Mediterrâneo - 2264 a.C.
O
dia seguinte foi uma catástrofe generalizada, com todos de ressaca.
Akh acordou péssima, reclamando de tudo, enquanto Heka nem sequer abria
a boca, de tanta dor de cabeça, e foi para o depósito sem fazer a barba,
com a cara amarrada e um péssimo humor. Akh sentiu-se um pouco melhor
após um banho, mas foi incapaz de comer e dormiu novamente, só acordando
quando ele voltou para almoçar, e à tarde decidiu acompanhar o irmão
ao trabalho, para aprender como ele negociava.
No
depósito, Heka sentou-se a uma mesa para redigir algumas cartas e encarregou
a irmã de conferir as peças de linho que estavam num canto. Aproveitando
que ele estava para poucas palavras, Akh fuçou tudo o mais que pode
e revirou as anotações dos últimos negócios. O armazém não estava tão
cheio, pois a maior parte da carga já havia sido despachada, mas o que
sobrou era da melhor qualidade - vasos em faiança, linho, pedras de
ametista e lápis-lázuli do Egito, estátuas em mármore e conchas raras
da Troada (1), contas de vidro e pérolas asiáticas, jóias em ouro e
esculturas em marfim do Nehesiu, pedras de obsidiana e espadas e escudos
incrustrados com pedrarias do norte do mar Egeu, pratarias das ilhas
Cíclades, vasilhas em estanho da Sicília, cedro de Sidon, sândalo de
Tiro, âmbar do Báltico, lã cretense, tapetes ágades, ornamentos hebraicos
(2). A lista parecia nunca acabar, e Akh estava deslumbrada com o que
via. Seu irmão não negociava com objetos comuns, tudo ali valia uma
fortuna e com certeza era arriscado transportar cargas tão valiosas.
Os piratas decerto estavam de olho nos negócios de Heka Ma'At. Se ele
realmente nunca foi roubado, como dizia, ou era por excesso de sorte
ou por algum motivo bastante estranho.
-
Meu irmão, preciso perguntar-te algo muito sério! - arriscou Akh - E
por favor não inventes histórias para mim!
Heka
levantou a cabeça das cartas com surpresa. Havia quase esquecido a presença
dela, de tão concentrado que estava.
-
Tu sabes que nunca minto para ti! - resmungou ele - Tu me conheces,
não tenho como enganar-te!
-
Pois então como conseguiste trasportar tantas coisas de valor por todos
estes anos em teu navio, sem escoltas e sem soldados contigo? - Akh
disparou - Como escapaste de piratas até agora? Por que tu és um dos
poucos que arriscam-se e conseguem tal coisa? E não venhas dizer-me
que tiveste sorte ou que és Imortal, pois tua tripulação não é como
nós e sei que não exporias a vida de teus homens à toa!
Heka
permaneceu em silêncio por alguns minutos, a cabeça doía-lhe terrivelmente.
Entretanto Akh não moveu-se, esperando pelas respostas. Finalmente Heka
começou, num tom aborrecido:
-
Quando eu ainda trabalhava para meu antigo patrão, levamos uma grande
carga de ouro e marfim do Egito sem escolta, achando que assim não chamaríamos
a atenção, mas fomos atacados pouco antes de chegar a Rodes. O navio
estava pesado demais para fugir, fomos abordados e lutamos como pudemos,
porém os piratas eram muitos e logo nos venceram. Levei uma flechada
no braço, arranquei a flecha sem pensar e um dos piratas gritou quando
viu a ferida fechar-se de repente...
Akh
suspirou, irritada. Heka fingiu não perceber e prosseguiu, sem encará-la.
-
Todos ficaram assustados, disseram que eu era um demônio. Um deles avançou
com uma faca, tentando me matar. Rolamos no chão e ele cortou-me duas
vezes. Todos viram os cortes fechando, desta vez não pude evitar! O
chefe dos piratas mandou apartar a briga e levaram-me para o barco deles.
Esse capitão ficou a sós comigo, querendo saber como eu fazia aquilo.
Inventei que os deuses me protegiam e que ninguém poderia me matar,
pois eu sempre acordaria para me vingar. Falei que ele poderia ser amaldiçoado
pela eternidade e roguei tamanha praga que o homem tremeu!
Heka
levantou-se e ficou de costas para a irmã enquanto falava, fingindo
conferir o conteúdo de um pequeno cofre de marfim sobre a mesa.
-
Vendo que ele estava com medo, eu propus dar-lhe um bom dinheiro se
ele me deixasse partir, jurando que nunca o enfrentaria nem a nenhum
de seus homens ou descendentes, desde que ele jamais ousasse atacar-me
novamente ou roubar os navios em que eu estivesse. Ele pediu então que
eu lhe enviasse todos os anos um presente em ouro para provar que eu
ainda estava vivo, junto com cartas comunicando meus projetos de viagem
e quem eram meus protegidos, para que ele evitasse cruzar meu caminho.
Seria um acordo secreto nosso, e o símbolo que eu deveria colocar nas
cartas seria um Oroborus com uma espada no centro (3). Isso ocultaria
meu nome, e ele usaria o mesmo símbolo caso precisasse avisar-me de
algo. Aceitei e ele soltou-me, mandando que seus homens libertassem
nosso navio sem roubar nada. Até hoje mantivemos nosso acordo!
Voltando-se
de onde estava, Heka mostrou à irmã um anel de ouro, encrustado com
uma enorme ametista esculpida com o símbolo da serpente enrolada ao
redor de uma espada.
-
Uso este sinete para marcar as cartas e presentes que envio anualmente,
há quase noventa anos!
Akh
ficou boquiaberta. Noventa anos!
-
Mas isso é tempo demais! - exlamou - Ele já deve estar morto!
-
Mas seus herdeiros ainda são piratas, e são leais à promessa dele! -
afirmou Heka - Na época eu não sabia, mas aquele homem era uma espécie
de líder dos piratas! Parece que eles vivem fazendo acordos de proteção
entre si. Ele espalhou sobre nosso trato e todos respeitaram seu desejo.
Ouvi dizer que aquele que violar essa lei será morto pelos outros...
Não sei se é verdade, porém nunca mais fui roubado. Algumas vezes tentaram
atacar meu navio, mas basta eu mandar exibir uma bandeira com este desenho
ou apresentar este anel e todos fogem. Talvez eles pensem que passei
a promessa a meus descendentes, talvez saibam que ainda estou vivo...
Tanto faz, contanto que me deixem em paz!
-
Na verdade, tu pagas um pedágio por teu sossego! - Akh suspirou - Tu
mandas o ouro e eles deixam-te viajar para onde quiseres! Estás comprando
tua fortuna com subornos!
-
Basta olhar em volta para saber que pago muito pouco! - Heka sorriu
com ironia - Para eles, valeria muito mais roubar minhas cargas do que
satisfazer-se com o que envio! O que eu pago em ouro num ano, às vezes
consigo recuperar em uma semana! Acredito que esses homens tenham, em
seu jeito torto, almas honradas...
-
Alguém mais sabe desse teu acordo?
-
Menoren desconfia, pois já estava comigo no navio de meu patrão quando
tentaram roubar-nos outra vez. Mostrei este anel ao chefe desses piratas
e ele nos deixou seguir viagem. Meu patrão sempre tentou descobrir qual
era meu segredo, mas nunca contei... Enfim, comprei meu primeiro barco
e levei Menoren comigo! Ele não faz perguntas, porém acho que sabe muito
mais do que parece!
-
Agora tudo se encaixa! - Akh sentou-se pesadamente sobre um baú - Tu
prosperaste porque podes transportar as cargas mais valiosas sem medo,
não tens concorrentes e assim vendes tudo pelo preço que quiseres...
Mesmo que isso signifique ter acordos secretos com piratas!
Heka
aproximou-se e ajoelhou-se diante dela, o rosto demonstrando seu constrangimento.
-
Estás decepcionada comigo? - perguntou num fio de voz.
Encarando
o irmão, Akh viu o quanto ele sentia-se culpado por usar tais táticas
e não teve coragem de censurá-lo. Ela também um dia lutou pela própria
vida nas mãos de bandidos e sabia que, mesmo sendo Imortal, talvez fizesse
o mesmo que Heka se tivesse a chance. Puxando-o para si num abraço apertado,
cobriu-o de beijos ternos. Os dois permaneceram um tempo em silêncio,
dividindo a cumplicidade daquele momento, até que Heka decidiu que era
hora de voltar para casa. Guardando novamente o anel no cofre, enfiou
na mão da irmã uma pequena sacolinha de couro. Akh viu com espanto que
ela estava repleta de pérolas perfeitas.
-
Disseram-me que as pérolas já foram pequenos grãos de areia! - explicou
Heka com um sorriso tímido - Os grãos entram nas ostras e elas não conseguem
expulsá-los. Para não se machucarem, as ostras então recobrem os grãos
com sua seiva, transformando-os com o tempo em pérolas lisinhas... Assim,
um grãozinho irritante, indesejável e feio vira uma linda e cobiçada
jóia!
Akh
pensou por alguns instantes no significado daquilo e sorriu, compreendendo
o que o irmão queria dizer.
-
Temos tempo para transformar tudo em pérolas nesta vida! - falou, cobrindo-o
novamente de beijos - E tu podes irritar-me o quanto quiseres, pois
já és minha jóia mais rara!
Disfarçando
a ternura quando passaram pelos guardas na saída, os dois voltaram para
casa com as almas mais leves.
*************
Nos
dias seguintes, Heka permitiu que Akh e Rukhai acompanhassem-no ao depósito
sempre que desejassem. Deixava-as remexer a carga à vontade, desde que
não quebrassem nada. Decididamente Rukhai fazia bem a Akh, e Heka percebia
como a irmã estava mais alegre desde as últimas conversas que tiveram.
Quando achava conveniente, Heka separava algo que percebia tê-las agradado
para presenteá-las mais tarde. Se fosse apenas por Akh, teria dado a
ela a própria chave do depósito inteiro, porém preocupava-se com a impressão
que Rukhai poderia ter. Não queria presentear a irmã sem dar à menina
ao menos um mimo, para não magoá-la, mas também não desejava que ela
obtivesse tudo muito fácil e ficasse mal acostumada.
Em
várias ocasiões as duas esconderam-se para ouvir discussões acaloradas
entre Heka e seus compradores. Akh percebeu que, mesmo às vezes fingindo-se
de derrotado e insatisfeito, seu irmão sempre conseguia enormes vantagens.
Em algumas negociações Heka recebia ouro ou prata como pagamento, em
peças (4) ou em jóias, e em outras recebia cargas de produtos cretenses
para vender no estrangeiro, multiplicando seu lucro. Em geral os comerciantes
vinham ao depósito acompanhados de um bando de carregadores para trazer
ou levar a mercadoria, num entra e sai agitado. Houve até uma vez em
que um legislador trouxe diversas cartas para que Heka as entregasse
a uma determinada pessoa, pagando uma fortuna para que o transporte
fosse feito em sigilo. Heka ia também com frequência ao porto, para
verificar o trabalho de manutenção de seu barco ou distribuir o pagamento
aos marinheiros. Todos o adulavam com um misto de temor e orgulho, pois
a maioria dos barcos usava escravos, mas Heka sempre preferiu trabalhar
com homens livres, e não raro tinha comprado escravos para depois libertá-los
e contratá-los por um salário justo. Na cidade era comentário corrente
que Heka tratava bem seus empregados, seu navio era seguro e era uma
sorte tê-lo como patrão.
Em
casa, não tiveram novos jantares com comerciantes nem tampouco bebedeiras
musicais, e Akh ficou dias sem poder sequer sentir cheiro de vinho novamente
sem enjoar. Menoren adorava as conversas com Akh e as brincadeiras de
Rukhai, confessando que a casa de Heka nunca fora tão alegre. Akh perguntou
discretamente ao ancião se Heka tinha alguma amante ou namorada na cidade,
pois desde que chegaram a Katsambas seu irmão nunca passou uma noite
sequer na rua.
-
Meu mestre anda comportado ultimamente! - comentou Menoren num sussurro
cheio de malícia - Ele teve algumas amigas em outras cidades, tudo coisa
passageira. Já insisti para que ele arrumasse uma boa esposa, mas ele
nem gosta de ouvir falar sobre isso! Por enquanto acho que ele não quer
saber de mulheres, há muitos anos tem estado sozinho!
Após
uma semana em Katsambas, Heka comunicou que partiriam dali a três dias
- já tinha mercadoria suficiente para encher o navio na viagem de volta
ao Egito. Para espanto de todos Rukhai pediu para ficar com Menoren,
a fim de ajudá-lo a cuidar da casa. Akh desconfiou que ela queria era
passar mais tempo vestida como mulher, como faziam sempre que estavam
à sós, e até achou melhor deixá-la sob os cuidados do ancião. Nos dias
seguintes Heka mandou embarcar a carga que havia separado e despachou
recados pela cidade, apressando os comerciantes que ainda tivessem encomendas
de última hora para fazer. Menoren ficaria encarregado de resolver os
negócios pendentes e de mandar mensageiros atrás de Heka, caso algo
exigisse sua volta.
Diversas
famílias de marinheiros foram ao porto despedir-se com votos de boa
sorte. Barcos de pesca acompanharam o navio de Heka por algum tempo,
acenando despedidas. Marinheiros de outros barcos de carga que chegavam
ou estavam ancorados nas proximidades gritavam para os amigos, fazendo
piadas e rindo. Como o navio de Heka era o maior e mais importante da
cidade, sempre que ele ancorava ou zarpava era dia de festa em Katsambas.
Quando
recolheram-se ao anoitecer, para jantar na cabine, Heka entregou à irmã
um anel de ouro com um sinete de ametista igual ao seu.
-
Guarda-o sempre contigo, para o caso de algo acontecer-me! - pediu ele
- Tu sabes para que isto serve. Guarda segredo sobre ele e só mostre-o
quando realmente for necessário. Mesmo sem piratas, o mar é perigoso!
Sinto-me mais tranquilo sabendo que tu conheces meu segredo e poderás
usá-lo em teu benefício!
Akh
escondeu o anel num pequeno trapo de pano, que costurou como se fosse
um amuleto e amarrou ao pescoço. Já estava acostumada às roupas de homem
e até conhecia um pouco do trabalho no navio, mas Heka pediu-lhe que
evitasse o serviço braçal. Quando ela reclamava da falta do que fazer,
ele incumbia-a de preparar as refeições, arrumar a cabine, costurar
suas roupas, anotar o percurso da viagem num diário de papiro, enrolar
cordames... O suficiente para mantê-la ocupada e distraída.
A
viagem ao largo da ilha, mantendo sempre o litoral à vista, foi tranquila
e sem problemas. Quando viraram para o sul, em direção à costa do Egito,
o tempo mudou e enfrentaram um mar revolto, açoitado por ventos e chuva
fina. Mesmo já acostumada ao balanço do navio, Akh enjoou bastante.
Ao terceiro dia a tempestade piorou, a chuva ficou mais forte e os marinheiros
tiveram trabalho para manter o barco no rumo, usando os remos para equilibrar
a pesada embarcação. A vela foi baixada para não ser arrancada pelo
vento, deixando-os por quase dois dias praticamente sem avançar. De
repente a chuva parou, em poucas horas o horizonte já estava completamente
limpo e o resto da viagem foi feito sem novidades.
Akh
sentiu-se profundamente agradecida aos deuses ao finalmente desembarcar
em Kanopus (5), na costa do Egito. A vila não era muito atraente ou
desenvolvida, mas para Akh foi como voltar ao passado - o som de sua
língua natal e os perfumes que sentiu encheram-na de alegria. Heka permaneceu
por apenas dois dias na cidade, dando uma folga a seus homens e entregando
algumas correspondências. De lá partiram para uma das ramificações do
Nilo, a nordeste, a fim de descer pelo rio até Saís (6), onde Heka mantinha
contatos mais importantes. A descida contra a correnteza demorou vários
dias e Akh passava horas só olhando a paisagem, relembrando tudo o que
o Egito havia lhe dado em séculos de existência. Em breve ela iria decepcionar-se
com os novos costumes e as mudanças sociais no reino onde nascera, contudo
aqueles primeiros dias foram-lhe de uma enorme nostalgia.
Sua
grande surpresa foi descobrir que, em Saís, Imhotep estava sendo cultuado
como uma divindade. Pensando que talvez ela sofresse ao descobrir o
fato, Heka jamais mencionou o assunto. Só que por coincidência Akh ouviu
um marinheiro egípcio agradecendo ao "divino Imhotep" pelo atendimento
do médico que tinha curado-o de uma doença na pele. O nome atiçou imediatamente
a curiosidade de Akh e, pedindo informações aqui e ali, ela descobriu
um pequeno templo em homenagem ao falecido marido, que era venerado
como protetor dos médicos e construtores. Poucas pessoas frequentavam
a capela simples, aparentemente seu maior centro de culto era em Mênfis
(7), porém alguns habitantes de lá tinham se mudado para Saís, trazendo
uma estátua de Imhotep.
-
Não acredito como tu pudeste ocultar isso de mim! - esperneou ela ao
voltar para o barco, onde o irmão supervisionava o desembarque de algumas
caixas - Há até um templo em homenagem a ele!
-
Não contei-te para não trazer-te lembranças tristes! - resmungou Heka,
andando de um lado para outro na cabine - Vi esse templo por acaso há
alguns anos e nem imaginei do que tratava-se! Quando me contaram, voltei
lá para conferir, e confesso que detestei a idéia!
-
E pensar que ele estudou medicina aqui mesmo... - Akh não acreditava
na ironia do destino. Seu marido tão amado, de quem sentia tanta falta,
era agora adorado como um deus, sem que sequer soubessem que ele morreu
séculos depois do que imaginava-se! Era um deus menor, de pouca importância
em comparação a milhares de outros que eram cultuados por todo o Egito,
mas era um deus, com direito a templo e tudo!
-
Se pudesse eu teria comprado aquela estátua e mandado demolir aquele
templo! - Heka parou de repente em meio a seu caminhar agitado e fez
uma careta - E aquela estátua nem sequer parece-se com Imhotep! Viste
como o fizeram parecer baixinho e atarracado? Muito feio!
Akh
não resistiu ao ver a cara do irmão e desandou a rir. Se não tivesse
visto com os próprios olhos, jamais imaginaria que pudesse ser considerada
viúva de um deus. Se alguém lhe tivesse dito isso séculos atrás, teria
arranjado uma encrenca danada. Hoje, ela sentia-se parte de uma piada
de mau gosto. Decidiu voltar outro dia com calma ao templo e fazer oferendas
ao ex-marido, orando para que ele tivesse finalmente encontrado o caminho
para o Reino dos Mortos.
Heka
permaneceu uma semana em Saís, negociando sua carga. Nem tudo o que
trouxe foi vendido, pois uma parte seria entregue depois, em Mileto.
Quando enfim partiram pelo Nilo, rumo ao norte, Akh levava consigo uma
miniatura de poucos centímetros da estátua de Imhotep em pedra, que
pagou a um artesão para esculpir às pressas. Heka protestou até não
poder mais, mas Akh bateu o pé, dizendo que, mesmo feia e desproporcional,
a estátua era uma lembrança do marido que fazia questão de guardar.
*************
A
viagem pelo Nilo ocorreu sem incidentes e a travessia do mar aberto
teve novamente um pouco de chuva e vento, sem contudo passarem pelas
mesmas dificuldades da primeira viagem. Heka ordenou uma parada de dois
dias em Rodes para alguns reparos rápidos no barco, e dali para Mileto
foi uma questão de dias. Akh notou como o irmão ia ficando cada vez
mais ansioso por chegar e desconfiou que não era só a saudade de sua
segunda casa que o deixava assim. Com efeito, ao chegarem ao porto,
Heka deu ordens para que a carga fosse levada para o depósito que mantinha
na cidade, um prédio um pouco mais atraente do que o de Katsambas. Mal
viu a última caixa ser desembarcada, Heka chamou Akh e rumou com ela
para seu charmoso palacete de dois andares nas cercanias do mercado.
Akh
encantou-se com essa outra casa, de linhas mais sinuosas do que a de
Creta e cercada por um muro baixo. Com paredes cor de areia e lindos
arcos na entrada, o palacete ficava numa rua movimentada, quase ao centro
da cidade, e estava rodeado de casas maiores e mais luxuosas, indicando
que aquele era um bairro de ricos. A casa de Heka nem era tão grande,
mas tinha um belo jardim na frente e uma calçada de mosaicos levava
à porta de entrada.
Logo
ao chegar foram recebidos por uma bela jovem, e Akh imediatamente entendeu
por que Heka estava tão ansioso em desembarcar. Heka comentara que tinha
criados de confiança cuidando de sua propriedade em Mileto, mas Akh
imaginou que fosse algum ex-companheiro de trabalho do irmão, um homem
idoso como Menoren. Nunca pensou que pudesse tratar-se de uma mulher
tão bonita!
A
jovem recebeu-os com um sorriso tímido, vestida simples mas elegantemente,
trazendo uma bacia de prata com água perfumada e toalhas limpas para
que Heka pudesse se refrescar.
-
Recebi a notícia de vossa chegada logo que vosso navio ancorou no porto!
- disse ela, olhando vagamente por cima da cabeça de Akh - Preparei
um jantar que espero ser do vosso agrado! Gostariam de banhar-vos antes
de comer? Já levei água para os quartos, vossas bagagens estão lá também!
-
Está tudo perfeito como sempre, Nurit! - Heka beijou-a levemente na
testa após lavar o rosto e Akh percebeu que a moça parecia satisfeita
- Tomaremos nosso banho agora e dentro de uma hora podes servir-nos
o jantar! Tenho certeza de que tua comida continua maravilhosa!
Nurit
sorriu e voltou pelo mesmo corredor de onde Akh a tinha visto surgir
quando entraram. Logo um menino de cerca de seis anos entrou correndo
na sala, agarrando-se às pernas de Heka.
-
Tu voltaste! Tu voltaste! - gritava o menino - Trouxeste-me algum presente?
Para onde foste desta vez?
Heka
ajoelhou-se e tirou de dentro de uma sacolinha de linho um pequeno amuleto
egípcio de prata, amarrando-o ao pescoço do garoto. O menino abraçou-o
com força, beijando-o no rosto e dando pulos de alegria. Nurit surgiu
novamente, trazendo desta vez uma bandeja com uma jarra de fina porcelana
e duas taças de prata, que depositou sobre um aparador perto da porta.
-
Pyion, chega! - ralhou ela com o menino, servindo vinho nas taças sem
olhar para o lado - Nosso mestre acaba de chegar, está cansado! Depois
terás tempo para perguntares o que quiseres!
Sem
ter dito sequer uma palavra até então, Akh avançou para ajudar Nurit
com o vinho ao ver como ela segurava as taças muito junto à borda, como
temendo que caíssem. Antes que pudesse alcançá-la, Nurit virou-se com
a primeira taça na mão, oferecendo-a com um sorriso. O problema era
que Nurit estendia a taça para onde Akh estava antes, olhando para o
espaço, enquanto ela estava bem a seu lado, a apenas um passo de distância.
Akh estendeu a mão para a taça, agradecendo com um sorriso, e observou
como Nurit enchia a segunda taça da mesma maneira estranha. Desta vez
Nurit ofereceu-a para Heka, que avançou para apanhar o vinho, e Pyion
desapareceu correndo pelo corredor. Nurit voltou-se para onde Akh estava,
sorrindo para algum ponto acima da cabeça dela.
-
Espero que gostes de nossa cidade, senhor! - disse, tateando para encontrar
a jarra - Meu amo mostrará os aposentos da casa. Caso precises de algo,
basta chamar-me!
Desconcertada
em ser chamada de "senhor" apesar dos sujos trajes de marinheiro que
usava, Akh agradeceu com um aceno de cabeça e deu dois passos para o
lado do irmão. Num susto, viu como Nurit continuava sorrindo para o
mesmo lugar vazio, como se esperasse uma resposta do vento. Heka interveio
rapidamente:
-
Está tudo muito bem por hora, Nurit! - disse ele - Tu és sempre perfeita!
Obrigado!
Nurit
retirou-se novamente pelo corredor. De onde estava agora, Akh percebeu
como ela roçava levemente os dedos pela parede ao andar, carregando
a bandeja com uma mão só. Antes que pudesse sequer demonstrar o espanto,
Akh ouviu a voz de Heka logo atrás de si, num sussurro cheio de tristeza:
-
Nurit não enxerga, minha irmã! Ela nasceu completamente cega!
Akh
olhou para o irmão boquiaberta, sem saber o que dizer. Já tinha visto
cegos antes, a maioria pessoas idosas que perderam a visão em acidentes,
lutas ou mesmo pela idade. Alguns poucos que viu eram cegos de nascença,
mas todos tinham faces distorcidas por algum defeito. Nunca conhecera
uma pessoa cega que não demonstrasse sua deficiência através de outros
sinais físicos, como Nurit.
-
Sinto muito, Heka, eu não sabia! - sussurrou Akh, ao certificar-se que
a moça tinha desaparecido ao fundo do corredor - Nunca poderia sequer
imaginar! Os olhos dela parecem sadios!
-
E são sadios, apenas não podem enxergar! - Heka ficou olhando para o
vinho em sua taça - Ela não sofreu de nenhuma doença nem ficou assim
por acidente. Simplesmente nasceu desse jeito. Quando ela era um bebê,
ninguém imaginava que pudesse ser cega... Só aos poucos percebemos que
ela não via nada!
-
Percebemos? - Akh não deixou passar o deslize do irmão - Quem percebeu,
Heka Ma'At? Tu conheces Nurit desde que ela nasceu?
Heka
acenou positivamente com a cabeça, suspirando. Quando ele levantou o
olhar da taça e encarou-a brevemente antes de virar-se para uma das
janelas que davam para o jardim, Akh percebeu o brilho de lágrimas.
Heka suspirou novamente antes de falar
- O pai dela foi um dos primeiros a trabalhar para mim. Ele teve vários
filhos, todos bem mais velhos do que Nurit. Ela nasceu quando ele e
a esposa já estavam idosos. Nurit era tão cheia de vida, tão risonha,
que jamais imaginamos que ela pudesse ter algum problema! Fui várias
vezes à casa dele ver a pequena e aos poucos notamos como ela não piscava
sob o sol forte, nem seguia a luz de uma vela que passasse diante de
seu rosto... Foi muito triste descobrir isso!
Akh
aproximou-se do irmão, incentivando-o a continuar.
-
Chamei médicos e curandeiros, paguei fortunas para tentar curá-la, tudo
em vão! - a voz de Heka alternava-se entre a revolta e a tristeza -
A mãe morreu poucos anos depois, acho que de desgosto... Nurit foi criada
por uma irmã mais velha, eu mesmo sustentei-a! O pai dela morreu quando
ela tinha oito anos, durante uma viagem. Ele desmaiou e caiu ao mar,
afogou-se antes que alguém pudesse tentar salvá-lo! Acho que foi a idade,
o coração... Eu pedi que ele parasse de trabalhar quando ficou viúvo,
mas ele não quis! Acho que ver Nurit cega era demais para ele, por isso
ele preferia viajar...
Vendo
como a taça de vinho tremia na mão dele, as juntas dos dedos brancas
da força que Heka fazia contra o metal, Akh tirou-lhe a taça, temendo
que o irmão acabasse por esmagá-la.
-
Eu era como um segundo pai para ela, por isso trouxe-a para morar comigo
quando ela tinha uns catorze anos. Paguei seus estudos, dei-lhe o melhor
que podia... Mas eu também tinha meu navio, meus negócios em Katsambas...
Eu viajava muito! E aí Nurit conheceu Caulos, um rapaz de uma família
de mercadores, que contratei para tomar conta do meu depósito... Quando
vi, os dois já estavam namorando!
Num
acesso de fúria, Heka esmurrou repetidamente a coluna junto à janela,
encostando depois a cabeça contra a pedra fria. Akh não precisou fazer
força para entender: seu irmão tinha se apaixonado por Nurit, porém
o tal Caulos casou-se com ela e Pyion era filho deles.
-
Quando cheguei, depois de uns meses fora, vi que era tarde demais! -
prosseguiu Heka num tom sibilante, esforçando-se por manter o controle
- Os dois estavam fazendo planos para o casamento, na maior alegria,
e ainda vieram pedir meu consentimento, afinal Nurit era minha serviçal...
Serviçal! Eu sonhava transformá-la numa rainha! Eu poderia ter dado
a ela esta casa, minha fortuna, cobri-la de jóias, mas ela foi gostar
logo do filho de um reles vendedor de panelas, um rapaz que mal teria
onde morar se não fosse pelo emprego que lhe dei! Os dois me traíram!
Heka
encarou a irmã com olhos faiscantes, toda a violência de sua alma transparecendo
em seu semblante. Akh chegou a temê-lo, sentindo um frio no estômago
ao vê-lo tão transtornado. Nunca tinha visto o irmão com ciúmes desse
jeito! Como ele ainda conseguia conviver com Nurit e Pyion? E Caulos,
onde estava? Finalmente um soluço irrompeu pela garganta de Heka e ele
cobriu o rosto com as mãos, pedindo:
-
Perdoa-me! Isso não tem nada a ver contigo, são só coisas... Coisas
tristes que aconteceram... Perdão!
Akh
abraçou-o com força, sussurando palavras de consolo e temendo que Nurit
ou Pyion voltassem, mas por sorte ninguém veio até a sala. Heka balançou
a cabeça em assentimento ao que ela dizia, enxugando rapidamente o rosto.
Com alguns suspiros profundos, ele finalmente recobrou o controle sobre
si mesmo e indicou à irmã os quartos que Nurit havia preparado, no andar
superior. Preocupada, Akh acompanhou Heka ao quarto dele, ajudando-o
a despir-se para o banho. Em tão pouco tempo estava descobrindo tantas
coisas novas sobre a vida do irmão que chegava a duvidar que um dia
voltaria a conhecê-lo completamente, como antes. E o pior é que ele,
evidentemente, não era mais o mesmo, e seu espírito guardava dores demais,
talvez até maiores do que as dela.
Heka
relaxou ao entrar na água perfumada com óleos e essências, e chegou
a sorrir tristemente, comentando que Nurit sabia tudo o que ele gostava.
De repente, Heka agarrou uma das mãos da irmã, que derramava água em
suas costas, pedindo:
-
Akh, por favor, não deixe que ela saiba que eu contei tudo isso! Ela
nunca viu meu rosto e nem faz idéia que eu não envelheço! Para ela,
eu hoje sou um homem idoso...
-
E Caulos, onde está? - Akh forçou-se a perguntar, temendo pela resposta
- Ele ainda trabalha para ti?
Heka
voltou-se para a frente, olhando a água que escorria por seus cabelos
de volta para dentro da tina, esmaltada com motivos geométricos. Com
um suspiro, ele assentiu:
-
Ele deve estar no depósito, recebendo as mercadorias... Logo virá para
jantar conosco! Eu não tive outra escolha senão chamá-lo para morar
aqui, assim pelo menos Nurit continuaria trabalhando para mim!
-
Então ele sabe que tu não és tão velho como Nurit pensa! - exclamou
Akh com alívio, pois no fundo do coração tinha imaginado que o irmão
pudesse ter dado um fim em Caulos por causa da moça - Tu não tens medo
disso?
-
Ele acha que sou apenas saudável e conservado, pensa que tenho no mínimo
o dobro da idade dele! - Heka sorriu com sarcasmo - Eu agora invento
boas histórias, tu sabes! Digo que uso remédios exóticos para manter
a aparência sempre jovem e que passo tintas nos meus cabelos para esconder
os fios brancos... Eles sempre acreditam, são uns tolos! Já ouvi rumores
de que pago a uma sacerdotisa asiática para dar-me poções secretas,
essas idiotices! Eu nunca desminto e deixo pensarem o que quiserem,
não ligo... Pyion chama-me de avô!
Heka
de repente calou-se, mergulhando em pensamentos soturnos. Akh forçou-o
a terminar o banho e fazer a barba para recompor-se antes do jantar.
Só quando viu-o ocupado em vestir-se foi que ela correu ao próprio quarto
para finalmente banhar-se e arrumar-se, sem conseguir livrar-se das
imagens que a fúria e a dor do irmão tinham feito brotar em sua imaginação.
Sabia que Heka era genioso e agressivo, mas jamais perdeu o controle
por ciúmes de uma mulher, como havia feito há poucos instantes. Ao menos
era o que Akh supunha, afinal tinham passado tanto tempo separados e
ela nem sequer conheceu as três esposas dele... Como ele deveria estar
sofrendo esse tempo todo, insistindo em manter Nurit por perto, apesar
de tudo! Para que inventar tantas mentiras para esconder a idade? Seria
mais fácil ter ido embora de Mileto quando Nurit resolveu casar-se com
outro! Heka definitivamente não estava sendo racional, as emoções estavam
deixando-o irresponsável.
De
repente Akh lembrou-se de muitas coisas que Heka havia feito desde que
haviam se reencontrado, como quando ele chorou na primeira noite no
barco, pedindo perdão por tê-la deixado no Egito, ou quando caíram naquela
bebedeira memorável, após o jantar em Katsambas. Ou ainda quando ele
aceitou imediatamente tomar conta de Rukhai, mesmo sabendo que ela era
uma fugitiva, uma estranha que poderia vir a atrapalhá-lo no futuro.
Heka andava extremamente emotivo, porém só agora Akh via o quanto ele
estava perturbado. A paixão recolhida que ele parecia sentir por Nurit
provavelmente estava enlouquecendo-o há anos.
Akh
surpreendeu-se chorando enquanto olhava para suas roupas espalhadas
sobre a cama, pensando com ódio no dia em que deixara o irmão partir
pelo deserto, há mais de três séculos. Se tivesse forçado-o a ficar,
suas vidas poderiam talvez ter sido muito diferentes...
*************
Notas
explicativas:
1
- Troada, ou Tróade, era a região onde depois desenvolveu-se a famosa
cidade de Tróia.
2
- A extensa lista de mercadorias é plausível, pois descobertas arqueológicas
comprovam que todos estes produtos circulavam àquela época em caravanas
pelo interior dos continentes, sendo depois transportadas em navios
pelo Mar Mediterrâneo até locais muito distantes. O valor das mercadorias
variava com a distância que tinham viajado e a abundância em que pudessem
ser encontrados, como aliás é costume até hoje.
3
- O Oroborus, também chamado de Ouroborus, Ourobolus ou Orobolus, é
uma serpente engolindo ou vomitando a própria cauda. A figura é uma
das mais antigas e universais da antiguidade, sendo encontrada desde
os tempos mais remotos, em culturas tão diversas quanto distantes no
tempo e no espaço, tanto que não há como estabelecer sua data ou local
de origem. Há representações de Oroborus em figuras persas, maias, egípcias,
celtas, chinesas, nórdicas, gregas, medievais e hindus. Mesmo apresentando
muitas variações de formato (enrolado em oito, em círculo ou em oval)
ou de animal (serpentes com milhares de cabeças, homens com rabos ou
dragões alados), ou ainda sendo usado em conjunto com outros símbolos
místicos, o Oroborus sempre manteve um significado singular em todas
as culturas em que esteve presente: o infinito, a imortalidade, a eternidade,
o renascimento. Por conseguinte, era também associado à regeneração,
às fases lunares, à vida após a morte e também à totalidade universal,
com seus ciclos transformadores de destruição e reconstrução.
4
- Os metais que circulavam como forma de pagamento eram moldados em
diferentes pesos ou formatos, dependendo da região e da civilização,
podendo ser encontrados ainda em pepitas brutas ou até em pó. As moedas
propriamente ditas, cunhadas especificamente para servir como dinheiro,
surgiriam apenas mais tarde e, mesmo assim, não obedeceram a nenhum
padrão por séculos.
5
- Kanopus é a cidade também conhecida como Canopus ou Abu Qîr.
6
- Saís, ou Saïs, também é conhecida como Zau ou Sa el Hagar.
7
- Imhotep foi realmente venerado como deus e seu principal centro de culto
era em Mênfis.
