Abtu, Alto Egito - 2992 a.C.
O
divino Rá já havia completado mais de três quartos de sua viagem pelo
ventre de Nut quando Epher finalmente voltou para casa, acompanhado
de Diankós e do menino. Sua chegada foi antecipada pelos comentários
dos vizinhos, que assomavam curiosos às portas para ver os sacerdotes
passarem, as vestes sagradas arregaçadas e sujas de lama, carregando
balaios à cabeça como serviçais. Com o burburinho, as duas criadas de
Epher logo vieram a seu encontro, pressurosas, querendo saber o que
se passava. Epher mandou-as de volta à casa para preparar-lhe um banho,
conseguir-lhe leite para a menina e separar ainda certas ervas, que
ele usaria para desinfetar a sarna que com certeza já havia contaminado
toda sua pequena comitiva.
-
Tomarás um banho em minha humilde casa, Diankós! Faremos juntos os rituais
de purificação, pois não permitirei que te vás embora neste estado!
-
Agradeço-te a oferta, que aceito com prazer! - respondeu Diankós, incomodado
com os olhares dos curiosos e imaginando que a notícia de sua chegada
lastimável já deveria ter chegado até sua casa também - Minha esposa
jamais me perdoaria se eu aparecesse assim diante de sua porta! Que
figura fazemos, Epher! O que me consola é que tudo foi feito conforme
os deuses ordenaram...
-
Com efeito, Diankós, e devo-o a ti, que tiveste a idéia de atender o
oleiro! Se fosse por mim, eu o teria dispensado, acredites! Amanhã realizarei
oferendas no templo em teu nome, irmão, e escreverei a meus parentes
mortos para que protejam tua casa como se fossem teus parentes também,
estejas certo disso!
-
Que os deuses lembrem-se de tua generosidade no dia de teu julgamento
eterno (1), meu irmão Epher! - respondeu Diankós, comovido - Nada mais
fiz do que minha obrigação para contigo! Mas pensas rápido, pois deves
pesar tuas palavras e explicar-te a contento. Vejo que Mahkret te espera
à tua porta!
-
Valham-me os deuses, como explicar tudo o que ocorreu hoje?
Epher
franziu as sobrancelhas grossas ao ver Mahkret, realmente postada à
porta da casa, esperando-os. Com certeza havia sido alertada pelas criadas,
mulheres linguarudas que eram! Mahkret tinha os olhos vermelhos, pois
devia ter estado a chorar pela casa novamente, aproveitando-se da ausência
do marido. As faces pálidas e encovadas demonstravam o abatimento pela
perda do último filho, ainda tão recente e dolorosa. Não lhe faria bem
preocupar-se assim, pois Epher preferia vê-la repousando para ganhar
forças.
-
Que malefícios porventura ocorreram a meu marido, para que me chegue
ele neste estado? - perguntou Mahkret, tão logo Epher aproximou-se o
suficiente - Por acaso não tem ele serviçais que lhe façam as tarefas
humildes, para que ande assim pelas ruas?
-
Acalma-te, senhora de minha casa! - pediu Epher, com um gesto de saudação
carinhosa - Teremos tempo para contar-te as aventuras a que nos submetemos
hoje! Por ora, providencia-me as ervas que pedi às criadas e banho para
todos, se é do teu agrado que entremos!
Mahkret
imediatamente afastou-se para que todos passassem, olhando-os com curiosidade
e espanto. Com certeza foi Diankós quem levou seu bom esposo a alguma
empreitada estranha! Mais tarde conversaria com Epher sobre isso. O
que mais a deixava curiosa era o menino, que tentava esconder-se de
suas vistas em meio às pernas de seu marido. Parecia-lhe familiar, aquela
criança!
-
Há água suficiente para todos, meu esposo, e tuas ervas já estão sobre
a mesa. E de quem se trata este menino que trazes contigo? É por acaso
algum novo aprendiz do templo? Tão pequeno...
Epher
trocou olhares com Diankós, enquanto o menino agarrava-se a suas pernas,
como pedindo proteção. Diankós deu ligeiramente de ombros. Uma hora
precisariam contar tudo a Mahkret, melhor que começassem logo. Epher
alisou a cabeça do menino com uma mão, confortando-o, e tirou cuidadosamente
o cesto da cabeça, colocando-o sobre a mesa baixa que ornava a sala.
-
Mahkret, esposa minha, há muito a ser dito para que tudo possa finalmente
explicar-se. Agora, o que te peço é que recebas bem este menino e o
presente inédito que ele traz consigo, vê!
Com
um gesto rápido, Epher levantou a seda e mostrou a Mahkret a menina
no berço. A criança imediatamente começou a berrar, assustada e provavelmente
com fome. Mahkret demorou alguns segundos antes de mover-se de perto
da porta para ver a criatura estranha que o marido lhe exibia. Uma menina
de pele branca como o linho! E com cabelinhos dourados!
-
Epher, marido meu, de onde veio tal criança? É mesmo humana?
O
espanto de Mahkret era visível. Com uma mão trêmula, tocou as perninhas
da menina, confirmando que elas eram quentes e macias, como as de qualquer
bebê. Epher e Diankós quedaram-se mudos, observando suas reações com
a respiração suspensa. O menino, um tanto incomodado, puxou pelas saias
de Epher, o olhar apreensivo pelo que poderia ocorrer à sua menina dourada.
Compreendendo, Epher puxou-o delicadamente à frente para que Mahkret
o visse, e perguntou enfim à esposa:
-
Que me dizes, doce Mahkret? É um presente digno de ti?
Mahkret,
a boca aberta de espanto, desviou finalmente o olhar do berço. Só então
lembrou-se do menino, que a olhava com grandes olhos negros assustados.
-
É um presente? Então é um presente divino! E foi este menino quem o
trouxe, meu esposo? Seria ele por acaso um enviado dos deuses?
-
Quase isso, Mahkret querida, quase isso! - alegrou-se Epher, vendo que
pelo menos a esposa não tinha uma crise nervosa, como costumava fazer
diante das crianças dos vizinhos, ao lembrar-se da perda de seus tão
desejados filhos - Então gostas dela? Agradece pois ao pequeno, pois
foi ele quem a encontrou e salvou!
Lançando
um último olhar maravilhado ao berço, Mahkret aproximou-se do menino
e tomou-lhe das mãozinhas o papiro dos oráculos. Depositando o rolo
ao lado do berço para ler depois, acreditando que era a tradicional
mensagem que acompanhava os presentes especiais, Mahkret voltou a ajoelhar-se
diante do menino.
-
Pois bem, pequeno mensageiro dos deuses, agradeço-te pela maravilha
que hoje chegou a esta casa por tuas mãos! Que os deuses que te enviam
saibam que tua missão está gloriosamente cumprida, e cubram-se de alegrias
por ti! Mas dize-me, como te chamas? De onde trouxeste esta pequena
criança?
O
menino lançou um olhar suplicante a Epher, pedindo ajuda para explicar-se.
Prático, Diankós fez um aceno a uma das criadas para que trouxesse logo
o leite, a fim de acalmar o berreiro da menina, enquanto Epher ajoelhava-se
ao lado da esposa e tomava-lhe as mãos.
-
Este menino, Mahkret de meu coração, eu comprei-o agora há pouco, de
um oleiro que pretendia atirá-lo aos crocodilos... - Mahkret soltou
um pequeno grito de horror. Epher sabia como a esposa temia os crocodilos
- Acalma-te, mulher, que eu jamais permitiria tal coisa! Pois bem, o
oleiro não queria mais este pequeno órfão, e para salvá-lo eu o comprei
para ti! É ou não é uma bela criança, este menino?
-
Sim, ele é lindo, Epher! - Mahkret desviou o olhar do marido e voltou
a encarar o menino, agora com um misto de piedade e carinho - Parece
até contigo, quando eras mais jovem... Lembro-me que muitas vezes te
vi passar nas procissões, quando eras ainda aprendiz no templo! Eu te
amava então como agora... Eu te vejo nomamente criança aqui, neste menino!
E pensar que o queriam morto! Uma criança tão saudável, enquanto nós...
Nós não... Eu não posso dar-te um filho sequer, meu Epher, meu marido!
Mahkret
começou a chorar baixinho, cobrindo o rosto com as mãos. O menino não
pensou duas vezes e imediatamente enlaçou-a com os bracinhos magros,
diante do olhar surpreso de Epher.
-
Não chore, senhora! - disse o menino baixinho - A senhora é bonita e
jovem! Teu marido é bom, ele me salvou e me ajudou! A senhora é feliz!
Mais feliz que eu! Eu sou órfão várias vezes, não tenho ninguém além
da minha gata e da minha menina dourada, mas eu te darei elas, para
que a senhora não chore mais!
Uma
lágrima escapou dos olhinhos negros do menino, e Epher começou a chorar
também. Diankós correu da sala, sem poder mais conter-se, e foi preparar
ele mesmo as poções sagradas, para que não o vissem desabar em lágrimas.
Mahkret abraçou o menino, comovida com suas palavras, e olhou para Epher
com um amor enorme, uma gratidão desmedida que não cabia-lhe no peito.
Então Epher, seu marido, lhe trouxera as crianças para alegrá-la, eram
um presente para consolá-la de sua tristeza fatal! Que os deuses abençoassem
seu marido pela eternidade!
Epher
não cabia em si de felicidade, vendo que Mahkret recebia bem o menino.
Temera tanto pela reação da esposa que a cabeça lhe doía no caminho
para casa, espremendo as idéias para encontrar uma forma de entregar-lhe
as crianças sem ofendê-la num momento tão triste de sua vida! Mas os
deuses com certeza iluminavam seus passos, pois tudo saía perfeitamente,
e Mahkret estava feliz!
-
Dize, esposa minha, fiz então bem em trazer-te os pequenos? - perguntou
Epher, enxugando as lágrimas e oferecendo as mãos para que Mahkret levantasse
- Eles precisam de um lar, tu acreditas que aqui eles possam ficar em
paz?
-
Sim, Epher, abençoado sejas! - Mahkret levantou-se e passou uma mão
pelos longos cabelos negros do marido. De repente ele lhe parecia ainda
mais belo do que quando o desposou - Se os deuses puseram estas crianças
em teus braços para que os salvasses, quem sou eu para rejeitar uma
tal dádiva divina? Eles aqui ficarão, e eu os tratarei como presentes,
como jóias, as mais belas jóias que me deste! Tens certeza de que posso
mesmo ficar com eles?
O
coração de Mahkret parecia que lhe saltaria da boca, ao pensar em perder
as crianças. Epher sorriu largamente, vendo como fora fácil para a esposa
apegar-se aos pequenos estranhos. Talvez o nervosismo de Mahkret diante
de outras crianças fosse porque não poderia tê-las para si, mas estes
pequenos... Estes, ninguém queria mais do que ela! Mahkret estava como
uma menina que acabava de ganhar uma linda boneca nova, depois de meses
cobiçando as bonecas das amigas.
-
Sim, Mahkret, cuida dos pequenos, eles são teus! - Epher respondeu finalmente,
tranquilizando-a - Precisamos banhá-los e purificá-los, pois este nosso
herói aqui nos trouxe também uma gata sarnenta e sua cria, e temo que
estejamos já todos contaminados!
-
Não te preocupes! - gritou Diankós dos fundos da casa. Mesmo fora da
sala, não pode deixar de ouvir o que se passava - Já aprontei as pomadas
e as infusões, está tudo quase em ordem! Mas manda que dêem logo o leite
à pequena, Epher, ou ela arrebentará de tanto gritar! Por acaso nesta
casa são todos surdos, para que não a escutem chorar?
Mais
do que depressa Mahkret correu a pegar a menina do berço, aninhando-a
em seu colo, tentando acalmá-la com o calor de seu corpo. Vendo o olhar
comprido de ciúmes que o menino lhe lançava, Mahkret chamou-o para si
também:
-
Venha cá e dize-me, pequeno mensageiro, se estou a segurar direito o
presente que me trouxeste!
-
Está, senhora! - respondeu o menino, sem disfarçar um certo orgulho
- Ela é branca, mas acho que deve ser como qualquer bebê, então pode
segurá-la assim, que é como vejo as mulheres segurarem seus filhos.
Deve ser gostoso... Ela até está parando de chorar!
Mahkret
e Epher trocaram um olhar dolorido. Certamente o pequeno jamais conheceu
o colo de uma mãe de verdade, nem nunca teve alguém que o amasse em
toda a sua curta vidinha. Uma das criadas finalmente trouxe um pouco
de leite de cabra, que uma vizinha cedeu em troca das novidades que
se passavam na casa de Epher. Sentando-se a uma poltrona, Mahkret deu-o
logo à menina, que sorveu tudo com gulodice. O menino aproximou-se e
ficou a olhá-las, encantado. Epher dispensou a criada para que preparasse
alguma refeição, estava há tempos sem comer. Diankós gritou novamente,
avisando que os remédios estavam prontos, e Epher foi ajudá-lo a lidar
com os gatos, os primeiros a ser limpos e tratados.
Depois
foi a vez dos dois sacerdotes, que levaram o pequeno para banhar-se
com eles, fazendo algazarra com se ali houvesse três crianças e não
uma. Mahkret ralhou com todos, pois as criadas queixavam-se da bagunça
e a pequena havia adormecido finalmente em seu bercinho. Uma das criadas
correu à casa de Diankós, levando recados para sossegar sua esposa e
pedindo uma roupa limpa, a fim de que o sacerdote pudesse voltar dignamente
para seu lar. Epher ainda insistiu para que o amigo dividisse um prato
de comida em sua casa, mas Diankós começava a preocupar-se com a reação
da mulher, que certamente o esperava ansiosa, para saber de sua própria
boca se eram verdadeiras todas as maravilhas que deveriam ter-lhe contado.
Diankós
despediu-se dos amigos com carinho, pois a felicidade de Epher era a
sua própria. Os dois conheciam-se há muitos anos da escola de escribas
do templo, e Diankós sempre foi o menor e mais espoleta dos dois. Epher,
alguns anos mais velho, não resistia às traquinagens alegres e inocentes
de Diankós, e os dois tornaram-se mesmo quase irmãos, inseparáveis.
Epher mandou que uma criada o acompanhasse levando uma jarra de cerveja
e tâmaras secas, para que a esposa de Diankós não ficasse tão ofendida
com sua demora, e despediu-se do amigo com muitos abraços e bênçãos.
Só
quando viu Diankós virar a esquina foi que Epher entrou novamente, para
ajudar Mahkret em sua própria higiene. Mahkret limpou então cuidadosamente
a menina, que voltava a agitar-se, e Epher pode finalmente contar-lhe
sobre as palavras dos oráculos, enquanto dividiam a refeição com o menino.
O pequeno comia com voracidade, os olhos negros arregalando-se cada
vez mais ao ver quanta comida havia naquela casa. Epher e Mahkret olhavam-no
com uma mistura de orgulho e pena, percebendo que o infeliz talvez nunca
houvesse provado sequer metade do que se punha agora diante dele à mesa.
Foi então que uma pergunta prática voltou a assaltar Mahkret:
-
Esposo de meu coração, por acaso sabes o nome deste menino? E da menina?
Tu bem sabes que eles precisam ser nomeados, para que os deuses os soprem
com seus hálitos benfazejos (2)!
Epher
franziu a testa e o pequeno ficou a olhar de um para outro, mastigando
infinitamente um pedaço de pão, à espera da resposta. Ele nunca teve
um nome, cada um chamava-o como queria, ou simplesmente diziam "filho
de um", "filho adotivo de outro", e isso na mais educada das hipóteses.
Para que serviria um nome afinal, se nem uma família ele tinha antes?
-
Vou amanhã consultar os oráculos sobre este assunto, pois ainda não
pensei nisso. - disse Epher - Que dizes disso, meu pequeno?
O
menino engoliu finalmente o pão e, limpando as mãozinhas na saia improvisada
que Mahkret lhe vestiu, saiu de sua almofada e aproximou-se de Epher
com o olhar baixo. Tomando a mão enorme do sacerdote nas suas, falou
finalmente:
-
Eu não tenho nome, ou pelo menos não sei o nome que tenho. Não me lembro
se já tive um nome antes. Será que posso então ser chamado só de seu
filho? Acho bonito, filho de Epher... Filho de Mahkret...
Mahkret
não conteve um soluço e puxou o menino para seu colo, abraçando-o com
força.
-
Meu marido, como pode uma criança dessas ter uma vida tão desgraçada?
Tu o ouviste tão bem quanto eu! Nós rezamos tanto por um único filho
sequer, e outras mães abandonam os seus para que as feras os devorem!
Fizeste muito bem em trazê-los para casa, Epher de minha alma, e com
certeza foram os deuses que guiaram teus passos! Vai amanhã sem falta
ao templo e pede um nome para nossas crianças! - alisando os cabelos
negros do menino, Mahkret limpou as lágrimas e levantou-lhe o rostinho
magro para olhá-lo nos olhos - Sim, pequeno, qualquer que seja o nome
que os deuses te enviarem, a partir de hoje para mim tu serás meu filho,
um filho tão querido como o de minha carne! Tu gostas?
O
menino apertou-se com todas as forças contra Mahkret, como se quisesse
enterrar-se em seu corpo, e pôs-se a chorar mansinho. A esta altura
Epher chorava também, e podia-se ouvir até os soluços das criadas, que
com certeza estavam a escutar tudo por trás da porta. Epher não incomodou-se
com a bisbilhotice das duas, o que lhe interessava era a alegria imensa
que via no semblante de Mahkret. Sua esposa querida voltava a florescer,
e era toda a felicidade que podia desejar!
Subitamente,
Mahkret assustou-se, e o menino também deu um pulo em seu colo. Ao afastar
seu rosto, viu com surpresa uma mancha de umidade nas vestes de Mahkret,
maior do que suas lágrimas poderiam ter causado. Mahkret levou as mãos
aos seios, sem acreditar no que sentia, e Epher preocupou-se.
-
A senhora está molhada, fui eu, desculpe! - choramingou o menino, passando
a mãozinha pelo vestido molhado - A senhora está vazando... Eu não queria
machucar...
Epher
correu a olhar o vestido da esposa, mas Mahkret começou a rir e chorar
ao mesmo tempo:
-
Os deuses me concedem uma última benção, Epher! É leite que brota de
meus seios! Leite!
O
menino esfregou os olhos, sem entender. Epher não podia acreditar. Mahkret
perdeu o filho há sete dias, e agora tinha leite em seus seios! De outras
vezes ela chegou a ter realmente os seios cheios, enquanto esperava
pelos filhos que não nasciam, mas seu peito secava logo que perdia as
crianças, e ela nunca derramou sequer uma gota de leite!
-
Manda trazer a menina, Epher! Manda que a tragam, pois terei leite meu
para dar-lhe! Meu leite! Acreditas nisso?
Mahkret
não cabia em si, apertando novamente o menino contra o peito e sorrindo
para o marido por entre as lágrimas. Uma das criadas apareceu imediatamente
com a menina nos braços, antes mesmo que a chamassem, ansiosa para ver
o milagre de Mahkret amamentar pela primeira vez. Mahkret afastou rapidamente
as vestes e aconchegou a pequena ao seio, enquanto Epher, mudo de espanto,
puxava o menino para seu colo e esperava.
A
menina protestou, acordando assim de repente, e ensaiou alguns gemidos.
Mahkret ofereceu-lhe o bico do seio, de onde pequenas gotas brancas
escorriam. Sentindo o cheiro do alimento, a menina logo aquietou-se
e agarrou-se ao peito de Mahkret como uma sanguessuga faminta. O menino
escorregou do colo de Epher para ver aquilo mais de perto.
-
Eu lembro que já tomei leite assim também... - disse, apontando para
a menina - Já faz tempo, e acho que mais de uma mulher me deu leite
desse jeito. Eu lembro que era bom e quentinho! Ela deve gostar, pois
eu gostava!
A
menina pareceu entender, pois agitou as perninhas, feliz. Mahkret parecia
que irradiava luz, de tão satisfeita. Epher jamais se recordava de tê-la
visto tão bela! Suas faces estavam novamente coradas, e seus olhos brilhavam
como se Rá os tivesse possuído. Que milagre divino! Em poucas horas,
o luto da família de Epher transformava-se num oceano de alegria, um
oceano que inundava-os todos! Epher rezou fervorosamente para que sua
felicidade mantivesse-se assim, perfeita, por toda a eternidade, ou
por mais tempo ainda...
*************
Notas
explicativas:
1
- Os egípcios antigos acreditavam que, após a morte terrena, a alma
eterna precisava passar por um julgamento entre os deuses antes de poder
habitar seu outro corpo no Reino de Osíris. Neste julgamento eram levadas
em conta as boas ações do morto, favorecendo-o.
2
- A religião egípcia dizia que qualquer coisa só passaria a existir no
mundo após receber um nome, uma palavra de identificação. Assim, crianças
sem nome eram consideradas inexistentes e não tinham proteção divina ou
amparo legal.
