Duncan MacLeod
apertou o travesseiro sobre a cabeça e soltou uma praga abafada contra
o colchão, mas seu telefone celular continuava tocando sem parar. Esticando
enfim um braço tateante para a mesa de cabeceira, localizou o aparelho
estridente e puxou-o para baixo do lençol, atendendo quase com um gemido:
-
Alô?
-
Ei, preguiçoso, não me diga que você estava dormindo!
Reconhecendo
a voz alegre de Methos, Duncan pensou em uma longa lista de outras pragas
que poderia usar, mas apenas suspirou e respondeu:
-
É o que parece...
-
Ora, MacLeod, você sabe que horas são?
Duncan
finalmente dignou-se a tirar o travesseiro de sobre a cabeça e, com
olhos espremidos de sono, fitou o mostrador luminoso do rádio-relógio:
-
São três horas da manhã! Qual o problema, sua velha ampulheta quebrou
de novo?
-
Seu escocês ranzinza, levante já dessa cama! Sabe que dia é hoje?
Duncan
permaneceu um instante apoiado num dos cotovelos, o olhar perdido na
a escuridão do quarto, tentando raciocinar. Estava em uma suíte de hotel
numa paradisíaca ilha do Caribe, onde tinha ido passar alguns dias românticos
com Amanda, mas ela para variar tinha aprontado uma de suas malandragens
e fugira na tarde anterior, sem deixar-lhe sequer um bilhete de despedida.
Duncan passara o resto do dia na delegacia, tentando explicar que não
sabia onde andava sua companheira e nem tinha idéia do que ela teria
roubado desta vez.
-
Não estou de bom humor, Methos, deixe de enigmas! É seu aniversário,
por acaso?
-
Hoje é dia 27 de agosto de 2003! Caramba, eu falei tanto para você ficar
acordado!
De
repente as palavras de Methos fizeram-lhe sentido e Duncan sentou-se
aprumado na cama, um tanto culpado. A nota saíra em vários jornais,
e com certeza muita gente no mundo inteiro estaria acordada agora -
o planeta Marte estava passando tão perto da Terra que há dias todos
podiam identificá-lo a olho nu, brilhando muito mais do que qualquer
outra estrela no céu, sendo que hoje ele estaria no ponto máximo de
sua aproximação. Espreguiçando-se, Duncan lembrou-se das várias vezes
em que Methos insistira para que ele não dormisse cedo naquela noite,
a fim de observar o fenômeno, e prometera inclusive telefonar-lhe para
dizer algo misterioso sobre este acontecimento especial.
-
Desculpe, Methos, eu tive um dia cheio hoje... Quer dizer, ontem...
-
Recebeu o presente que eu mandei?
Mais
um lampejo de memória acendeu-se em seu cérebro e Duncan pulou da cama,
levando o telefone consigo até o sofá, onde jazia um comprido pacote
enfeitado com grandes laços de fita prateada. Voltando tarde ao hotel,
com uma dor de cabeça dos infernos por causa da confusão que Amanda
lhe aprontara, Duncan nem pensou duas vezes quando o recepcionista sorridente
entregou-lhe, além das chaves de sua suíte, o vistoso pacote com o cartão
de Methos. O velho Imortal com certeza descobriu seu paradeiro através
de Dawson e o presente devia ser alguma gozação, portanto poderia esperar
até o dia seguinte para ser aberto. O que mais preocupara Duncan ao
chegar no quarto fora tomar uma aspirina e ligar em seguida para seu
banco, pedindo que lhe enviassem urgentemente novos cheques de viagem
- Amanda estourara seus cartões de crédito, como sempre, e ainda por
cima levara todo seu dinheiro na fuga.
Rasgando
agora o embrulho com curiosidade, segurando o celular junto à orelha
com o ombro, Duncan fez uma careta quando Methos reclamou do outro lado
da linha:
-
Eu estou ouvindo isso, MacLeod! Você nem tinha aberto o pacote, que
falta de consideração! Amanda está mantendo você ocupado demais, meu
caro...
-
Está mesmo, você nem sabe o quanto! Pena que ela não esteja aqui agora!
- Voltando a ficar irritado contra Amanda, Duncan ia contar o que tinha
acontecido na véspera quando finalmente viu o conteúdo da caixa - Ei,
Methos, o que significa essa coisa aqui?
-
Mas que droga, MacLeod, você não tem sentimentos! Fique sabendo que
essa COISA é um caríssimo telescópio portátil, você só precisa montá-lo
junto à sua janela e espiar o céu lá fora!
-
Certo, desculpe! Obrigado, é um belo equipamento... E bem leve também!
-
Ande logo, você está perdendo um grande espetáculo! Eu estou há dias
usando um telescópio igual a esse aí, você vai ver que o aparelho é
perfeito!
-
Um minuto, só preciso descobrir como montar isso...
Largando
o celular ligado sobre uma almofada, Duncan acendeu o abajur ao lado
do sofá e, olhando por alto as ilustrações do manual, armou o telescópio
e encaixou-o no tripé com facilidade. Por sorte Methos fora bonzinho
e lhe enviara um aparelho praticamente pronto para usar, porque Duncan
não estava disposto a perder tempo lendo instruções e tentando encaixar
peças complicadas. Abrindo as cortinas, ele saiu desajeitadamente para
a larga varanda com o equipamento já montado. O céu estava limpo, ainda
bem, e foi fácil identificar o brilho alaranjado de Marte. Voltando
para buscar o celular e um roupão que o protegesse contra a brisa fresca
da madrugada, Duncan correu outra vez para fora e tratou de focar as
lentes na direção do planeta vermelho.
-
Pronto, Methos, estou olhando para o danado agora! - avisou o escocês,
admirado com a beleza do que via - Realmente é impressionante, e o telescópio
é ótimo... Obrigado pelo presente!
-
Eu sabia que você ia gostar... Pena que eu tive que acordá-lo e lembrá-lo
disso!
-
Desculpe, eu tive mesmo um dia complicado, não foi por mal!
-
Claro, claro...
Duncan
sentiu o tom irônico na voz do amigo e, sem tirar o olho do telescópio,
preferiu esquecer Amanda. Ela com certeza não estaria vendo o que ele
podia ver agora, azar dela.
-
Ei, Methos, é verdade que há pelo menos cinco milênios Marte não chegava
tão perto da Terra? Li num jornal que talvez somente há uns dez mil
anos atrás o planeta esteve tão próximo... Se é assim, então nem você
jamais o viu desse tamanho!
-
Tem certeza de que você já acordou, MacLeod? - Methos parecia estar
rindo do outro lado da linha - Mesmo que Marte tivesse passado ainda
mais perto da Terra há apenas mil anos, eu não poderia tê-lo visto como
hoje... A humanidade nunca teve telescópios tão poderosos quanto os
atuais! Isso sem falar que até pouco tempo atrás, se alguém falasse
em mandar sondas espaciais para Marte, seria apedrejado até a morte!
Você está com seu laptop aí? Se entrar agora na internet, você
vai ver as fotos que já estão sendo enviadas pelos satélites e observatórios...
São magníficas!
-
Certo, velhinho, tem razão! Você venceu, é lindo mesmo... Fico feliz
que você tenha ligado para me acordar. Mas agora desembuche de uma vez!
O que era o tal negócio especial que você prometeu me dizer quando eu
finalmente estivesse olhando hoje para Marte?
-
Ora, é só um pedido... Queria que você prometesse nunca mais me fazer
aquela pergunta!
-
Tudo bem, eu prometo! Mas de que pergunta você está falando?
-
QUE NOVIDADE AINDA PODE HAVER PARA QUEM JÁ VIVEU MAIS DE CINCO MIL ANOS?