Saqqara, Baixo Egito - 2638 a 2630 a.C.
Após
a primeira noite, Imhotep tomou enorme amizade pelos outros dois Imortais.
Seu
mestre fora um andarilho, um homem de poucas palavras, fechado e seco.
Nem Imhotep sabia por que o outro havia poupado sua vida e perdido tempo
em ensiná-lo sobre sua Imortalidade. O fato foi que seu mestre nunca
revelou-lhe seu nome, quem era ou de onde vinha. Assim como surgiu,
desapareceu sem deixar pistas logo depois que decapitou outro Imortal
desconhecido, um beduíno sciasu do oriente (1).
Foi
com grande medo que Imhotep viu o Arrebatamento, quando o Kah do beduíno
passou para o corpo de seu mestre, e fugiu horrorizado. Ao voltar para
ver se o mestre estava bem, encontrou apenas suas pegadas na areia,
perdendo-se na direção das tribos sciasu, enquanto o corpo do beduíno
decapitado já estava sendo destroçado pelos chacais. Imhotep voltou
triste para casa, acreditando que o mestre voltaria para buscá-lo. Um
ano depois, desiludido, desistiu de esperar e resolveu prosseguir seu
caminho sozinho.
Aproveitou
sua longa vida para viajar, conhecer coisas novas e aprender tudo o
que podia. Ficou rico em expedições mineradoras ao Uauat e ao Kush (2),
bem ao sul, depois dobrou sua fortuna comerciando com os Lobu e as tribos
do Tenehu (3), a noroeste do delta do Nilo. Fez enorme sucesso ao codificar
por escrito um complicado calendário com datas precisas, e era ainda
um excelente médico e matemático (4).
Suas
capacidades levaram-no enfim ao palácio real, acabando por cair nas
graças do rei. Quando Netjerikhet Djoser decidiu construir sua tumba
no deserto a oeste de Mênfis, Imhotep foi encarregado de supervisionar
as obras, e aproveitou para apresentar ao rei algumas idéias arquitetônicas
que havia desenvolvido. Foi o bastante para que Djoser elevasse-o ao
cargo de arquiteto real e ministro, e Imhotep tornou-se o braço direito
do soberano.
Essas
e outras histórias Imhotep foi contando aos poucos ao casal de irmãos,
entre jantares e passeios que faziam juntos por Saqqara. Havia tanto
o que dizer, tanto o que perguntar e ensinar! Sentia-se bem ao lado
deles, eram pessoas com quem podia falar de sua vida. E sobretudo, eram
seus heróis de infância, criaturas que embalaram seus anos de inocência.
Pensava conhecê-los bem por tudo o que havia pesquisado de suas histórias
e agora via que, em carne e osso, eram mais interessantes do que imaginara.
Os
irmãos também apreciavam sua companhia. Imhotep era um homem inteligente,
viajado, falante e criativo. Faltava-lhe a paixão e a impetuosidade
dos irmãos, é claro, mas sobrava-lhe coragem e franqueza. Gostavam principalmente
da facilidade com que ele contava suas histórias, carregando-as com
as doses certas de emoção e humor, fazendo com que os três às vezes
dividissem gostosas gargalhadas. Imhotep aprendera a ver a vida com
uma malícia deliciosamente zombeteira, sem contudo ter-se tornado cínico.
Tinha uma mente aberta, rápida e prática, aliada a um enorme coração.
Também não era apaixonado pelo clero, pois sua infância triste ensinou-lhe
a verdade sobre a vida nos templos. A única coisa que parecia entediá-lo
profundamente era a bajulação dos subordinados - desprezava-os pela
subserviência calculada e pelos elogios desonestos. Sabia que não era
tudo o que diziam, conhecia as próprias limitações e, ainda que gostasse
de ser obedecido e exigisse respeito, a adulação soava-lhe como um insulto
a sua inteligência.
Talvez
fosse por isso que sentia-se à vontade ao lado dos outros dois. Eles
nunca o temeram, nem mesmo por ser um Imortal mais preparado do que
eles. Ao contrário, eram sinceros em suas opiniões, cobriam-no de perguntas
e não deixavam de criticá-lo, quando discordavam sobre alguma coisa.
Sem
perceber, os três puseram de lado a possível precaução com que deveriam
tratar-se. Afinal, se só poderia haver um, provavelmente chegaria o
dia em que teriam que enfrentar-se. Ao invés disso, uniram-se como se,
juntos, pudessem adiar a decisão ou, melhor ainda, evitá-la para sempre.
Os
três passaram a encontrar-se diariamente e, após alguns meses, Imhotep
achou por bem nomear Heka Ma'At como um de seus assistentes, a fim de
mantê-lo perto por mais tempo. Akh Kheper-Apet participava com eles
de algumas reuniões e vistorias às obras, agora em franco desenvolvimento.
Quando tinham tempo livre, Imhotep ensinava os irmãos a calcular, ler
e escrever em outros idiomas, e aprendia com eles a rústica medicina
do deserto, astronomia e magia.
Imhotep
confessou que nunca pensou que mulheres também poderiam ser Imortais,
até o dia em que cruzou com Heka na rua e encontrou Akh. Explicou também
seu desejo de tranformar a tumba real de Saqqara num símbolo da própria
Imortalidade, um monumento que durasse através dos séculos.
-
Homens comuns plantam árvores em seus quintais - costumava dizer - e
após algumas décadas seus netos colhem os frutos, admirados da previdência
dos avós. Pois eu quero que, daqui a muito tempo, todos olhem para Saqqara
com admiração ainda maior! Quero deixar monumentos que resistam a tudo,
como nós resistimos... Se não podemos dizer ao mundo quem somos, ao
menos semearei lembranças mudas de nossa existência!
Seu
projeto, coisa inédita, era construir mastabas sobrepostas, formando
uma gigantesca escadaria de pedra em direção ao céu - um símbolo de
todos os Imortais que ficariam pelo caminho, para que só um chegasse
ao topo. Akh e Heka admiravam a poesia de suas idéias.
-
Mesmo que eu morra antes do fim disso tudo - dizia, referindo-se ao
dia em que o último Imortal venceria - e meu nome desapareça nas areias
deste deserto, Saqqara permanecerá para lembrar aos mortais sobre coisas
que não viram, um passado que não viveram, povos que não conheceram.
Isso os fará pensar sobre suas próprias vidas, tão curtas, e quem sabe
os levará a aproveitá-las melhor...
Eram
essas e outras frases que tocavam o coração dos irmãos e, com o tempo,
mais ainda o coração de Akh. Às vezes Heka percebia como ela repetia
sem notar as palavras de Imhotep, ou ficava a olhá-lo com admiração.
A princípio sentiu um pouco de ciúme, mas logo reconheceu que Imhotep
era digno de respeito, e parou de implicar.
*************
Numa
tarde em que os dois homens decidiram tomar banho no canal junto ao
porto, para refrescar-se após um dia especialmente extenuante, duas
moças da casa da alegria pararam para olhá-los, trocando cochichos e
risadas maliciosas. Heka demorou a percebê-las e foi Imhotep quem viu,
com espanto, que era justamente para o distraído Imortal que elas olhavam
com insistência. Acostumado a frequentar a casa delas e a ser paparicado
por seu cargo, Imhotep ficou desconcertado. Em pé estava e em pé continuou,
completamente nu, tentando chamar a atenção.
As
duas o viram e acenaram com sorrisos convidativos. Só então Heka percebeu
para onde Imhotep olhava. Um tanto sem graça, afundou imediatamente
na água até o peito, e seu rosto cobriu-se de um vermelho intenso. Imhotep
percebeu mas não entendeu, afinal era mais do que normal para aquelas
moças ver homens nus, e elas mesmas por vezes tomavam banho ali. A nudez
nunca foi um tabu nas cidades ao longo do Nilo.
-
Qual o teu problema, Heka? - lascou Imhotep, uma pontada de inveja na
voz - Sei que tenho uma cara bem comum e não sou lá um exemplo de atleta,
mas nunca tive do que reclamar de minha capacidade como homem. Já andei
reparando e tu, mesmo sendo um belo rapaz, não me pareces ser melhor
do que eu em... Em certos aspectos de tua masculinidade! Diga-me lá,
qual é teu segredo com as mulheres, para que até as moças da alegria
fiquem assim assanhadas por tua causa?
Heka
ficou ainda mais ruborizado e fechou a cara, chegando ao cúmulo de dar
as costas às garotas, o que provocou novas risadinhas e cochichos. Colocando
comicamente as mãos na cintura, Imhotep encarou-o à espera de uma resposta.
Heka desviou o olhar e fingiu-se ocupado em desembaraçar as pontas dos
longos cabelos. Da margem, as moças gritaram convites para que Imhotep
fosse visitá-las mais tarde.
-
E leveis vosso amigo, senhor! - gracejou uma delas - Garanto-vos que
ele vai gostar de conhecer-nos!
Imhotep
demorou alguns segundos para entender a indireta. Ficou acenando para
as garotas que partiam e, de repente, parou com a mão em pleno ar. Virou-se
para Heka, ainda meio de costas, e ficou a olhá-lo com curiosidade.
-
Heka Ma'At de Abtu - perguntou lentamente -, há quanto tempo vives em
Saqqara?
Heka
logo sentiu, pela forma como o amigo chamava-o pelo nome, que havia
algo por trás da pergunta.
-
Há mais de cinco anos, tu o sabes! - respondeu, tentando fingir despreocupação
- Por quê?
Com
a mão no queixo, Imhotep tentou puxar pela memória e concluiu que não
podia haver erro.
-
Por acaso tu és... Virgem?! - disparou sem piedade.
Heka
desta vez conseguiu ficar ainda mais vermelho do que antes. Após uma
breve hesitação, balançou a cabeça em sinal afirmativo, sem coragem
de enfrentar o amigo com o olhar. Imhotep caiu numa gargalhada tão desenfreada
que chegou a engasgar.
-
Como podes?! - perguntou, sem conseguir conter-se - Tu tens mais de
três séculos e meio de idade! Tens dez vezes mais anos de existência
do que aparentas, e ainda és VIRGEM?!?
-
Isso, grita para todos ouvirem! - enfezou-se Heka, a cara fechada -
Agora Saqqara inteira sabe!
Com
um supremo esforço, Imhotep segurou enfim o riso. Acabou por sentir
uma certa pena do amigo.
-
Heka Ma'At, perdoa-me! - pediu num tom conciliatório - É que teu segredo
pegou-me de surpresa! Jamais imaginei... Na verdade fui um tolo, só
agora percebo que nunca mencionaste mulher nenhuma em tua vida além
de tua mãe e tua irmã, nem jamais li ou ouvi nada a respeito em Abtu!
Sinto muito por ter-te ofendido, irmão... Como conseguiste isso?
Heka
deu de ombros, sem saber o que responder. Sua infância fora dividida
entre o pai ocupado, a irmã pequena e as brigas constantes com os colegas.
Aos quinze anos, assumiu na marra um dos cargos mais importantes do
templo e sua vida transformou-se numa politicagem infernal. No deserto
acostumou-se a passar por marido da irmã, com medo de dividir seus segredos
com mais alguém em grupos onde a vida de todos era praticamente coletiva,
e aquelas mulheres simplórias e sofridas dos masciauash jamais despertaram-lhe
o mínimo interesse. Às vezes tinha seus fogos, mas o pânico de deitar-se
com uma mulher e descobrir que estava mesmo morto, como temia, suplantava
seu desejo. Só agora, em Saqqara, foi que viu-se realmente perturbado
pelos olhares e sorrisos de mulheres diferentes, lindas, cobertas com
belas roupas e penteados, emanando perfumes exóticos e falando em línguas
tão incompreensíveis quanto sedutoras. Algumas chegavam a provocar-lhe
comichões e sonhos confusos, fazendo-o transpirar mesmo sob a brisa
fresca da madrugada. Pensou mais de uma vez em aventurar-se na casa
da alegria e Akh inclusive fizera-o prometer por todos os deuses que
depois lhe contaria tudo nos mínimos detalhes, porém sempre algo o tirava
de seu caminho, como no dia em que cruzou com Imhotep na rua, ou quando
um pedreiro fraturou as duas pernas ao cair de uma escada e precisou
ser atendido com urgência.
Imhotep
ouviu as explicações do amigo, mas ainda assim não se conformou. Decidiu
tomar imediatamente um atitude e levá-lo no mesmo dia à casa da alegria.
Heka ainda tentou fugir inventando desculpas, sua incapacidade de mentir
denunciando-o a cada palavra.
-
Tu vais comigo nem que seja preciso amarrar-te! - sentenciou Imhotep
- Não é saudável para um homem passar muito tempo sem uma mulher, que
dizer de séculos! Vamos agora mesmo barbear-nos com esmero e perfumar-nos
com os óleos mais caros! Tu és meu convidado de honra!
Obviamente
todo aquele aparato não escapou à curiosidade de Akh e os dois confessaram
seus planos. Ela a princípio pulou de excitação pelo irmão, mas logo
demonstrou que o fato de Imhotep ir com ele a decepcionava.
-
Os dois vão divertir-se e eu ficarei sozinha aqui, morrendo de curiosidade!
- embirrou - Se houvesse uma casa da alegria para mulheres, eu também
queria ir! Quanta injustiça!
Quando
descobriu que Heka era virgem, Imhotep logo desconfiou que Akh também
deveria sê-lo. Agora, ouvindo-a falar sobre isso com tamanho despudor,
sentiu o sangue correr mais rápido. Como ela havia conseguido escapar
à sanha dos homens por tanto tempo, linda e passional como era?
Heka
percebeu o calor nos olhares que Imhotep dirigia a Akh e deu-lhe um
cutucão de advertência. Sua irmã não era como as mulheres que iriam
visitar, não permitiria que ninguém a ofendesse! Se Akh quisesse dormir
com alguém, que o fizesse por escolha própria e com consciência, não
pela influência maliciosa de um sedutor, mesmo que esse sedutor fosse
Imhotep!
*************
Os
dois voltaram tarde naquela noite, acordando Akh com gargalhadas e falando
em voz alta.
-
Vós estais bêbados! - indignou-se ela, vendo-os desabar abraçados sobre
as almofadas da sala. Heka começou a entoar uma canção erótica que havia
aprendido, e Imhotep acompanhou-o batucando num banquinho - Calai-vos,
ou os vizinhos reclamarão! Farei um chá para curar-vos e colocarei os
dois na cama agora!
Heka
calou-se com um soluço, o olhar embaçado pela bebida e um sorriso estúpido
na cara. Imhotep continuou batucando enquanto Akh esquentava água e
separava ervas na cozinha. Podia vê-la de onde estava, o cabelo solto
e desgrenhado, a camisola visivelmente vestida às pressas. Num lampejo
de lucidez, deduziu que ela deveria dormir nua, e sentiu que a desejava.
Disfarçou colocando uma almofada entre as pernas, e Heka recomeçou a
cantoria.
Akh
logo trouxe o chá e mandou-os beber o máximo que podiam. Heka ria e
dizia obscenidades, contando por alto tudo o que havia visto e feito.
Mais acostumado à bebida forte servida na casa da alegria, Imhotep permaneceu
quieto, olhando enquanto Akh obrigava o irmão a tomar o chá e dava-lhe
tapas para que falasse mais baixo. Logo as ervas fizeram efeito e tiveram
que arrastar Heka para o quintal, onde ele vomitou até quase perder
a consciência. Akh forçou-lhe uma colherada de mel pela goela, despiu-o
e lavou-o com toalhas úmidas, colocando-o depois na cama com a ajuda
de Imhotep.
Heka
logo mergulhou no sono dos ébrios, roncando alto. Foi a vez de Imhotep
vomitar por causa do chá, de joelhos, enquanto Akh segurava-o pelos
ombros. Com a cabeça rodando, tomou sem resistência o mel que ela ofereceu
e bebeu água aos montes. Só não permitiu que ela o tocasse para despi-lo
e limpá-lo, ou perderia a cabeça e acabaria por desrespeitá-la. Insistiu
em lavar-se sozinho, num esforço para permanecer consciente, enquanto
ela preparava-lhe uma cama extra onde pudesse passar a noite. Contra
a vontade, Imhotep acabou por adormecer, num sono agitado por sonhos
eróticos.
*************
Os
dois homens acordaram tarde no dia seguinte, reclamando de dores de
cabeça. Criados e assistentes já haviam procurado por ambos, mas Akh
dispensou todos com firmeza. Era melhor deixá-los dormir para curar
a ressaca, e preparou-lhes um desjejum leve.
-
Que sede! - reclamou Heka, desacostumado a sentir-se daquele jeito -
Ainda estou tonto... Acho que envenenaram nosso vinho...
-
Não digas asneiras! - criticou Imhotep, num raro mau humor - Tu bebeste
como um porco, isso sim! Foste na conversa daquelas garotas e quiseste
dar uma de valente... Agarraste três mulheres de uma vez, metendo-lhes
a mão onde podias! Nem sei como conseguiste domar aquela... aquela...
Imhotep
calou-se diante do olhar severo de Akh.
-
Já chega de obscenidades! - censurou ela - Os DOIS ontem estavam em
estado deprimente! Tu também, Imhotep, chegaste embriagado! Imagino
muito bem o que ambos aprontaram, senhor ministro!
Se
Imhotep estivesse em condições de raciocinar, teria percebido que Akh
estava com ciúmes, e não era só de Heka. De cara feia, ela forçou-os
a beber outro chá, para que melhorassem depressa, e mandou-os logo para
o trabalho, antes que mais alguém aparecesse para procurá-los.
*************
Nos
meses que seguiram-se àquela noite, Imhotep evitou ficar muito tempo
a sós com Akh. Envergonhava-se tanto pelo vexame que deu quanto pelo
fato de tê-la desejado tanto num momento de fraqueza, e agora tinha
receio de ser repudiado, caso tentasse cortejá-la. Havia ainda Heka
Ma'At, que contara tudo sobre aquela noite à irmã, ou pelo menos aquilo
de que conseguia se lembrar, expondo não só sua intimidade como também
a do próprio Imhotep. Só de pensar nisso, o arquiteto corava da cabeça
aos pés.
Akh,
por sua vez, guardara um certo despeito por ele ter procurado as moças
da alegria, e também o evitava. Ela nem sequer dava-se conta de por
que sentia-se magoada com aquilo - preferia que ele não tivesse ido,
e isso lhe bastava. Era óbvio que Imhotep, como qualquer homem solteiro
de Saqqara, frequentava a casa da alegria com certa regularidade, mas
Akh nunca nem sequer pensou a respeito. Foi só ao vê-lo voltar naquela
noite, embriagado e feliz, que ela teve que encarar o fato de que havia
outras mulheres no mundo para ele, mesmo que fossem mortais e ele as
procurasse por diversão.
Heka
demorou a perceber como os dois andavam distantes, e pensou que Akh
talvez estivesse ofendida com o comportamento impróprio de Imhotep naquela
noite. Ela às vezes ficava quieta quando o outro Imortal estava por
perto, e Heka prometeu a si mesmo que tomaria mais cuidado nas próximas
vezes que saíssem para a farra. Mesmo assim, voltou outras vezes à casa
da alegria com o amigo, pois descobrira um mundo novo de prazeres e
sensações que não pretendia abandonar tão cedo.
Enquanto
isso a vida em Saqqara seguia o ritmo das cheias do Nilo. Quando as
águas subiam, facilitavam o transporte das pedras para a obra e tudo
girava em torno da construção. Quando as águas baixavam e a quantidade
de pedras diminuía, os trabalhadores aproveitavam para dedicar-se à
lavoura, ao comércio, ao artesanato. Arrumavam suas casas, estocavam
alimento, divertiam-se. No período mais seco, todos colaboravam com
a colheita e precisavam andar mais para pescar, buscar água ou tomar
banho. Perfuravam poços, recuperavam canais de irrigação, reformavam
depósitos, preparavam-se para a próxima temporada de construções.
Mesmo
tendo há anos uma casa em Saqqara, Imhotep por vezes viajava até Mênfis
a fim de dar satisfações do andamento das obras ao rei, e permanecia
fora por semanas quando tinha algo maior a resolver na capital, ou obras
para vistoriar em outros lugares. Heka sentia falta de sua companhia,
aprendera a confiar no outro Imortal como um amigo de verdade. Por insistência
de Imhotep, tanto Heka quanto Akh agora andavam sempre com longas adagas,
que levavam ocultas na roupa, pois andar armado não era comum para cidadãos
que não estivessem engajados em milícias. Os dois inclusive aprenderam
em segredo a lutar com as adagas, afinal nunca saberiam quando outro
Imortal poderia aparecer e precisavam estar preparados, e Heka era grato
a Imhotep por isso.
Os
anos passaram lentamente, e aos poucos Akh deixou de implicar com Imhotep.
Ela continuava intocada, disso ele tinha certeza, pois nenhum outro
homem fazia parte importante de seu círculo fechado de amizades e ele
vigiava-a sempre. Mesmo assim não tinha coragem de cortejá-la, tanto
em respeito à amizade que nutria por Heka quanto por medo de ofender
Akh, ao manifestar seu interesse. Não queria tê-la como tinha as moças
fáceis da casa da alegria - desejava-a tanto que chegava a doer! Mas
Akh merecia mais, era uma Imortal como ele e era digna de um amor à
altura de seu potencial. E quem seria mais digno dela do que outro Imortal?
- Imhotep perguntava-se, temendo sinceramente que um dia Akh encontrasse
alguém e decidisse casar-se. Sentia que seria capaz de morrer para evitar
que isso acontecesse!
Enquanto
isso, por seu lado, Akh não conseguia interessar-se por homem nenhum.
As histórias picantes que Heka contava-lhe sobre as moças da alegria
deixavam seu corpo em brasa, mas não sabia como resolver sua situação.
Sabia que muitos rapazes de Saqqara a desejavam, e notava até que a
presença quase constante de Imhotep em sua casa os espantava, porém
no fundo sentia-se melhor assim. Já vira tantas pessoas morrerem, homens
e mulheres, deixando seus parceiros viúvos e seus filhos órfãos, que
a idéia de unir-se a um mortal causava-lhe temor. Não queria entregar-se
a alguém que logo morresse e deixasse-a sozinha novamente, tendo que
recomeçar tudo de novo. Às vezes imaginava o que Imhotep fazia quando
saía com Heka, e tinha vontade de gritar...
Passando
um dia pela casa dos amigos durante a tarde, após procurar Heka em vão
pelas obras, Imhotep sentiu apenas a vibração de Akh. Logo ela assomava
à porta, obviamente tendo percebido que ele estava por perto, e convidou-o
a entrar. Akh estava lavando os cabelos e, ao sair com eles molhados
para recebê-lo, sua túnica ficara úmida e transparente, revelando o
cortorno de seus seios. Imhotep não conseguiu evitar que seu corpo reagisse
àquilo e sentiu o sangue latejando incontrolavelmente nas veias. Tentou
encontrar uma desculpa para voltar depois, mas a tentação foi maior
e acabou entrando.
-
Que tens? - perguntou Akh, notando como ele estava perturbado - Aconteceu
algo a meu irmão? Estás tremendo, Imhotep!
-
Não, não é nada! - ele esforçava-se para desviar os olhos dela, a roupa
molhada funcionando como um ímã - Precisava da opinião dele para um
serviço, mas não pude encontrá-lo e achei que porventura estivesse contigo...
-
Não vejo meu irmão desde cedo, nem tampouco senti-o por perto... - ela
respondeu distraidamente, secando os cabelos com uma toalha - Entra
e senta-te, fiz suco de frutas com mel e comprei tâmaras no mercado!
Estou a assar um bolo, se tu queres esperar...
-
Akh, eu... Acho melhor voltar depois! Não é conveniente que eu fique
hoje... Eu...
-
Que tens, Imhotep? Estás a esconder-me algo?
Só
então ela percebeu que ele olhava para seus seios e notou-lhe o volume
sob o saiote. Seu corpo arrepiou-se involuntariamente, provocando-o
ainda mais. Imhotep virou-se para sair e ela deteve-o num gesto impulsivo,
segurando-o pelo braço. Ele não atrevia-se a encará-la, o rosto quente
de vergonha. Os dois permaneceram parados por alguns segundos, até que
Akh rompeu o silêncio.
-
Perdoa-me, eu... Não sei quando Heka irá voltar, posso avisá-lo de que
tu estás a procurá-lo... Mesmo assim eu queria... Eu queria que tu ficasses...
Imhotep
levantou a cabeça e sentiu-se desmoronar - havia fogo nos olhos dela,
um fogo de desejo tão grande quanto o dele, um ardor que jamais pensou
existir!
A
súbita vibração anunciando a chegada de Heka assaltou-os, rompendo completamente
o encanto.
-
Imhotep, meu irmão! - gritou Heka, antes mesmo de chegar à porta - Soube
que tu estavas à minha procura!
Akh
subiu correndo a escadaria para os quartos, incapaz de enfrentar Heka
depois de tudo o que viu nos olhos de Imhotep. Seu corpo tremia violentamente,
seu rosto ardia como se estivesse com febre. Trocou de roupa e, só após
acalmar-se o suficiente, atreveu-se a descer.
Heka
percebeu que Imhotep estava pouco à vontade e viu os olhares em brasa
que ele trocou com Akh quando ela apareceu. Akh lembrou-se do bolo no
forno e correu à cozinha, levando consigo os olhos e o coração de Imhotep.
Heka sentiu uma ferroada de ciúme, compreendendo que entre os dois havia
um grande segredo. Lutando para parecer indiferente, fez de tudo para
manter a conversa com o amigo voltada para o trabalho e foi com alívio
que despediu-se dele.
Magoado,
Heka permeneceu sozinho na sala. Akh nunca lhe escondeu nada, jamais
tiveram segredos um para o outro. Ela era quase como uma extensão de
si mesmo, uma continuação de sua alma, sempre em sintonia. A presença
dela era tão constante em sua vida que nem sequer podia imaginar um
mundo sem ela - a simples idéia dilacerava-o! E agora esses olhares...
Nunca
imaginou que ela poderia estar fazendo algo em sua ausência, algo de
que parecia envergonhar-se! Nos últimos oito anos Heka tomara enorme
apego por Imhotep, considerava-o um irmão. Eram da mesma espécie, conheciam
os problemas da Imortalidade e podiam falar sobre tudo sem as pequenas
mentiras que usavam com os demais seres humanos. Abria-se com Imhotep
como só ousava fazer com Akh, e agora ambos evidentemente mantinham-no
à parte de algo importante... Há quanto tempo aquilo estava acontecendo?
Será que os dois...
De
onde estava, Heka podia ouvir a irmã trabalhando na cozinha. Sentiu
vontade de ir até ela e exigir-lhe explicações, coisa que nunca havia
feito antes. Ao invés disso, saiu para a rua e, sem raciocinar sobre
o que fazia, correu ao encalço de Imhotep. Encontrou-o longe das casas,
olhando em direção ao sol que se punha, parado sobre uma pedra numa
área deserta das obras.
Imhotep
virou-se ao senti-lo chegar, sem contudo mover-se de onde estava. Pelo
semblante carregado do amigo, podia imaginar a razão por que o procurava,
e soltou um suspiro.
-
Imhotep, quero falar-te agora! - gritou Heka - E exijo tua sinceridade!
Pensei que tu fosses meu amigo!
-
E sou...
-
Não, não és! - Heka estava a ponto de perder o controle - O que há entre
ti e minha irmã?
-
Ainda nada!
-
Como? AINDA?! - Heka agarrou-o pelos amuletos de ouro que trazia ao
pescoço e fê-lo descer com um safanão - Como ousas?
-
Larga-me, estás louco? - gritou Imhotep, livrando-se com violência.
No tranco, um de seus colares arrebentou e ficou pendente da mão de
Heka, que atirou-o longe - Sempre te respeitei e não admito que te atrevas
a agredir-me assim!
-
Pois mato-te aqui e agora se não me contares a verdade!
-
Cala-te, insensato! - Imhotep afastou-se procurando pelo amuleto - Já
te disse, nada há entre tua irmã e eu!
Heka
aproveitou-se da distração do outro Imortal e atirou-se sobre ele, esmurrando-o.
Os dois rolaram na areia aos palavrões, trocando socos e pontapés. Imhotep
conseguiu escapar entre um golpe e outro, colocando-se em pé a uma distância
segura.
-
Pare, Heka Ma'At! - gritou, limpando o sangue do canto da boca - Chega!
Já te disse e juro-te por todos os deuses que jamais houve nada entre
Akh e eu!
-
Mentira!
-
Pois antes tivesse havido!
-
Como te atreves?!
-
EU AMO TUA IRMÃ!
Aquelas
palavras atingiram Heka como um soco no estômago, paralisando-o.
-
Amo Akh mais do que minha própria vida! - continuou Imhotep, trêmulo
- Amo-a como jamais pensei que fosse possível! Desejo-a tanto que meu
corpo dói, adoro-a com uma paixão tão grande que daria tudo para tê-la!
Daria Saqqara, Mênfis, o trono do Egito... Daria minha Imortalidade
por ela!
Imhotep
caiu de joelhos, incapaz de sustentar-se em pé. Sua alma saía-lhe pela
boca. Antes que percebesse, lágrimas grossas escorreram por seu rosto,
deixando rastros na poeira.
-
Sonho com ela todas as noites! Cada vez que ela sorri, o mundo parece-me
mais belo! Quando vejo-a triste, meu coração encolhe no peito e tenho
vontade de morrer.. Se ao menos ela desse-me uma chance! Eu não a mereço...
Calou-se
com um soluço amargo, entregando-se finalmente a um choro sofrido. Nunca
tivera coragem de dizer uma palavra sobre aquilo, como se isso pudesse
evitar que esse amor o dominasse. Agora, sua alma esvaziava-se como
um dique arrebentado durante as cheias de Akhet, e não tinha mais controle
sobre si mesmo - finalmente aliviava seu coração.
Heka
não se moveu. As palavras do outro ribombavam em seus ouvidos, impedindo-o
de agir. Imhotep levantou-se cambaleante, limpando o rosto com as mãos
sujas de areia. Sem levantar a cabeça, agarrou o amuleto arrancado e
enfiou-o no cinto.
-
Espera! - gritou Heka num tom surdo - Não terminamos ainda!
-
Terminamos! Não há mais nada a dizer...
-
Tu foste sincero?
Imhotep
virou-se e encarou-o com mágoa.
-
Sim, fui! - falou - Jamais te menti! Mas que importa agora? Teu egoísmo
estragou tudo!!
-
Egoísmo? - Heka sentiu o sangue ferver novamente - EU? Como ousas...
-
Tu trataste tua irmã como uma propriedade tua durante todos estes séculos!
- cortou Imohotep - Tu monopolizas a alma dela! Aprisionaste Akh só
para ti como se ela fosse uma criatura sem sexo, sem alma... Sem AMOR!
-
Eu amo minha irmã!
-
Sim, amas desde que ela continue quieta no sarcófago de pedra que tu
construíste! - anos de angústia transpareciam em cada palavra de Imhotep
- Nunca toquei sequer numa dobra do vestido de tua irmã sem que tu soubesses,
horando a amizade que te dedico, e tu suspeitas de mim! Mas tu podes
deitar-se com as moças da casa da alegria, enquanto ela...
-
Cala-te!
-
Não calarei! Hoje vi o fogo que consome a alma de tua irmã! Um fogo
que arde naquela mulher como uma fúria e, por Rá, como a desejei...
Como quis dar a ela todo o meu amor, mostrar-lhe minha paixão, fazê-la
descobrir finalmente os mistérios daquele corpo... Quando EU deito-me
com as moças da alegria, é nela que penso, é ela quem possuo...
-
CHEGA! - o mundo parecia abrir-se ao redor de Heka, arrastando-o para
um abismo sem fim. Seu estômago dava voltas.
As
palavras do outro Imortal eram-lhe profundamente injustas. Nunca proibira
Akh de nada, nem impedira-a de fazer o que quer que fosse! Ela mesma
dizia que ardia de desejos por encontrar um homem que a quisesse, que
lhe despertasse as paixões da carne... Alguém a quem pudesse entregar-se
sem medo, para compartilhar sua cama, como ele fazia com outras mulheres,
mas queria que fosse algo duradouro! E ela nunca escolheu ninguém...
Ou escolheu?!
-
Como sou idiota! - Heka deixou-se cair de joelhos com um gemido, afundando
a testa na areia - Durante esses anos todos... Era a ti que ela se referia!
Só a ti...
Imhotep
empalideceu. Heka continuou, tomado por uma gargalhada histérica.
-
Ela disse isso tantas vezes! Eu nunca a ouvi... Minha pobre irmã, fui
um tolo! Perdoa-me, Akh! Sempre esteve tão claro, fui um monstro em
não entender-te... E tu, Imhotep, és um imbecil! Se pudesse, eu te odiaria!
Um cretino, é o que tu és! Um parvo, um sonso! IDIOTA!
-
Tu enlouqueceste!
Num
salto, Heka atirou-se sobre Imhotep antes que o outro tivesse tempo
de fugir, e os dois engalfinharam-se novamente pela areia aos safanões.
-
Ela sofreu esse tempo todo por tua causa! - gritava Heka - Canalha!
Tu dizes que a ama enquanto a fazes sofrer!
-
Eu nunca a toquei! Já disse!
-
E ela sempre te quis! Tu deves ter-lhe feito promessas!
O
susto foi tão grande que Imhotep distraiu-se e acabou levando um enorme
murro. Ia levar mais um quando segurou o outro Imortal num reflexo,
gritando com toda a força que podia:
-
Akh me quer?! Tu dizes que ela me quer?!
Heka
largou-o e rolou para o lado, concordando com a cabeça.
-
Eu é que fui um tolo em não entender as indiretas... E tu um idiota,
deixando-a esperar tanto tempo! Por que nunca me disseste que a amava?
Que mal fiz eu aos dois, para que tamanha barreira se erguesse entre
nós?!
Imhotep
continuou deitado de costas, os olhos perdidos no céu que começava a
escurecer. Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, cansados,
raciocinando.
-
Tu te casarias com ela? - perguntou Heka por fim.
-
Tu o permitirias?
-
Responde!
-
Se ela me quiser, caso agora mesmo! Teria casado ontem... Tu acreditas
que ela me aceitará?
-
És mesmo um estúpido! És um sonso...
-
Eu morreria por ela...
-
Acho sinceramente que tu és tudo o que ela espera! Mas tens que jurar
fazê-la feliz, ou arranco tua cabeça!
-
Eu juro! Juro pelo que tu quiseres!
Heka
finalmente levantou-se e ajudou o outro a fazer o mesmo. Caminharam
juntos de volta à cidade, novamente como amigos.
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Notas
explicativas:
1
- Os sciasu seriam os sírios.
2 - Uauat era a região compreendida entre Abtu (Abidos) e a segunda
catarata do Nilo. Kush era a região oriental que ficava entre a terceira
e a quinta catarata do Nilo.
3
- Lobu seriam os líbios. O Tenehu era a região a noroeste do delta do
Nilo, antes do território dos Lobu.
4
- Imhotep entrou posteriormente para o rol dos deuses egípcios como o
inventor do calendário e o patrono da medicina, mas seu feito mais famoso
foi ter construído o fantástico complexo funerário de Saqqara, além de
diversos outros templos, tumbas e palácios por todo o Egito. Saqqara apresentou
uma arquitetura revolucionária, com colunas decoradas de forma original
e detalhes nunca antes utilizados. A mastaba em degraus que Imhotep ergueu
para o faraó Djoser é a forma mais primitiva de pirâmide encontrada no
Egito, estando em pé até hoje. Foi provavelmente a partir dela que as
tumbas faraônicas evoluíram para as monumentais pirâmides que transformaram-se
numa das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.
