caseiro, Arsénio António Macedo, Aristides José da Conceição Dias, Armando Augusto Cepeda, Carlos Augusto Silva e Castro Fagulha, Eugénia Lúcia Vieira da Silva, Fernando Manuel Borges, Francisco Hipólito Rodrigues Baptista Carrilho, Jaime Luis Vieira Ferraz Gabão, Joaquim Manuel Rodrigues Luis, Maria Judith da Conceição Dias, Momade Anif Abdullatif, Momade Sidique Jussab, José Rodrigo Zamith Franco Carrilho e Judite Macoô.

Ficaram reprovados 10 alunos na prova oral e da escrita haviam já sido excluidos dois.

O júri destes exames era constituído pelos professores de Liceu Drs. José Júlio Ferreira Faustino, Maria Alice Casanova Duarte e Maria Amélia Sousa Neves.

 

 

 

Naquele Tempo - 2...Notícia extraída da Página de Cabo Delgado do antigo Jornal Diário de Lourenço Marques e publicada em 24 de Dezembro de 1971

NOVAS INSTALAÇÕES DA GAZ-CIDLA - No passado dia 18, pelas 18,30 horas, a firma local Electro-Pamélia, Lda., inaugurou uma secção destinada, exclusivamente aos produtos da Gaz-Cidla.

Ao mesmo tempo, aquela firma, iluminou grande parte da Rua Jerónimo Romero, bem como acendeu, pela primeira vez, um reclame luminoso no bar "Pólo-Sul", que dá um efeito surpreendente, dada a localização daquele bar (cimo da rampa).

Aproveitando a circunstância, o sócio-gerente da Electro-Pamélia, Sr. Gaspar Pires, ofereceu aos convidados, entre os quais se contava o Presidente da Câmara Municipal,  em exercício, Sr. António Baptista Carrilho e Esposa, Vogal, Sr. João Francisco. Araújo e esposa e outras entidades, um beberete que serviu de pretexto para enaltecer o interesse daquela firma na sua acção dentro do ramo a que se dedica.

Assim, graças à Electro-Pamélia, a capital de Cabo Delgado também não deixou de ter, nesta quadra do Natal, parte duma sua rua iluminada. Pena é que outros estabelecimentos não sigam o seu exemplo.

As vacas do Macedo

               Em tempos idos, a mosca tsé-tsé, vulgo mosca-do-sono, não permitia em Cabo Delgado a vida de certos animais e complicava bastante a dos humanos. Em 1956, ano da minha chegada àquelas paragens, funcionavam ainda em certas localidades (recordo Balama e Ancuabe) os serviços da MCT ( Missão de Combate às Tripanossomíases), dirigidos pelo conhecido Dr. Carmo.  

               Humoristicamente,  o significado de MCT era: “Moscas Continuai Tranquilas”.  Contudo, foram serviços eficazes,  vindo mais tarde a ser extintos por ter sido considerada erradicada essa tão perigosa doença.  Consta-me que regressou em força,  mas desconheço se assim é.

Quando em 1958 a família se radicou na então Porto Amélia,  o único talho existente,  propriedade do sr Manuel Macedo,  era abastecido a partir de Nampula,  donde,  uma vez por outra,  eram trazidas umas quantas reses.

                Entre a chegada e o abate sobreviviam pastando ora junto à captação de água perto do aeroporto ora junto à marginal,  no palmar da D. Inácia,  no local onde,  em 63/64,  foram construídas as instalações da INOS,  mais tarde utilizadas pela Manutenção Militar.

Situados no tempo e no espaço,  permitam que recorde uma hilariante peripécia ocorrida nesses longínquos tempos e locais.

Por toda a África sopravam já os ventos da mudança e com eles chegavam os primeiros contingentes militares,  totalmente constituídos por elementos nados e criados na então metrópole.

            Pese embora a designação de "Caçadores Especiais",  a preparação militar seria pouca e os conhecimentos de África nulos ou perto disso.

 Passe o exagero,  alguns estariam mesmo convictos que,  naquelas paragens,  abrir uma torneira equivalia a ficar com um jacaré nos braços.  Mas adiante...

 Após um mês de viagem,  mal punham pé em terra era a procura de tudo o que durante esse tempo fora uma miragem. Deixo aos eventuais leitores a liberdade da imaginação...

Depois de muita deambulação encontraram-se uns quantos,  já pela noitinha,  “cara-a-cara” com as citadas vacas.   Fazendo uso dos “profundos conhecimentos de África”,  logo concluíram tratar-se de búfalos e nisso viram uma primeira oportunidade de dar largas aos dotes de “caçadores confirmados”,  adquiridos à custa dos coelhos e perdizes da Pátria distante.

 Da descoberta,  à acção foi um ápice.   Correm ao quartel,  pegam em armas e aí vai disto que amanhã pode ser tarde...

            A surpresa e a decepção tiveram-na pela manhã,  quando confrontados com o gozo dos mais antigos e a obrigação de reparar os danos causados ao amigo Macedo.

              Os infringidos aos pobres animais, esses já não tinham remédio...

 A. Coelho, Luxemburgo 6/12/2001

MENSAGEM RECEBIDA DO MISSIONÁRIO SÉRGIO CABRAL -  PEMBA EM 31/10/2001:

Quero informar do falecimento do Sr. Padre Paulo no dia 25 deste mês de Dezembro, em Lisboa.

Ele tinha partido daqui de Pemba no dia 14 por questões de saúde. Ele não sofria de nenhum mal em especial, apenas estava cansado e muito stressado. Viveu a guerra bem de perto que lhe ficou bem marcada no seu íntimo. Isso causou-lhe algumas perturbações psíquicas irreparáveis até à data da sua morte.

 De seguida apresento uma pequena biografia da sua vida: 

"Nasceu em Vilar Seco, Vimioso, Diocese de Bragança. Foi ordenado sacerdote em Cucujães a 30 de Maio de 1957.

Foi professor nos Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Mariri, na Diocese de Pemba, Moçambique. Foi missionário nessa diocese durante 43 anos, nas paróquias de Macomia e Maria Auxiliadora, de Pemba.

Foi um dos grandes missionários do povo Maconde. Falava bem a sua língua, conhecia a sua cultura, amava profundamente o povo daquela Missão com 12000 Km2. Lá viveu duas guerras: a colonial e a civil. Foi um homem livre a capaz de fazer amigos em qualquer partido, para servir a todos. Três vezes esteve em perigo de morte, escapou por milagre e nada o fez desistir de anunciar o Evangelho e criar comunidades cristãs. Quando era impossível visitar as comunidades escrevia cartas. Quando não podia ir de carro, ia a pé. Andou milhares de quilómetros a pé, nas estradas e nas matas para animar os cristãos e fortalecer os seus catequistas e animadores.

Foi um homem simples, sereno, alegre, com grande capacidade de fazer amigos. Deu o testemunho de Cristo com a própria vida. Era profundamente devoto de Nossa Senhora.

Sofreu uma forte hemorragia cerebral ao rezar o 4º mistério do terço: Jesus a Caminho do Calvário. Ficou 24 em estado de coma, nos hospitais de Santarém e S.José, Lisboa. Aí faleceu em 25 deste mês. No dia seguinte realizou-se o seu funeral em Cucujães."  - Sérgio Cabral - Pemba

UMA VIDA SIMPLES MOVIDA PELO AMOR

Dados Biográficos sobre o Padre Paulo

O Padre Manuel Paulo Lopes nasceu a 22 de Março de 1930 em Vimioso, Bragança. Foi baptizado no dia 29 de Junho de 1930 e crismado a 17 de Maio de 1944. Fez a sua 1ª comunhão em 1937. Entrou na Sociedade Missionária da Boa Nova no dia 28 de Setembro de 1943 em Tomar. Foi ordenado sacerdote em 30 de Maio de 1957 e partiu para as missões em 11 de Setembro de 1958.

Depois de ter trabalhado um ano no seminário de Mariri em 1958, foi colocado em Macomia em 1959. Em 1969 passa a ser o superior da Missão. Em Dezembro de 1978 foi obrigado a deixar Macomia e a residir em Pemba.

Em 29 de Dezembro de 1981 recomeçou a residir em Macomia numa pequena casa emprestada. Nos fins de Janeiro de 1982 foi novamente obrigado a deixar Macomia por não haver Igreja. Em Maio de 1982 celebrou em Portugal o 25º aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Durante esse período foi pároco de Maria Auxiliadora.

A 16 de Abril de 1992, recomeçou as visitas à paróquia de Macomia com muito entusiasmo e dedicação.

      No dia 14 de Outubro de 2001 embarcou de Pemba para Maputo e dia 19 desse mesmo mês, de Maputo para Lisboa a fim de descansar. No dia 24 sofreu um derrame cerebral multi-ramificado, vindo a falecer no dia 25 de Outubro pelas 7h00 da manhã no hospital de S. José em Lisboa. Foi sepultado no dia 26 de Outubro de 2001 em Cucujães junto dos seus colegas e irmãos da Sociedade Missionária da Boa Nova.

“O Padre Paulo impôs-se pela sua simplicidade, interesse pelo outro e pela sua sabedoria em escutar, ouvir os lamentos, as histórias, as vida dos outros.

Caminhar era a sua melhor maneira de se aproximar das pessoas. Caminhava sempre ao encontro do outro, pelas comunidades, pelos caminhos difíceis, pelas ruas. Gostava de caminhar.

O amor a Nossa Senhora era bem visível na sua devoção e piedade: o terço a Nossa Senhora de Fátima; os pastorinhos; o seu ataque, salvo milagrosamente por Nossa Senhora.

A sua paixão pela missão de Macomia não tinha limites. Amou verdadeiramente Macomia. Sofreu imenso por Macomia. Foi perseguido por Macomia. Macomia rejuvenescia-o imenso.

O trabalho na diocese como secretário foi notável. Era uma autêntica biblioteca viva. Informações históricas, casos, registos que só ele sabia, datas de interesse dos outros.

A vida do Padre Paulo entre nós não terminou. Acreditamos que ele junto de Deus, de Cristo e de Maria rogará por todos nós.

Assante Padre Paulo, pela tua palavra, sorriso, gesto...”

P. Albino-Pemba

 

LIDUVA LYAVALEKUA YESU (O DIA EM QUE NASCE JESUS).

Mensagens, cartas, e-mail´s,  são feitos, existem, encurtam distâncias e aproximam o ser humano. Seu conteúdo, normalmente fica entre dois ou poucos mais interlocutores...  Mas esta mensagem,  ( perdôe o Amigo Sérgio Cabral - seu autor) pela espontaneidade, sinceridade, atualidade e clareza de fatos  vinculados a uma quadra tão típica e a locais tão especiais para todos nós, não merece ficar oculta...Por isso e à "revelia" do autor, aqui a publico integralmente, também como homenagem à dedicada doação desses abnegados e incansáveis  Missionários:

Antes de mais quero desejar-lhe um bom Natal embora atrasado!

Não lhe escrevi antes porque tenho andado por aí a viajar e depois o computador apanhou umas viroses potentes...

O Natal correu bem.  Tivemos a Missa do Galo aqui na igreja de Maria Auxiliadora que durou umas 4 horas, incluindo uma pequena representação de Natal e baptismos.  Como sempre as danças e os cânticos alegres tornaram esta celebração festiva ainda mais festiva.   As quatro horas dentro da igreja passaram depressa de mais!!!

No dia 25 pelas 5 da manhã arrancamos eu e o P. Albino para a missão de Macomia a fim de celebrar para aqueles que estão orfãos de padre, após a morte do P. Paulo.    Chegamos lá e não conseguimos celebrar na igreja por causa das abelhas,  por isso tivemos de celebrar à sombra das mangueiras que ficam logo ao lado.   Apesar de tudo a comunidade estava organizada e até correu bem.

O nosso almoço de Natal resumiu-se a uma sandes de atum e para matar a sede água de côco.   Depois fomos celebrar a uma comunidade a 30 km de lá:  Namaluco que fica entre Macomia e Quissanga, bem dentro do mato.   Enquanto o Albino confessava os makondes, andei a passear e vi coisas interessantes:   Andava um grupo de gente a percorrer a aldeia atrás dos batuques e de um mascarado que dançava mapiko.   Então quando me viram sozinho, ali naquele sítio, aproximaram-se e fizeram uma demonstração exclusiva de mapiko para mim.   Também vi uma família a fazer uma espetada de caracois daqueles grandes que existem por aqui e diziam que era muito bom!!!   Outro petisco que me aconselharam foi rato.

Quando chegamos a Macomia fomos encomendar um frango com batatas fritas no Bar Chung  (Chinês)  para enganar a fome que já era muita.

Nos dia seguinte também andamos por outras comunidades à volta de Macomia,  nomeadamente Nova Zambézia  (20kms.), Nguído (50kms.) e Chai (42kms.).   Quase ninguém falava português, só o makonde!   Quiseram que eu tirasse uma fotografia a um menino que estava a chegar do mato pois tinha cumprido os ritos de iniciação.   Puseram-no em pé numa cadeira todo bem vestido, com um cofió na cabeça, para a fotografia todos contentes.   Assisti à dança das mulheres makondes à volta dos batuques, vi grandes baterias feitas de paus e chapas, conheci a makonde mais idosa do Chai já cega, mas que não deixava de admirar-se com a presença de um branco amigo do P. Paulo e do mesmo país do P. Paulo.

Agora vejo como o P. Paulo foi um grande missionário.   Nós percorremos as comunidades de carro com tracção, confortável, com música, sem percebermos nada de makonde e da cultura makonde.   O P. Paulo não!   Ia a pé, rasgava a mata, dormia e comia  com eles sabe-se lá como?   Dominava o makonde como os próprios makondes e até os ensinava.   É preciso ter estômago e muita fé para se fazer o que ele fez!!!

Nós só visitamos 5 comunidades, ainda existem mais de 30 no meio daquela mata infindável, onde se pode ver as pegadas dos muitos elefantes e onde existem leões e outros animais nada benevolentes.

Como vê, o meu Natal foi assim.   Longe da família, dos festejos tradicionais, do frio, das prendas, da boa comida portuguesa, mas mais perto da cultura makonde, dos ananases de Macomia, dos macacos de Macomia e enfim, mais perto da pobreza do menino Jesus que nasceu num curral espelhada naquela gente sem nada, mesmo nada.

Espero que o seu Natal tenha sido bom na companhia dos seus familiares e pessoas amigas.

Junto envio duas fotos do P. Paulo.   Uma junto com outros missionários: (da esquerda para a direita) P. Zé Marques, P. Albino, Ir. Glória, Ir. Palmira, P. Paulo, Ir. João e em baixo P. Gonçalves; e outra ele sozinho.

Um grande abraço e feliz ano novo!!!  

Sérgio Cabral - Pemba, 28/12/2001 - 19h24

     

Não sem uma certa dose de emoção, descobri ontem no “Bar da Tininha” as fotos ali colocadas pelo Carlos Araújo.  Nelas revi velhos amigos e conhecidos.   Alguns, infelizmente, já não estão entre nós.Imagem do Dr. Talhante, retirada de foto realizada em 1974 no baile dos finalistas da Escola Comercial Jerónimo Romero.

Hoje, por mensagem do Nelito Loureiro, colocada no mesmo local, soube com pesar que mais um passou a fazer parte deste último grupo.    Foi o Dr. Manuel Talhante, ex-director da Escola Comercial Jerónimo Romero de P. Amélia e, por caprichos do destino que aqui não vêm a propósito, também meu professor de Português.

Totalmente diferente do seu antecessor, sobretudo no convívio, não tardou que granjeasse a aceitação e estima de toda a massa estudantil.   Foi, naquela época, algo de novo a que não estávamos habituados, nas relações professor/aluno.   Bem haja, Doutor!

Como se de um filme se tratasse, desfila a memória deste personagem franzino de corpo mas grande nas recordações, boas ou más, que deixou em todos os que com ele conviveram.

A existirem, deixo de lado as más para quem e se as tiver.   Das outras, permito-me recordar duas que julgo pertencerem a toda uma geração:

- Com certa frequência, organizávamos uns bailaricos. Hoje em casa deste, amanhã na garagem daquele, segundo a disponibilidade e paciência de uns e outros.   Como em todo o bailarico, em todas as épocas e locais, também nos nossos se formava por vezes um ou outro par mais “atrevidote”.

Era fatal!... Mal se apercebia (e até parece que “tinha faro”…), lá ia ele (Dr. Talhante) buscar alguma das senhoras presentes, de preferência a que mais mal dançasse, para vir “obrigar” à troca de par, desfazendo o idílio apenas iniciado e, por vezes, tão penado…

- Peripécia que também ficou célebre foi a ocorrida na placa do aeroporto, em dia de chegada de uma alta individualidade.

O aeroporto era um mar de gente.   Autoridades, povo das mais diversas condições do mais cotado ao mais anónimo.   Encasacados uns,  fardados outros, pessoal da Escola, do Colégio, da MP (Mocidade Portuguesa).   Havia de tudo com fartura…

A certa altura, um enxame resolve atacar tudo e todos, com especial incidência a cabeça do dr Talhante, cuja protecção capilar era bastante frágil. Gerada a confusão, logo houve quem “aproveitasse para uma vingançazita”, prodigalizando-lhe alguns mimos servindo-se dos bonés usados pela MP.

Sendo estes providos de fivelas, fácil é adivinhar as marcas ainda visíveis alguns dias depois…

António Coelho - Luxemburgo, 08/11/2001

O dia de "S. Vapor"

Na ex-Porto Amélia da nossa meninice, além de todos os outros, celebrava-se mais um santo: “S. Vapor”. 

O seu dia era sempre que ao porto chegava um navio e o impacto na vida local variava em função da importância e origem  deste.   

Os de longo curso, idos de Lisboa, eram os que mais alteravam a rotina. As idas a bordo eram como que um regresso ao berço e um  enganar da saudade. 

Faziam-se compras, umas legais outras nem tanto, de artigos que não seriam muito diferentes dos encontrados localmente, mas… tinham o condão de vir da Metrópole… 

Bebiam-se umas “Sagres”, que não seriam melhores que as “Laurentinas”, “Manicas” ou “2M” do quotidiano, mas estas…vinham da Metrópole…

Jantava-se a bordo e havia bailarico...com orquestra da Metrópole… 

Era aquele “cordão umbilical”, que só os portugueses conseguem manter por toda uma vida...

Nesses dias, tirava-se a naftalina aos fatos domingueiros só usados em ocasiões especiais. Uma delas a Passagem do Ano (só até à meia-noite). Depois dessa hora, o cenário era outro. Talvez um dia falemos disso.

Parecido com o dia de “S. Vapor”, mas com intensidade e efeitos nada comparáveis, só os dias de chegada do avião da Deta.

Quando chegava…pois eram bastante frequentes as “avarias” provocadas pelas melhores condições de alojamento que, naquele tempo, as tripulações encontravam em Nampula ou no Lumbo.

António Coelho -  Luxemburgo, 17/11/01

Fotos dos navios Janina, Porto Amélia, Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito colhidas do excelente site Navios Mercantes Portugueses

O Dia de "S. Vapor" II

Já, na Estrada do Tempo, tentei dar uma idéia do que era o “Dia de São Vapor”.

Das peripécias a ele ligadas, uma há que julgo merecedora de ser aqui relembrada.

         Aconteceu no início dos anos 60, se a memória me não atraiçoa em 62, aquando das viagens inaugurais dos navios Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito.

         O aproximar do dia da chegada de um deles despertou a habitual efervescência, mas bastante ampliada, por razões óbvias...

            O luxo e dimensão do “bicho”, se atracava ou se ficava ao largo, por quanto tempo estaria entre nós, haveria ou não possibilidade de o visitar... tudo era assunto de conversa e contribuía para aumentar a expectativa geral.

        Chegou, finalmente, o grande dia. Por precaução, o Comandante decidiu ficar ao largo apesar de (constou-se...) o Piloto da barra garantir que as condições de acostagem eram seguras.

           Assim, houve que mobilizar umas quantas embarcações ligeiras, para fazer o transporte de passageiros, visitantes e alguma carga.

        Além dos “gasolinas” cedidos pela Capitania do Porto e de umas quantas lanchas, veio de Mocímboa o Gaspar com o seu barco.

        Chegado o dia, foi a bordo quem quis e/ou quem pode.

           Um dos visitantes, na ânsia de afogar a sede (crónica) que o afligia, foi um pouco além do razoável e, fatal como o destino, a visão e o sentido de equilíbrio ressentiram-se.

        No regresso, aproximando-se o “gasolina” do local onde o pessoal iria desembarcar, o nosso “herói” avaliou mal a distância. Saltou para a escada que só ele via próxima e, como imaginam, foi ao charco.

          A sorte, a perícia dos tripulantes e a ajuda dos presentes reduziram os prejuízos a um fato molhado e uns quantos papeis ensopados.

          Papéis que, para a pessoa em causa, eram de “extrema importância”. Tratava-se de “Vales” do bar do Carneiro & Morais, que o nosso amigo saldara nessa tarde, como religiosamente fazia a cada fim de mês.

António Coelho - Luxemburgo, 14 /12/2001 (Meu à parte - para quem não se lembra, o Tó Coelho está recordando a figura típica do saudoso Zacarias, funcionário da Companhia Comercial João Ferreira dos Santos)

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